11.26.2009
10.25.2009
Nada pra escrever, mas vontade de falar.
Hoje, durante todo o dia, falei só por 14 minutos. Contados. Ao telefone e em espanhol. Ainda bem que existe a internet. Assim posso soltar uma palavras para o interlocutor imaginário. Absorto que estava em trabalhos e afazeres, não digo que cheguei a me dar conta do meu silêncio. Ouvi música, escrevi, li. As palavras nunca deixam de ecoar. Chegando à noite, no entanto, quis expeli-las. Falei sozinho, testei minha voz. De fato, outros ouvidos são necessários. Em português, de preferência. Senti o peso do pensamento. Ele tem o peso do meu corpo com o da comida que ficou na geladeira pra refeição de amanhã.
Não reclamo. Não produzo tragédias auto-piedosas (não mais). Acho bom perceber que, preso dentro das palavras não proferidas, meu pensamento se torna tão volumoso que se perde em si mesmo: perco o sentido. Isso me traz algum contentamento estranho, como se tivesse mais certeza do que sempre intuí. É necessário cultivar a boa comunicação, aquela tão rara quanto preciosa. Essa eu já possuo. Ainda que, por ora, meio distante fisicamente.
Hoje, durante todo o dia, falei só por 14 minutos. Contados. Ao telefone e em espanhol. Ainda bem que existe a internet. Assim posso soltar uma palavras para o interlocutor imaginário. Absorto que estava em trabalhos e afazeres, não digo que cheguei a me dar conta do meu silêncio. Ouvi música, escrevi, li. As palavras nunca deixam de ecoar. Chegando à noite, no entanto, quis expeli-las. Falei sozinho, testei minha voz. De fato, outros ouvidos são necessários. Em português, de preferência. Senti o peso do pensamento. Ele tem o peso do meu corpo com o da comida que ficou na geladeira pra refeição de amanhã.
Não reclamo. Não produzo tragédias auto-piedosas (não mais). Acho bom perceber que, preso dentro das palavras não proferidas, meu pensamento se torna tão volumoso que se perde em si mesmo: perco o sentido. Isso me traz algum contentamento estranho, como se tivesse mais certeza do que sempre intuí. É necessário cultivar a boa comunicação, aquela tão rara quanto preciosa. Essa eu já possuo. Ainda que, por ora, meio distante fisicamente.
10.14.2009

Essa imagem foi roubada da internet. Não sei quem tirou. Tenho aqui no meu computador há uns meses já. Praia de Icaraí, numa tarde de um dia de semana qualquer.
É impressionante, mas olho pra ela e quase acredito que ela seja o que representa. No passar do tempo, aqui, tão distante do que ela retrata, ela, de fato, passou a quase ser aquilo que pretende representar. Minha memória se faz presente em imagens e sons. Assim ela se reaviva. E, muito mais, ela se faz presente nas minhas saudades, que oscilam em momentos, dias, semanas. Tendo a pensar que não sinto mais a falta física que sentia: já estou aqui e meu corpo aprendeu isso com os meses. Ele não grita mais: "não sou daqui". Tenho uma vida, hábitos, pensamentos. Meus sonhos já se mudaram, acompanham agora o corpo. O português me acompanha, quase exclusivamente no meu pensamento, que, durante o dia, se torna confuso com os idiomas, nasce sempre em português, mas no caminho toma a forma do inglês, do japonês, do espanhol, do francês. Cansa-se e, às vezes, quer apenas não ser. A língua se tornou tão notória que parece que precisa fugir de qualquer uma. Não ser mais pensamento. Mas, no entanto, se refestela quando reencontra o português, lendo o jornal, um romance ou falando na internet. Orgulha-se de existir e de ainda ser tão pregnante em mim.
Não sinto falta, portanto. Cheguei ao presente. Este presente que se faz existir sempre a partir (sim, é ponto primordial) das minhas saudades. É como se estivesse num paradoxo estranho: não acredito que necessariamente deva não estar aqui, ou estar aí, dentro da imagem. Mas a saudade já é necessária, concede alguma coisa que subjaz o tempo inteiro. A saudade já sou eu, de uma certa maneira. Aqui, necessito dela.
Hoje senti bastante saudade. E resolvi escrevê-la.
10.08.2009
Não porque me secaram as palavras. Nem porque me sequei delas. Mas porque às vezes elas já estavam tão bem encadeadas que se torna inútil repeti-las tantas vezes, tentando tomar um caminho diferente.
A minha vida parece uma montanha-russa meio tortuosa, mas cujas curvas radicais acalantam inúmeros espaços minúsculos (junções deles) que resultam em uma calmaria tão harmoniosa que já ofuscam o turbilhão. Não é verdade que cada curva é feita por momentos que podem se prolongar ao infinito? Lições que Borges nos deu.
Aqui, reflito essa curva imensa que é pura calmaria. Há pouco mais de um ano atrás, em 06 de julho de 2008, tudo parecia tão diferente do que é hoje, mas permaneço, sem dúvida, nessa mesma curva tortuosa:
"Espero aqui, sentado, balançando as pernas, o tempo se pronunciar. Ele nunca diz nada, mas deixa suas pistas delicadamente, utilizando-se de si mesmo para enganar-nos.
Malandro de outrora, no entanto, ele já não consegue me enganar tanto assim. Foco minha vista já cansada da espera e, juntando-me à sua eterna brincadeira de esconde-esconde, instalo-me no seu trabalho e, no esforço de imaginar a sensação do invisível, consigo degustar cada aceno que me dá. Conseguimos então, assim, selar a amizade que, ao mesmo tempo, provoca o escárnio e o imenso respeito que cultivo."
Sigo no meu exercício (o meu artifício mais bem trabalhado)...
A minha vida parece uma montanha-russa meio tortuosa, mas cujas curvas radicais acalantam inúmeros espaços minúsculos (junções deles) que resultam em uma calmaria tão harmoniosa que já ofuscam o turbilhão. Não é verdade que cada curva é feita por momentos que podem se prolongar ao infinito? Lições que Borges nos deu.
Aqui, reflito essa curva imensa que é pura calmaria. Há pouco mais de um ano atrás, em 06 de julho de 2008, tudo parecia tão diferente do que é hoje, mas permaneço, sem dúvida, nessa mesma curva tortuosa:
"Espero aqui, sentado, balançando as pernas, o tempo se pronunciar. Ele nunca diz nada, mas deixa suas pistas delicadamente, utilizando-se de si mesmo para enganar-nos.
Malandro de outrora, no entanto, ele já não consegue me enganar tanto assim. Foco minha vista já cansada da espera e, juntando-me à sua eterna brincadeira de esconde-esconde, instalo-me no seu trabalho e, no esforço de imaginar a sensação do invisível, consigo degustar cada aceno que me dá. Conseguimos então, assim, selar a amizade que, ao mesmo tempo, provoca o escárnio e o imenso respeito que cultivo."
Sigo no meu exercício (o meu artifício mais bem trabalhado)...
10.04.2009
Em palavras mais simples:
conviver com a "intelectualidade" internacional me mostrou de forma brutal a urgência do pensamento brasileiro, latino-americano, que seja.
Não pelo fato de ser geográfico, mas pelo mais pungente fato de assim ser tão marcadamente percebido. Desfazer o geografismo a partir da sua adoção primeira. Por mais paradoxal que seja, mas algo como estratégias distintas ainda que num mesmo regime.
É como Deleuze percebeu, "não se sai de um dispositivo", mas é nele que está a sua própria superação.
(precisava escrever assim, de forma meio grosseira)
conviver com a "intelectualidade" internacional me mostrou de forma brutal a urgência do pensamento brasileiro, latino-americano, que seja.
Não pelo fato de ser geográfico, mas pelo mais pungente fato de assim ser tão marcadamente percebido. Desfazer o geografismo a partir da sua adoção primeira. Por mais paradoxal que seja, mas algo como estratégias distintas ainda que num mesmo regime.
É como Deleuze percebeu, "não se sai de um dispositivo", mas é nele que está a sua própria superação.
(precisava escrever assim, de forma meio grosseira)
Chão
É estranho pensar isso, e mais estranho escrever ou dizer. Mas é como se estivesse alguma coisa por aí, a ser pensada, discutida, esmiuçada aí. Como se o pensamento tivesse aí a sua função, o seu fim. Não digo que seja utilitário o pensamento, mas ele põe algo a mover, retira a estabilidade, arranca as coisas do seu terreno estúpido da certeza. Pensamento como ação - não a "pró-ativa" atividade de fazer aparecer algo no âmbito do concreto, de fazer ir à frente em uma corrida tão mais abstrata quanto mais parece existente em números ou em dados. Mas uma ação que resulte em algumas inversões e que trate do óbvio com o espanto do novo - e sempre nesse caminho. Não exaltar o novo de forma vulgar e leviana, a novidade não é aparição, mas desvelamento.
Esse pensamento, estranhamente, me parece ter chão. Não me parece válido por qualquer motivo, nem por qualquer razão - a razão não o ilumina em qualquer seara, não o valida por qualquer joguete de lógica intrincada. Ele urge a partir de onde pode infiltrar-se, pungir e fazer pensar igual (ou distinto). Ele viaja a partir de um ponto: esse há de ser seguro e, de certa forma, percebido de antemão. Como se estivesse comprometido desde o seu (meu) nascimento. E por isso decidi tão fortemente pelo pensar, por ser desde um lugar, que não é assim, tão geográfico e tão calculável, mas uma situação, uma conjuntura, um devir específico que a mim me toca e que, por ser assim, tão de dentro compreendido por mim, é daí que devo saltar, e daí que devo pescar o óbvio e fazê-lo pensar. Nunca achei que fosse dizer isso, mas meu pensar é mais pensar quando estou no meu lugar.
É estranho pensar isso, e mais estranho escrever ou dizer. Mas é como se estivesse alguma coisa por aí, a ser pensada, discutida, esmiuçada aí. Como se o pensamento tivesse aí a sua função, o seu fim. Não digo que seja utilitário o pensamento, mas ele põe algo a mover, retira a estabilidade, arranca as coisas do seu terreno estúpido da certeza. Pensamento como ação - não a "pró-ativa" atividade de fazer aparecer algo no âmbito do concreto, de fazer ir à frente em uma corrida tão mais abstrata quanto mais parece existente em números ou em dados. Mas uma ação que resulte em algumas inversões e que trate do óbvio com o espanto do novo - e sempre nesse caminho. Não exaltar o novo de forma vulgar e leviana, a novidade não é aparição, mas desvelamento.
Esse pensamento, estranhamente, me parece ter chão. Não me parece válido por qualquer motivo, nem por qualquer razão - a razão não o ilumina em qualquer seara, não o valida por qualquer joguete de lógica intrincada. Ele urge a partir de onde pode infiltrar-se, pungir e fazer pensar igual (ou distinto). Ele viaja a partir de um ponto: esse há de ser seguro e, de certa forma, percebido de antemão. Como se estivesse comprometido desde o seu (meu) nascimento. E por isso decidi tão fortemente pelo pensar, por ser desde um lugar, que não é assim, tão geográfico e tão calculável, mas uma situação, uma conjuntura, um devir específico que a mim me toca e que, por ser assim, tão de dentro compreendido por mim, é daí que devo saltar, e daí que devo pescar o óbvio e fazê-lo pensar. Nunca achei que fosse dizer isso, mas meu pensar é mais pensar quando estou no meu lugar.
8.26.2009
Sigo me assustando. Não está aí para o meu controle, essa coisa de ser tempo. De sermos ele e, dei-me conta, só ele. Ao tentar manipulá-lo, já fracasso. Preciso ser todo, e não ser nem um pouco aquilo que não é da sua ordem. Deixar-me no seu espaço, assim flácido, elástico, assim tão pouco sólido. De sólido já há tanto! Que tudo mais esteja para além do meu domínio. É um trabalho da memória, essa que se coloca para adiante e me deixa torpe ao já ser meu passado imaginado. Pergunto-lhe quem poderia ser? Impressiono-me sempre quando me vem tão alheio ao que poderia ter pensado. O tempo não se pensa. Fico num estado de pura euforia vazia. Quero preencher-lhe os buracos, mas com isso me ponho num trabalho estúpido, em vão. Necessito adentrá-lo com menos cuidado. Não tomar conta das palavras: não se trata de palavras. Trabalho árduo de não trabalhar, quando tudo me põe assim, num estado produtivo. Besta produtividade. Essa mascara um outro lado: o de não haver lados a serem mascarados. Vai-se sendo tempo toda vida.
8.22.2009
Para não me repetir demasiado, pus-me no deslocamento.
Tomei um avião e atravessei muitos mil quilômetros.
Mas, ah, que equívoco!
A viagem serve pra voltar.
Percebi que o pensamento (corpo) não necessita se deslocar no espaço a tantas léguas. Basta olhar quieto e seguir um certo movimento sutil. Não prescinde do espaço: só que não é tão literal e tão óbvio. É um espaço outro, menos afeito às turbinas dos aviões e aos trilhos dos metrôs. Mas colado a mil outras coisas, assim, em encantamento, muito distanciado do espanto fácil do novo.
Tomei um avião e atravessei muitos mil quilômetros.
Mas, ah, que equívoco!
A viagem serve pra voltar.
Percebi que o pensamento (corpo) não necessita se deslocar no espaço a tantas léguas. Basta olhar quieto e seguir um certo movimento sutil. Não prescinde do espaço: só que não é tão literal e tão óbvio. É um espaço outro, menos afeito às turbinas dos aviões e aos trilhos dos metrôs. Mas colado a mil outras coisas, assim, em encantamento, muito distanciado do espanto fácil do novo.
8.10.2009
8.09.2009
Há dias para se escrever. Não escrever o dia, descrevê-lo, elogiá-lo ou narrá-lo. A escrita funciona como uma extensão de um vazio, assumindo sempre que esse espaço não será ocupado. Não seria sequer um espaço, mas um impulso. Não se escreve para preencher um vazio. Isso é tarefa frustrada - ou, quem sabe, escrita frustrada. Eu, em palavras não-lidas, escrevo como para estender um estado, fazê-lo existir, ou existir nele com mais presença. Como uma percepção, lampejo que é quase material. Escrevo, então. Não são bem as palavras, muito menos as imagens que elas podem evocar. Deve haver em algum lado uma meia-fase, onde se consiga encontrar alguma coisa tão própria da palavra, além do seu som e aquém do seu significado. É disso que se trata, ao menos para mim, esse estado de escrita. Fico horas remoendo uns pensamentos difusos, alguns estados latentes, umas inclinações esparramadas: são essas as horas das palavras. E, apesar de tudo, já parto de um engano rotundo. Pois sim, estão aí símbolos enfileirados, prontos para serem decodificados em significados. O bom seria fazer dançar essas estabilidades.
Contudo, já tenho alguma resposta. A palavra é minha. Essa, em português. Estando rodeado de tantas outras, flutuo num sem-chão. Hoje senti o português brotar no meu pensamento, pulular na minha boca. Não queria japonês, nem espanhol, nem inglês. Para poder retirar a palavra da sua certeza com alguma graça, necessito antes sabê-la toda minha, dentro de um território seguro. Tenho relação certa com essas que me trazem afeto, o português que me moveu por anos e que faz alguma ponte da visão com a minha imaginação. Só me dei conta aqui. Leio Guimarães Rosa, Fernando Pessoa e Saramago, em pleno Japão, e eles me parecem quase metafísicos, de tanto que compreendi - creio - o pathos de uma língua.
E por isso hoje senti que devia escrever. Por ter percebido que, em português, escrevo muito mais do que para comunicar. Necessidade de escrever sem descrever.
Contudo, já tenho alguma resposta. A palavra é minha. Essa, em português. Estando rodeado de tantas outras, flutuo num sem-chão. Hoje senti o português brotar no meu pensamento, pulular na minha boca. Não queria japonês, nem espanhol, nem inglês. Para poder retirar a palavra da sua certeza com alguma graça, necessito antes sabê-la toda minha, dentro de um território seguro. Tenho relação certa com essas que me trazem afeto, o português que me moveu por anos e que faz alguma ponte da visão com a minha imaginação. Só me dei conta aqui. Leio Guimarães Rosa, Fernando Pessoa e Saramago, em pleno Japão, e eles me parecem quase metafísicos, de tanto que compreendi - creio - o pathos de uma língua.
E por isso hoje senti que devia escrever. Por ter percebido que, em português, escrevo muito mais do que para comunicar. Necessidade de escrever sem descrever.
No canto esquerdo inferior, uma data: 31/3/2009, 23h37. Detalhado até os minutos. Salteando pela memória, achei uma imagem assim, escura, noturna, gente relaxada conversando, bebendo. Todos absolutamente entretidos com suas vidas. É uma rua, há uma marquise e luz branca que ilumina uma faixa da fotografia. Há um senhor, pernas cruzadas, tronco levemente inclinado para a sua esquerda. Ele fala e pouco gesticula. Sugeriria que ouve mais do que pronuncia. Observa com atenção. É terça-feira e deu-se ao direito de ir tomar uma cerveja no bar da esquina.
Na imagem, uma esquina. Ocupada, gente conversando. Gente e esquina (repito algumas vezes o par). A memória não me falha na imagem. Sobreponho imagem e imaginação, e olho para frente, através da janela. A diferença é abrupta e me ponho absorto em pensamentos tão óbvios que me causam pena de mim mesmo. "Que ridículo!". Tenho a imagem pra me dar conta, pra não me esquecer. Do pátio imenso e largo que é, minha memória me coloca tão mais nesse presente que se arrasta com o calor úmido dos dias.
Para isso, a palavra não basta. Tampouco a imagem. Sigo tentando uma instalação segura no intervalo entre as duas coisas. Ai, que bom seria poder. Da varandinha, empurro os pensamentos pra longe, num método estranho da vontade de dizer o indizível. E, ademais, a quem?
Saudades desse devir imperceptível.
8.03.2009
A escada era de mármore e exalava um cheiro entre nauseante e muito agradável. O hall de entrada - uma pequena área, antes um vestíbulo - também tinha seu piso todo de mármore, que se estendia pelos três lances de escada. A pedra branca tinha umas pequenas rachaduras, e compunha um padrão xadrez com as placas de pedra preta que se intercalavam. Sempre que passava do portão da rua e aí entrava, o cheiro tão forte me lembrava algo próximo de um açougue para, no momento seguinte, transformar-se em um aroma de pedra refrescante, que me dava muito prazer. Talvez, acima de tudo, o prazer de estar de volta. Sempre era recebido nas minhas chegadas pelos degraus brancos. Não importava o calor da rua, nunca era desagradável voltar para casa.
7.18.2009
Um hábito estranho. Podem achar doente, que seja. Mas tem um pedaço desse mundo virtual - vasto, porém cheio de vícios, caminhos repetidos - que não me canso de visitar e revisitar. Ele nunca - nunca! - vai mudar. Nem uma letra a mais, nem uma vírgula a menos. Fica ali, perene, sólido, cheio de incertezas que nunca vão se resolver. É como se tivesse preso ali, naquela tela, naquelas cores escolhidas, fontes, números, dados de html. Um pedaço de tempo que estancou em uma fórmula, um espaço fechado a sete chaves, que conserva seu ar intacto ali dentro. E uma voz, tão viva, que me chega aos ouvidos quando por ali resolvo passar. Não digo que há frequência notável: a cada três meses, quando muito, me pego olhando pras suas frases encadeadas. Como se eu pudesse experimentar uma presença estranha, que já há muito é ausência. Não pensem nada sobre mim, não estou com nada, nem passando por nenhum problema. Gosto de ouvir seus pensamentos, às vezes límpidos, às vezes confusos. Só isso. A nostalgia não é tão determinante quanto o real interesse pelo presente daquele texto. É uma mágica da internet: fica-se sempre. Novas configurações de memória, diria o título de alguma tese de doutorado. Eu digo: alguma humanidade que salva a literatura, o texto, a palavra escrita, a porcaria que é a internet, em geral. Então fico lendo. Pouco a pouco, pra que me reste o que descobrir da próxima vez. Percebo que podia ter ouvido mais da sua própria boca, mas lembro que às vezes não é possível se entender as coisas enquanto estão acontecendo. É preciso algum tempo, decantamento. Então, nesses passeios, a ausência se esvai, e uma presença quase latejante está aí, pronta para ser ouvida. Quase ouço essa voz que não se ouve há tanto tempo.
Não posso sentir muita coisa. E não digo que pouco me importa tudo isso, a história, minha família e todas essas coisas que me empurraram para dentro dos meus ouvidos desde que nasci. Não sou dissimulado o suficiente. Talvez lhes importem mais a quem o diz. Mas, enfim, isso a mim não importa - quem o faz e quem não. Mas de fato, não sinto tanta coisa assim. Já era de se esperar. Desde que cheguei, percebi isso: aqui nada me fala. E não há importância no fato de que fale a língua, conheça os hábitos, e até saiba do seu pensamento. Interessantes, distintos, pitorescos e surpreendentes. Emocionantes e familiares são adjetivos muito forçados. A narrativa não vai tão longe, posso garantir. Quem inventou a balela de encontro de raízes estava certamente tão fascinado com a História de um Si transcendente que não pôde se lembrar que historietas são mais acalentadoras. Aquelas de ontem, do ano passado, de um minuto de um dia qualquer. E que o corpo é tão mais senhor da presença (e da ausência, por que não?) que ali estão memórias preciosas, que dali saem e para fora se escapam. Não me emociono, não vejo nenhum passado que seja meu em nenhum lado pra onde olhe por aqui. Não que isso seja algo ruim, mas tampouco me ponho a buscar um arroubo de profundidade metafísico-memorialista em algo que aí está, assim, que é do corriqueiro, da vida daqueles que aqui passam. E eu também aqui passo. Agora. E meu corpo não encontra acúmulo nenhum que o arrebate. Acúmulo, se há, é nele, e não por aí afora. E dele podem sair coisas novas e se reterem outras. Dele, sempre, porque, inevitavelmente é de mim que falo agora.
7.05.2009
3 meses.
Há exatos três meses, estava em algum avião, no caminho...
Em três meses, muitos anos. Muitas vidas diferentes. É impressionante como as mudanças são perceptíveis quando o tempo é contado e atentamos aos nossos humores com os sentidos bem apurados.
Pois sim, são três meses e muita coisa mudou. Já tenho meus passos que caminham sozinhos, pelas ruas que eles escolheram com o passar dos dias. Tenho assuntos e risadas espalhadas por alguns cantos da cidade, e alguns ouvidos nos quais as minhas palavras já cavaram seu caminho certo. Tenho imagens e olhos, alguns cheiros e barulhos, tenho um pouco da cidade já descascada pelas minhas passagens. Tenho passagens e paradas. Já fiz meus buracos e gastei alguns pedaços de piso das ruas e das calçadas. Tenho minhas horas, meu tempo. Já construí um tempo meu, único, e pouco afeito ao que me ensinaram quando cheguei. Tenho segundas, terças, quartas, quintas, sextas. Tenho sextas! Tenho sábados e domingos. Domigões, almoços, passeios e gente em casa. "No Japão, é assim, é assado, aqui se faz dessa forma e não da outra". Já criei minha maneira e posso manejar o meu país dentro dessa ilha. Tenho algo que aproxima de uma casa - passageira, no entanto, e isso será sempre, eu creio.
E, em três meses, também percebo o que de lá tem morada aqui. Percebo ruas de Icaraí que cismam em andar na minha memória, algumas mesas e cadeiras da Praça São Salvador, umas muretas da Urca, algumas mesas no Humaitá, o cheiro e o frescor de umas árvores em Pendotiba e o mar das praias - elas todas. E sinto ainda o suor de um sol úmido, levemente salgado. Percebo com clareza o que fica e, presente sempre, é ausência mais aguda, que vai e volta nas horas em que durmo ou me deixo sair daqui. As vozes, as risadas e os humores. Meu pensamento que flui, em português. O português que às vezes brota borbulhante, no meio de uma frase em japonês, ou em inglês, ou espanhol. A língua me dói tão fundo que às vezes me cego e me perco.
Enfim, 3 meses, e, em tão pouco tempo, tantas possibilidades de viagens. Ainda muitas outras por vir.
Há exatos três meses, estava em algum avião, no caminho...
Em três meses, muitos anos. Muitas vidas diferentes. É impressionante como as mudanças são perceptíveis quando o tempo é contado e atentamos aos nossos humores com os sentidos bem apurados.
Pois sim, são três meses e muita coisa mudou. Já tenho meus passos que caminham sozinhos, pelas ruas que eles escolheram com o passar dos dias. Tenho assuntos e risadas espalhadas por alguns cantos da cidade, e alguns ouvidos nos quais as minhas palavras já cavaram seu caminho certo. Tenho imagens e olhos, alguns cheiros e barulhos, tenho um pouco da cidade já descascada pelas minhas passagens. Tenho passagens e paradas. Já fiz meus buracos e gastei alguns pedaços de piso das ruas e das calçadas. Tenho minhas horas, meu tempo. Já construí um tempo meu, único, e pouco afeito ao que me ensinaram quando cheguei. Tenho segundas, terças, quartas, quintas, sextas. Tenho sextas! Tenho sábados e domingos. Domigões, almoços, passeios e gente em casa. "No Japão, é assim, é assado, aqui se faz dessa forma e não da outra". Já criei minha maneira e posso manejar o meu país dentro dessa ilha. Tenho algo que aproxima de uma casa - passageira, no entanto, e isso será sempre, eu creio.
E, em três meses, também percebo o que de lá tem morada aqui. Percebo ruas de Icaraí que cismam em andar na minha memória, algumas mesas e cadeiras da Praça São Salvador, umas muretas da Urca, algumas mesas no Humaitá, o cheiro e o frescor de umas árvores em Pendotiba e o mar das praias - elas todas. E sinto ainda o suor de um sol úmido, levemente salgado. Percebo com clareza o que fica e, presente sempre, é ausência mais aguda, que vai e volta nas horas em que durmo ou me deixo sair daqui. As vozes, as risadas e os humores. Meu pensamento que flui, em português. O português que às vezes brota borbulhante, no meio de uma frase em japonês, ou em inglês, ou espanhol. A língua me dói tão fundo que às vezes me cego e me perco.
Enfim, 3 meses, e, em tão pouco tempo, tantas possibilidades de viagens. Ainda muitas outras por vir.
6.18.2009
Passam, os dias e as horas. Assim, os pensamentos. Aos poucos, vou chegando em Kyoto. Mesmo que de lá, do outro lado do oceano, creio que nunca tenha saído de verdade.
O tempo é tão ligeiro, amacia o espanto e vai fazendo as coisas acontecerem. Ainda sinto falta do tempo que não passava jamais, de quando não olhávamos pra ele. "Olha aqui, na minha cara", ele esperneava. Não sei por que, mas hoje escuto sua voz, sussurrando como uma brisa no meu ouvido. Abro os olhos e o dia ensolarado me traz alguma boa memória. Sinto falta daquele tempo, ignorado. Era uma mágica suprema, aconchegante e recheada de bons encontros. Agora, na memória, sou muitas saudades. Não tem muito jeito, nasci no meio de tanta coisa inexistente, imaginação tão cheia de reentrências, protuberâncias, escorregos e rebuscamentos; nasci já sentido saudade, eu creio. Coisa esquisita, diriam alguns. Pra mim, sempre que estou, percebo o quanto estive, estiveram, estivemos. O tempo de hoje me assombra, sempre. Desde ontem, quando acordei no meio daquela luz branca e quentinha, debaixo da coberta do meio-dia. Gosto de chá, cabo de guarda-chuva, torrada com manteiga e milho quentinho. Um tempo tão maior do que eu.
O tempo é tão ligeiro, amacia o espanto e vai fazendo as coisas acontecerem. Ainda sinto falta do tempo que não passava jamais, de quando não olhávamos pra ele. "Olha aqui, na minha cara", ele esperneava. Não sei por que, mas hoje escuto sua voz, sussurrando como uma brisa no meu ouvido. Abro os olhos e o dia ensolarado me traz alguma boa memória. Sinto falta daquele tempo, ignorado. Era uma mágica suprema, aconchegante e recheada de bons encontros. Agora, na memória, sou muitas saudades. Não tem muito jeito, nasci no meio de tanta coisa inexistente, imaginação tão cheia de reentrências, protuberâncias, escorregos e rebuscamentos; nasci já sentido saudade, eu creio. Coisa esquisita, diriam alguns. Pra mim, sempre que estou, percebo o quanto estive, estiveram, estivemos. O tempo de hoje me assombra, sempre. Desde ontem, quando acordei no meio daquela luz branca e quentinha, debaixo da coberta do meio-dia. Gosto de chá, cabo de guarda-chuva, torrada com manteiga e milho quentinho. Um tempo tão maior do que eu.
6.09.2009
Imaginação da cidade
Imagino uma cidade. Ela tem luzes e árvores que se esparramam pelas ruas. À noite ela cresce e engole todos os meus pensamentos. As suas bordas são como linhas borradas - porém nítidas aos olhos atentos - que não conseguem separar o fora do dentro. Tudo ali, naquele limiar, se mistura. Uma cidade feita de bons limiares. Percorro seus caminhos com um olhar embevecido e curioso. Olhar de criança. Ela se extrapola a si mesma. Nunca pára de se criar. Imagino que tenha muitas pessoas e tanto mais esquinas. As vozes são rápidas, altas e gargalhadas. Elas carregam algo de interessante. Não consigo entender o quê, mas na minha imaginação, elas estão lá, aderidas ao seu cenário. Os cheiros são agudos - nada de meio-termo. Eles se encontram na minha frente, e perfuram o asfalto, as árvores, e as quinas rachadas do meio-fio. Chego a imaginar seus vôos entretidos, rachando aquele cimento cinza pra percorrer a matéria da cidade. É uma cidade de espaços, amplos, com pontos luminosos aqui e acolá. De manhã, ela se espreguiça toda, e estica seus braços pra fora dos seus domínios. Ela se derrama toda pela sua vizinhança, como se afagasse de leve a superfície que lhe foi atribuída. Passa a mão nos cabelos e suspira leve e satisfeita. A cidade sente a moleza da manhã e ri de si.
Imagino ter imaginado inúmeras vezes essa cidade. Na memória, essa cidade se solidifica e se decompõe, a cada oportunidade de olhar para fora. Seus penduricalhos tomam forma. Ela data de 1984, e segue nascendo por aí. Mais ou menos de dois em dois anos, depois de muito espairecer, ela ganha novamente o mapa. Espalha seus tentáculos e reabre sua temporada. "Nasceu!". A cada nascimento, posso imaginar ouvir uma música tranquila ao fundo, enquanto ouço vozes familiares, risadas de crianças e sinto o cheiro salgado de um mar azul e muito extenso. E ela chora um choro cheio de vontade, com gritos prolongados de quem inspira o primeiro ar nesse mundo. Esperneando pelos cômodos. Choro com gosto de leito fresco. Imagino seu nascimento, imagino que nasce a toda hora oportuna. Imagino nascer, quantas vezes forem boas e na medida, assim como eu.
Imagino uma cidade. Ela tem luzes e árvores que se esparramam pelas ruas. À noite ela cresce e engole todos os meus pensamentos. As suas bordas são como linhas borradas - porém nítidas aos olhos atentos - que não conseguem separar o fora do dentro. Tudo ali, naquele limiar, se mistura. Uma cidade feita de bons limiares. Percorro seus caminhos com um olhar embevecido e curioso. Olhar de criança. Ela se extrapola a si mesma. Nunca pára de se criar. Imagino que tenha muitas pessoas e tanto mais esquinas. As vozes são rápidas, altas e gargalhadas. Elas carregam algo de interessante. Não consigo entender o quê, mas na minha imaginação, elas estão lá, aderidas ao seu cenário. Os cheiros são agudos - nada de meio-termo. Eles se encontram na minha frente, e perfuram o asfalto, as árvores, e as quinas rachadas do meio-fio. Chego a imaginar seus vôos entretidos, rachando aquele cimento cinza pra percorrer a matéria da cidade. É uma cidade de espaços, amplos, com pontos luminosos aqui e acolá. De manhã, ela se espreguiça toda, e estica seus braços pra fora dos seus domínios. Ela se derrama toda pela sua vizinhança, como se afagasse de leve a superfície que lhe foi atribuída. Passa a mão nos cabelos e suspira leve e satisfeita. A cidade sente a moleza da manhã e ri de si.
Imagino ter imaginado inúmeras vezes essa cidade. Na memória, essa cidade se solidifica e se decompõe, a cada oportunidade de olhar para fora. Seus penduricalhos tomam forma. Ela data de 1984, e segue nascendo por aí. Mais ou menos de dois em dois anos, depois de muito espairecer, ela ganha novamente o mapa. Espalha seus tentáculos e reabre sua temporada. "Nasceu!". A cada nascimento, posso imaginar ouvir uma música tranquila ao fundo, enquanto ouço vozes familiares, risadas de crianças e sinto o cheiro salgado de um mar azul e muito extenso. E ela chora um choro cheio de vontade, com gritos prolongados de quem inspira o primeiro ar nesse mundo. Esperneando pelos cômodos. Choro com gosto de leito fresco. Imagino seu nascimento, imagino que nasce a toda hora oportuna. Imagino nascer, quantas vezes forem boas e na medida, assim como eu.
