7.19.2012

chá da tarde

palavras sobre o chá quente
quente
       quente      
            quente
queimou minha língua
meu dente
meu dedo
e mais alguma coisa que eu imagino 
fria até doerem os ossos
do lado esquerdo, o meu joelho
direito

a palavra 
toda suavezinha no seu recanto
feliz 
   na linha
      amarela esfumaçada 

(toda engraçadinha
a palavra)

a palavra cai no chá e se esparrama 
               toda
               todinha
respinga na mesa 
               branquinha 
da toalha comprada 
a 30 reais mensais na loja da esquina 
(são 3 parcelas,
de 30 reais, 
com 3% de juros
no cartão de plástico alaranjado
a palavra 
          amarela
no cartão
          alaranjado
com a tarja preta do lado contrário)
- e o chá vermelho

a mesa fica branca pelo
                                          contato 
com a toalha 
            agora manchada 
            toda manchada
            manchada
            de pura palavra



Há dois anos atrás, algo estava pra acontecer daqui a um segundo. O homem, montado em sua bicicleta, gostava do sol sobre sua pele. A mulher, atrás dele, pensava que o mundo ganhava muito mais sentido por ela ter pernas e poder sentir o vento empurrar seus cabelos para trás enquanto pedalava. Uma curva à esquerda, outra à direita, seguir adiante. Assim, acontecendo no desacontecer, como desfiando fios que se movimentam como dizendo: "me puxe para perto do seu futuro". As palavras, no entanto, mantêm-se suspensas no ar, e o futuro tem a concretude de uma rocha macia.

Como é bom escutar o barulho do silêncio arranhado pelas correntes das bicicletas. Do outro lado - não sabia já sabendo - o silêncio ocupa espaço, compete com os vácuos do nosso pensamento. O sol já está por se pôr, há dois anos atrás, como sempre estará. Desde que amanheceu, eu tirei essa foto e guardei escondida no meu computador, reservada para quando despedidas fossem necessárias. Reservada para quantas despedidas fossem necessárias.

Nesse não-lugar do impensado, estou sempre em casa, um segundo depois do momento ápice do conforto. Parado, paradinho, esperando a hora de me mover. O vento existe somente na medida da minha imaginação. Na foto, fora do quadro, eu espero para sempre o momento de me mexer, de sair da frente. Enquanto isso, me esquento no sol daquele fim de tarde, na eterna imaginação do porvir, que me deixa acolhido todo no presente que só sabe se despedir.




7.04.2012

Este blog existe desde agosto de 2003. 2003! Quanto tempo não é isso. Ele vai completar nove anos, nesse tempo aprendeu a caminhar e a falar, imaginou muitas coisas, fez grandes amigos, viveu seus amores, e agora estava em repouso, pronunciado seus pensamentos muito raramente, descansando dos dias intensos da sua juventude. Em nove anos, toda uma vida inteira. 

A partir daqui, alguns caminhos possíveis. Mas, ao reencontra-lo (o blog), percebi que ele ainda quer seguir falando -- ou melhor, tentando falar -- dando vazão a essa gagueira que o animou por tanto tempo. 

Então, é isso. Às palavras voltamos! Talvez, com isso, as certezas que se instalaram possam ser desfeitas enquanto há tempo.