10.08.2013

aquele dia

no dia que eu morrer, vai fazer um sol lindo, e vai ser perto do mar, e o ar vai ter cheiro de mato balançando ao vento e de muita saudade, e vão estar todos lá, e a terra vai estremecer em um terremoto de afeto, e eu vou chorar, chorar, chorar. no dia que eu morrer, todos vão estar velhos, e as crianças vão ser adultas, e outras crianças vão ter nascido, e outras ainda, e elas vão saber de tudo que a gente nunca soube. no dia que eu morrer, eu vou sentir que meu amor não tem fim, e eu vou espalhar esse amor pela terra molhada, arenosa, do cemitério que fica à beira-mar, e meu amor vai molhar as solas dos sapatos das pessoas que eu tanto amei. no dia que eu morrer, as pessoas vão chorar apenas um pouquinho, vão olhar pro céu, e pensar que foi bom estar comigo, que se lembram daquele dia e do outro, e vão pensar que eu fui feliz. no dia que morrer, a felicidade vai ser uma ideia estranha, deslocada, difícil de ser alcançada, quase inexplicável, uma certa mentirinha inocente, ou um objeto cintilante que acende quando se está longe mas se apaga quando se aproxima. uma "lava lamp". no dia que eu morrer, as pessoas vão falar e conversar um pouco, e cantar canções dentro de suas cabeças, tentar fingir que estão solenes. no dia que eu morrer, o mundo vai ser do tamanho dos anos da minha vida. no dia que eu morrer, as pessoas vão tomar café, comer bolo, voltar pra casa, se preocupar em dormir cedo pra trabalhar no dia seguinte, escovar o dente, pensar na janta, pensar na sua frustração sexual, no baixo salário, nos desejos recalcados, na incerteza do futuro. no dia que eu morrer, a vida vai ser mais bela, porque nada vai acontecer.

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