12.29.2007

A Clara me passou uma maldição.

Frase da página 161

1 - procurar um livro próximo;
2 - abri-lo na página 161;
3 - procurar a quinta frase completa;
4 - postá-la no seu blog;
5 - não escolher a melhor frase nem o melhor livro;
6 - repassar a outros cinco blogs.


A minha frase:

"Mas ele não podia mais descrer da realidade do amor visto que o Próprio Deus havia amado sua alma individual com amor divino desde toda a eternidade"
(Retrato do Artista Quando Jovem, de James Joyce)

p.s.: Primeiro peguei o livro "Bartleby e companhia", de Enrique Vila-Matas, mas na página 161 só tinha frases longuíssimas, não chegando à quinta. Logo depois peguei esse. Confesso que não gostei da frase, achei muito austera, mas coloquei aqui pra respeitar o espírito da brincadeira. Também confesso que escolhi abrir algum romance por querer algo mais relaxado do que os muitos livros de teoria, filosofia etc. que me rodeiam neste momento. Me fudi, não é nem graciosamente aleatória nem uma descontração a frase que veio. Outra condição foi um livro que não me exigisse levantar da cadeira, apenas esticar o braço.

5 blogs: Marcel, Júlia, Carol, Dally e Tati.

12.28.2007

Uma linha de força,
uma fuga
obsolescência de si mesmo.

Na foto, a imagem passada resgata a sensação do presente intenso. Enquanto sorrio e converso com o parente do outro lado da mesa, em algum dia perdido na última década, parece que me acumulo em mim mesmo até chegar ao depositório transbordante que apresenta-se hoje como 'eu'. Assim até morrer. A saturação infinita: passado esvaziado, ingênuo, com o muito-espaço-ainda-por-vir, como se as experiências já tivessem seu lugar ali reservado. Hoje, tessitura engordurada da vida e dos gestos. Muita significação. O fim, no entanto, é inexorável, mas também incalculável. E os espaços, só forma de organização.

Saio da imagem e volto-me a hoje e, incrivelmente, ao virar-me para o inapreensível, esqueço-me e pareço comigo desde que nasci. Na fotografia, um depositório, mas aqui, um sempre-sendo desde os tempos mais remotos. Presente sem futuro. O presente intenso trazido pela imagem é um já-passado, um presente em comparação, uma composição de mim para mim. Sem moldura, no entanto, posso extrapolar essas pequenas definições.

12.18.2007


pensar assim sem pilares

como uma porta sem partição

ou uma margem sem limite


estar




Chegando no não-chegar


***

Uma margem do mar
Nem dentro nem fora
Em nenhum lugar


***

A sensação de conforto independe de mim e do mundo

12.07.2007

Nuvens postas, tudo pronto.


Vai chover.
sob a velocidade dos espaços
o tempo restou incauto
repousando na ponta do pêlo dourado
do cachorro que dorme
Meio enviesado, assim, meio de lado. Andando a passos largos, contido no pensamento, cortado em quatro, cinco, quantos forem os obstáculos.
Corri debaixo da chuva, cabeça molhada e pele toda ensopada. Corri extremamente parado. Correu a chuva na pele, na lente dos óculos, molhou o cigarro. Apagado, complexado, conversei poucos diálogos.

No percurso longo, demorado, vivi a espera do próximo segundo, extenuado com o entorno, calculado, previsto, obliterado em coisas sempre já vistas.

A pista e o corpo, nela refletido, contendo espasmos, impulsos dos dias mais quentes, mais atrás do presente. Detrás do sempre, o sobressalto do mais-agora. Assim, mais pra dentro, como no quarto claro que espera o sono atrasado. Assim, meio enviesado, meio de lado.

11.19.2007

Pedaço

.
.

Andou um pouco equilibrando-se no meio-fio.

Soprou o vento. Quente feito bafo vindo do forno. Era verão, e os pingos se formavam debaixo do tecido da camisa nova, saindo dos pequenos póros das costas. O rosto vermelho, irritado com o calor e a barba recém-feita. Na camisa, desenhos se formavam conforme andava: as gotas penetravam na malha e o azul ficava quase preto.

Acompanhava com os olhos o ralentado movimento eterno das nuvens. Sempre indo, parecia que estavam em um único e grandioso objetivo, mas interminável. Não se importava com as formas, mas sim com o processo. O ir, mais do que o ficar, sempre. Mas era um ir ficando: isso que atraía inevitavelmente seu olhar.

O céu era muito azul. Azul azul azul, pensava, enquanto as nuvens se encaminhavam para onde elas estavam sempre indo. Um carro passou, muito veloz, e jogou-lhe uma lufada de vento no lado esquerdo do corpo. Tombou e caiu no meio da calçada. Entre uma árvore, um banquinho dos de praça e uma pequena poça de água da chuva do dia anterior, ele ficou no chão, sentindo um pouco a ausência absoluta. Uma nuvem que passa ficando o tempo inteiro.

11.15.2007

sobre o asfalto
cheiro de chuva
pingando
atrás das peles

no verão chuva fria
meus amigos de então
contando histórias
e arremessando afeto e sorrisos

aquelas vozes, num coro
minha casa e travesseiro
o futuro que brilhava

fez-se a ponte e quebrou-se a fundação
como se, das palavras
o casco puro nas mil mãos

aspereza pela espera
Sentado no banco da praça nublada, reconsiderou sete vezes e meia os seus pressupostos. Acreditou na descrença por 3 minutos e 49 segundos, e o mundo se lhe apareceu mudado. As coisas saindo do seu lugar, entrou numa confusão de nomeclaturas que jamais imaginou poder existir. Não se situava mais em si, no seu lugar e na sua vontade. Não conseguiu separar, dividir, organizar. Turvo como algo que não podia nomear.

Andava pra frente e desconfiava das direções. Passo a passo, reconfigurou suas mais estáveis noções.

Conversava com seu amigo. Ele conversava e escutava e dizia. O controle total é sempre já o descontrole.
Porque o mundo engoliu e virou em si a própria escrita. Desde então, escrevo em pensamento e em visão: escrevo-me dentro das coisas, que escrevem em mim o eu-mesmo exterior a tudo. Muitos dias, noites, madrugadas, presença e ausência. E, neste tempo, escrevendo sem parar, incessantemente, sem nem tocar no papel (ou no teclado do computador). Escrevendo sem escrever, porque assim, escreve-se na minúcia e no sopro, escreve-se sem precisar comunicar, estancar, escreve-se num sem-parar que é mais escrita do que esta atual.

Hoje, cessei e, neste momento, reorganizo as folhas imaginárias. Desobstruo o caminho e abro espaço. Redistribuindo, digerindo.

Assim, o dia chuvoso parece ensolarado, dentro do meu quarto. Nos dias, meses, anos que se passaram, sigo vivendo sem fim. Só que agora, não são mais escrita, transformaram-se em leitura para aquilo que de novo pode surgir.

10.21.2007

- Acontece que existe uma alegria imanente ao desejo, como se ele se preenchesse de si mesmo e de suas contemplações, fato que não implica falta alguma, impossibilidade alguma, que não se equipara e que também não se mede pelo prazer, posto que é esta alegria que distribuirá as intensidades de prazer e impedirá que sejam penetradas de angústia, de vergonha, de culpa.

Ponderou D., concebendo o ponto de partida para toda a superfície que se preze. Tentamos escavar tão fundo, que o máximo que conseguimos é chegar ao nosso outro lado, o lado de trás. Não há interior misterioso, sim aquele que preenche. Corpo mesmo.

10.09.2007

Eu tenho saudades de quase tudo

Apesar dos grandes aparatos, o pensamento ainda é chão, pedrinha rolando, cheiro de incenso queimando e cama macia. Ainda a casa, sem identidade, só sensação.

10.08.2007

Deflagração

aqueles surtos inauditos
escondidos sob a mais rígida pele da civilidade
como se não soubesse exatamente como
aquiescer
entre ir e vir entre não-estar aqui
lá, o tempo inteiro
olhos fechados para dentro

sentar e escrever, então. sutilmente, nos intervalos. nesses espaços inexistentes, criar as possibilidades de imprimir - pensamentos ou seus prés e pós - estados de espírito e de corpo. colocar-me à disposição de mim, tempo calmo e leve sorver dos segundos.

como uma curta existência, translúcida. estar-aí estando. não como reatar os sentidos, mas curar-se por saber-se no vazio o mundo inteiro que se demove de mim.

9.30.2007

Poesia corpórea feita de vento

.
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Mordeu o ar e, com um sopro, fez voar sílabas sangüíneas pela noite.

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A pele é o próprio tempo. Contém os resquícios de ontens eternos, respira o eu-mesmo ao redor das ilusões de auto-construção.

Ontem, ele percebeu. Apercebeu-se. Percebeu-se a si mesmo. Era um retrato desbotado, preto e branco e tintas coloridas, gestos vagos e muito incalculados, sorrisos ingênuos e sons perdidos dentro dos caminhos que tecia o ar quente. Eram décadas de vida, traduções impossíveis e alguma coisa de inefável. Era isso, ali, dentro do ônibus, carregando na pele impressões impalpáveis, materializando os minutos em cada respiro involuntário.

9.14.2007


Solzão enorme esquentando o asfalto e torrando as sensações.

Os póros dilatados, mostrando a língua. Todos os pensamentos voltados para o mar.

Ser humano, em materialidade e viscosidade. Óculos grandes e vulgaridade anos 70 à la pornochanchada. Meio menina andando achando-se chique, pernas balançando. Mas no fundo, é Sônia Braga de topless em Ipanema, hippie de botequim, palavrão com elegância e gestos incontidos. Aquela cor de película velha, desbotada pela luz do céu que explode as pupilas e azula as montanhas.

Trópico é pra isso mesmo: suor e goles d'água.

9.08.2007

nunca vou deixar de acordar tarde e dormir cedo,
vivendo eternamente as últimas chances

*
*

não escrevo poesia, porque poesia é cafona. nem filosofia, porque isso é chato. também não é sobre mim, da moda. nem sobre política, porque engajamento já era. não é arte, não é prosa e não é música esta merda. não é porra nenhuma. não é bonito nem feio. não tem essa categoria. não é tocante, não é revelador. não é subjetivo nem objetivo. não tem epifania, nem genialidade, não tem inteligência. não, não tem. não tem talento, nem humor, nem sacadas, nem profundidade, nem superficialidade. não tem experiência, não tem jovialidade, nem frescor, nem originalidade. não tem informalidade, nem coloquialidade, nem leveza, nem precisão. não é novo, nem velho. vai pra porra quem espera qualquer coisa. por isso que o mundo vai mal e as pessoas vão tristes.
percorro os espaços e sinto o tempo passando pelas frestas entre os dentes
sinto passar
vento encanado de horas, dias, anos, décadas

ontem, em 1998, estava escrevendo no meu blog
e morria de saudades dos meus amigos da faculdade

9.02.2007

Entre um ato e outro, parar para respirar.
A memória está impregnada em cada póro.
Respirando, volto a mim.
À casa que carrego incrustrada nas minhas passagens.

8.28.2007

diminutamente
porque plenitude acaba logo logo
basta virar a esquina

assim pequeno
consigo continuar o esquema do não-esquema
permanecer noite de dia e dia de noite

sempre palavra e nunca frase

Como se fosse possível
Parei de viver por alguns segundos
Respirei o tempo para dentro de mim
E observei os detalhes minúsculos
Da beleza que esteve sempre aí
Esparramando-se por entre os póros
Alimentando-se do nosso sentir-sem-pensar
Andando pelas frestas das horas marcadas
história com h minúsculo. Dentro dos olhos, na frente dos rostos, por baixo da pele. De criança, pequeno, correr pela casa, escutar o avô falar em outra língua. Sentir cheiro de incenso, Ayrton Senna domingo de manhã, janela e bicicleta com rodinha. Mãe, pai, irmão, comer peixe cru e ver os dias passarem. Andar pela calçada, olhar os pés, tênis novo e desenho na televisão. Praia no verão, colônia de férias, medo da chuva e esperar a família na janela. Cheiro de alga e vapor de arroz quente no rosto.

Entre aqui e lá.

Na história, o mesmo lugar, sempre aqui dentro. Pensamento perene e sensação de um sempre chegar.

8.20.2007


jamais unívoco
mas em camadas
um minuto após o outro

o tempo desfia

a vida que não pára nem passa

existo assim

irrefutável

(no carro um passeio pela avenida e umas palavras silenciadas)

8.19.2007

Buscando o contato direto
já impossível
com o mundo
[para quê as palavras?]
Recosto-me sobre a cadeira

Desde que tive olhos suficientes
resguardo com cuidado todos os céus
azul-escuro-laranja-verde-preto profundo
e os vejo atemporais
a todo o momento que olho para cima.

Assim mantenho a calma e respiro para fora.

8.14.2007

Volta à casa
Dentro de cada coisa
Ouvir calado

8.13.2007

como sob um sono indormível

cansado de si mesmo

acabou escorregando para dentro do próprio esforço

caiu

saiu de si

8.07.2007

retirando as camadas
uma a uma

como quem retira poeira da superfície de lagos

[existir pode ser quase excessivo]

assim se vê através
como concha dentro do meu ouvido

agucei os sentidos todos

e ouvi meu próprio vazio

7.30.2007

O transparente do céu frio de uma noite de inverno. Talvez o quase-transparente do céu de uma noite de verão.

As noites permanecem na visão, desde as primeiras que vi.

E, desde então, meu mundo acorda de noite todas as coisas que ele dorme de dia.

.
.
.

夜冬夏日

7.28.2007

É porque o passado já é presente.
Essa coisa de querer. Para mim mesmo?
Aquém de mim estou eu. Para lá, todo mundo que eu não-quero. Por que sou eu a mais e não a menos.
.
.
.
.
Viver no passado é pior do que chá frio.
Dias internos com inclinação externa.

Passando pela porta da construção civil, ele conseguiu sentir as festas todas passando por dentro de sua cabeça.

E o barulho do mar batendo no revoar dos passarinhos, às 18h de uma tarde fria, era todo o verão dos anos anteriores.

Perguntou, por menos de um segundo, ao que tentou olhar o céu e ver a beleza das coisas: "a opacidade é propriedade do ser humano, ou o tempo coloca uma camada de poeira por sobre a visão?" Como uma catarata maldita, que deixa tudo desbotado.

Enfim, o referencial já está pronto desde quando? Voar ainda não foi liberado pra nós.

Continuou andando. Pensou no café de daqui a pouco e as letras no livro. O cigarro na mão o lembrava de estar vivo. E as pessoas dentro da sua cabeça: essas são as mais queridas.

7.04.2007


Hoje, para não matar o dia, achei o tempo perdido nas coisas.

Bem no fundo, tudo espreguiça ao olhar mais cuidadoso.
A varanda deu um sorriso macio e o céu disse 'que bom estar vivo'.

Eu, no meio de tudo, achei graça da falta de tempo.
Andando por entre as ruas, escorreguei para o lado bom do mundo.

6.22.2007

qu'est-ce qu'on a parlé?

言葉の関係

このさまよえる者たちは誰か

Quem?

(como brincar com o mundo)
Quando eu falei
"agora sim"
perdi de vista eu ontem e todo o mundo

Voltei andando pra casa:
passado dentro do bolso e um pouco de certezas na ponta da língua

Mas tantas menos grudadas nos meus olhos.

[beleza de verdade são as coisas nos seus lugares
e calma de percebê-las em si]
A cidade calada emociona toda vez que me lembro de mim.

Calei dentro e olhei cada quadrado
sob os passos do sapato na calçada

As janelas acesas
espessas no ar à noite
como olhos enxutos de tanto chorar o passado.

a vida em areia dentro da meia
e conversa silenciosa

pequena garfada do meu sonho de outrora.

6.10.2007



as coisas em si são lagos e reverberações


reverberações


[assim se consegue ir sem chegar]


.

.

.


sumir antes de acabar


e estar no tempo sobre a fina camada que separa


o que é do que é igualmente

Sofrendo de mim, bebi os outros num gole seco.

Enquanto pensava abranger

Sofri dos outros.


O remédio está na própria dor.
Superfície desfolhada


Sob a minha permanência
um soluço no tempo

Todos os antes aderiram
em letras, tintas pretas
e alguns traços marcados no meu rosto

e embaixo dele.

6.01.2007

Sobre um segundo, uma fração de segundo
(rememorações e respiros)


Para toda a sobriedade do mundo, existem frestas entreabertas e pouco iluminadas, que conduzem a uma outra forma de ser. Talvez não outra, mas a mesma, só que com póros conscientes - que respiram o ar puro debaixo da massa cinzenta dos pensamentos circundantes. E através dessas brechas entramos em contato com algo distinto, como um segredo que carregamos: um mundo inteiro tingido com outras cores.

Pois ela era assim. Aparentava. E era o que diziam. Pode-se dizer que, com um pouco de sensibilidade, dava a perceber uma potência bem discreta de ângulo adotado para as coisas. Ângulo obtuso, mas aderido, entusiasmado. Como palavras brotadas do pensamento que se esparramavam pelo ambiente. Extravagâncias de existir.

Esse segredo que carregava (e compartilhava) era impressionante. Escancarava com toda a voracidade as frestas. Borboleteava leve sobre os significados (dava-lhes uma rasteira e os retorcia até a beleza libertadora) e imprimia eu no que era todo mundo. Isso também me falaram. E isso eu também percebi. Como se abrisse as próprias coisas nelas mesmas.

Aí está a chave: as coisas nelas mesmas. A questão não é de razão, mas de olhar. Escoando sobre a superfície das coisas, o furo revela a própria casca. Porque não há hierarquias no que é sempre ser: o outro e eu. O segredo, todos carregam - alguns sabem, outros ainda não. O mundo é sempre tingido com os tons do nosso próprio encanto particular.

Mas tanta voracidade e poesia abriu espaços imensos para todos os tempos e todas as formas. Só não abriu o tempo sobre si mesmo. E nem para si mesma. O tempo é paciente. Derrama lágrimas, mas também acalenta passados no presente - e presentes no futuro: pois tudo é uma coisa só.

Como se interrompida no meio do soluço de maravilhamento, não teve o tempo ralentado de dar o passo para inverter: o todo mundo no eu (o deslocamento do ângulo).

No final das contas, sim, o fez. Todo mundo no nós. E ela em todo mundo. Poesia dura, mas que deixa ensejos de respiração mais compassada.

5.26.2007

Devassidão


Acordou de bom humor hoje.

Tomou café-com-leite e, debaixo do sol com roupa de banho

[alegria de dentes brancos e amarelos evaporando de todos os rostos da cidade]

assumiu:

era uma cadeira de madeira

daquelas velhas com as quinas desgastadas.

Tanto tempo demorou

mas pôde ser o que sempre sonhou.

Ai, que alívio!

5.25.2007

Palavras felizes. Ai ai

Quanto pensamento não passa pela cabeça!

Elas foram tomar um ar
Pegaram um avião pra Califórnia
Disseram que por lá conseguem respirar.

Daqui a pouco voltam mais felizes do que felicidade de criança.
Trazendo presentes de pai que volta de viagem de trabalho.

5.24.2007

Machucado

Essa semana a porta das idéias ficou fechada. Roxa, inchada, dolorida. O contato com o mundo infeccionou a cabeça e a poesia circunscreveu-se aos sonhos.

Como um grito latente e sussurrante (sim, porque o inesperado é de tudo contradição), espero até a próxima semana a porta voltar a se abrir. Por ora, fico inflamando as idéias dentro de copos d´água com comprimidos, esperando os ventos soprarem. [quem sabe se o sol sair?]

Nem leitura, nem feitura. Escritura imaginária que não pára nunca, ainda assim. Só concentração na voz interna, porque assim cura-se mais rápido.

5.16.2007

:::

desprosei
re-abri as brechas
para secar os recantos sob o sol do outono

:::
Retomando


eu sentando ali naquela mesa
sentindo um pouco de dó das coisas

eu andando pela rua esperando o ônibus debaixo do sol
colocando os óculos novos que comprei no natal

eu tomando cerveja, fumando maconha
ziguezagueando pensamentos confusos conjuntos

eu com amigos querendo morder o mundo
achando que o mundo era eu com amigos

eu balaçando no parque domingo de tarde
comendo chiclete com olhar no presente

eu na viagem familiar
ouvindo o rock e esperando a vida chegar

como se o tempo todo
eu estivesse sendo aquilo e isto
agora e depois


como se eu não fosse eu


agora descubro que estava sempre ali como estou aqui
como uma peça de argila, apara as arestas
mas é argila pra sempre

argila boa com cheiro de casa e chá na mesa
como o rosto no filme
ou os passos do ator em cima da tela branca
movi minhas palavras pra fora

mas se a imagem fica
o pensamento passa o tempo todo
voando como um mosquito que incomoda a certeza da paz
.
.
.
p p
a e
l n
a s
v a
r d
a a
.
.
.
[uma linha que mistura o fluxo]

em português e não japonês nem francês:
quero organizar o mundo

5.14.2007

Rotina toda


A respiração tomou fôlego aos poucos. E cada inspiração era uma noite e as expirações dias ensolarados. Eu ficava ali. Consumindo noites e soltando dias incontáveis. As chuvas vinham eventualmente, molhar os meus pulmões, que aos poucos enxugavam as gotas, transformando-as em pequenas palavras, molhadas de meu passado: eu as soprava com toda força, empurrando os minutos e os segundos num esforço para o futuro que me esgotava. A cortina do tempo se esfacelava invisível e translúcida na minha frente, aos poucos, à mercê dos borbotões de passado que corriam das minhas narinas e da minha garganta.

estupefatoantesdeontemquebreipoesiaemmetaprosacorridemim
[brecha para inspirar]
omundotodoperdeuosentidosenteisozinhoemcimadomurodurodotictactictac
[inspira o mundo todo agora]
ecomicommeusamigosbiscoitosdeamoraesonhoslongínquos...


Assim nasce pra mim todos os dias em cada dia. Assim a vida anda sem delongas demasiadas e dorme de bruços quando preciso descansar, recostando a cabeça sobre a relva dos meus anseios.

5.10.2007

chuva à noite
abre os póros da cidade
que transpira seus cheiros mais sinceros

.
.
.

É por isso que a chuva - pensamos - tem cheiro de chuva. Sempre o mesmo odor que se debruça nas narinas. Por que ela entreabre os mais sutis vãos da cidade - asfaltos, cimento, pedras portuguesas - e liberta os cheiros entranhados na carne urbana. Mistura e apresenta. Como no mato, ela tem cheiro de mato profundo, o mato mais mato. Na cidade, a cidade mais cidade.

E é também por isso que chuva é bom. Porque ela cheira a minha vida. Lá no fundo do irredutível, do que é - é pra mim. Pontua lembranças, abrindo o pote da memória inesperadamente.

Perfume de desde sempre. E de ao meu infinito.
Ela entrou no elevador. Senhora (recém-senhora), que luta por manter-se intacta como quer sua auto-imagem, vai à academia todos os dias e mantém-se atualizada dentro do seu iPod. Voltava do trabalho. Trabalhava pela sua auto-imagem também - queria ter uma carreira e arranjou um escritório onde pudesse usar todo o seu senso de praticidade. Como queria, como gostaria. O mundo pra ela conseguia ser inteligível ao ponto de caber todo dentro das suas próprias definições - que, por sua vez, encaixavam-se perfeitamente nas suas vontades. Marido, filha, casa bonita, trabalho e super-independência. Sempre flanando pelos lugares, seus passos tão impressionantemente decididos - mas leves - que deixam tudo à sua volta envolto por um ranço de antes-de-ontem. Ela vive o hoje e é feliz.

Pois ela entrou no elevador. Carregava as três ou quatro sacolas de compras. Seus braços seguros com músculos endurecidos não deixavam-nos dependurar-se. Suspendia os sacos sobre o ar. Olhava pra baixo e falava sozinha. Entrei. "Boa Tarde". Ela balbuciou algo parecido de resposta. Quando olhou rapidamente para mim - talvez numa pequena parte de um segundo -, ela se ressentiu. Havia demonstrado. Perdida dentro de si mesma, parecia que via o chão do elevador pela primeira vez. Sentia o cheiro do pão dentro da sacola. E era o pão. Que ia comer e digerir. E deixar de existir. Perdia-se e achava-se ali, prostrada lânguida ereta na minha frente. Em um intervalo de um minutos (ou alguns andares). Perdendo e achando tudo.

Saiu remoída por dentro, sentido a dor do dedo dentro do sapato. Sentiu o sapato e o dedo. E sentiu o couro cru e o cheiro da pintura das paredes. Não olhou mais. Deixou um rastro de certezas quebradas sobre o chão e foi entrar no seu novo apartamento.

Voltou pra casa. Encontrou o hoje.

5.07.2007

Quebrando: quero falar vírgulas, porques, contudos e aindas. Falar. E continuar. continuar.

.
As palavras parecem conter sentidos escondidos. Escrevi e o texto já não é meu (o que, de fato, ele nunca foi).

Queria escrever sobre o dia, o que aconteceu ontem, hoje, a grande anedota de tudo. Mas estou ainda quebrando esquemas. E sigo. Não avisto tanto interesse na superfície das coisas (daquelas que são minhas), mas consigo perceber todo o encanto na leveza de tudo. Contradição. Falta de bom senso e primeira pessoa.

Em vez disso, lembro dos velhinhos no boteco da esquina, pé-sujo e velho, enterrado na camada do tempo, buraco na parece que a percepção pula para não se aborrecer num dia bonito de sol como hoje. Lembro deles. Felizes, às 3 horas da madrugada de um sábado frio e meio abandonado (daqueles que você é tão você que quase incomoda). Eles estavam lá dentro, rodopiando (eram uns 4 ou 5), na frente de uma juke box saída de um road-movie americando no meio do Texas. Tocava Creedance, clássico do rock-n-roll mais rock-n-roll no espírito, e eles estavam de olhos fechados, braços rijos, sorrisos nos rostos (claro, muito álcool na cabeça, mas isso é só sinal de sinceridade), dançando a passos espasmáticos, meio quadrados, meio redondos, perdidos no mundo e achados em si mesmos. Estavam em uma alegria de velhos bêbados dançando não-sei-que-lá, felizes à toa. Por alguma razão, essa imagem não me sai da cabeça. Ela foi um piscar na minha retina; eu andava, passei, olhei, sorri, sem nunca parar. Continuei e o bar ficou para trás. Acho que imprimiu. Porque a vida pode ser tão pra fora que me surpreendeu.
Preparando


Infelizmente, o meu humor participa de uma teia diferente. Não se enquadra nas aberturas, nas arejadas narinas dos pensamentos, mas naquilo que não se vê. Nem sequer se visualiza. Acho que mostra, um pouco no fundo - e não digo que profundidade é sinônimo de qualidade, porque não é -, a sua presença meio fantasma como que enganchada por trás, lá atrás, das palavras. Não sei se é sutileza ou pura covardia. Mas enfim, c´est comme ça.

.

Resolvi hoje escrever assim: prosa, corrido, sem "enter" entre um pensamento e outro, e numa primeira pessoa gritante. De dia, claro, sol abrindo todos os póros da cidade lá fora, respirando as coisas. Não à noite, mergulhado na memória. Interrompendo um fluxo esquisito que estabeleco durante o meu dia - o fluxo do fazer e não-fazer -, em que sempre relego à noite o eu-pensando-e-escrevendo, estou aqui, tentando achar que estando aqui, não necessariamente estou deixando de estar lá.

Enfim, momento um pouco meta, porque meta-tudo é tomar consciência das suas limitações. Preciso ligar os pensamentos e deixar o rio correr. E enxergar o mundo sem enquadrá-lo. Chegando quase lá. Neste momento, estou quebrando esquemas. Esquemas lá de longe, de outrora, quando eu precisava criar esquemas. E não são tão importantes assim. Nem criar, nem quebrar. O que acontece entre essas coisas, isso sim, é importante -não importante no sentido de indispensável, mas instigante. Mudar é bom e estabilidade é uma ilusão tão grande quanto o futuro da nação.

5.06.2007

[rock-n-roll]

Balançou as pernas e correu parado
Euforia de todo o futuro entranhada na garganta

golinho de cerveja e eco na cabeça

Amanheceu no dia inteiro
dormido atrás dos olhos que esqueceu
perdidos no salão ao longo da noite

5.05.2007

_


Comi pedaços de poesia
pra soltar espasmos do invisível
na cara dos bêbados do boteco da esquina


[Como borbotões de pensamento
Cuspi sonho e um pouco de cada dia]


_
Fundiu céu e noite
num soluço de alegria

Firme como uma borboleta
contou os pesares
um por um

E pulou infantil sobre o mundo

Gosto de si na boca
e satisfação à toa

4.29.2007

.
.
.


O ponto final é uma precipitação sobre um abismo.

.
.
.
Depois de tudo esqueço o que um dia me recordou a minha própria imagem.

Andei sobre os fatos do dia com a coragem de quem não vê passar o tempo afundado na cama. Coragem de sentir passar. Soprei as palavras que queria ouvir na hora boa e comi toda alegria do mundo. A digestão levou os grãos mais pesados. Ficou aquela sensação de fotografia em preto e branco, luz na janela e céu azul.

O ar fresco me permitiu ser eu-sem-peso. Eu e tudo que traz a minha carapaça móvel. Falei chá verde, arroz e muita areia quente de verão. E constatei grãos porosos que deixam a água passar. Retém os destroços e cristalizam os sentidos.

O sentido de tudo que não entendo é aquilo que me comove.
pelo menos em mim a festa quebra futuros possíveis

.

ando asséptico pelos espaços

sujando de mim um pouco de tudo que brota

na superfície dos olhos e no fundo da memória

.

não se vê

construo meu abrigo aqui

e carrego por todos os cantos

.
.

o mundo que existe

sopra vazio e cheio

na caminhada de volta

que toma o meu tempo inteiro

4.23.2007

agarrei os segundos e soltei
sobre o só visível

cheguei no não-eu bonito daquilo que me não está fora

Água concetrada de pensamentos
(rio e não lagoa)
excretados no último momento do dia

agora

4.20.2007

acariciando a folha com amanhã e depois
captei os ontens e um pouco de hoje
e soprei sobre as frestas de mim mesmo

.
.
.

A dificuldade e facilidade de criar sentido
é o próprio espaço em branco

[escorreguei e imprimi]

4.19.2007

(sumi-ê ronronado)

Molhei minha cabeça de verbo e tinta preta
e esfreguei na noite escura
da música dos meus olhos

4.18.2007

Branco em vez de preto. Negativo e positivo. Tudo junto.
Nem lua nem sol. Só luz.
[queria secar]


janela sobre a cama e um latido de cachorro


[reduzir e avistar]


céu azul e sensação aberta


[sentir e desverbalizar]


cheiro de tudo e ontem quase sempre


[suprimir a página]


lembrança e olho fechado


[esvaziar]


meu mundo
1, 2, 1, 2

respiração e gole d´água

persigo o foco dentro
olho e no final
não busco nada

1, 2, 1, 2

os sentidos incrustrados nas coisas
corpo mole e mastigado
o tempo surge
e desaparece com o pensamento

fio solto das minhas frases
solto
e não digo coisas aparentes

revolver e começar e esvaziar e esvaziar

busca no intervalo
entre mim e mim mesmo
que lá está
(aquilo)
do que está e não está

4.16.2007

lá-ra-lá

Ouvi a música guitarra com suor
as batidas efêmeras sumiam no ar
o corpo pulava encantado com o presente

pá pá pá pá - wow!

A juventude é bela
e não existe
Emociona

Cigarro e coca-cola
e muita alegria destilada pelo ar

4.14.2007

Abri o olho e o verde passou

Soprei respiro nota a nota (a música falava pela paisagem)

Os pensamentos molhados de suor
- e molho de soja bem preto da cor do meu cabelo -

Cobrei de mim as partes do mundo
todas em uma lista miúda e ilegível

Até que escorregado entre os instantes
Dormi de volta e recostei sobre mim mesmo.

3.29.2007

Querer ser grande e ser pequeno
queimando sob o sol
esperei adormecer por inteiro ali
todos os músculos
e lembrei de cada detalhe da foto
em preto e branco
que pincei da memória do mundo que não foi meu.

Aguardo o próximo suspiro baixo ao meu ouvido
pra poder cair de novo e quebrar os ossos contra o chão.

Assim sinto-me
Todo vivo.


(lembança boa e poesia curta:
o navio que ancora e traz promessas de frescor e palavras cruas)

3.28.2007

Extrapolando Bergson
(ou conversando com o tempo)

"Não há percepção que não esteja impregnada de lembranças."




"Para evocar o passado em forma de imagem, é preciso poder abstrair-se da ação presente, é preciso saber dar valor ao inútil, é preciso querer sonhar.
Talvez apenas o homem seja capaz de um esforço desse tipo."



3.27.2007

Sem ver, perceber o mundo. Perceber e deixar correr.

.
.
.
.

Olhei sem fim.
Enxarcou a camisa de lembranças e pedalou até cair dentro do mar. Enquanto afundava ao peso do seu corpo, dissipava - um a um - cada pedaço de memória incrustrado por entre os fios da trama. Algodão, tinta e um pouco de si e dos outros. A casa antiga, cheiro de madeira, primeiro beijo no escuro da festa, aviãozinho de papel e música fresca no domingo de manhã.
O sal ocupava lentamente as suas frestas que ficavam abertas. Sentia-se bem enquanto adormecia.

Esvaziou e flutuou leve em direção ao fundo. Um sorriso e muito gosto de agora.

3.14.2007

Ventou tudo

E eu fiquei.




(Ventou eu

E tudo ficou)
Não existe

o ponto exato entre

mim e todas as pessoas.

.
.
.
.

Como uma galáxia inteira

engoli seco o dia.
.
.
.
.

Ainda digerindo a distância

entre mim

e o que eu quero,

converso ao telefone com a minha consciência.


Estarei lá, como todos os dias. É só não falar.
Soprei as palavras sobre o papel
o pincel repuxou as dobras da consciência
esticou cada ruga
todas clareadas sob o dia azul.

Peguei os sons e espremi em passos
em gosto de gengibre e peixe cru
um pouco de sal
e longas tragadas
de coca-cola e Marlboro light.

As letras saíram felizes
intactas como o céu das noites de verão.

3.11.2007

Acordar e sentir o dia entrar pela narina.

Pegar o tempo e comprimir em manhã - com o cheiro de noite que vai se esvaindo conforme as horas passam.

E, entre um gole e outro de sonolência, dormir minutos, horas, abrindo um buraco fundo e brando nesse espaço. Semi-existir, vagar flutuando pelos quartos, sala e cozinha.

Prolongar a manhã até quebrá-la com a aspereza do meio-dia.

Aí relembrar da vida sensata e fria, estirada sob o sol forte que racha-lhe a face delicadamente construída no ar da pós-madrugada. (estraçalhar a poesia fina)

Entre o lilás e o amarelo saturado, morrer de novo até escurecer a vista e clarificar os pensamentos. Soltar o ar preso, viciado dentro do pulmão desde o primeiro sonho.

3.08.2007

Ensolarar

e depois escurecer.

.
.

Peguei dois dias na mão.
O do meu pensamento, esmaguei contra o travesseiro.
O de fora da janela, fumei até queimar o lábio.

Fumaça branca e amarela. Azul que dói.
Hoje o sol secou o vento que soprava.

E assim respirei seco e ensolarado.
Voando sobre as árvores, filtrando os olhares na areia branca que não se mexia.

Não pensei em nada. Corpo solto, olhar e as coisas.

2.28.2007

L´autre. Moi même.

Falar outra língua é como tatear no mundo de novo.
Achar-se novamente dentro do conhecido visível.
Pensar outro.

Hokano kangaekata ni hairukoto. Haitta.
Entre um aqui e um .

Parei e observei.
< >

Hoje, no calor do Rio de Janeiro, escorreguei pela fresta do dia.
Entre os passos de cada um. Os olhares, verbos. Meneadas de cabeça.
Deslizei por entre os verbos não-ditos. Existi nas baforadas do cigarro.

As freqüências de todas as vozes que se confundiram nos meus ouvidos. Cada pigmento das ruas. As ruas.

Enquanto empurrava o chão atrás de mim, debaixo da borracha do meu tênis, sumi na paisagem e tudo me atravessou.

Esvaziei-me. E enchi de mundo as pequenas partes escuras do meu sono, que embalava enquanto andava pela sombra da calçada.

< >

2.24.2007

Parou e olhou para mim. Disse que não podia. Que não queria. Sua respiração era hesitante.

Pensei que o lugar de tudo que se deseja não devesse ser dentro. Fora. Longe de tudo. Assim vive-se mais tranqüilo. O caminho que leva às coisas não feriria tanto.

A caminhada (passos calmos?), no entanto, é cada vez mais obscura. Em algum lugar no meio dos órgãos, entre o pulmão, estômago, fígado. Entranhado no meio da carne, escorregando no sangue. Ali está o caminho.

E a possibilidade de se encontrar é tão remota. Mais vale andar. Mas vale.

Surgido no pôr-do-sol laranja. Entre os cheiros da chuva no asfalto quente. Está você. E eu. E os nosso órgãos, que retomam os passos internos e nos enganam.

(mas) A beleza está não na apreciação do espelho. Sim no esquecimento dele. Total auto-ludibriação.


(voltando pra casa, novamente. O tempo todo)
Catando segundos passados


um a um


reconstruo a respiração calma debaixo das cobertas
dentro do mais aconchegante recanto

desenho as linhas imaginárias que abrangem o reino que habito



a longa volta pra casa parece durar para sempre.

2.19.2007

Com flor do cabelo ela pula.

Se você jurar
Eu posso me regenerar.

Fuma um pouco e se molha de cerveja.

Molha de satisfação todos os movimentos e sorrisos.
Só sorrisos.

Porque tristeza é demodé em fevereiro no Rio de Janeiro.
O tempo no varal.
Secando, pra depois ser tingido.

O vento soprou. Sobraram os pingos no chão.


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Sobretudocarnavalizadocarioca.

Deito um pouco.
Estico as pernas bem forte. Até cléc-clécarem todos os meus dedos.
Brisa que sopra dentro, e arranha de tão gostosa.

Fecho os olhos.

Imagino o sol queimar.

2.16.2007

aujourd´hui
kurakunattanowa
naze desuka?

2.15.2007

Clarões metafísicos.

Deleuze falou dos encontros, que movem o universo.

A possibilidade de pintar mais espaços vazios sem enchê-los nasce de formas cada vez mais imprevistas. Da mesa de bar com um cigarro no meio e duas pessoas nas pontas. Conversa, silêncio e música. E muito entendimento.

Quase inexistente. Sussurrando. Os traços que preenchem.



Sob a parede da quietude. O ar-condicionado e o cheiro de mofo me fazem lembrar antigos pesares e penso: pensar, sim.

A cidade fragmenta-se dentro de salas, janelas, carpetes. Ainda assim, é necessário o inteiro dos pedaços. Abrir o leque de cores e cheiros. Respiro fundo e dou um pulo dentro de mim. Resumindo sinapses cerebrais, suspiros, vozes e sentimentos (dos rasos até os mais profundos) ao eterno encontro comigo mesmo, acabo chegando ao longo atalho do prazer pela fresta de cada pensamento. Sinto o sopro. Atalho lento e calmo. Como uma pintura sem nada, traço que escreve no imaginário. Aquele que fica atrás de cada olhar.

As coisas, em si, são lagos e reverberações.

Como grandes grandes pedaços de papel que ventam tintas translúcidas com palavras cheias. O clarão de cada um. Precisamente incalculado. Maleável e permeável, ainda assim.


2.10.2007


Os espaços vazios são sempre bons pra organizar os pensamentos.
Dentro da caixa.

O sol entrou pelo buraco
e saiu do outro lado.

O escuro perfurou a luz e eu dormi sossegado.



Dormi acordado.

2.08.2007

Psiu!

Psiu!

Chamaram pra ver o mundo.
O mundo.
E não o espelho da minha memória.
joguei o verbo no ar


ele andou por quantos lugares
transmutou-se em quantas pessoas


virou cimento pra poesia de alguém
(alguém?)

e voltou pra mim.


Vazio.

2.06.2007

Sob a ação do tempo.

O tempo todo.

Sem parar.

2.05.2007

As impressões de poucas coisas
sobre o barulho de copos de vidros.

Percebi o quanto de mim existe no mundo. E penso estar contente. Andar pelas mesmas ruas não me oprime mais. Esparramo os pensamentos como em amplas poltronas confortáveis (ou redes) e deixo o corpo mover-se no automático. Viro as esquinas como viro as páginas do livro que releio pela milésima vez, e que só agora me apresenta seus signos completos. Penso andar na rua. Mas acho que a rua anda em mim.

Depois, uma coca-cola e um cigarro. Respiração e olhar. E volto pra casa como que esvaziado. Esperando pelas páginas físicas do próximo livro.

2.04.2007

Pego toda a felicidade do mundo e desboto
.
.
pixel a pixel.
.
Agora sim:
.
.
Em mim.
.
Euforia digital desmantelada.
Como andar em cima de ovos.

Prefiro parar pra respirar.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Palavras como corpos semânticos, por favor.

1.30.2007

Enquanto gira spin spin
o nosso crazy world

O velho abana as penas dos pombos
Enquanto balança as pernas
pra frente
pra trás
pra frente
pra trás
O horizonte inclinou-se pra direita e mudou de cor.
Toc bateu no rosto com força
Pediu um pano pra enxugar o sangue
enxugou com todo o amor do mundo
enternecido escorrido
do eterno rio que flutuava sobre sua testa.
Ah e como eu gostaria!
Pensei não fosse possível
quebrei a caixa de discos antigos
pra morrer de amor de novo.
E um dia amaria
semitom e poesia
pura.