Nada pra escrever, mas vontade de falar.
Hoje, durante todo o dia, falei só por 14 minutos. Contados. Ao telefone e em espanhol. Ainda bem que existe a internet. Assim posso soltar uma palavras para o interlocutor imaginário. Absorto que estava em trabalhos e afazeres, não digo que cheguei a me dar conta do meu silêncio. Ouvi música, escrevi, li. As palavras nunca deixam de ecoar. Chegando à noite, no entanto, quis expeli-las. Falei sozinho, testei minha voz. De fato, outros ouvidos são necessários. Em português, de preferência. Senti o peso do pensamento. Ele tem o peso do meu corpo com o da comida que ficou na geladeira pra refeição de amanhã.
Não reclamo. Não produzo tragédias auto-piedosas (não mais). Acho bom perceber que, preso dentro das palavras não proferidas, meu pensamento se torna tão volumoso que se perde em si mesmo: perco o sentido. Isso me traz algum contentamento estranho, como se tivesse mais certeza do que sempre intuí. É necessário cultivar a boa comunicação, aquela tão rara quanto preciosa. Essa eu já possuo. Ainda que, por ora, meio distante fisicamente.
10.25.2009
10.14.2009

Essa imagem foi roubada da internet. Não sei quem tirou. Tenho aqui no meu computador há uns meses já. Praia de Icaraí, numa tarde de um dia de semana qualquer.
É impressionante, mas olho pra ela e quase acredito que ela seja o que representa. No passar do tempo, aqui, tão distante do que ela retrata, ela, de fato, passou a quase ser aquilo que pretende representar. Minha memória se faz presente em imagens e sons. Assim ela se reaviva. E, muito mais, ela se faz presente nas minhas saudades, que oscilam em momentos, dias, semanas. Tendo a pensar que não sinto mais a falta física que sentia: já estou aqui e meu corpo aprendeu isso com os meses. Ele não grita mais: "não sou daqui". Tenho uma vida, hábitos, pensamentos. Meus sonhos já se mudaram, acompanham agora o corpo. O português me acompanha, quase exclusivamente no meu pensamento, que, durante o dia, se torna confuso com os idiomas, nasce sempre em português, mas no caminho toma a forma do inglês, do japonês, do espanhol, do francês. Cansa-se e, às vezes, quer apenas não ser. A língua se tornou tão notória que parece que precisa fugir de qualquer uma. Não ser mais pensamento. Mas, no entanto, se refestela quando reencontra o português, lendo o jornal, um romance ou falando na internet. Orgulha-se de existir e de ainda ser tão pregnante em mim.
Não sinto falta, portanto. Cheguei ao presente. Este presente que se faz existir sempre a partir (sim, é ponto primordial) das minhas saudades. É como se estivesse num paradoxo estranho: não acredito que necessariamente deva não estar aqui, ou estar aí, dentro da imagem. Mas a saudade já é necessária, concede alguma coisa que subjaz o tempo inteiro. A saudade já sou eu, de uma certa maneira. Aqui, necessito dela.
Hoje senti bastante saudade. E resolvi escrevê-la.
10.08.2009
Não porque me secaram as palavras. Nem porque me sequei delas. Mas porque às vezes elas já estavam tão bem encadeadas que se torna inútil repeti-las tantas vezes, tentando tomar um caminho diferente.
A minha vida parece uma montanha-russa meio tortuosa, mas cujas curvas radicais acalantam inúmeros espaços minúsculos (junções deles) que resultam em uma calmaria tão harmoniosa que já ofuscam o turbilhão. Não é verdade que cada curva é feita por momentos que podem se prolongar ao infinito? Lições que Borges nos deu.
Aqui, reflito essa curva imensa que é pura calmaria. Há pouco mais de um ano atrás, em 06 de julho de 2008, tudo parecia tão diferente do que é hoje, mas permaneço, sem dúvida, nessa mesma curva tortuosa:
"Espero aqui, sentado, balançando as pernas, o tempo se pronunciar. Ele nunca diz nada, mas deixa suas pistas delicadamente, utilizando-se de si mesmo para enganar-nos.
Malandro de outrora, no entanto, ele já não consegue me enganar tanto assim. Foco minha vista já cansada da espera e, juntando-me à sua eterna brincadeira de esconde-esconde, instalo-me no seu trabalho e, no esforço de imaginar a sensação do invisível, consigo degustar cada aceno que me dá. Conseguimos então, assim, selar a amizade que, ao mesmo tempo, provoca o escárnio e o imenso respeito que cultivo."
Sigo no meu exercício (o meu artifício mais bem trabalhado)...
A minha vida parece uma montanha-russa meio tortuosa, mas cujas curvas radicais acalantam inúmeros espaços minúsculos (junções deles) que resultam em uma calmaria tão harmoniosa que já ofuscam o turbilhão. Não é verdade que cada curva é feita por momentos que podem se prolongar ao infinito? Lições que Borges nos deu.
Aqui, reflito essa curva imensa que é pura calmaria. Há pouco mais de um ano atrás, em 06 de julho de 2008, tudo parecia tão diferente do que é hoje, mas permaneço, sem dúvida, nessa mesma curva tortuosa:
"Espero aqui, sentado, balançando as pernas, o tempo se pronunciar. Ele nunca diz nada, mas deixa suas pistas delicadamente, utilizando-se de si mesmo para enganar-nos.
Malandro de outrora, no entanto, ele já não consegue me enganar tanto assim. Foco minha vista já cansada da espera e, juntando-me à sua eterna brincadeira de esconde-esconde, instalo-me no seu trabalho e, no esforço de imaginar a sensação do invisível, consigo degustar cada aceno que me dá. Conseguimos então, assim, selar a amizade que, ao mesmo tempo, provoca o escárnio e o imenso respeito que cultivo."
Sigo no meu exercício (o meu artifício mais bem trabalhado)...
10.04.2009
Em palavras mais simples:
conviver com a "intelectualidade" internacional me mostrou de forma brutal a urgência do pensamento brasileiro, latino-americano, que seja.
Não pelo fato de ser geográfico, mas pelo mais pungente fato de assim ser tão marcadamente percebido. Desfazer o geografismo a partir da sua adoção primeira. Por mais paradoxal que seja, mas algo como estratégias distintas ainda que num mesmo regime.
É como Deleuze percebeu, "não se sai de um dispositivo", mas é nele que está a sua própria superação.
(precisava escrever assim, de forma meio grosseira)
conviver com a "intelectualidade" internacional me mostrou de forma brutal a urgência do pensamento brasileiro, latino-americano, que seja.
Não pelo fato de ser geográfico, mas pelo mais pungente fato de assim ser tão marcadamente percebido. Desfazer o geografismo a partir da sua adoção primeira. Por mais paradoxal que seja, mas algo como estratégias distintas ainda que num mesmo regime.
É como Deleuze percebeu, "não se sai de um dispositivo", mas é nele que está a sua própria superação.
(precisava escrever assim, de forma meio grosseira)
Chão
É estranho pensar isso, e mais estranho escrever ou dizer. Mas é como se estivesse alguma coisa por aí, a ser pensada, discutida, esmiuçada aí. Como se o pensamento tivesse aí a sua função, o seu fim. Não digo que seja utilitário o pensamento, mas ele põe algo a mover, retira a estabilidade, arranca as coisas do seu terreno estúpido da certeza. Pensamento como ação - não a "pró-ativa" atividade de fazer aparecer algo no âmbito do concreto, de fazer ir à frente em uma corrida tão mais abstrata quanto mais parece existente em números ou em dados. Mas uma ação que resulte em algumas inversões e que trate do óbvio com o espanto do novo - e sempre nesse caminho. Não exaltar o novo de forma vulgar e leviana, a novidade não é aparição, mas desvelamento.
Esse pensamento, estranhamente, me parece ter chão. Não me parece válido por qualquer motivo, nem por qualquer razão - a razão não o ilumina em qualquer seara, não o valida por qualquer joguete de lógica intrincada. Ele urge a partir de onde pode infiltrar-se, pungir e fazer pensar igual (ou distinto). Ele viaja a partir de um ponto: esse há de ser seguro e, de certa forma, percebido de antemão. Como se estivesse comprometido desde o seu (meu) nascimento. E por isso decidi tão fortemente pelo pensar, por ser desde um lugar, que não é assim, tão geográfico e tão calculável, mas uma situação, uma conjuntura, um devir específico que a mim me toca e que, por ser assim, tão de dentro compreendido por mim, é daí que devo saltar, e daí que devo pescar o óbvio e fazê-lo pensar. Nunca achei que fosse dizer isso, mas meu pensar é mais pensar quando estou no meu lugar.
É estranho pensar isso, e mais estranho escrever ou dizer. Mas é como se estivesse alguma coisa por aí, a ser pensada, discutida, esmiuçada aí. Como se o pensamento tivesse aí a sua função, o seu fim. Não digo que seja utilitário o pensamento, mas ele põe algo a mover, retira a estabilidade, arranca as coisas do seu terreno estúpido da certeza. Pensamento como ação - não a "pró-ativa" atividade de fazer aparecer algo no âmbito do concreto, de fazer ir à frente em uma corrida tão mais abstrata quanto mais parece existente em números ou em dados. Mas uma ação que resulte em algumas inversões e que trate do óbvio com o espanto do novo - e sempre nesse caminho. Não exaltar o novo de forma vulgar e leviana, a novidade não é aparição, mas desvelamento.
Esse pensamento, estranhamente, me parece ter chão. Não me parece válido por qualquer motivo, nem por qualquer razão - a razão não o ilumina em qualquer seara, não o valida por qualquer joguete de lógica intrincada. Ele urge a partir de onde pode infiltrar-se, pungir e fazer pensar igual (ou distinto). Ele viaja a partir de um ponto: esse há de ser seguro e, de certa forma, percebido de antemão. Como se estivesse comprometido desde o seu (meu) nascimento. E por isso decidi tão fortemente pelo pensar, por ser desde um lugar, que não é assim, tão geográfico e tão calculável, mas uma situação, uma conjuntura, um devir específico que a mim me toca e que, por ser assim, tão de dentro compreendido por mim, é daí que devo saltar, e daí que devo pescar o óbvio e fazê-lo pensar. Nunca achei que fosse dizer isso, mas meu pensar é mais pensar quando estou no meu lugar.
8.26.2009
Sigo me assustando. Não está aí para o meu controle, essa coisa de ser tempo. De sermos ele e, dei-me conta, só ele. Ao tentar manipulá-lo, já fracasso. Preciso ser todo, e não ser nem um pouco aquilo que não é da sua ordem. Deixar-me no seu espaço, assim flácido, elástico, assim tão pouco sólido. De sólido já há tanto! Que tudo mais esteja para além do meu domínio. É um trabalho da memória, essa que se coloca para adiante e me deixa torpe ao já ser meu passado imaginado. Pergunto-lhe quem poderia ser? Impressiono-me sempre quando me vem tão alheio ao que poderia ter pensado. O tempo não se pensa. Fico num estado de pura euforia vazia. Quero preencher-lhe os buracos, mas com isso me ponho num trabalho estúpido, em vão. Necessito adentrá-lo com menos cuidado. Não tomar conta das palavras: não se trata de palavras. Trabalho árduo de não trabalhar, quando tudo me põe assim, num estado produtivo. Besta produtividade. Essa mascara um outro lado: o de não haver lados a serem mascarados. Vai-se sendo tempo toda vida.
8.22.2009
Para não me repetir demasiado, pus-me no deslocamento.
Tomei um avião e atravessei muitos mil quilômetros.
Mas, ah, que equívoco!
A viagem serve pra voltar.
Percebi que o pensamento (corpo) não necessita se deslocar no espaço a tantas léguas. Basta olhar quieto e seguir um certo movimento sutil. Não prescinde do espaço: só que não é tão literal e tão óbvio. É um espaço outro, menos afeito às turbinas dos aviões e aos trilhos dos metrôs. Mas colado a mil outras coisas, assim, em encantamento, muito distanciado do espanto fácil do novo.
Tomei um avião e atravessei muitos mil quilômetros.
Mas, ah, que equívoco!
A viagem serve pra voltar.
Percebi que o pensamento (corpo) não necessita se deslocar no espaço a tantas léguas. Basta olhar quieto e seguir um certo movimento sutil. Não prescinde do espaço: só que não é tão literal e tão óbvio. É um espaço outro, menos afeito às turbinas dos aviões e aos trilhos dos metrôs. Mas colado a mil outras coisas, assim, em encantamento, muito distanciado do espanto fácil do novo.
8.10.2009
8.09.2009
Há dias para se escrever. Não escrever o dia, descrevê-lo, elogiá-lo ou narrá-lo. A escrita funciona como uma extensão de um vazio, assumindo sempre que esse espaço não será ocupado. Não seria sequer um espaço, mas um impulso. Não se escreve para preencher um vazio. Isso é tarefa frustrada - ou, quem sabe, escrita frustrada. Eu, em palavras não-lidas, escrevo como para estender um estado, fazê-lo existir, ou existir nele com mais presença. Como uma percepção, lampejo que é quase material. Escrevo, então. Não são bem as palavras, muito menos as imagens que elas podem evocar. Deve haver em algum lado uma meia-fase, onde se consiga encontrar alguma coisa tão própria da palavra, além do seu som e aquém do seu significado. É disso que se trata, ao menos para mim, esse estado de escrita. Fico horas remoendo uns pensamentos difusos, alguns estados latentes, umas inclinações esparramadas: são essas as horas das palavras. E, apesar de tudo, já parto de um engano rotundo. Pois sim, estão aí símbolos enfileirados, prontos para serem decodificados em significados. O bom seria fazer dançar essas estabilidades.
Contudo, já tenho alguma resposta. A palavra é minha. Essa, em português. Estando rodeado de tantas outras, flutuo num sem-chão. Hoje senti o português brotar no meu pensamento, pulular na minha boca. Não queria japonês, nem espanhol, nem inglês. Para poder retirar a palavra da sua certeza com alguma graça, necessito antes sabê-la toda minha, dentro de um território seguro. Tenho relação certa com essas que me trazem afeto, o português que me moveu por anos e que faz alguma ponte da visão com a minha imaginação. Só me dei conta aqui. Leio Guimarães Rosa, Fernando Pessoa e Saramago, em pleno Japão, e eles me parecem quase metafísicos, de tanto que compreendi - creio - o pathos de uma língua.
E por isso hoje senti que devia escrever. Por ter percebido que, em português, escrevo muito mais do que para comunicar. Necessidade de escrever sem descrever.
Contudo, já tenho alguma resposta. A palavra é minha. Essa, em português. Estando rodeado de tantas outras, flutuo num sem-chão. Hoje senti o português brotar no meu pensamento, pulular na minha boca. Não queria japonês, nem espanhol, nem inglês. Para poder retirar a palavra da sua certeza com alguma graça, necessito antes sabê-la toda minha, dentro de um território seguro. Tenho relação certa com essas que me trazem afeto, o português que me moveu por anos e que faz alguma ponte da visão com a minha imaginação. Só me dei conta aqui. Leio Guimarães Rosa, Fernando Pessoa e Saramago, em pleno Japão, e eles me parecem quase metafísicos, de tanto que compreendi - creio - o pathos de uma língua.
E por isso hoje senti que devia escrever. Por ter percebido que, em português, escrevo muito mais do que para comunicar. Necessidade de escrever sem descrever.
No canto esquerdo inferior, uma data: 31/3/2009, 23h37. Detalhado até os minutos. Salteando pela memória, achei uma imagem assim, escura, noturna, gente relaxada conversando, bebendo. Todos absolutamente entretidos com suas vidas. É uma rua, há uma marquise e luz branca que ilumina uma faixa da fotografia. Há um senhor, pernas cruzadas, tronco levemente inclinado para a sua esquerda. Ele fala e pouco gesticula. Sugeriria que ouve mais do que pronuncia. Observa com atenção. É terça-feira e deu-se ao direito de ir tomar uma cerveja no bar da esquina.
Na imagem, uma esquina. Ocupada, gente conversando. Gente e esquina (repito algumas vezes o par). A memória não me falha na imagem. Sobreponho imagem e imaginação, e olho para frente, através da janela. A diferença é abrupta e me ponho absorto em pensamentos tão óbvios que me causam pena de mim mesmo. "Que ridículo!". Tenho a imagem pra me dar conta, pra não me esquecer. Do pátio imenso e largo que é, minha memória me coloca tão mais nesse presente que se arrasta com o calor úmido dos dias.
Para isso, a palavra não basta. Tampouco a imagem. Sigo tentando uma instalação segura no intervalo entre as duas coisas. Ai, que bom seria poder. Da varandinha, empurro os pensamentos pra longe, num método estranho da vontade de dizer o indizível. E, ademais, a quem?
Saudades desse devir imperceptível.
8.03.2009
A escada era de mármore e exalava um cheiro entre nauseante e muito agradável. O hall de entrada - uma pequena área, antes um vestíbulo - também tinha seu piso todo de mármore, que se estendia pelos três lances de escada. A pedra branca tinha umas pequenas rachaduras, e compunha um padrão xadrez com as placas de pedra preta que se intercalavam. Sempre que passava do portão da rua e aí entrava, o cheiro tão forte me lembrava algo próximo de um açougue para, no momento seguinte, transformar-se em um aroma de pedra refrescante, que me dava muito prazer. Talvez, acima de tudo, o prazer de estar de volta. Sempre era recebido nas minhas chegadas pelos degraus brancos. Não importava o calor da rua, nunca era desagradável voltar para casa.
7.18.2009
Um hábito estranho. Podem achar doente, que seja. Mas tem um pedaço desse mundo virtual - vasto, porém cheio de vícios, caminhos repetidos - que não me canso de visitar e revisitar. Ele nunca - nunca! - vai mudar. Nem uma letra a mais, nem uma vírgula a menos. Fica ali, perene, sólido, cheio de incertezas que nunca vão se resolver. É como se tivesse preso ali, naquela tela, naquelas cores escolhidas, fontes, números, dados de html. Um pedaço de tempo que estancou em uma fórmula, um espaço fechado a sete chaves, que conserva seu ar intacto ali dentro. E uma voz, tão viva, que me chega aos ouvidos quando por ali resolvo passar. Não digo que há frequência notável: a cada três meses, quando muito, me pego olhando pras suas frases encadeadas. Como se eu pudesse experimentar uma presença estranha, que já há muito é ausência. Não pensem nada sobre mim, não estou com nada, nem passando por nenhum problema. Gosto de ouvir seus pensamentos, às vezes límpidos, às vezes confusos. Só isso. A nostalgia não é tão determinante quanto o real interesse pelo presente daquele texto. É uma mágica da internet: fica-se sempre. Novas configurações de memória, diria o título de alguma tese de doutorado. Eu digo: alguma humanidade que salva a literatura, o texto, a palavra escrita, a porcaria que é a internet, em geral. Então fico lendo. Pouco a pouco, pra que me reste o que descobrir da próxima vez. Percebo que podia ter ouvido mais da sua própria boca, mas lembro que às vezes não é possível se entender as coisas enquanto estão acontecendo. É preciso algum tempo, decantamento. Então, nesses passeios, a ausência se esvai, e uma presença quase latejante está aí, pronta para ser ouvida. Quase ouço essa voz que não se ouve há tanto tempo.
Não posso sentir muita coisa. E não digo que pouco me importa tudo isso, a história, minha família e todas essas coisas que me empurraram para dentro dos meus ouvidos desde que nasci. Não sou dissimulado o suficiente. Talvez lhes importem mais a quem o diz. Mas, enfim, isso a mim não importa - quem o faz e quem não. Mas de fato, não sinto tanta coisa assim. Já era de se esperar. Desde que cheguei, percebi isso: aqui nada me fala. E não há importância no fato de que fale a língua, conheça os hábitos, e até saiba do seu pensamento. Interessantes, distintos, pitorescos e surpreendentes. Emocionantes e familiares são adjetivos muito forçados. A narrativa não vai tão longe, posso garantir. Quem inventou a balela de encontro de raízes estava certamente tão fascinado com a História de um Si transcendente que não pôde se lembrar que historietas são mais acalentadoras. Aquelas de ontem, do ano passado, de um minuto de um dia qualquer. E que o corpo é tão mais senhor da presença (e da ausência, por que não?) que ali estão memórias preciosas, que dali saem e para fora se escapam. Não me emociono, não vejo nenhum passado que seja meu em nenhum lado pra onde olhe por aqui. Não que isso seja algo ruim, mas tampouco me ponho a buscar um arroubo de profundidade metafísico-memorialista em algo que aí está, assim, que é do corriqueiro, da vida daqueles que aqui passam. E eu também aqui passo. Agora. E meu corpo não encontra acúmulo nenhum que o arrebate. Acúmulo, se há, é nele, e não por aí afora. E dele podem sair coisas novas e se reterem outras. Dele, sempre, porque, inevitavelmente é de mim que falo agora.
7.05.2009
3 meses.
Há exatos três meses, estava em algum avião, no caminho...
Em três meses, muitos anos. Muitas vidas diferentes. É impressionante como as mudanças são perceptíveis quando o tempo é contado e atentamos aos nossos humores com os sentidos bem apurados.
Pois sim, são três meses e muita coisa mudou. Já tenho meus passos que caminham sozinhos, pelas ruas que eles escolheram com o passar dos dias. Tenho assuntos e risadas espalhadas por alguns cantos da cidade, e alguns ouvidos nos quais as minhas palavras já cavaram seu caminho certo. Tenho imagens e olhos, alguns cheiros e barulhos, tenho um pouco da cidade já descascada pelas minhas passagens. Tenho passagens e paradas. Já fiz meus buracos e gastei alguns pedaços de piso das ruas e das calçadas. Tenho minhas horas, meu tempo. Já construí um tempo meu, único, e pouco afeito ao que me ensinaram quando cheguei. Tenho segundas, terças, quartas, quintas, sextas. Tenho sextas! Tenho sábados e domingos. Domigões, almoços, passeios e gente em casa. "No Japão, é assim, é assado, aqui se faz dessa forma e não da outra". Já criei minha maneira e posso manejar o meu país dentro dessa ilha. Tenho algo que aproxima de uma casa - passageira, no entanto, e isso será sempre, eu creio.
E, em três meses, também percebo o que de lá tem morada aqui. Percebo ruas de Icaraí que cismam em andar na minha memória, algumas mesas e cadeiras da Praça São Salvador, umas muretas da Urca, algumas mesas no Humaitá, o cheiro e o frescor de umas árvores em Pendotiba e o mar das praias - elas todas. E sinto ainda o suor de um sol úmido, levemente salgado. Percebo com clareza o que fica e, presente sempre, é ausência mais aguda, que vai e volta nas horas em que durmo ou me deixo sair daqui. As vozes, as risadas e os humores. Meu pensamento que flui, em português. O português que às vezes brota borbulhante, no meio de uma frase em japonês, ou em inglês, ou espanhol. A língua me dói tão fundo que às vezes me cego e me perco.
Enfim, 3 meses, e, em tão pouco tempo, tantas possibilidades de viagens. Ainda muitas outras por vir.
Há exatos três meses, estava em algum avião, no caminho...
Em três meses, muitos anos. Muitas vidas diferentes. É impressionante como as mudanças são perceptíveis quando o tempo é contado e atentamos aos nossos humores com os sentidos bem apurados.
Pois sim, são três meses e muita coisa mudou. Já tenho meus passos que caminham sozinhos, pelas ruas que eles escolheram com o passar dos dias. Tenho assuntos e risadas espalhadas por alguns cantos da cidade, e alguns ouvidos nos quais as minhas palavras já cavaram seu caminho certo. Tenho imagens e olhos, alguns cheiros e barulhos, tenho um pouco da cidade já descascada pelas minhas passagens. Tenho passagens e paradas. Já fiz meus buracos e gastei alguns pedaços de piso das ruas e das calçadas. Tenho minhas horas, meu tempo. Já construí um tempo meu, único, e pouco afeito ao que me ensinaram quando cheguei. Tenho segundas, terças, quartas, quintas, sextas. Tenho sextas! Tenho sábados e domingos. Domigões, almoços, passeios e gente em casa. "No Japão, é assim, é assado, aqui se faz dessa forma e não da outra". Já criei minha maneira e posso manejar o meu país dentro dessa ilha. Tenho algo que aproxima de uma casa - passageira, no entanto, e isso será sempre, eu creio.
E, em três meses, também percebo o que de lá tem morada aqui. Percebo ruas de Icaraí que cismam em andar na minha memória, algumas mesas e cadeiras da Praça São Salvador, umas muretas da Urca, algumas mesas no Humaitá, o cheiro e o frescor de umas árvores em Pendotiba e o mar das praias - elas todas. E sinto ainda o suor de um sol úmido, levemente salgado. Percebo com clareza o que fica e, presente sempre, é ausência mais aguda, que vai e volta nas horas em que durmo ou me deixo sair daqui. As vozes, as risadas e os humores. Meu pensamento que flui, em português. O português que às vezes brota borbulhante, no meio de uma frase em japonês, ou em inglês, ou espanhol. A língua me dói tão fundo que às vezes me cego e me perco.
Enfim, 3 meses, e, em tão pouco tempo, tantas possibilidades de viagens. Ainda muitas outras por vir.
6.18.2009
Passam, os dias e as horas. Assim, os pensamentos. Aos poucos, vou chegando em Kyoto. Mesmo que de lá, do outro lado do oceano, creio que nunca tenha saído de verdade.
O tempo é tão ligeiro, amacia o espanto e vai fazendo as coisas acontecerem. Ainda sinto falta do tempo que não passava jamais, de quando não olhávamos pra ele. "Olha aqui, na minha cara", ele esperneava. Não sei por que, mas hoje escuto sua voz, sussurrando como uma brisa no meu ouvido. Abro os olhos e o dia ensolarado me traz alguma boa memória. Sinto falta daquele tempo, ignorado. Era uma mágica suprema, aconchegante e recheada de bons encontros. Agora, na memória, sou muitas saudades. Não tem muito jeito, nasci no meio de tanta coisa inexistente, imaginação tão cheia de reentrências, protuberâncias, escorregos e rebuscamentos; nasci já sentido saudade, eu creio. Coisa esquisita, diriam alguns. Pra mim, sempre que estou, percebo o quanto estive, estiveram, estivemos. O tempo de hoje me assombra, sempre. Desde ontem, quando acordei no meio daquela luz branca e quentinha, debaixo da coberta do meio-dia. Gosto de chá, cabo de guarda-chuva, torrada com manteiga e milho quentinho. Um tempo tão maior do que eu.
O tempo é tão ligeiro, amacia o espanto e vai fazendo as coisas acontecerem. Ainda sinto falta do tempo que não passava jamais, de quando não olhávamos pra ele. "Olha aqui, na minha cara", ele esperneava. Não sei por que, mas hoje escuto sua voz, sussurrando como uma brisa no meu ouvido. Abro os olhos e o dia ensolarado me traz alguma boa memória. Sinto falta daquele tempo, ignorado. Era uma mágica suprema, aconchegante e recheada de bons encontros. Agora, na memória, sou muitas saudades. Não tem muito jeito, nasci no meio de tanta coisa inexistente, imaginação tão cheia de reentrências, protuberâncias, escorregos e rebuscamentos; nasci já sentido saudade, eu creio. Coisa esquisita, diriam alguns. Pra mim, sempre que estou, percebo o quanto estive, estiveram, estivemos. O tempo de hoje me assombra, sempre. Desde ontem, quando acordei no meio daquela luz branca e quentinha, debaixo da coberta do meio-dia. Gosto de chá, cabo de guarda-chuva, torrada com manteiga e milho quentinho. Um tempo tão maior do que eu.
6.09.2009
Imaginação da cidade
Imagino uma cidade. Ela tem luzes e árvores que se esparramam pelas ruas. À noite ela cresce e engole todos os meus pensamentos. As suas bordas são como linhas borradas - porém nítidas aos olhos atentos - que não conseguem separar o fora do dentro. Tudo ali, naquele limiar, se mistura. Uma cidade feita de bons limiares. Percorro seus caminhos com um olhar embevecido e curioso. Olhar de criança. Ela se extrapola a si mesma. Nunca pára de se criar. Imagino que tenha muitas pessoas e tanto mais esquinas. As vozes são rápidas, altas e gargalhadas. Elas carregam algo de interessante. Não consigo entender o quê, mas na minha imaginação, elas estão lá, aderidas ao seu cenário. Os cheiros são agudos - nada de meio-termo. Eles se encontram na minha frente, e perfuram o asfalto, as árvores, e as quinas rachadas do meio-fio. Chego a imaginar seus vôos entretidos, rachando aquele cimento cinza pra percorrer a matéria da cidade. É uma cidade de espaços, amplos, com pontos luminosos aqui e acolá. De manhã, ela se espreguiça toda, e estica seus braços pra fora dos seus domínios. Ela se derrama toda pela sua vizinhança, como se afagasse de leve a superfície que lhe foi atribuída. Passa a mão nos cabelos e suspira leve e satisfeita. A cidade sente a moleza da manhã e ri de si.
Imagino ter imaginado inúmeras vezes essa cidade. Na memória, essa cidade se solidifica e se decompõe, a cada oportunidade de olhar para fora. Seus penduricalhos tomam forma. Ela data de 1984, e segue nascendo por aí. Mais ou menos de dois em dois anos, depois de muito espairecer, ela ganha novamente o mapa. Espalha seus tentáculos e reabre sua temporada. "Nasceu!". A cada nascimento, posso imaginar ouvir uma música tranquila ao fundo, enquanto ouço vozes familiares, risadas de crianças e sinto o cheiro salgado de um mar azul e muito extenso. E ela chora um choro cheio de vontade, com gritos prolongados de quem inspira o primeiro ar nesse mundo. Esperneando pelos cômodos. Choro com gosto de leito fresco. Imagino seu nascimento, imagino que nasce a toda hora oportuna. Imagino nascer, quantas vezes forem boas e na medida, assim como eu.
Imagino uma cidade. Ela tem luzes e árvores que se esparramam pelas ruas. À noite ela cresce e engole todos os meus pensamentos. As suas bordas são como linhas borradas - porém nítidas aos olhos atentos - que não conseguem separar o fora do dentro. Tudo ali, naquele limiar, se mistura. Uma cidade feita de bons limiares. Percorro seus caminhos com um olhar embevecido e curioso. Olhar de criança. Ela se extrapola a si mesma. Nunca pára de se criar. Imagino que tenha muitas pessoas e tanto mais esquinas. As vozes são rápidas, altas e gargalhadas. Elas carregam algo de interessante. Não consigo entender o quê, mas na minha imaginação, elas estão lá, aderidas ao seu cenário. Os cheiros são agudos - nada de meio-termo. Eles se encontram na minha frente, e perfuram o asfalto, as árvores, e as quinas rachadas do meio-fio. Chego a imaginar seus vôos entretidos, rachando aquele cimento cinza pra percorrer a matéria da cidade. É uma cidade de espaços, amplos, com pontos luminosos aqui e acolá. De manhã, ela se espreguiça toda, e estica seus braços pra fora dos seus domínios. Ela se derrama toda pela sua vizinhança, como se afagasse de leve a superfície que lhe foi atribuída. Passa a mão nos cabelos e suspira leve e satisfeita. A cidade sente a moleza da manhã e ri de si.
Imagino ter imaginado inúmeras vezes essa cidade. Na memória, essa cidade se solidifica e se decompõe, a cada oportunidade de olhar para fora. Seus penduricalhos tomam forma. Ela data de 1984, e segue nascendo por aí. Mais ou menos de dois em dois anos, depois de muito espairecer, ela ganha novamente o mapa. Espalha seus tentáculos e reabre sua temporada. "Nasceu!". A cada nascimento, posso imaginar ouvir uma música tranquila ao fundo, enquanto ouço vozes familiares, risadas de crianças e sinto o cheiro salgado de um mar azul e muito extenso. E ela chora um choro cheio de vontade, com gritos prolongados de quem inspira o primeiro ar nesse mundo. Esperneando pelos cômodos. Choro com gosto de leito fresco. Imagino seu nascimento, imagino que nasce a toda hora oportuna. Imagino nascer, quantas vezes forem boas e na medida, assim como eu.
6.05.2009
Nhenhando, num deslim. A marcha estradeira da palavra. Cismosa, entrando em si, na meio-sonhada ruminação. Meu amigo Guimarães Rosa, aqui, nesse longe que estou, esquentando um pouco a alma com palavras quase cantadas. É impressionante como tudo fica macio quando ele escreve.
"A felicidade é o cheio de um copo de se beber meio-por-meio".
Soropita fica feliz com Doralda, lá no Ão do meio do sertão. Basta saber olhar: de dentro de cada coisa, umas cem mil palavras, que, em vez de representar, apresentam um outro modo.
Em vez de economizar, às vezes derramar aos montes pode ser outra forma de economia, tão simples quanto. Não o excesso das voltas que nunca páram, mas o adentrar do olhar nas dobras que podem ser desfolhadas de cada coisa.
Um dia haicai e outro Rosa. Assim se vai.
"A felicidade é o cheio de um copo de se beber meio-por-meio".
Soropita fica feliz com Doralda, lá no Ão do meio do sertão. Basta saber olhar: de dentro de cada coisa, umas cem mil palavras, que, em vez de representar, apresentam um outro modo.
Em vez de economizar, às vezes derramar aos montes pode ser outra forma de economia, tão simples quanto. Não o excesso das voltas que nunca páram, mas o adentrar do olhar nas dobras que podem ser desfolhadas de cada coisa.
Um dia haicai e outro Rosa. Assim se vai.
5.31.2009
O sol esquenta às vezes. Noutras, ele é como uma sombra sem o escuro. Claridade para se ver: a pele ainda trinca e a perna treme.
A comida é boa, suficiente. E a conversa flui - às vezes passa rente aos ouvidos, mas isso já pode ser bastante para se esvaziar a mente. Inúmeras vezes fico parado, fingindo ouvir as frases, sem o menor interesse no conteúdo. Concentro-me nos gestos, e no mover das minhas mãos em diração ao prato.
***
É estranho como não consigo estar aqui o tempo inteiro. Assim, estando inteiro. Uma parte sempre escapa, escorrega pela frestinha que fica aberta nas horas mais inusitadas. Escapo assim, sem ruídos, mudo num encantamento esquisito que me prende aqui, deixando-me livre para não estar quando assim não me apraz. "Mas aqui não estou", sempre me vem essa intuição.
Lá, o oposto. Desde o acordar até o dormir, a única certeza que tinha - e terei sempre, suspeito - é de que lá estou a todo momento. Vôo livre e descuidado pelos mais espaços e tempos imaginários: porque nada me prende, mas solta-me para escolher lá estar o tempo todo. Aquela sensação me apraz, como se assim, estando inteiro, só assim, pudesse estar metade, um quarto, quantos fragmentos fossem, espalhados pelo ar, na certeza de alguma unidade que os une. Como nunca acreditei na liberdade, encontro a satisfação no pertencimento: um pouquinho de mim espalhado pelo vento. Lá, na casa, não me ocupo de mim jamais. Posso ser, desse jeito, puro esquecimento - sensação única e valiosa.
A comida é boa, suficiente. E a conversa flui - às vezes passa rente aos ouvidos, mas isso já pode ser bastante para se esvaziar a mente. Inúmeras vezes fico parado, fingindo ouvir as frases, sem o menor interesse no conteúdo. Concentro-me nos gestos, e no mover das minhas mãos em diração ao prato.
***
É estranho como não consigo estar aqui o tempo inteiro. Assim, estando inteiro. Uma parte sempre escapa, escorrega pela frestinha que fica aberta nas horas mais inusitadas. Escapo assim, sem ruídos, mudo num encantamento esquisito que me prende aqui, deixando-me livre para não estar quando assim não me apraz. "Mas aqui não estou", sempre me vem essa intuição.
Lá, o oposto. Desde o acordar até o dormir, a única certeza que tinha - e terei sempre, suspeito - é de que lá estou a todo momento. Vôo livre e descuidado pelos mais espaços e tempos imaginários: porque nada me prende, mas solta-me para escolher lá estar o tempo todo. Aquela sensação me apraz, como se assim, estando inteiro, só assim, pudesse estar metade, um quarto, quantos fragmentos fossem, espalhados pelo ar, na certeza de alguma unidade que os une. Como nunca acreditei na liberdade, encontro a satisfação no pertencimento: um pouquinho de mim espalhado pelo vento. Lá, na casa, não me ocupo de mim jamais. Posso ser, desse jeito, puro esquecimento - sensação única e valiosa.
5.27.2009
Fora das expectativas habituais, o hábito ainda não lhe saiu do corpo. Ele anda pelas ruas, mas sente nos seus póros a ausência de algo que ali não se encontra.
Estranhamente, apesar de todos os clichês do novo, sentia que quanto mais se movia, mais estagnado se encontrava.
Quase compulsivamente, buscava encaixar seu corpo e seu hábito na nova forma e no novo ar que lhes eram impostos. Talvez estivesse por demais acostumado a algo que lhe seria muito peculiar. Aquela alegria toda não pode ser achada em qualquer canto. Mas seria então aquele o canto que lhe aprazia: ali deveria estar, não importassem as condições.
Não via a hora de se mover novamente...
Estranhamente, apesar de todos os clichês do novo, sentia que quanto mais se movia, mais estagnado se encontrava.
Quase compulsivamente, buscava encaixar seu corpo e seu hábito na nova forma e no novo ar que lhes eram impostos. Talvez estivesse por demais acostumado a algo que lhe seria muito peculiar. Aquela alegria toda não pode ser achada em qualquer canto. Mas seria então aquele o canto que lhe aprazia: ali deveria estar, não importassem as condições.
Não via a hora de se mover novamente...
5.10.2009
Domingo Nostálgico
Retirado de um distante texto de uma distante Juju, nos idos de 2007, nos confins de uma Alemanha quase Japão:
"Quero saber de amanhã, não quero saber de oceano. Quero Dezembro e Carnaval. Nunca achei que fosse querer isso."
Só temos soluções, sempre. E elas sempre vêm acompanhadas de tantas coisas: penduricalhos bons, feitos de boas, extensas, profundas, rasas e macias palavras, abraços e afetos. Corremos atrás o tempo todo dos problemas (eu sei que isso pode parecer clichê, mas é essa a impressão do momento).
*
As cidades em mim
A cidade aqui funciona como um mecanismo correto. As pessoas vestem ternos, trabalham de manhã até à noite. Embriagam-se e ficam felizes para pegar o trem e voltar no dia seguinte. As meninas e os meninos se vestem impecáveis. Andam com seus celulares à mão. Comunicam-se intensamente até o momento em que se encontram. Agradecem, desculpam-se, escondem-se embaixo dos seus cabelos complexos e empinados. Os carros andam na velocidade esperada, param no sinal, continuam, nunca estacionam (aonde vão todos eles quando não estão em movimento?). Os prédios - perfeitos como todo o resto - ao cair da noite, colocam suas roupas contemporâneas e deixam deslizar os letreiros, as imagens, as grandes placas de luzes - azuis, vermelhas, brancas, amarelas. As lojas vendem, as pessoas compram. Elas fumam nos lugares permitidos e desculpam-se quando se esbarram. Elas quase nunca se esbarram - mas são tantas! (Como conseguem?).
A grande máquina perfeita.
Enquanto isso, do outro lado, um sobressalto e outro do grande caos urbano: a máquina se lembra de que é máquina. Nos intervalos - longos e expansivos - as pessoas respiram com apuro, olham bem pras outras, e sentam na mesa pra bater um papo. Estão na máquina desnudada: tempo suficiente para se esquecerem e se enredarem.
A máquina é ótima, mas ela pode se desmantelar toda naquela mesa de bar. Assim é possível juntar novamente suas peças e contruir um novo mecanismo. Em mim, não aparo as arestas, nunca: deixo elas se colidirem e encontrarem seu encaixe. (Talvez por isso eu prefira o Rio).
Retirado de um distante texto de uma distante Juju, nos idos de 2007, nos confins de uma Alemanha quase Japão:
"Quero saber de amanhã, não quero saber de oceano. Quero Dezembro e Carnaval. Nunca achei que fosse querer isso."
Só temos soluções, sempre. E elas sempre vêm acompanhadas de tantas coisas: penduricalhos bons, feitos de boas, extensas, profundas, rasas e macias palavras, abraços e afetos. Corremos atrás o tempo todo dos problemas (eu sei que isso pode parecer clichê, mas é essa a impressão do momento).
*
As cidades em mim
A cidade aqui funciona como um mecanismo correto. As pessoas vestem ternos, trabalham de manhã até à noite. Embriagam-se e ficam felizes para pegar o trem e voltar no dia seguinte. As meninas e os meninos se vestem impecáveis. Andam com seus celulares à mão. Comunicam-se intensamente até o momento em que se encontram. Agradecem, desculpam-se, escondem-se embaixo dos seus cabelos complexos e empinados. Os carros andam na velocidade esperada, param no sinal, continuam, nunca estacionam (aonde vão todos eles quando não estão em movimento?). Os prédios - perfeitos como todo o resto - ao cair da noite, colocam suas roupas contemporâneas e deixam deslizar os letreiros, as imagens, as grandes placas de luzes - azuis, vermelhas, brancas, amarelas. As lojas vendem, as pessoas compram. Elas fumam nos lugares permitidos e desculpam-se quando se esbarram. Elas quase nunca se esbarram - mas são tantas! (Como conseguem?).
A grande máquina perfeita.
Enquanto isso, do outro lado, um sobressalto e outro do grande caos urbano: a máquina se lembra de que é máquina. Nos intervalos - longos e expansivos - as pessoas respiram com apuro, olham bem pras outras, e sentam na mesa pra bater um papo. Estão na máquina desnudada: tempo suficiente para se esquecerem e se enredarem.
A máquina é ótima, mas ela pode se desmantelar toda naquela mesa de bar. Assim é possível juntar novamente suas peças e contruir um novo mecanismo. Em mim, não aparo as arestas, nunca: deixo elas se colidirem e encontrarem seu encaixe. (Talvez por isso eu prefira o Rio).
5.08.2009
5.07.2009
Da janela, umas nuvens escuras.
São 4, 5, 6, 7, 8 horas. O dia vai passando, e lá estão as nuvens escuras.
Preciso de um som, um barulho ensurdecedor.
Mas tenho apenas essas nuvens escuras. O ar é gelado, mais uma vez, e a pele trinca com as lufadas de vento.
À meia-noite, seguro a caneca de chá. Já não vejo mais as nuvens. A cidade se iluminou - mas não ficou bela.
São 4, 5, 6, 7, 8 horas. O dia vai passando, e lá estão as nuvens escuras.
Preciso de um som, um barulho ensurdecedor.
Mas tenho apenas essas nuvens escuras. O ar é gelado, mais uma vez, e a pele trinca com as lufadas de vento.
À meia-noite, seguro a caneca de chá. Já não vejo mais as nuvens. A cidade se iluminou - mas não ficou bela.
5.06.2009
Sobre o tempo
Um mês no Japão.
Na atividade do relógio, as memórias vão ficando cada vez mais consolidadas. O espírito está por aí, de carne e osso. Cada passagem finca um pouco mais fundo a memória. A imaginação da distinção entre corpo e espírito é colocada à prova todo o dia aqui: acho que existe, mas luto por que, de fato, não há. Fico na teimosia de não me deixar levar.
Diria: "estou aqui". Mas meu impulso primeiro é: "estou lá". Misturo a visão com a imaginação, e, por vezes, sinto o vento um pouco mais quente e o ar um pouco mais salgado. Hoje sonhei com Mauá ao som da voz dos amigos. O pensamento - e o espírito, e o corpo, por que não? - falam um português bonito e límpido. Quando mudo o idioma, encontro-me numa mímica estranha de mim mesmo. Porém, sempre me lembro: essa mímica ainda sou eu.
Contudo, não consigo deixar de olhar o relógio. O tempo virou meu companheiro mais íntimo: espreito-o a toda hora, e converso com ele quando estou em casa. Como se sentisse o passar dos dias no ar, nos pulmões (inspirar e expirar) e nos meus pés. Como se pudesse andar o tempo: empurrá-lo pra trás com meus passos. Aqui o tempo virou espaço. Mas, de alguma forma, fora de mim. O tempo, nesse um mês, saiu e tomou conta do que me cerca - mas não se encontra mais em mim. Então eu vejo o tempo, quase toco, mas ele não me toca.
Todo dia, ainda tenho um estranhamento: mas será que estou aqui? Parece algo ilusório, uma brincadeira estranha. Como se o real tivesse ficado me esperando no Rio... Deixei o meu tempo lá, deitado na minha cama, andando pelas ruas. Aqui ele passa na minha frente, ao meu lado, rebate. Eu o empurro: quero meu tempo, mas ele se encontra tão longe...

(Joaquim Távora, Icaraí)
Dormindo, descansando e tomando sol.
Um mês no Japão.
Na atividade do relógio, as memórias vão ficando cada vez mais consolidadas. O espírito está por aí, de carne e osso. Cada passagem finca um pouco mais fundo a memória. A imaginação da distinção entre corpo e espírito é colocada à prova todo o dia aqui: acho que existe, mas luto por que, de fato, não há. Fico na teimosia de não me deixar levar.
Diria: "estou aqui". Mas meu impulso primeiro é: "estou lá". Misturo a visão com a imaginação, e, por vezes, sinto o vento um pouco mais quente e o ar um pouco mais salgado. Hoje sonhei com Mauá ao som da voz dos amigos. O pensamento - e o espírito, e o corpo, por que não? - falam um português bonito e límpido. Quando mudo o idioma, encontro-me numa mímica estranha de mim mesmo. Porém, sempre me lembro: essa mímica ainda sou eu.
Contudo, não consigo deixar de olhar o relógio. O tempo virou meu companheiro mais íntimo: espreito-o a toda hora, e converso com ele quando estou em casa. Como se sentisse o passar dos dias no ar, nos pulmões (inspirar e expirar) e nos meus pés. Como se pudesse andar o tempo: empurrá-lo pra trás com meus passos. Aqui o tempo virou espaço. Mas, de alguma forma, fora de mim. O tempo, nesse um mês, saiu e tomou conta do que me cerca - mas não se encontra mais em mim. Então eu vejo o tempo, quase toco, mas ele não me toca.
Todo dia, ainda tenho um estranhamento: mas será que estou aqui? Parece algo ilusório, uma brincadeira estranha. Como se o real tivesse ficado me esperando no Rio... Deixei o meu tempo lá, deitado na minha cama, andando pelas ruas. Aqui ele passa na minha frente, ao meu lado, rebate. Eu o empurro: quero meu tempo, mas ele se encontra tão longe...
(Joaquim Távora, Icaraí)
Dormindo, descansando e tomando sol.
5.01.2009
Niterói
Para não desfacelar a face de uma cidade, aparar suas arestas. Recostar nos seus cantos, suas esquinas. Calcular os passos de vez em quando. Sair para andar, tracejar novos espaços. Desfazer, refazer, desconstruir os mapas. Pela mesma rua, em outra calçada. Cada rua tem mil calçadas. E cada calçada, outros mil caminhos.
Parar a cada minuto, virar as costas e reconsiderar as possibilidades. Fazer rotinas e desmantelá-las. Uma a cada cinco dias. Depois voltar, o tempo todo. Ouvir suas conversas e descascar as suas camadas.
"Vamos tomar um café?" Dois, três. Quantos cigarros forem necessários. Depois percorrer os seus vincos todos. Aqueles viciados e aqueles renovados. Adentrar a noite.
Sem surpresas, mas um frescor de brisa de fim de tarde.
Não devemos plastificar as experiências.
***
Em Kyoto, percebo Niterói.
Estranha essa sensação.
Coletei cinco imagens na internet, mas nenhuma é Niterói. Todas mentem ao dizer serem.
Para não desfacelar a face de uma cidade, aparar suas arestas. Recostar nos seus cantos, suas esquinas. Calcular os passos de vez em quando. Sair para andar, tracejar novos espaços. Desfazer, refazer, desconstruir os mapas. Pela mesma rua, em outra calçada. Cada rua tem mil calçadas. E cada calçada, outros mil caminhos.
Parar a cada minuto, virar as costas e reconsiderar as possibilidades. Fazer rotinas e desmantelá-las. Uma a cada cinco dias. Depois voltar, o tempo todo. Ouvir suas conversas e descascar as suas camadas.
"Vamos tomar um café?" Dois, três. Quantos cigarros forem necessários. Depois percorrer os seus vincos todos. Aqueles viciados e aqueles renovados. Adentrar a noite.
Sem surpresas, mas um frescor de brisa de fim de tarde.
Não devemos plastificar as experiências.
***
Em Kyoto, percebo Niterói.
Estranha essa sensação.
Coletei cinco imagens na internet, mas nenhuma é Niterói. Todas mentem ao dizer serem.
4.26.2009
Da varanda, vejo a cidade se resfriar toda, recolhendo-se como um papel molhado ao secar sob o sol. Mas não há sol. Nem um vestígio. Uns sons avulsos de carros. Um choro de um corvo. Gritaria de crianças. Como se estivessem o tempo inteiro a cortar o todo que ainda não toco. O ar é limpo e o céu é branco e cinza até onde se vê. Venta muito.
Entre um e outro corte, escuto alguns ecos fortes. Sem pensar, chego a sentir o sol batendo sobre a pele. Algumas vozes macias chegam aos ouvidos. Assim, sem pensar, consigo fazer a volta e olhar pra dentro daquela luminosidade. Amarela e azul, amarela e azul. Sinto outros cheiros e minha mão chega a se desdobrar em centenas de dedos, refestelados sobre a superfície macia da cama matinal.
De um a outro, num soluço, volto a estar de pé. Varanda seca e céu molhado. O papel já se encolhe quase ao tamanho de uma poeira.
Entre um e outro corte, escuto alguns ecos fortes. Sem pensar, chego a sentir o sol batendo sobre a pele. Algumas vozes macias chegam aos ouvidos. Assim, sem pensar, consigo fazer a volta e olhar pra dentro daquela luminosidade. Amarela e azul, amarela e azul. Sinto outros cheiros e minha mão chega a se desdobrar em centenas de dedos, refestelados sobre a superfície macia da cama matinal.
De um a outro, num soluço, volto a estar de pé. Varanda seca e céu molhado. O papel já se encolhe quase ao tamanho de uma poeira.
4.23.2009
4.15.2009
4.12.2009
"Tudo isso se tornou parte da minha vida; não poderia deixar tudo sem chorar, sem compreender que, por mau que me parecesse, era parte de mim ficar com eles todos, que o separar-me deles era metade e semelhança da morte" (Fernando Pessoa)
Na Rua Joaquim Távora, assim como na Rua dos Douradores.
*
Assim, olhando pro relógio, percebeu que estamos metade fora e metade dentro do tempo. Sempre dessa forma: inteiro é impossível, dir-lhe-ia qualquer um de bom senso.
"Como se inscrever numa nova situação?"
O novo acalanta o velho de uma forma quase cruel. Não numa dialética, mas sincronicidade impressionante.
Estando aqui, caminhava os passos de lá: na beira da estação de trem, mergulhou o pé na água do mar salgado e verde que remexia com as ondas da Baía de Guanabara.
Na Rua Joaquim Távora, assim como na Rua dos Douradores.
*
Assim, olhando pro relógio, percebeu que estamos metade fora e metade dentro do tempo. Sempre dessa forma: inteiro é impossível, dir-lhe-ia qualquer um de bom senso.
"Como se inscrever numa nova situação?"
O novo acalanta o velho de uma forma quase cruel. Não numa dialética, mas sincronicidade impressionante.
Estando aqui, caminhava os passos de lá: na beira da estação de trem, mergulhou o pé na água do mar salgado e verde que remexia com as ondas da Baía de Guanabara.
3.28.2009
3.15.2009
Estrebuchar
Chafurdar
às vezes as palavras prescindem do seu significado.
Hoje de manhã, acordei tão bem disposto, que estrebuchei um pão com queijo minas delicioso, enquanto a luz do sol chafurdava nos meus pensamentos.
O estrebucho ficou preso ali na porta da sala. Não chafurda demais, senão ele pode acabar soltando e quebrando o vidro da mesa.
Chafurdar
às vezes as palavras prescindem do seu significado.
Hoje de manhã, acordei tão bem disposto, que estrebuchei um pão com queijo minas delicioso, enquanto a luz do sol chafurdava nos meus pensamentos.
O estrebucho ficou preso ali na porta da sala. Não chafurda demais, senão ele pode acabar soltando e quebrando o vidro da mesa.
3.10.2009
Atividade de esvaziar sem estagnar
Diante da cidade
por sobre. sob. entre. dentro. fora.
de todos os afetos
Antes de ver e depois de ouvir
(sem falar)
Diante da multidão de ausências
madrugada
e as horas que passam
passam e páram e acenam com a luz amarela de poste
As pessoas tão assim
entretidas em si
Diante da miríade incomensurável
de camadas secas e molhadas
dos espaços que trepam
uns sobre os outros
Caminhos possíveis
eu, o outro
Diante.
Mergulhou
num fôlego do tamanho da sua memória
tentou escrever a saudade e a presença e a ausência
Mas não se trata de escrever. Nunca. Nem de ver. Muito menos isso! Nem ouvir, nem representar.
Esteve um pouco. Recostou e existiu por quatro tempos de um silêncio que espalhou pela superfície.
Dos olhos. Do asfalto das ruas. Do cinza do azulejo. Do azul metálico do carro a 100km/h. Das vozes queridas.
Assim é a cidade. Assim terá que ser.
Diante da cidade
por sobre. sob. entre. dentro. fora.
de todos os afetos
Antes de ver e depois de ouvir
(sem falar)
Diante da multidão de ausências
madrugada
e as horas que passam
passam e páram e acenam com a luz amarela de poste
As pessoas tão assim
entretidas em si
Diante da miríade incomensurável
de camadas secas e molhadas
dos espaços que trepam
uns sobre os outros
Caminhos possíveis
eu, o outro
Diante.
Mergulhou
num fôlego do tamanho da sua memória
tentou escrever a saudade e a presença e a ausência
Mas não se trata de escrever. Nunca. Nem de ver. Muito menos isso! Nem ouvir, nem representar.
Esteve um pouco. Recostou e existiu por quatro tempos de um silêncio que espalhou pela superfície.
Dos olhos. Do asfalto das ruas. Do cinza do azulejo. Do azul metálico do carro a 100km/h. Das vozes queridas.
Assim é a cidade. Assim terá que ser.
3.02.2009
Atividade de um cheirador
Quanto de espaço sobra depois de aspirar com as narinas todas as ruas da cidade?
Como o drogado cheira sua carreirinha, ele passou a se dedicar, dia-a-dia, a puxar para os pulmões as ruas e quarteirões de que sentiria mais falta.
As esquinas ficariam, quem sabe, pra última semana. Essas seriam demasiado pesadas pra um sorver corriqueiro.
Mas, afinal, quanto de espaço sobraria?
Quanto de espaço sobra depois de aspirar com as narinas todas as ruas da cidade?
Como o drogado cheira sua carreirinha, ele passou a se dedicar, dia-a-dia, a puxar para os pulmões as ruas e quarteirões de que sentiria mais falta.
As esquinas ficariam, quem sabe, pra última semana. Essas seriam demasiado pesadas pra um sorver corriqueiro.
Mas, afinal, quanto de espaço sobraria?
2.26.2009
Quarta cinzenta
Primerias despedidas.
Carnaval: como não sei quando acontece de novo (pra mim), achei que devia deixar registrado que o carnaval no Rio é sempre muito bom... cativa assim que começa...
Sempre reclamo uma semana antes, e sinto falta uma depois.
Todos do mundo deveriam passar por uma experiência aproximada. E uma cidade devia sempre poder ser outra, nem que seja por alguns dias, como acontece aqui.
Como uma intervenção coletiva, sem utilitarismo e ideologia: a mais pura reocupação estética dos espaços.
Primerias despedidas.
Carnaval: como não sei quando acontece de novo (pra mim), achei que devia deixar registrado que o carnaval no Rio é sempre muito bom... cativa assim que começa...
Sempre reclamo uma semana antes, e sinto falta uma depois.
Todos do mundo deveriam passar por uma experiência aproximada. E uma cidade devia sempre poder ser outra, nem que seja por alguns dias, como acontece aqui.
Como uma intervenção coletiva, sem utilitarismo e ideologia: a mais pura reocupação estética dos espaços.
2.11.2009
2.04.2009
Sobre melancolia e escrita
Mais uma vez, roubando ímpeto de outros lugares.
Pois disse ele - ou deixou implícito - que para se escrever é necessária a melancolia. De onde vem a melancolia?, perguntaria-lhe. Do espaço, do tempo, ou de uma transcendência? Do mesmo lugar de onde vem a escrita?
Enquanto trabalho na tese, percebo que podemos montar a melancolia. Assim, talvez, questionasse-lhe: "ela não pode vir de um palco?". A performance da escrita é a mesma performance da melancolia. Assim como a da alegria, talvez. Performance, que, obviamente, não é menos nem mais imanente que qualquer outra coisa - porque não é menos nem mais verdadeira.
E, quem sabe, não esteja aí a grande chave da escrita. Pode-se performar o real, o falso e todos os pathos de uma só vez.
Num quarto de hotel, em Itajubinha do Norte, certa vez, estive escrevendo sobre o inverno de Paris de 1946, pouco após o fim dos bombardeios. Disse como andavam felizes as moças, com seus chapéus alongados e seus lenços cobrindo o nariz quando passavam pelo mal-cheiro do esgoto ainda a ser refeito. Na grande alegria que me tomava naquele verão na pequena cidade litorânea baiana, consegui ser melancólico como um ex-combatente de guerra sentado num café, olhando o capitalismo emergente na Tóquio de 1967.
A minha melancolia, no entanto, me propôs uma viagem de verão à beira do mar de Honolulu, quando estava sozinho sobre a terra evacuada do campo de refugiados em Kosovo, lá pelos idos da década de 1990. Não como um remédio ao presente - nem como uma fuga - talvez como possibilidade de escrita mesmo. Presente da linguagem. Assim, enquanto catava os restos da minha casa, consegui descrever com precisão o frescor do coco que sorvia a pequenos goles sentado na beira da piscina no Copacabana Palace.
Posso também estar melancólico e efusivo, ao mesmo tempo. Talvez essa seja a maior felicidade. Nesses dias, escrevo um haicai para subtrair-me do mundo. Esse aqui, escrevi por volta do século XVII, imaginando ser Matsuô Bashô:
ossos desgastados
em minha mente
um corpo perfurado pelo vento
Não uma descrição do mundo, nem a mim mesmo - já sabemos que esse é um privilégio que nem a fotografia alcançou. Talvez a escrita seja essa possibilidade de exterioridade. (tudo culpa da minha tese...)
Mais uma vez, roubando ímpeto de outros lugares.
Pois disse ele - ou deixou implícito - que para se escrever é necessária a melancolia. De onde vem a melancolia?, perguntaria-lhe. Do espaço, do tempo, ou de uma transcendência? Do mesmo lugar de onde vem a escrita?
Enquanto trabalho na tese, percebo que podemos montar a melancolia. Assim, talvez, questionasse-lhe: "ela não pode vir de um palco?". A performance da escrita é a mesma performance da melancolia. Assim como a da alegria, talvez. Performance, que, obviamente, não é menos nem mais imanente que qualquer outra coisa - porque não é menos nem mais verdadeira.
E, quem sabe, não esteja aí a grande chave da escrita. Pode-se performar o real, o falso e todos os pathos de uma só vez.
Num quarto de hotel, em Itajubinha do Norte, certa vez, estive escrevendo sobre o inverno de Paris de 1946, pouco após o fim dos bombardeios. Disse como andavam felizes as moças, com seus chapéus alongados e seus lenços cobrindo o nariz quando passavam pelo mal-cheiro do esgoto ainda a ser refeito. Na grande alegria que me tomava naquele verão na pequena cidade litorânea baiana, consegui ser melancólico como um ex-combatente de guerra sentado num café, olhando o capitalismo emergente na Tóquio de 1967.
A minha melancolia, no entanto, me propôs uma viagem de verão à beira do mar de Honolulu, quando estava sozinho sobre a terra evacuada do campo de refugiados em Kosovo, lá pelos idos da década de 1990. Não como um remédio ao presente - nem como uma fuga - talvez como possibilidade de escrita mesmo. Presente da linguagem. Assim, enquanto catava os restos da minha casa, consegui descrever com precisão o frescor do coco que sorvia a pequenos goles sentado na beira da piscina no Copacabana Palace.
Posso também estar melancólico e efusivo, ao mesmo tempo. Talvez essa seja a maior felicidade. Nesses dias, escrevo um haicai para subtrair-me do mundo. Esse aqui, escrevi por volta do século XVII, imaginando ser Matsuô Bashô:
ossos desgastados
em minha mente
um corpo perfurado pelo vento
Não uma descrição do mundo, nem a mim mesmo - já sabemos que esse é um privilégio que nem a fotografia alcançou. Talvez a escrita seja essa possibilidade de exterioridade. (tudo culpa da minha tese...)
1.25.2009
Viu o sol batendo na pedra.
Toda a manhã, das 6h46 até meio-dia (porque depois já é tarde, aprendera). Viu, todo esse tempo, cada segundo, o sol batendo na pedra.
Ele não batia, pra falar a verdade. Antes, ele parecia se recostar sobre ela, esticar bem os braços e soltar um bocejo daqueles "ai!, que preguiça que eu tenho", como se dissesse. No seu amarelo desbotado, parecia apenas contornar as cores que já estavam lá. Amigavam-se e ternamente trocavam confissões sutis e delicadas, a pedra e o sol. Não batia, de fato.
Então, todo esse tempo, estava o sol a acariciar a pedra. Ele viu, não tirou os olhos nenhum segundo - "os olhos que a terra há de comer", diziam alguns. O sol também chegava na terra. Mas antes da terra tinha o mato, tinha as folhas secas, as formigas paradas, as formigas andando, as formigas carregando as folhas secas e as formigas descansando na sombra da pedra. A terra, essa não merecia tanto assim sua atenção - "só porque era o destino dos meus olhos?"
Em todo esse tempo, pensou muito. Ou melhor, não sabia precisar o quanto havia pensado. Talvez tivesse só olhado - e, depois, pensado. Entre pensar e olhar: qual a distância? Sem dúvidas, havia olhado incansavelmente, chegando até a ver a pedra lhe fazer um aceno, como se tomasse suco de laranja à beira da piscina. Viu até os gominhos de laranja, se movimentando ao calor daquele sol que acariciava a pedra e movimentava o suco. Viu também suor que pingava da testa da formiga que carregava a folha seca - "formiga tem testa?", pensou. Pensou pouco, realmente. Porque também não conseguia tirar os olhos das horas em que a folha seca pulava ligeiramente, voltando a pousar sobre as costas da formiga. Não, esse momento era imperdível!
Meio-dia, não era mais manhã. Olhou tanto, que se perdeu. Não nos pensamentos, mas nas horas - na parte do tempo que não é pensamento, por isso a gente se perde. Dormiu e acordou às 3 horas da tarde, a pedra já dormia calma e profundamente, e o sol já a havia traído com a copa da árvore que se regorzijava toda, enquanto dobrava a esquina da rua seguinte.
Toda a manhã, das 6h46 até meio-dia (porque depois já é tarde, aprendera). Viu, todo esse tempo, cada segundo, o sol batendo na pedra.
Ele não batia, pra falar a verdade. Antes, ele parecia se recostar sobre ela, esticar bem os braços e soltar um bocejo daqueles "ai!, que preguiça que eu tenho", como se dissesse. No seu amarelo desbotado, parecia apenas contornar as cores que já estavam lá. Amigavam-se e ternamente trocavam confissões sutis e delicadas, a pedra e o sol. Não batia, de fato.
Então, todo esse tempo, estava o sol a acariciar a pedra. Ele viu, não tirou os olhos nenhum segundo - "os olhos que a terra há de comer", diziam alguns. O sol também chegava na terra. Mas antes da terra tinha o mato, tinha as folhas secas, as formigas paradas, as formigas andando, as formigas carregando as folhas secas e as formigas descansando na sombra da pedra. A terra, essa não merecia tanto assim sua atenção - "só porque era o destino dos meus olhos?"
Em todo esse tempo, pensou muito. Ou melhor, não sabia precisar o quanto havia pensado. Talvez tivesse só olhado - e, depois, pensado. Entre pensar e olhar: qual a distância? Sem dúvidas, havia olhado incansavelmente, chegando até a ver a pedra lhe fazer um aceno, como se tomasse suco de laranja à beira da piscina. Viu até os gominhos de laranja, se movimentando ao calor daquele sol que acariciava a pedra e movimentava o suco. Viu também suor que pingava da testa da formiga que carregava a folha seca - "formiga tem testa?", pensou. Pensou pouco, realmente. Porque também não conseguia tirar os olhos das horas em que a folha seca pulava ligeiramente, voltando a pousar sobre as costas da formiga. Não, esse momento era imperdível!
Meio-dia, não era mais manhã. Olhou tanto, que se perdeu. Não nos pensamentos, mas nas horas - na parte do tempo que não é pensamento, por isso a gente se perde. Dormiu e acordou às 3 horas da tarde, a pedra já dormia calma e profundamente, e o sol já a havia traído com a copa da árvore que se regorzijava toda, enquanto dobrava a esquina da rua seguinte.
1.08.2009
Ao acaso de uma beringela, acontecidos pouco admiráveis
"Qual é o tamanho de um acontecimento?", perguntaria-lhe.
Tamanho de uma linha? Ou de um romance inteiro? A fotografia no jornal, a imagem comentada pelo noticiário da tv? O tamanho do acontecimento é um momento, tempo cronológico? Um dia? Uma noite? Uma madrugada? Tamanho de uma mesa de bar, de uma pista de dança? A extensão de uma música? Uma trepada? Um beijo fantástico?
Acontecimento é extensão? É pautado pela intenção? Pela intenção de não ser acontecimento?
Que espécie de acontecido deixa uma vida mais admirável?
Talvez, menos extensão e definitivamente fora de qualquer referencial de intenção - a "não-intenção" vive apenas pela existência prévia da intenção. Aquilo que não se pega, e que não se comunica. Assim, eu diria, adiantando-me a minha própria pergunta: incomunicável.
Também imbuscável: não se traça uma reta para se chegar a um acontecimento, nem um caminho, nem um projeto. Da ordem do que acontece, dentro do horizonte do sensível (aquilo que se sente sem se pegar, ou muito menos narrar), valorizar o acontecimento - cercá-lo de valores e significá-lo - é já matá-lo. Não se acontece por se querer que aconteça. Acontecimento é contingente e casual. Nunca, porém, causal. Andamos na rua todos os dias, e acontecemos em cada coisa e cada coisa acontece ao nosso olhar - e nosso corpo - no momento mesmo em que não os buscamos.
E não há nada de admirável nisso. (Há algo, em alguma parte?)
"Qual é o tamanho de um acontecimento?", perguntaria-lhe.
Tamanho de uma linha? Ou de um romance inteiro? A fotografia no jornal, a imagem comentada pelo noticiário da tv? O tamanho do acontecimento é um momento, tempo cronológico? Um dia? Uma noite? Uma madrugada? Tamanho de uma mesa de bar, de uma pista de dança? A extensão de uma música? Uma trepada? Um beijo fantástico?
Acontecimento é extensão? É pautado pela intenção? Pela intenção de não ser acontecimento?
Que espécie de acontecido deixa uma vida mais admirável?
Talvez, menos extensão e definitivamente fora de qualquer referencial de intenção - a "não-intenção" vive apenas pela existência prévia da intenção. Aquilo que não se pega, e que não se comunica. Assim, eu diria, adiantando-me a minha própria pergunta: incomunicável.
Também imbuscável: não se traça uma reta para se chegar a um acontecimento, nem um caminho, nem um projeto. Da ordem do que acontece, dentro do horizonte do sensível (aquilo que se sente sem se pegar, ou muito menos narrar), valorizar o acontecimento - cercá-lo de valores e significá-lo - é já matá-lo. Não se acontece por se querer que aconteça. Acontecimento é contingente e casual. Nunca, porém, causal. Andamos na rua todos os dias, e acontecemos em cada coisa e cada coisa acontece ao nosso olhar - e nosso corpo - no momento mesmo em que não os buscamos.
E não há nada de admirável nisso. (Há algo, em alguma parte?)
1.02.2009
O dono do ano
Então eles disseram que mudou o ano. Mais uma vez.
Já ele achou graça: é inescapável. Não que se permita ignorar totalmente o passar dos dias - os números que vão junto com a bateria do relógio - não, isso é impossível. Como os outros, ele tem prazos, datas e conta no banco, que enche e esvazia exatamente no compasso do calendário. Mas também não conseguiria viver acreditando na virada de algo para outra coisa diferente. Não que não vislumbrasse a mudança, mas, de fato, não aquela advinda com a passagem de um dia ao outro. Como se o momento da redenção pudesse surgir sempre, a cada 365 dias. "Já estou velho demais pra me levar por essas coisas...", diria, no tom mais espontâneo.
"Feliz ano novo", diriam-lhe (desejariam-lhe?), todas as vezes que se despedissem. Não, talvez não. "Um ótimo não-ano pra você", porventura quisesse ouvir algo assim. Não conseguia nunca formular uma frase pra preencher a demanda das felicitações desse período. Aí, lembrava-se: "não se trata de frases. Nunca".
Reservava-se sempre o direito do alívio com o fim dos festejos. Bom, 02 de janeiro já pode ser como 02 de dezembro e novembro. Voltava ao seu passar do tempo. O seu. E, tinha quase certeza, o de todos. Tempo bom, que passa e que digere as coisas mais materiais possíveis. Tempo, não números (o homem foi suficientemente ambicioso pra transformar em língua aquilo que é pura experiência).
Comeu um chocolate, tomou um vinho e acendeu um cigarro. Assim, sem mais nem menos, já era madrugada e ele foi se dando conta de que o ano é seu e de mais ninguém.
Então eles disseram que mudou o ano. Mais uma vez.
Já ele achou graça: é inescapável. Não que se permita ignorar totalmente o passar dos dias - os números que vão junto com a bateria do relógio - não, isso é impossível. Como os outros, ele tem prazos, datas e conta no banco, que enche e esvazia exatamente no compasso do calendário. Mas também não conseguiria viver acreditando na virada de algo para outra coisa diferente. Não que não vislumbrasse a mudança, mas, de fato, não aquela advinda com a passagem de um dia ao outro. Como se o momento da redenção pudesse surgir sempre, a cada 365 dias. "Já estou velho demais pra me levar por essas coisas...", diria, no tom mais espontâneo.
"Feliz ano novo", diriam-lhe (desejariam-lhe?), todas as vezes que se despedissem. Não, talvez não. "Um ótimo não-ano pra você", porventura quisesse ouvir algo assim. Não conseguia nunca formular uma frase pra preencher a demanda das felicitações desse período. Aí, lembrava-se: "não se trata de frases. Nunca".
Reservava-se sempre o direito do alívio com o fim dos festejos. Bom, 02 de janeiro já pode ser como 02 de dezembro e novembro. Voltava ao seu passar do tempo. O seu. E, tinha quase certeza, o de todos. Tempo bom, que passa e que digere as coisas mais materiais possíveis. Tempo, não números (o homem foi suficientemente ambicioso pra transformar em língua aquilo que é pura experiência).
Comeu um chocolate, tomou um vinho e acendeu um cigarro. Assim, sem mais nem menos, já era madrugada e ele foi se dando conta de que o ano é seu e de mais ninguém.
12.25.2008
Ano que vem em Kyoto
Escrever o que chega, falar o porvir. Talvez assim, imaginou, seria possível imaginar aquilo que é o mais impensável. Recebeu, em plena véspera de Natal, em e-mail confirmando a viagem que pode durar (quantos?) anos. Pensou então: tentando escrever o impensável, tornaria mais amigável uma experiência tão distante. Por que havia escolhido ir a tão longe? "Ano que vem em Kyoto". Frase esquisita, como se as palavras não se encaixassem. Viajar, mas não como ir a São Paulo, planejar um doutorado em Paris, tentar uma temporada em Nova Iorque, ver a exposição em Berlim, andar de bicicleta em Amsterdã ou ver a velha novidade de Londres. Não como isso, não como lera no jornal, escutara na internet ou imaginara ao ler o romance (Paul Auster voltou a freqüentar recentemente suas idéias). Nem mesmo como fazer uma visita curiosa e "interessada" à Índia, ver os monumentos da China, o mochilão na África: degustar, ao meu tão edificado e "de bom gosto" olhar, o sabor do outro que me apraz (o outro que eu consumo em qualquer discurso "atualizado", esclarecido, que me deixa ainda mais refinado, "interessante", "gente viajada"). Distante de fato: distante como morar fora de si. Sem o gesto acumulado no corpo (e na retina), sem a textura da imagem que aproxima, a pequena atmosfera européia (colonizada?) que envolve o pensamento desde muito tempo... "Ah, como é charmosa Lisboa, andar pelo Bairro Alto e ouvir um fado... Como passeei pelos bares de Madri, curti a noite intensa enquanto trabalhava de garçom no pub irlandês da Gran Via" - o charme, a noite, a atmosfera, reprisada nas inúmeras falas, nas inúmeras imagens que se proliferam por aí. E o pensamento? Sou francês, alemão, trágico, tropical, racional sem dúvida, trazido pela grande crítica global que me faz antes de mais nada sempre num a-partir-de. "Mas é foucaultiano ou deleuziano? Ah, sim, entendo... escutava Pink Floyd ou The Clash?" Mas do que se trata: "ano que vem em Kyoto"? O impensável, talvez, também se tratasse disso, uma pura e honestíssima diferença, aquela que se degusta com olhar estupefato de uma infinidade de possibilidades de existir que se descortinam diante de seus olhos. Assim, sem muita razão, tentou capturar aquilo que nunca esteve lá.
[E, ao final, talvez, tudo se trate de pura diferença. Quem sabe não é partindo dessa pequena suspeita que tivesse escolhido por tão longe?]
Escrever o que chega, falar o porvir. Talvez assim, imaginou, seria possível imaginar aquilo que é o mais impensável. Recebeu, em plena véspera de Natal, em e-mail confirmando a viagem que pode durar (quantos?) anos. Pensou então: tentando escrever o impensável, tornaria mais amigável uma experiência tão distante. Por que havia escolhido ir a tão longe? "Ano que vem em Kyoto". Frase esquisita, como se as palavras não se encaixassem. Viajar, mas não como ir a São Paulo, planejar um doutorado em Paris, tentar uma temporada em Nova Iorque, ver a exposição em Berlim, andar de bicicleta em Amsterdã ou ver a velha novidade de Londres. Não como isso, não como lera no jornal, escutara na internet ou imaginara ao ler o romance (Paul Auster voltou a freqüentar recentemente suas idéias). Nem mesmo como fazer uma visita curiosa e "interessada" à Índia, ver os monumentos da China, o mochilão na África: degustar, ao meu tão edificado e "de bom gosto" olhar, o sabor do outro que me apraz (o outro que eu consumo em qualquer discurso "atualizado", esclarecido, que me deixa ainda mais refinado, "interessante", "gente viajada"). Distante de fato: distante como morar fora de si. Sem o gesto acumulado no corpo (e na retina), sem a textura da imagem que aproxima, a pequena atmosfera européia (colonizada?) que envolve o pensamento desde muito tempo... "Ah, como é charmosa Lisboa, andar pelo Bairro Alto e ouvir um fado... Como passeei pelos bares de Madri, curti a noite intensa enquanto trabalhava de garçom no pub irlandês da Gran Via" - o charme, a noite, a atmosfera, reprisada nas inúmeras falas, nas inúmeras imagens que se proliferam por aí. E o pensamento? Sou francês, alemão, trágico, tropical, racional sem dúvida, trazido pela grande crítica global que me faz antes de mais nada sempre num a-partir-de. "Mas é foucaultiano ou deleuziano? Ah, sim, entendo... escutava Pink Floyd ou The Clash?" Mas do que se trata: "ano que vem em Kyoto"? O impensável, talvez, também se tratasse disso, uma pura e honestíssima diferença, aquela que se degusta com olhar estupefato de uma infinidade de possibilidades de existir que se descortinam diante de seus olhos. Assim, sem muita razão, tentou capturar aquilo que nunca esteve lá.
[E, ao final, talvez, tudo se trate de pura diferença. Quem sabe não é partindo dessa pequena suspeita que tivesse escolhido por tão longe?]
12.22.2008
12.18.2008
Às vezes se está para a escrita, às vezes não se está. Ver um pouco e sentir um ventinho bom de outono tardio. Como já há muito sabido, palavras não esgotam nada, além de uma página e alguns pensamentos (será que pensar é suficiente pra algo?).
Mesmo assim, surrupiando qualquer possibilidade de dialética, persisto aqui pelas palavras naquilo que nelas não está. Talvez isso seja mais palavra do que qualquer outra coisa.
*
(será que é uma obsessão: escrever a escrita, o tempo inteiro?...)
Mesmo assim, surrupiando qualquer possibilidade de dialética, persisto aqui pelas palavras naquilo que nelas não está. Talvez isso seja mais palavra do que qualquer outra coisa.
*
(será que é uma obsessão: escrever a escrita, o tempo inteiro?...)
12.15.2008
12.04.2008
12.03.2008
Estar aqui e lá, impossibilidade.
Em mim e em todo o resto: ser quase tudo, fazendo o pouco que me cabe. Assim, como se pudesse controlar o passando de cada tempo, como se os dias fossem meus quartos.
Pensando que pensar é tudo de que se trata
- quase tudo -
esquece-se de que há sempre aquela brecha que sobra, entre coisa e coisa, entre eu e o resto todo. Aquele resquício de coisa nenhuma, imanência ou pura complacência do mundo. Não complacência por ser complacente, mas por não ser e ponto. O mundo sendo aquilo que tudo que não é - porque não é falável, nem avistável.
Talvez seja isso. Passar das horas, degustar as palavras e invisibilidades instantâneas - porque efêmeras. Fotografia, cinema, poesia e amizade. Assim, sem mais porque sempre menos. Sempre quase lá.
Em mim e em todo o resto: ser quase tudo, fazendo o pouco que me cabe. Assim, como se pudesse controlar o passando de cada tempo, como se os dias fossem meus quartos.
Pensando que pensar é tudo de que se trata
- quase tudo -
esquece-se de que há sempre aquela brecha que sobra, entre coisa e coisa, entre eu e o resto todo. Aquele resquício de coisa nenhuma, imanência ou pura complacência do mundo. Não complacência por ser complacente, mas por não ser e ponto. O mundo sendo aquilo que tudo que não é - porque não é falável, nem avistável.
Talvez seja isso. Passar das horas, degustar as palavras e invisibilidades instantâneas - porque efêmeras. Fotografia, cinema, poesia e amizade. Assim, sem mais porque sempre menos. Sempre quase lá.
12.01.2008
Palmas!
Atentando aos movimentos dos dias, às temporalidades dos espaços, e às mil bifurcações possíveis, eis que volta a escrever um amigo.
À maneira de respirar - não de organizar os pensamentos, mas torná-los algo palpável, tranformá-los em coisa, nem que sejam sons, ruídos, rabiscos - escrever pode ser necessário. Assim, sem a necessidade de embelezar, mas sim para deixar denso, transformar numa intensidade: não dizer o que há para ser dito, escrever como se fosse um momento antes de dizer, alguns diriam pensamento em estado puro, ou pode ser, quem sabe, linguagem sem a necessidade do mundo como referente (forçosamente, a lógica tem que ser interrompida).
"O prazer do texto não é necessariamente do tipo triunfante, heróico, musculoso. Não tem necessidade de se arquear. Meu prazer pode muito bem assumir a forma de uma deriva. A deriva advém toda vez que eu não respeito o todo, à força de parecer arrastado aqui e ali ao sabor das ilusões, seduções e intimidações da linguagem, qual uma rolha sobre as ondas, permaneço imóvel, girando em torna da fruição intratável que me liga ao texto (ao mundo)" (Barthes, R. "O Prazer do Texto")
Sendo assim, desrespeitoso, não no esforço hercúleo do sentido, do conclusivo e do opinativo. Os textos bons (também esses textos amigos) são assim - tanto como texto quanto como mundo - fruição intratável.
Texto sem sujeito, mas texto-mundo, que pode passar longe da referência de um "ponto de vista".
Atentando aos movimentos dos dias, às temporalidades dos espaços, e às mil bifurcações possíveis, eis que volta a escrever um amigo.
À maneira de respirar - não de organizar os pensamentos, mas torná-los algo palpável, tranformá-los em coisa, nem que sejam sons, ruídos, rabiscos - escrever pode ser necessário. Assim, sem a necessidade de embelezar, mas sim para deixar denso, transformar numa intensidade: não dizer o que há para ser dito, escrever como se fosse um momento antes de dizer, alguns diriam pensamento em estado puro, ou pode ser, quem sabe, linguagem sem a necessidade do mundo como referente (forçosamente, a lógica tem que ser interrompida).
"O prazer do texto não é necessariamente do tipo triunfante, heróico, musculoso. Não tem necessidade de se arquear. Meu prazer pode muito bem assumir a forma de uma deriva. A deriva advém toda vez que eu não respeito o todo, à força de parecer arrastado aqui e ali ao sabor das ilusões, seduções e intimidações da linguagem, qual uma rolha sobre as ondas, permaneço imóvel, girando em torna da fruição intratável que me liga ao texto (ao mundo)" (Barthes, R. "O Prazer do Texto")
Sendo assim, desrespeitoso, não no esforço hercúleo do sentido, do conclusivo e do opinativo. Os textos bons (também esses textos amigos) são assim - tanto como texto quanto como mundo - fruição intratável.
Texto sem sujeito, mas texto-mundo, que pode passar longe da referência de um "ponto de vista".
11.24.2008
11.21.2008
Um pedaço de papel, com algumas letras impressas. Nenhum palavra completa. Assim, sem mais nem menos, umas três ou quatro pequenas manchas de tinta, algum mofo e um rabisco de lápis velho. Como se não fosse nada. De dentro de sua inexpressividade apática, sorriu-me um cheiro bom, cheiro de coisa antiga, de prateleira empoeirada, profunda. Cheiro do fundo de prateleira, com livros e livros amontoados. Livros nunca abertos.
O vento bateu e fez voar esse pedaço de papel. Bateu no meu olho, pousou bem em cima do "w" no teclado do computador. Um pedaço de tempo sem tempo, tempo puro, em forma de cor amarelada, esfarelando anos e anos entre os meus dedos. Não pela palavra, mas pela própria coisa de ser papel, com letras esmaecidas, de ter sido livro, livro na prateleira, lido ou não lido, mas um dia pensado, escrito, reescrito, revisado. Um dia criação, trabalho e alguma dor de cabeça. Agora, pedaço de papel, que voa com o vento e cai em cima do meu trabalho.
Um instante de coisa pura. Sem verbo nem pensamento. Cheiro amarelo, vento manchado com tinta desbotada. Pedaço que já é inteiro.
(escrever escrever escrever... atividade absorta, mas bem prazerosa. Algum quê de diálogo em silêncio, passar a falar com as coisas e perceber nelas a sua total independência em relação a mim)
O vento bateu e fez voar esse pedaço de papel. Bateu no meu olho, pousou bem em cima do "w" no teclado do computador. Um pedaço de tempo sem tempo, tempo puro, em forma de cor amarelada, esfarelando anos e anos entre os meus dedos. Não pela palavra, mas pela própria coisa de ser papel, com letras esmaecidas, de ter sido livro, livro na prateleira, lido ou não lido, mas um dia pensado, escrito, reescrito, revisado. Um dia criação, trabalho e alguma dor de cabeça. Agora, pedaço de papel, que voa com o vento e cai em cima do meu trabalho.
Um instante de coisa pura. Sem verbo nem pensamento. Cheiro amarelo, vento manchado com tinta desbotada. Pedaço que já é inteiro.
(escrever escrever escrever... atividade absorta, mas bem prazerosa. Algum quê de diálogo em silêncio, passar a falar com as coisas e perceber nelas a sua total independência em relação a mim)
11.19.2008
11.18.2008
10.21.2008
O pedaço da imagem, um detalhe em silêncio.
A partir de um retalho, desfeito do seu resto, assim, sem muito mais.
Uns rostos pequenos, destroçados pela palavra, andando em círculos em um tempo estagnado.
Traçam o abismo da transitoriedade, perguntam a mim, "como?".
Esquecer para sempre virtualizar em gesto.
A partir de um retalho, desfeito do seu resto, assim, sem muito mais.
Uns rostos pequenos, destroçados pela palavra, andando em círculos em um tempo estagnado.
Traçam o abismo da transitoriedade, perguntam a mim, "como?".
Esquecer para sempre virtualizar em gesto.
10.02.2008
não mais falar disso ou daquilo. talvez não mais a palavra que se acerca de uma coisa. a palavra-sintoma ou a palavra-metade, incompletude.
olhar o dia azul que me instiga a escrever, não é para escrevê-lo (muito menos descrevê-lo). não para me referir ao azul do dia, tornando esse azul uma idéia vaga atrás das letras, tentando ser entrevisto por entre as frases. nem para tornar as palavras uma tentativa nula de copiar o azul tão azul do céu que me moveu a escrevê-las.
talvez para ser o próprio azul. não sê-lo na sua característica de céu azul, mas sê-lo na sua característica de palavra azul. assim, respirando as palavras [não digitando-as, nem escrevendo-as], ser palavra-azul, céu-palavra, e uma coisa outra que me foge, porque ainda tento aqui descrevê-la.
***
Fico assim, tentando apontar pra porta de saída de uma poesia relaxada e fugidia.
Porque assim se é sem ser. Sendo, dessa forma, tudo mais céu, necessariamente.
olhar o dia azul que me instiga a escrever, não é para escrevê-lo (muito menos descrevê-lo). não para me referir ao azul do dia, tornando esse azul uma idéia vaga atrás das letras, tentando ser entrevisto por entre as frases. nem para tornar as palavras uma tentativa nula de copiar o azul tão azul do céu que me moveu a escrevê-las.
talvez para ser o próprio azul. não sê-lo na sua característica de céu azul, mas sê-lo na sua característica de palavra azul. assim, respirando as palavras [não digitando-as, nem escrevendo-as], ser palavra-azul, céu-palavra, e uma coisa outra que me foge, porque ainda tento aqui descrevê-la.
***
Fico assim, tentando apontar pra porta de saída de uma poesia relaxada e fugidia.
Porque assim se é sem ser. Sendo, dessa forma, tudo mais céu, necessariamente.
9.15.2008
Vôo
não como os outros
Saudades lá de casa
espalhada pela(s) cidade(s)
[as duas]
Vôo sobre a Baía
escuto pelo telefone
a paisagem
*****
Na foto, escuto cada timbre de cada voz. As terminações de frases, entonações. Beira da praia, sol na cabeça. Uma imaginação torpe: como se sobre o mar, no caminho de areia, uma porção do mundo que inventaríamos estivesse apenas esperando a nossa inspiração. Hoje, um pouco de calmaria, agora tornada silêncio. Ainda torpes, algumas palavras, imprensadas entre sorrisos estonteantes, respirações pesadas, exuberâncias e ainda a inspiração - essa agora uma regra básica. No ar, como um corte no espaço, uma rachadura e muita profundidade - profundidade de vácuo, de pedra úmida e escorregadia, cheiro de mato e barulho de trem. Esta rachadura, ela também, imprensada. A alegria ocupando aos poucos todas as brechas: não sabemos dizer se é vazio de pensamentos ou um redemoinho de muitos sobrepostos uns aos outros. Olhamos ao lado, comemos, rimos e gritamos. Debaixo do chuveiro, sozinho, volto aos poucos ao tecido fino do cotidiano.
Habito a brecha. Se a vejo, talvez esteja ela em mim. A pedra úmida, lapidada com tanto cuidado, perdeu aos poucos o espaço para o espetáculo da alegria. Pois bem, continuamos aqui, não rimos, mas entrevemos as brechas, espalhadas pelos espaços, jogadas ao ar e pisadas pelos passos da dança alegre no meio da pista. Catamos, uma a uma: em algum momento, elas se refazem a dão um telefonema, ou mandam um e-mail.
não como os outros
Saudades lá de casa
espalhada pela(s) cidade(s)
[as duas]
Vôo sobre a Baía
escuto pelo telefone
a paisagem
*****
Na foto, escuto cada timbre de cada voz. As terminações de frases, entonações. Beira da praia, sol na cabeça. Uma imaginação torpe: como se sobre o mar, no caminho de areia, uma porção do mundo que inventaríamos estivesse apenas esperando a nossa inspiração. Hoje, um pouco de calmaria, agora tornada silêncio. Ainda torpes, algumas palavras, imprensadas entre sorrisos estonteantes, respirações pesadas, exuberâncias e ainda a inspiração - essa agora uma regra básica. No ar, como um corte no espaço, uma rachadura e muita profundidade - profundidade de vácuo, de pedra úmida e escorregadia, cheiro de mato e barulho de trem. Esta rachadura, ela também, imprensada. A alegria ocupando aos poucos todas as brechas: não sabemos dizer se é vazio de pensamentos ou um redemoinho de muitos sobrepostos uns aos outros. Olhamos ao lado, comemos, rimos e gritamos. Debaixo do chuveiro, sozinho, volto aos poucos ao tecido fino do cotidiano.
Habito a brecha. Se a vejo, talvez esteja ela em mim. A pedra úmida, lapidada com tanto cuidado, perdeu aos poucos o espaço para o espetáculo da alegria. Pois bem, continuamos aqui, não rimos, mas entrevemos as brechas, espalhadas pelos espaços, jogadas ao ar e pisadas pelos passos da dança alegre no meio da pista. Catamos, uma a uma: em algum momento, elas se refazem a dão um telefonema, ou mandam um e-mail.
8.26.2008
8.01.2008
Ficar e trabalhar em casa porporciona estímulos muito diversos: sono, curiosidade (ler coisas, internet e buscas inúteis sem fim), vontade de escrever e percepção aguçada das variações climáticas. Quase tudo isso de dentro do quarto. De vez em quando, um certo ímpeto a somente pensar: e ficar assim, pensando, sem muito objetivo. Então fico tentando pescar alguma coisa de invisível por detrás das coisas. Mas isso é o ápice da inutilidade. Quando chego a esse estágio, troco de roupa, coloco um chinelo (a variação climática dos últimos dias me permite o agradável hábito carioca do chinelo), e saio para dar uma volta.
Procuro um café perfeito: poucas pessoas, alguma luz do sol, alguma sombra, nada de movimentação consumista excessiva na minha frente, boas opções (sucos, cafés, capuccinos e refrigerantes já bastam), mesas amplas, cadeiras confortáveis, um cinzeiro prontamente entregue por um garçom solícito. Precisa também ser algo fora do habitual (só quem trabalha em casa talvez saiba como ir ao mesmo lugar pode se tornar quase uma sina), ao mesmo tempo nem tão distante do meu hábito assim (por exemplo, não posso ter um grande deslocamento: ainda se trata de um passeio rápido, frugal e descompromissado). Com todas essas considerações, definitivamente o passeio não consegue ser um relaxamento tão intenso quanto imagino.
Retorno pra casa depois de um café, um guaraná, dois cigarrinhos, e me deparo com o computador. Minha flanêurie virtual sempre precede a escrita. Invariavelmente, no entanto, retorno também às mesmas páginas, sem muita coragem de ousar. Fico frustrado, porque, incrivelmente, de um dia para o outro, nem tanta coisa mudou no mundo virtual (digo: páginas de fotos, vídeos e coisas literárias). Hoje, no entanto, retornei a um lugar que via com certa cautela há dois anos (intocado há todo esse tempo) e parei, espontaneamente, para ler as palavras e escutar suas vozes. Aquelas palavras e a sua grande estrutura de melancolia (das palavras escritas e de toda a conjuntura daquela escrita, tão caótica quanto límpida) foram, pela primeira vez, sinônimos de proximidade e um falar muito sincero de tão compulsivo. Estabeleci uma relação de escuta aberta lendo aqueles textos, como uma experiência temporal subversiva, consegui entender muita coisa e lamentar mais ainda outras.
Olhei pro sol de novo e cá estava eu a, mais uma vez, buscar o invisível por detrás das coisas. Sem inutilidade no entanto (essa palavra que existe por conta unicamente da culpa contida em cada um de nós), deleitei-me com o céu em tom pastel, o ar fresco, e aquelas palavras que conduzem para o abismo da literatura que não se pode repetir, nem se recuperar. Fiquei parado diante do que já ali estava, agora voltando a compreender que nem tudo precisa ser comunicável, às vezes, basta existir (ou ter existido) que já está valendo.
Procuro um café perfeito: poucas pessoas, alguma luz do sol, alguma sombra, nada de movimentação consumista excessiva na minha frente, boas opções (sucos, cafés, capuccinos e refrigerantes já bastam), mesas amplas, cadeiras confortáveis, um cinzeiro prontamente entregue por um garçom solícito. Precisa também ser algo fora do habitual (só quem trabalha em casa talvez saiba como ir ao mesmo lugar pode se tornar quase uma sina), ao mesmo tempo nem tão distante do meu hábito assim (por exemplo, não posso ter um grande deslocamento: ainda se trata de um passeio rápido, frugal e descompromissado). Com todas essas considerações, definitivamente o passeio não consegue ser um relaxamento tão intenso quanto imagino.
Retorno pra casa depois de um café, um guaraná, dois cigarrinhos, e me deparo com o computador. Minha flanêurie virtual sempre precede a escrita. Invariavelmente, no entanto, retorno também às mesmas páginas, sem muita coragem de ousar. Fico frustrado, porque, incrivelmente, de um dia para o outro, nem tanta coisa mudou no mundo virtual (digo: páginas de fotos, vídeos e coisas literárias). Hoje, no entanto, retornei a um lugar que via com certa cautela há dois anos (intocado há todo esse tempo) e parei, espontaneamente, para ler as palavras e escutar suas vozes. Aquelas palavras e a sua grande estrutura de melancolia (das palavras escritas e de toda a conjuntura daquela escrita, tão caótica quanto límpida) foram, pela primeira vez, sinônimos de proximidade e um falar muito sincero de tão compulsivo. Estabeleci uma relação de escuta aberta lendo aqueles textos, como uma experiência temporal subversiva, consegui entender muita coisa e lamentar mais ainda outras.
Olhei pro sol de novo e cá estava eu a, mais uma vez, buscar o invisível por detrás das coisas. Sem inutilidade no entanto (essa palavra que existe por conta unicamente da culpa contida em cada um de nós), deleitei-me com o céu em tom pastel, o ar fresco, e aquelas palavras que conduzem para o abismo da literatura que não se pode repetir, nem se recuperar. Fiquei parado diante do que já ali estava, agora voltando a compreender que nem tudo precisa ser comunicável, às vezes, basta existir (ou ter existido) que já está valendo.
7.29.2008
Tempo tempo
tanto tempo
lambendo as quinas das mesas
sorvendo as gotas nos copos
rasgando aos roupas esticadas no varal
tanto tempo
abraça meu corpo engole quase tudo
me perco
brincando de esquecer o seu domínio.
Deleitado, exibe o rosto retorcido
sorrisos estridentes mostrando aqueles dentes amarelos
corroídos
constrói seu edifício
inteiro
sobre minha ingenuidade acalentada com destreza.
Austero é ele que me impregna de tristeza
gabando-se da sua suprema existência:
"Sou poesia, intesidade e profunda beleza"
Esgotando noites a fio
desfilando meu próprio desespero
escancara meus espaços recônditos
escondidos
percebe o apagado
recoloca em mim o trágico que enterrei há muito tempo
debaixo do meu travesseiro.
Hoje engoliu meus pensamentos.
Digere pouco a pouco
enquanto suspira balançando as folhas das árvores
que vejo da minha janela.
tanto tempo
lambendo as quinas das mesas
sorvendo as gotas nos copos
rasgando aos roupas esticadas no varal
tanto tempo
abraça meu corpo engole quase tudo
me perco
brincando de esquecer o seu domínio.
Deleitado, exibe o rosto retorcido
sorrisos estridentes mostrando aqueles dentes amarelos
corroídos
constrói seu edifício
inteiro
sobre minha ingenuidade acalentada com destreza.
Austero é ele que me impregna de tristeza
gabando-se da sua suprema existência:
"Sou poesia, intesidade e profunda beleza"
Esgotando noites a fio
desfilando meu próprio desespero
escancara meus espaços recônditos
escondidos
percebe o apagado
recoloca em mim o trágico que enterrei há muito tempo
debaixo do meu travesseiro.
Hoje engoliu meus pensamentos.
Digere pouco a pouco
enquanto suspira balançando as folhas das árvores
que vejo da minha janela.
7.03.2008
"Como escrever senão sobre aquilo que não se sabe ou que se sabe mal? É necessariamente neste ponto que imaginamos ter algo a dizer. Só escrevemos na extremidade de nosso próprio saber, nesta ponta extrema que separa nosso saber e nossa ignorância e que transforma um no outro.
[...]
Suprir a ignorância é transferir a escrita para depois, ou melhor, torná-la impossível"
(DELEUZE, em Diferença e Repetição, num dos prólogos mais bonitos de se ler)
Deixo então a pergunta que me faz desesperar e acalmar, em tempos distintos e, muitas vezes, ao mesmo tempo:
Qual o tamanho do erro dos experts, talentosos e prodigiosos?
Escolher o lado da ignorância é mais prudente (e mais potente), mas talvez também mais solitário (e um interlocutor não deixa de ser o que possibilita o meu falar).
[...]
Suprir a ignorância é transferir a escrita para depois, ou melhor, torná-la impossível"
(DELEUZE, em Diferença e Repetição, num dos prólogos mais bonitos de se ler)
Deixo então a pergunta que me faz desesperar e acalmar, em tempos distintos e, muitas vezes, ao mesmo tempo:
Qual o tamanho do erro dos experts, talentosos e prodigiosos?
Escolher o lado da ignorância é mais prudente (e mais potente), mas talvez também mais solitário (e um interlocutor não deixa de ser o que possibilita o meu falar).
6.09.2008
Ainda regurgitando as ações do tempo, encontrei isso solto pela internet.
Bruno Fiuza escreveu há alguns anos atrás. Ainda que no melancólico tom juvenil, o texto veio ao encontro de uma recente questão que me tem açoitado a fraca (e desacreditada) consciência: "para quê fazer a coisa certa?"; que, logo, traz imbutida a percepção de que, enfim (o óbvio dos óbvios), não há o certo. Tomar como baliza a própria "coerência" para alcançar essa virtude (a das melhores escolhas) é tentar acreditar que não há a menor possibilidade de mudança. De tudo, ficam algumas perguntas:
(1) em que momento deixamos de perceber a nós mesmos?
(2) isso é algo que amplia (deixamos o tempo se instaurar e quebrar as auto-impostas normas do 'eu' unívoco: não há o que se descobrir), ou que apequena (descolo-me de minhas vontades, pois elas não são possíveis)?
(3) em estreita relação com a pergunta acima, Bruno, por que você parou de escrever? Lendo o seu blog, pude reafirmar a minha velha opinião de que você nunca devia parar de fazê-lo.

*****
Agora, o texto em si:
"Sábado, Janeiro 29, 2005
Carta aberta a André Keiji Kunigami
(para ler ouvindo a quarta faixa do OK Computer ou a última do The Bends)
Keiji,
descobri a máquina de fabricar cínicos. Procurávamos por isso há muito tempo, mas não o sabíamos ainda. Portanto, esta carta serve para comunicar uma dupla descoberta.
Vamos reconstruir o caminho percorrido: aos dezessete anos precisávamos passar no vestibular; não sabíamos por que, mas precisávamos. Hoje em dia é fácil responder: para conseguir um emprego, não porque queremos um emprego, mas porque queremos dinheiro. Mas dizer que o dinheiro move o mundo não é novidade nenhuma.
Conseguimos nossos primeiros empregos, e não precisamos de muito tempo para perceber que de pouco servia nosso aprendizado de faculdade. Nos sentíamos grandes merdas podendo dizer que passamos para a UFRJ, a UFF e a Uerj; até hoje não nos recuperamos do trauma.
Que trâmite estranho esse que nos obriga a frequentar um lugar que pouco ensina, mas que é o único passaporte para outro lugar onde, talvez, você consiga aprender alguma coisa. Mas mesmo esse "aprender alguma coisa" depende da boa vontade alheia. A gente se pergunta: "Caralho, eu li Kafka pra ficar fazendo coisas que até um macaco poderia fazer?". Mas essa é a pergunta errada. Na verdade, não deveria haver pergunta, apenas resposta. "Eu leio Kafka porque passo o dia fazendo coisas que até um macado poderia fazer."
Enquanto isso, as coisas vão sendo tocadas à nossa volta, por pessoas que pararam de se perguntar e se responder. O importante é cumprir o prazo.
Nem todos nasceram com genialidade, Keiji.
Podemos culpar a atriz irritante que repete o mesmo bordão no mesmo esquete humorístico(sic) dos sábados à noite na televisão? Afinal, ela está lá porque alguém quis, e ainda quer. É obrigação dela perceber a própria infelicidade e pedir as contas? Acho que a própria infelicidade a gente percebe mesmo sem querer, mas pedir as contas...
Ainda vamos aprender (e eu digo um aprender inevitável; um impulso em direção à sobrevivência) que estamos aqui pelo dinheiro.
Citando o próprio Spike Lee: "foda-se o que o Spike Lee diz". Saberemos que chegou o nosso dia quando experimentarmos pela última vez a sensação de que é errado fazer a coisa certa.
Faça a coisa errada, Keiji.
Abraço,
Bruno "
Bruno Fiuza escreveu há alguns anos atrás. Ainda que no melancólico tom juvenil, o texto veio ao encontro de uma recente questão que me tem açoitado a fraca (e desacreditada) consciência: "para quê fazer a coisa certa?"; que, logo, traz imbutida a percepção de que, enfim (o óbvio dos óbvios), não há o certo. Tomar como baliza a própria "coerência" para alcançar essa virtude (a das melhores escolhas) é tentar acreditar que não há a menor possibilidade de mudança. De tudo, ficam algumas perguntas:
(1) em que momento deixamos de perceber a nós mesmos?
(2) isso é algo que amplia (deixamos o tempo se instaurar e quebrar as auto-impostas normas do 'eu' unívoco: não há o que se descobrir), ou que apequena (descolo-me de minhas vontades, pois elas não são possíveis)?
(3) em estreita relação com a pergunta acima, Bruno, por que você parou de escrever? Lendo o seu blog, pude reafirmar a minha velha opinião de que você nunca devia parar de fazê-lo.

*****
Agora, o texto em si:
"Sábado, Janeiro 29, 2005
Carta aberta a André Keiji Kunigami
(para ler ouvindo a quarta faixa do OK Computer ou a última do The Bends)
Keiji,
descobri a máquina de fabricar cínicos. Procurávamos por isso há muito tempo, mas não o sabíamos ainda. Portanto, esta carta serve para comunicar uma dupla descoberta.
Vamos reconstruir o caminho percorrido: aos dezessete anos precisávamos passar no vestibular; não sabíamos por que, mas precisávamos. Hoje em dia é fácil responder: para conseguir um emprego, não porque queremos um emprego, mas porque queremos dinheiro. Mas dizer que o dinheiro move o mundo não é novidade nenhuma.
Conseguimos nossos primeiros empregos, e não precisamos de muito tempo para perceber que de pouco servia nosso aprendizado de faculdade. Nos sentíamos grandes merdas podendo dizer que passamos para a UFRJ, a UFF e a Uerj; até hoje não nos recuperamos do trauma.
Que trâmite estranho esse que nos obriga a frequentar um lugar que pouco ensina, mas que é o único passaporte para outro lugar onde, talvez, você consiga aprender alguma coisa. Mas mesmo esse "aprender alguma coisa" depende da boa vontade alheia. A gente se pergunta: "Caralho, eu li Kafka pra ficar fazendo coisas que até um macaco poderia fazer?". Mas essa é a pergunta errada. Na verdade, não deveria haver pergunta, apenas resposta. "Eu leio Kafka porque passo o dia fazendo coisas que até um macado poderia fazer."
Enquanto isso, as coisas vão sendo tocadas à nossa volta, por pessoas que pararam de se perguntar e se responder. O importante é cumprir o prazo.
Nem todos nasceram com genialidade, Keiji.
Podemos culpar a atriz irritante que repete o mesmo bordão no mesmo esquete humorístico(sic) dos sábados à noite na televisão? Afinal, ela está lá porque alguém quis, e ainda quer. É obrigação dela perceber a própria infelicidade e pedir as contas? Acho que a própria infelicidade a gente percebe mesmo sem querer, mas pedir as contas...
Ainda vamos aprender (e eu digo um aprender inevitável; um impulso em direção à sobrevivência) que estamos aqui pelo dinheiro.
Citando o próprio Spike Lee: "foda-se o que o Spike Lee diz". Saberemos que chegou o nosso dia quando experimentarmos pela última vez a sensação de que é errado fazer a coisa certa.
Faça a coisa errada, Keiji.
Abraço,
Bruno "
6.08.2008
Qual é o movimento oculto que se passa nas coisas? Entre ontem e hoje, tudo mudou. Só os meus olhos não perceberam.
Papo de botequim, cerveja na frente, 24 anos e (agora) já alguns dias... o movimento talvez seja tão premente que, já me colocando em outro eixo de olhar, não permite a sua percepção. Não há o movimento, mas sim um deslocamento inteiro para uma outra coisa. Sem que se deixe de ser nada, porque talvez realmente nunca tenhamos sido. Esquecer e tornar-se parte, talvez.
Claro, que não a diferença de ontem para hoje, mas numa potência infinitesimal. Nunca chegar sempre se indo.
Papo de botequim, cerveja na frente, 24 anos e (agora) já alguns dias... o movimento talvez seja tão premente que, já me colocando em outro eixo de olhar, não permite a sua percepção. Não há o movimento, mas sim um deslocamento inteiro para uma outra coisa. Sem que se deixe de ser nada, porque talvez realmente nunca tenhamos sido. Esquecer e tornar-se parte, talvez.
Claro, que não a diferença de ontem para hoje, mas numa potência infinitesimal. Nunca chegar sempre se indo.
Espero aqui, sentado, balançando as pernas, o tempo se pronunciar. Ele nunca diz nada, mas deixa suas pistas delicadamente, utilizando-se de si mesmo para enganar-nos.
Malandro de outrora, no entanto, ele já não consegue me enganar tanto assim. Foco minha vista já cansada da espera e, juntando-me à sua eterna brincadeira de esconde-esconde, instalo-me no seu trabalho e, no esforço de imaginar a sensação do invisível, consigo degustar cada aceno que me dá. Conseguimos então, assim, selar a amizade que, ao mesmo tempo, provoca o escárnio e o imenso respeito que cultivo.
Malandro de outrora, no entanto, ele já não consegue me enganar tanto assim. Foco minha vista já cansada da espera e, juntando-me à sua eterna brincadeira de esconde-esconde, instalo-me no seu trabalho e, no esforço de imaginar a sensação do invisível, consigo degustar cada aceno que me dá. Conseguimos então, assim, selar a amizade que, ao mesmo tempo, provoca o escárnio e o imenso respeito que cultivo.
5.27.2008
Perceber pouco a pouco a pequena fuligem que se deposita aqui, em cima do meu corpo. Sumir um tanto dentro dela, ir cavando o meu solo confortável, de onde olho e encontro as pessoas. Um casulo aberto e transparente, onde sopra vento e respiração de quem quiser adentrar. Ali, podendo observar os segundos, consegui parar o tempo, esquecer o ruído do relógio, habitando assim uma outra forma, um novo modo.
***
Ir a São Paulo, ao bairro da Liberdade, é sempre um tanto conflituoso. Encravado no meio daquela cidade enorme está aquele lugar que me coloca dentro da minha própria casa. Não essa em que eu moro, mas uma casa abarrotada de pessoas, cheiro de remédio e alga amassada. Meu avô comendo de palitinho fazendo muito barulho ao sorver o caldo, tocando o sino budista de manhã. Aroma de incenso queimando e barulho de idiomas misturados. Em São Paulo me deparo com uma casa que não é só minha, mas é pública, compartilhada. Não domino, existo apenas. No meio dos gritos e correria, a calma do olhar é sempre o que desfaz a má impressão.
***
Ir a São Paulo, ao bairro da Liberdade, é sempre um tanto conflituoso. Encravado no meio daquela cidade enorme está aquele lugar que me coloca dentro da minha própria casa. Não essa em que eu moro, mas uma casa abarrotada de pessoas, cheiro de remédio e alga amassada. Meu avô comendo de palitinho fazendo muito barulho ao sorver o caldo, tocando o sino budista de manhã. Aroma de incenso queimando e barulho de idiomas misturados. Em São Paulo me deparo com uma casa que não é só minha, mas é pública, compartilhada. Não domino, existo apenas. No meio dos gritos e correria, a calma do olhar é sempre o que desfaz a má impressão.
5.06.2008
Hoje a praia estava tão grande, grande como há onze anos atrás. Num espaço - coqueiros, céu azul escuro, ondas ao fundo e algumas pessoas caminhando, com pressa e com medo - uma linha (quebradiça) de acontecimentos fortuitos. Mas não os acontecimentos acontecidos, mas os existidos de alguma forma.
Por que os coqueiros impregnaram tão fortemente a imagem? Por conta do céu escuro que os escorava, num frescor de frente fria carioca, emulando alguns invernos mal-sucedidos, idas a restaurantes, livros em livrarias pequenas e abarrotadas, coca-cola com amigos, euforia de outrora. Dentro de uma inclinação à calmaria, impressionante como a mais calma das imagens pode ter como efeito o seu contrário. Ou talvez, a sua própria condição de existência.
***
Esquecer é, sem dúvida, das melhores formas de sempre se lembrar.
Não um retorno, mas uma sempre-ida que acaba transformando algo desde-sempre-igual em algo-a-todo-segundo-diferente.
Por que os coqueiros impregnaram tão fortemente a imagem? Por conta do céu escuro que os escorava, num frescor de frente fria carioca, emulando alguns invernos mal-sucedidos, idas a restaurantes, livros em livrarias pequenas e abarrotadas, coca-cola com amigos, euforia de outrora. Dentro de uma inclinação à calmaria, impressionante como a mais calma das imagens pode ter como efeito o seu contrário. Ou talvez, a sua própria condição de existência.
***
Esquecer é, sem dúvida, das melhores formas de sempre se lembrar.
Não um retorno, mas uma sempre-ida que acaba transformando algo desde-sempre-igual em algo-a-todo-segundo-diferente.
De uma forma ou de outra, estar com tantas pessoas o fez imaginar-se só. A abundância parecia-lhe excessiva e, respirando fundo, conseguia encontrar uma certa tranqüilidade na pura ausência. Não um turbilhão, mas um zunido bem enfraquecido, translúcido, amarelado e levemente refrescante. O pisar de um pé após o outro - não o verbo, nem a ação, mas algo que fica entre as duas coisas - era-lhe inspirador a ponto de conseguir alcançar uma certa instância de vazio.
Nem dizer e nem ouvir, sem egocentrismo, mas uma tentativa de só ver, o tempo todo. Não ver o espetáculo, nem o mais escondido, mas ver ali, no meio, o que mais parece óbvio: nem poesia, nem informação, uma certa latência constantemente ignorada.
Nem dizer e nem ouvir, sem egocentrismo, mas uma tentativa de só ver, o tempo todo. Não ver o espetáculo, nem o mais escondido, mas ver ali, no meio, o que mais parece óbvio: nem poesia, nem informação, uma certa latência constantemente ignorada.
4.14.2008
3.23.2008
Do meu quarto, a tela branca tornou-se o tempo. Turvo turvo.
Assim, hoje, andei por todas as possibilidades que já se apresentaram, nos últimos cinco anos em que aqui existi em palavras, imagens e frases. Cinco anos! Faz muito tempo. São tudo o que fui, o que acreditei ser, o que poderia ter sido e que vislumbrei pra mim naquele instante. Inúmeros caminhos que se descortinavam na minha frente: meu espelho que eu recortava como brincando de colagem com os colegas no jardim de infância. Cinco anos de imaginação pura, em prol de algum futuro que, hoje, percebo: ilumina-se à luz que entra da minha janela, e, com os mesmos olhos, percebo mais a calma do que fluxo.
Tento evitar a narrativa, fico com as sensações. É impressionante como somos levados pela possibilidade de uma história. Resisto, mas ainda me move - de forma quase inacreditável - a poética possível em tudo que já foi pensado e sentido. A ingenuidade de quatro anos atrás ainda reside, apagada e reprimida, mas com um desejo intenso de ação.
A potência do passado é tão sutil, aloja-se nos menores espaços, e toma o fôlego todo. Uma memória que não tem tamanho, traz-me meu corpo e meu ar de todos os tempos vividos. Chego a projetar-me um passado futuro e, com essa ínfima fresta de pensamento, sentir.
Assim, hoje, andei por todas as possibilidades que já se apresentaram, nos últimos cinco anos em que aqui existi em palavras, imagens e frases. Cinco anos! Faz muito tempo. São tudo o que fui, o que acreditei ser, o que poderia ter sido e que vislumbrei pra mim naquele instante. Inúmeros caminhos que se descortinavam na minha frente: meu espelho que eu recortava como brincando de colagem com os colegas no jardim de infância. Cinco anos de imaginação pura, em prol de algum futuro que, hoje, percebo: ilumina-se à luz que entra da minha janela, e, com os mesmos olhos, percebo mais a calma do que fluxo.
Tento evitar a narrativa, fico com as sensações. É impressionante como somos levados pela possibilidade de uma história. Resisto, mas ainda me move - de forma quase inacreditável - a poética possível em tudo que já foi pensado e sentido. A ingenuidade de quatro anos atrás ainda reside, apagada e reprimida, mas com um desejo intenso de ação.
A potência do passado é tão sutil, aloja-se nos menores espaços, e toma o fôlego todo. Uma memória que não tem tamanho, traz-me meu corpo e meu ar de todos os tempos vividos. Chego a projetar-me um passado futuro e, com essa ínfima fresta de pensamento, sentir.
3.07.2008
Sob a superfície incauta
Pensando em coisas tão indistintas quanto variadas, andando por entre os riscos do sol agradável que fazia então, ele parou e percebeu a conversa em que estava inserido. Não mais do que dois ou três segundos demorou para saber de cor todas as tonalidades de sua pele e o jeito em que moviam os músculos do rosto dela, enquanto falava animadamente. Em uma relação não muito clara, ao ver sua boca se mover e os olhos abrirem e fecharem, sentia a brisa da noite anterior, cujo céu aparecia translúcido depois da chuva tirar-lhe os resquícios de poluição. Como uma noite daquelas, noites com tom de silêncio involuntário, ela sorria, enquanto descortinava, na sua frente, todas as suas fraquezas. Tanto as dele quanto as dela.
Pensando em coisas tão indistintas quanto variadas, andando por entre os riscos do sol agradável que fazia então, ele parou e percebeu a conversa em que estava inserido. Não mais do que dois ou três segundos demorou para saber de cor todas as tonalidades de sua pele e o jeito em que moviam os músculos do rosto dela, enquanto falava animadamente. Em uma relação não muito clara, ao ver sua boca se mover e os olhos abrirem e fecharem, sentia a brisa da noite anterior, cujo céu aparecia translúcido depois da chuva tirar-lhe os resquícios de poluição. Como uma noite daquelas, noites com tom de silêncio involuntário, ela sorria, enquanto descortinava, na sua frente, todas as suas fraquezas. Tanto as dele quanto as dela.
2.23.2008
Quando acordou, abriu os olhos perto da janela. O sol branco deixava tudo meio uma coisa só. Escutava algum barulho de trânsito, enquanto queria ouvir passarinhos.
Ouvia passarinhos.
Rondava todas as manhãs por um poço tão profundo de memória que se perdia a cada início de dia. Não sonhava quase nunca - pelo menos não se recordava de nenhum sonho. Mas aqueles minutos do abrir os olhos eram sempre a comprovacão de alguma coisa que ainda estava pra descobrir. Como se de um momento para o outro, a vida pudesse passar a existir. Assim, de repente. E, da mesma forma, como se pudesse parar e respirar um pouco.
Assim que acordava estava fora do tempo, e lá a vida parecia ganhar a forma. Naqueles minutos, estava em si o tempo inteiro, e aquele intervalo (quase inexistente) parecia definir tudo que estava fora dali.
Um intervalo branco, fresco, com textura de suco gelado e boca seca. Assim se explicavam os dias inteiros.
Ouvia passarinhos.
Rondava todas as manhãs por um poço tão profundo de memória que se perdia a cada início de dia. Não sonhava quase nunca - pelo menos não se recordava de nenhum sonho. Mas aqueles minutos do abrir os olhos eram sempre a comprovacão de alguma coisa que ainda estava pra descobrir. Como se de um momento para o outro, a vida pudesse passar a existir. Assim, de repente. E, da mesma forma, como se pudesse parar e respirar um pouco.
Assim que acordava estava fora do tempo, e lá a vida parecia ganhar a forma. Naqueles minutos, estava em si o tempo inteiro, e aquele intervalo (quase inexistente) parecia definir tudo que estava fora dali.
Um intervalo branco, fresco, com textura de suco gelado e boca seca. Assim se explicavam os dias inteiros.
2.22.2008
1.21.2008
Entre um piscar e outro, ficou olhando para o foco de luz que se escondia e se revelava intermitentemente atrás das gotas de chuva que escorriam pelo vidro. O fim de tarde nublado deixava-o sempre imerso na vista da janela. Não lhe ocorria no pensamento mais do que aquilo que se apresentava na sua frente. Como se estivesse aprisionado pelo normal, espreitava as pequenas mudanças que nunca paravam de acontecer. Acontecendo o tempo inteiro, como se o acontecer era uma coisa só: deixava de acontecer. Assim, consigo, totalmente sozinho, imaginava que a comunicação era a última coisa a que se devia prestar atenção. Totalmente sozinho, a intensidade de tudo era quase concreta, matéria em que se podia tocar com os próprios dedos.
1.02.2008
O novo e o velho
(feliz 2008!)
Abrindo as folhas do caderno novo
Ele decidiu escrever palavras inéditas
O ineditismo era, no entanto, a mancha amarelada
no canto de todas as páginas de todos os cadernos
Fechou o caderno
Resolveu escrever as coisas nas coisas
Um pouco de espaço em branco
e intervalos silenciosos
preencher era pura repetição
(feliz 2008!)
Abrindo as folhas do caderno novo
Ele decidiu escrever palavras inéditas
O ineditismo era, no entanto, a mancha amarelada
no canto de todas as páginas de todos os cadernos
Fechou o caderno
Resolveu escrever as coisas nas coisas
Um pouco de espaço em branco
e intervalos silenciosos
preencher era pura repetição
12.29.2007
A Clara me passou uma maldição.
Frase da página 161
1 - procurar um livro próximo;
2 - abri-lo na página 161;
3 - procurar a quinta frase completa;
4 - postá-la no seu blog;
5 - não escolher a melhor frase nem o melhor livro;
6 - repassar a outros cinco blogs.
A minha frase:
"Mas ele não podia mais descrer da realidade do amor visto que o Próprio Deus havia amado sua alma individual com amor divino desde toda a eternidade"
(Retrato do Artista Quando Jovem, de James Joyce)
p.s.: Primeiro peguei o livro "Bartleby e companhia", de Enrique Vila-Matas, mas na página 161 só tinha frases longuíssimas, não chegando à quinta. Logo depois peguei esse. Confesso que não gostei da frase, achei muito austera, mas coloquei aqui pra respeitar o espírito da brincadeira. Também confesso que escolhi abrir algum romance por querer algo mais relaxado do que os muitos livros de teoria, filosofia etc. que me rodeiam neste momento. Me fudi, não é nem graciosamente aleatória nem uma descontração a frase que veio. Outra condição foi um livro que não me exigisse levantar da cadeira, apenas esticar o braço.
5 blogs: Marcel, Júlia, Carol, Dally e Tati.
Frase da página 161
1 - procurar um livro próximo;
2 - abri-lo na página 161;
3 - procurar a quinta frase completa;
4 - postá-la no seu blog;
5 - não escolher a melhor frase nem o melhor livro;
6 - repassar a outros cinco blogs.
A minha frase:
"Mas ele não podia mais descrer da realidade do amor visto que o Próprio Deus havia amado sua alma individual com amor divino desde toda a eternidade"
(Retrato do Artista Quando Jovem, de James Joyce)
p.s.: Primeiro peguei o livro "Bartleby e companhia", de Enrique Vila-Matas, mas na página 161 só tinha frases longuíssimas, não chegando à quinta. Logo depois peguei esse. Confesso que não gostei da frase, achei muito austera, mas coloquei aqui pra respeitar o espírito da brincadeira. Também confesso que escolhi abrir algum romance por querer algo mais relaxado do que os muitos livros de teoria, filosofia etc. que me rodeiam neste momento. Me fudi, não é nem graciosamente aleatória nem uma descontração a frase que veio. Outra condição foi um livro que não me exigisse levantar da cadeira, apenas esticar o braço.
5 blogs: Marcel, Júlia, Carol, Dally e Tati.
12.28.2007
Uma linha de força,
uma fuga
obsolescência de si mesmo.
Na foto, a imagem passada resgata a sensação do presente intenso. Enquanto sorrio e converso com o parente do outro lado da mesa, em algum dia perdido na última década, parece que me acumulo em mim mesmo até chegar ao depositório transbordante que apresenta-se hoje como 'eu'. Assim até morrer. A saturação infinita: passado esvaziado, ingênuo, com o muito-espaço-ainda-por-vir, como se as experiências já tivessem seu lugar ali reservado. Hoje, tessitura engordurada da vida e dos gestos. Muita significação. O fim, no entanto, é inexorável, mas também incalculável. E os espaços, só forma de organização.
Saio da imagem e volto-me a hoje e, incrivelmente, ao virar-me para o inapreensível, esqueço-me e pareço comigo desde que nasci. Na fotografia, um depositório, mas aqui, um sempre-sendo desde os tempos mais remotos. Presente sem futuro. O presente intenso trazido pela imagem é um já-passado, um presente em comparação, uma composição de mim para mim. Sem moldura, no entanto, posso extrapolar essas pequenas definições.
uma fuga
obsolescência de si mesmo.
Na foto, a imagem passada resgata a sensação do presente intenso. Enquanto sorrio e converso com o parente do outro lado da mesa, em algum dia perdido na última década, parece que me acumulo em mim mesmo até chegar ao depositório transbordante que apresenta-se hoje como 'eu'. Assim até morrer. A saturação infinita: passado esvaziado, ingênuo, com o muito-espaço-ainda-por-vir, como se as experiências já tivessem seu lugar ali reservado. Hoje, tessitura engordurada da vida e dos gestos. Muita significação. O fim, no entanto, é inexorável, mas também incalculável. E os espaços, só forma de organização.
Saio da imagem e volto-me a hoje e, incrivelmente, ao virar-me para o inapreensível, esqueço-me e pareço comigo desde que nasci. Na fotografia, um depositório, mas aqui, um sempre-sendo desde os tempos mais remotos. Presente sem futuro. O presente intenso trazido pela imagem é um já-passado, um presente em comparação, uma composição de mim para mim. Sem moldura, no entanto, posso extrapolar essas pequenas definições.
12.18.2007
12.07.2007
Meio enviesado, assim, meio de lado. Andando a passos largos, contido no pensamento, cortado em quatro, cinco, quantos forem os obstáculos.
Corri debaixo da chuva, cabeça molhada e pele toda ensopada. Corri extremamente parado. Correu a chuva na pele, na lente dos óculos, molhou o cigarro. Apagado, complexado, conversei poucos diálogos.
No percurso longo, demorado, vivi a espera do próximo segundo, extenuado com o entorno, calculado, previsto, obliterado em coisas sempre já vistas.
A pista e o corpo, nela refletido, contendo espasmos, impulsos dos dias mais quentes, mais atrás do presente. Detrás do sempre, o sobressalto do mais-agora. Assim, mais pra dentro, como no quarto claro que espera o sono atrasado. Assim, meio enviesado, meio de lado.
Corri debaixo da chuva, cabeça molhada e pele toda ensopada. Corri extremamente parado. Correu a chuva na pele, na lente dos óculos, molhou o cigarro. Apagado, complexado, conversei poucos diálogos.
No percurso longo, demorado, vivi a espera do próximo segundo, extenuado com o entorno, calculado, previsto, obliterado em coisas sempre já vistas.
A pista e o corpo, nela refletido, contendo espasmos, impulsos dos dias mais quentes, mais atrás do presente. Detrás do sempre, o sobressalto do mais-agora. Assim, mais pra dentro, como no quarto claro que espera o sono atrasado. Assim, meio enviesado, meio de lado.
11.19.2007
Pedaço
.
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Andou um pouco equilibrando-se no meio-fio.
Soprou o vento. Quente feito bafo vindo do forno. Era verão, e os pingos se formavam debaixo do tecido da camisa nova, saindo dos pequenos póros das costas. O rosto vermelho, irritado com o calor e a barba recém-feita. Na camisa, desenhos se formavam conforme andava: as gotas penetravam na malha e o azul ficava quase preto.
Acompanhava com os olhos o ralentado movimento eterno das nuvens. Sempre indo, parecia que estavam em um único e grandioso objetivo, mas interminável. Não se importava com as formas, mas sim com o processo. O ir, mais do que o ficar, sempre. Mas era um ir ficando: isso que atraía inevitavelmente seu olhar.
O céu era muito azul. Azul azul azul, pensava, enquanto as nuvens se encaminhavam para onde elas estavam sempre indo. Um carro passou, muito veloz, e jogou-lhe uma lufada de vento no lado esquerdo do corpo. Tombou e caiu no meio da calçada. Entre uma árvore, um banquinho dos de praça e uma pequena poça de água da chuva do dia anterior, ele ficou no chão, sentindo um pouco a ausência absoluta. Uma nuvem que passa ficando o tempo inteiro.
.
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Andou um pouco equilibrando-se no meio-fio.
Soprou o vento. Quente feito bafo vindo do forno. Era verão, e os pingos se formavam debaixo do tecido da camisa nova, saindo dos pequenos póros das costas. O rosto vermelho, irritado com o calor e a barba recém-feita. Na camisa, desenhos se formavam conforme andava: as gotas penetravam na malha e o azul ficava quase preto.
Acompanhava com os olhos o ralentado movimento eterno das nuvens. Sempre indo, parecia que estavam em um único e grandioso objetivo, mas interminável. Não se importava com as formas, mas sim com o processo. O ir, mais do que o ficar, sempre. Mas era um ir ficando: isso que atraía inevitavelmente seu olhar.
O céu era muito azul. Azul azul azul, pensava, enquanto as nuvens se encaminhavam para onde elas estavam sempre indo. Um carro passou, muito veloz, e jogou-lhe uma lufada de vento no lado esquerdo do corpo. Tombou e caiu no meio da calçada. Entre uma árvore, um banquinho dos de praça e uma pequena poça de água da chuva do dia anterior, ele ficou no chão, sentindo um pouco a ausência absoluta. Uma nuvem que passa ficando o tempo inteiro.
11.15.2007
sobre o asfalto
cheiro de chuva
pingando
atrás das peles
no verão chuva fria
meus amigos de então
contando histórias
e arremessando afeto e sorrisos
aquelas vozes, num coro
minha casa e travesseiro
o futuro que brilhava
fez-se a ponte e quebrou-se a fundação
como se, das palavras
o casco puro nas mil mãos
aspereza pela espera
cheiro de chuva
pingando
atrás das peles
no verão chuva fria
meus amigos de então
contando histórias
e arremessando afeto e sorrisos
aquelas vozes, num coro
minha casa e travesseiro
o futuro que brilhava
fez-se a ponte e quebrou-se a fundação
como se, das palavras
o casco puro nas mil mãos
aspereza pela espera
Sentado no banco da praça nublada, reconsiderou sete vezes e meia os seus pressupostos. Acreditou na descrença por 3 minutos e 49 segundos, e o mundo se lhe apareceu mudado. As coisas saindo do seu lugar, entrou numa confusão de nomeclaturas que jamais imaginou poder existir. Não se situava mais em si, no seu lugar e na sua vontade. Não conseguiu separar, dividir, organizar. Turvo como algo que não podia nomear.
Andava pra frente e desconfiava das direções. Passo a passo, reconfigurou suas mais estáveis noções.
Conversava com seu amigo. Ele conversava e escutava e dizia. O controle total é sempre já o descontrole.
Andava pra frente e desconfiava das direções. Passo a passo, reconfigurou suas mais estáveis noções.
Conversava com seu amigo. Ele conversava e escutava e dizia. O controle total é sempre já o descontrole.
Porque o mundo engoliu e virou em si a própria escrita. Desde então, escrevo em pensamento e em visão: escrevo-me dentro das coisas, que escrevem em mim o eu-mesmo exterior a tudo. Muitos dias, noites, madrugadas, presença e ausência. E, neste tempo, escrevendo sem parar, incessantemente, sem nem tocar no papel (ou no teclado do computador). Escrevendo sem escrever, porque assim, escreve-se na minúcia e no sopro, escreve-se sem precisar comunicar, estancar, escreve-se num sem-parar que é mais escrita do que esta atual.
Hoje, cessei e, neste momento, reorganizo as folhas imaginárias. Desobstruo o caminho e abro espaço. Redistribuindo, digerindo.
Assim, o dia chuvoso parece ensolarado, dentro do meu quarto. Nos dias, meses, anos que se passaram, sigo vivendo sem fim. Só que agora, não são mais escrita, transformaram-se em leitura para aquilo que de novo pode surgir.
Hoje, cessei e, neste momento, reorganizo as folhas imaginárias. Desobstruo o caminho e abro espaço. Redistribuindo, digerindo.
Assim, o dia chuvoso parece ensolarado, dentro do meu quarto. Nos dias, meses, anos que se passaram, sigo vivendo sem fim. Só que agora, não são mais escrita, transformaram-se em leitura para aquilo que de novo pode surgir.









