4.21.2010



Passou as mãos pelos cabelos, tocou a testa. Sentiu a pele seca, quebradiça. Agarrou a xícara de café, entornou um pouco por sobre o dedo e despejou na sua boca. O líquido quente queimou a ponta da sua língua. Faltava açúcar. Acedeu um cigarro e inspirou calmamente a fumaça. Abriu o livro e, na segunda linha, entendiou-se. O cigarro, depositado entre os seus dedos, colocou-o sobre o cinzeiro. Esperava, sem muito objetivo. Sentia-se tão contido e retraído; era puro silêncio. Ao seu redor, desconhecidos comiam com pressa, liam jornal. Alguns conversavam em voz baixa, cotidianidades à toa. Estava como que flutuando sobre a massa disforme que nada lhe comunicava. Um gesto, um gesto. Deu mais um trago. Retorcia a cabeça, dava voltas com os pulsos, arranhava levemente o tecido do seu casaco. Perdido na sua mais perene ausência. Todo o drama está no gesto.

4.18.2010

Horas a fio
Horas horas horas
O tempo passa lúgubre, quieto, sucinto
O frio faz um zumbido estranho no ouvido
Sentado, desconcentrado até a alma
Enquanto vê as linhas enfileiradas
- tão organizadas -
na página do livro
o pensamento voa vazio
cantando melodias que só no silêncio pode escutar.
Ausência

Por muito tempo achei que ausência é falta
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
Ausência é um estar em mim.
E sinto-a tão pegada, aconchegada nos meus braços
Que rio e danço e invento exclamações alegres.
Porque a ausência, esta ausência assimilada,
Ninguém a rouba mais de mim.

(Drummond, pensando em Ana C.)

4.11.2010

No Natal de 2008:

"Ano que vem em Kyoto


Escrever o que chega, falar o porvir. Talvez assim, imaginou, seria possível imaginar aquilo que é o mais impensável. Recebeu, em plena véspera de Natal, em e-mail confirmando a viagem que pode durar (quantos?) anos. Pensou então: tentando escrever o impensável, tornaria mais amigável uma experiência tão distante. Por que havia escolhido ir a tão longe? "Ano que vem em Kyoto". Frase esquisita, como se as palavras não se encaixassem. Viajar, mas não como ir a São Paulo, planejar um doutorado em Paris, tentar uma temporada em Nova Iorque, ver a exposição em Berlim, andar de bicicleta em Amsterdã ou ver a velha novidade de Londres. Não como isso, não como lera no jornal, escutara na internet ou imaginara ao ler o romance (Paul Auster voltou a freqüentar recentemente suas idéias). Nem mesmo como fazer uma visita curiosa e "interessada" à Índia, ver os monumentos da China, o mochilão na África: degustar, ao meu tão edificado e "de bom gosto" olhar, o sabor do outro que me apraz (o outro que eu consumo em qualquer discurso "atualizado", esclarecido, que me deixa ainda mais refinado, "interessante", "gente viajada"). Distante de fato: distante como morar fora de si. Sem o gesto acumulado no corpo (e na retina), sem a textura da imagem que aproxima, a pequena atmosfera européia (colonizada?) que envolve o pensamento desde muito tempo... "Ah, como é charmosa Lisboa, andar pelo Bairro Alto e ouvir um fado... Como passeei pelos bares de Madri, curti a noite intensa enquanto trabalhava de garçom no pub irlandês da Gran Via" - o charme, a noite, a atmosfera, reprisada nas inúmeras falas, nas inúmeras imagens que se proliferam por aí. E o pensamento? Sou francês, alemão, trágico, tropical, racional sem dúvida, trazido pela grande crítica global que me faz antes de mais nada sempre num a-partir-de. "Mas é foucaultiano ou deleuziano? Ah, sim, entendo... escutava Pink Floyd ou The Clash?" Mas do que se trata: "ano que vem em Kyoto"? O impensável, talvez, também se tratasse disso, uma pura e honestíssima diferença, aquela que se degusta com olhar estupefato de uma infinidade de possibilidades de existir que se descortinam diante de seus olhos. Assim, sem muita razão, tentou capturar aquilo que nunca esteve lá.

[E, ao final, talvez, tudo se trate de pura diferença. Quem sabe não é partindo dessa pequena suspeita que tivesse escolhido por tão longe?]"

***

Depois de mais de um ano. Cá estou, em Kyoto. A diferença ainda se mantém como uma certeza, mas essa já se desatrelou da distância. A experiência, no entanto, me põe confuso. Mais do que viver aqui - o que já é muita coisa - a certeza de estar vivo, pisando sobre terra que explode de tantas e infindas diferenças é o que mais me move. Não isto aqui, mas tudo que é justamente o não-aqui (e, de certa forma, o não-aí). Espero muito, acalentarei com a minha presença, que, gradualmente, se esmoreça a colonização do pensamento.
Um pensamento, no idioma em que ele se conceba mais cômodo.

Sem paciências sem paciências
Espremo fundo, mas não me saem palavras
- estarei emudecendo, de tanto falar?
Qualquer coisa me revela a inércia
O tempo passa, mas se esconde convulso atrás da cortina
Eu esquivo, traduzo, confundo sintaxes, origens e sentidos
- Uma palavra calma, por favor!
Não se deita e adormece
Já encontra-se sem território

saudades e pura abstração

4.06.2010

A primavera chegou aqui no Japao. O sol, o sol, o sol. Andar sem roupas pesadas, expor o braco, o pescoco, encostar a mao nos objetos do lado de fora.
Fico feliz de que nao haja o frio do inverno no Brasil (tirando o Sul, mas vamolah, ne). Nao temos que nos esconder do lado de dentro, nem saculejar o corpo pra nao congelar.
Ja tinha me esquecido, mas o calor eh o que me coloca em movimento. Um pouco de luz de sol e otimismos futuros.
Um ano.

Como estão vocês?

Eu tenho saudades. Não acredito que há um ano estou longe.

A primavera chegou aqui no Japão.

Quando for verão aqui, aqui já vai estar longe de novo. E eu mal consigo esperar.