10.09.2013

afeto tropical

minha querida
princesa
bonequinha linda
essa carinha tão inocente
esses olhos de jabuticaba
essa pele escura
"preto-quase-azul, sabe?
preto de verdade é boa gente
não é safado que nem mulato"
o século dezenove nos deixou marcados
pela inteligência
pela tecnologia
pela razão encantada
pela liberdade de expressão
pelo naturalismo, realismo, romantismo, existencialismo (mas esse foi só depois)
pela primazia do homem
e sua 
grandiosa
               higiene
impetuosa
               higiene
maravilhosa
               higiene
lavar-se todinho
esfregar pra tirar essa sujeira
das ruas de terra batida
chinelo velho
lama depois da chuva
ficar todo bem
                branquinho
medicina moral
limpando os cantinhos dessa consciência 
poeira pra baixo da minha coluna reta e o
sorriso 
                amarelo
mas que lindinha, muito esperta, saudável, forte
eu te pago o ônibus
quer um salgadinho
limpa direito porque hoje tem visita
"mas ela tá com a gente desde criancinha
é quase da família"
senta na mesa, veja só
come sempre    
                com a gente
fica caladinha porque sabe o seu lugar
                como gente
ensinei a ler e a escrever e a falar e a se portar
                como gente
limpa direitinho porque amanhã é feriado
pode dormir aqui
pra não se cansar
quase uma relíquia do nosso lar







10.08.2013

aquele dia

no dia que eu morrer, vai fazer um sol lindo, e vai ser perto do mar, e o ar vai ter cheiro de mato balançando ao vento e de muita saudade, e vão estar todos lá, e a terra vai estremecer em um terremoto de afeto, e eu vou chorar, chorar, chorar. no dia que eu morrer, todos vão estar velhos, e as crianças vão ser adultas, e outras crianças vão ter nascido, e outras ainda, e elas vão saber de tudo que a gente nunca soube. no dia que eu morrer, eu vou sentir que meu amor não tem fim, e eu vou espalhar esse amor pela terra molhada, arenosa, do cemitério que fica à beira-mar, e meu amor vai molhar as solas dos sapatos das pessoas que eu tanto amei. no dia que eu morrer, as pessoas vão chorar apenas um pouquinho, vão olhar pro céu, e pensar que foi bom estar comigo, que se lembram daquele dia e do outro, e vão pensar que eu fui feliz. no dia que morrer, a felicidade vai ser uma ideia estranha, deslocada, difícil de ser alcançada, quase inexplicável, uma certa mentirinha inocente, ou um objeto cintilante que acende quando se está longe mas se apaga quando se aproxima. uma "lava lamp". no dia que eu morrer, as pessoas vão falar e conversar um pouco, e cantar canções dentro de suas cabeças, tentar fingir que estão solenes. no dia que eu morrer, o mundo vai ser do tamanho dos anos da minha vida. no dia que eu morrer, as pessoas vão tomar café, comer bolo, voltar pra casa, se preocupar em dormir cedo pra trabalhar no dia seguinte, escovar o dente, pensar na janta, pensar na sua frustração sexual, no baixo salário, nos desejos recalcados, na incerteza do futuro. no dia que eu morrer, a vida vai ser mais bela, porque nada vai acontecer.

10.03.2013

amor

sento à mesa, olho a tela, o papel
"analysis has brought a very important change of perspective on love by placing it at the center of ethical experience"
antes ou depois, não importa. levanto, tomo água, como, preciso de um cigarro preciso de um cigarro preciso de cigarro
- faz tempo que não me drogo -
onde foi parar minha juventude?
vontade de masturbar - mas de novo? ah, a juventude sobrevive aí
o amor sobrevive nos órgãos genitais.
e numas palavras caducas que eu repito na minha cabeça noite e dia
noite e dia
palavras de amor
e de saudades.
meu quarto é grande, as paredes são altas, o ar é frio
a cabeça
enorme
vazia
repete
preciso não dormir
preciso não dormir
preciso não dormir
preciso não dormir
preciso dormir 
sento à mesa e percebo que minha vida
bonitinha
arrumadinha
tudo-no-seu-lugar
é uma merda
placing it at the center of ethical experience
at the center


8.17.2013

a noite de Nova York

na noite de Nova York as luzes se acendem antes da noite cair
a cidade não aceita a escuridão

imagina! no escuro? assim arrisca-se
não se consumir

meu estômago produz ácidos estranhos, misto
de fome com
azia
na noite de Nova York
enquanto nas ruas todo mundo
festeja a melancolia
urbana
contemporânea

ai, essa gente burguesa preenchendo existências bonitas com mesquinhezas corriqueiras
como eu
como você
[mais bonitas sendo corriqueiras que mesquinhezas]

na noite de Nova York, esse livro aberto
nenhuma morte, nenhum grito
a humanidade deu certo
a humanidade deu certo
a humanidade deu certo
a humanidade deu certo

5.10.2013

"I marvel at the sky because it exists" (Wittgenstein)

2.18.2013

"Freedom lies in the vital force of those who are deprived of a sense of belongingness"
Jung Yeong-he

2.13.2013

impor-se uma distância e morrer todos os dias
espremer cada respiro
dentritude, infiniteza
nas bordas, fronteiras
perceber-se história
imaginar-se narrativa
era uma vez todo dia uma beleza diferente
vazia e rarefeita
espaço pro mundo inteiro
começo, meio e fim

onde foi que eu deixei o meu passado?
pendurado, todo molhado
encharcado
secando ao sol de um futuro imaginado

1.28.2013

Aqui, sentado na mesa, eu passo horas imensas pensando que deveria escrever. Escrever sem parar. Escrever, escrever, escrever. Na esperança de que as palavras preencham algum espaço dentro da minha cabeça.
Antes das palavras saírem de mim, existe algo lá? O que havia naquele espaço - p a l a v r a - que agora se abriu e abraçou, certinho, a palavra que acha que saiu de mim?

Mar, rio, passeio, caminhada, beijo, abraço, manhã de sol, luz na janela, cheiro de domingo, silêncio, casa, chão, conversa, cachorro, canto, bicicleta, horas e horas e horas e horas...

Um pouco de mágica, de fé, de crença; na minha saudade imensa - essas horas imensas cheias de saudades que definem quase tudo - eu me engano dizendo que vou escrever. E passo silêncios infinitos,  entre milhões de vozes entrelaçadas, pensando nas palavras.

As palavras são minhas na mesma medida do mundo.

11.19.2012

J.M.Coetzee, in "Elizabeth Costello":

"Realism has never been comfortable with ideas. It could not be otherwise: realism is premised on the idea that ideas have no autonomous existence, can exist only in things. So when it needs to debate ideas, as here, realism is driven to invent situations – walks in countryside, conversations – in which characters give voice to contending ideas and thereby in a certain sense embody them. The notion of embodying turns out to be pivotal."




11.13.2012

mas a gente é tão efêmero...

10.15.2012

inside the castle tower
quietness fills all possible spaces
micropores of exhaustive possibilities
- i think i think i think -
the trees are never high enough
nature
from here
is pure landscape


10.01.2012

dividir o tempo 
dividir o pensamento
splitting doubling
making up new and
endless
wholes
half a self 
entire in a combination
of double presence 
and absence
(doubling all the time)
and sunshine
and laughter 
crying
stroll in the park deep-breathing the fresh air
postponing longer and longer
stretching minutes fitting whole lives
imagined by one complexity of silences 
two halves 
into a different whole


9.04.2012

saudade

o vento na árvore
o vento na árvore
o vento na árvore


uma cigarra cantando, o livro sobre a cama, a frase na cabeça
correr os olhos, mais uma vez,
sobre a página amarelada, guardada há décadas na estante
da biblioteca
essas manchas de tinta giram turvas na imaginação
- o que dizem mesmo, as palavras
intrincadas de tanto sentido? -
não dizem nada
explodiram e se dispersaram por sobre a natureza do meu quarto iluminado
por lâmpadas incandescentes
(na América não tem economia, "usa à vontade, my boy!")

desejo de ser ontem
(porque ontem é todo sempre, todinho molhadinho de pura promessa adocicada)
quando eu corria de bicicleta na calçada lisa
ao redor da minha casa
na beirada, uma joaninha e o mundo inteiro que se desfolhava
ontem, o futuro brilhava
azulzinho debaixo daquele sol de domingo
cheiro de café, existência matutina às 7 da manhã
banca de jornal abrindo o expediente
e meu avô batucando seus badulaques budistas
uma mistura do amarelo do sol e do esverdeado da imaginação
do mar que chegaria logo mais tarde
salgado como o pão que eu mordia com tamanha destreza
açúcar na toalha da mesa
gosto estranho do chá
palavrinhas flutuantes no ar


o vento na árvore
ventava de verdade
era só vento
sem ser palavra



8.21.2012

os póros suando, em cima do papel, uma mancha negra, a palavra molhada, viscosa, pegajosa, uma gota espalhafatosa que se gruda na retina dos olhos de quem lê. a palavra não é coisa nenhuma, mas quer dizer o mundo inteiro. quer dizer, quer dizer, quer dizer. palavra que é só desejo. (quando cessar, será que segue sendo a mesma coisa? ou muda de estado, vira gás, uma lufada de ar quente, um feixe de luz, um odor pestilento?) a palavra, de tanto querer, fica no canto, calada, molhando aquilo que lhe encosta, lhe toca, lhe roça, lhe péla. não, palavra, você é oca, casca vazia. você não aponta, nem nomeia, você apenas deseja ser tudo aquilo que nunca, nunca, nunca, nunca vai ser. ou seja, gota molhada, suada, póro escuro - ou claro - buraco no mundo, um desvão tão profundo que deixa um rasgo estranho, esquisito, engraçado, na superfície dessas coisas todas que a gente vê. e das que a gente não vê. você imagina o mundo, decalcado sobre a superfície de uns sons assim, combinados, uns riscos pretos, desenhos estruturados, traços repetidos, movimentos de músculos, abertura de boca, tremular das línguas e de umas outras coisas sem o menor sentido. como uma pilha infinita - imagina só, que vai de um lado ao outro do universo - de coisas jogadas, postas, atiradas, recostadas, umas sobre as outras, como um desenho que se redesenha, se sobrepõe, transparências tantas que, empilhadas, se tornam opacas, como o céu da noite mais escura. o negativo, tudo aquilo que não é. isso é. imaginando o sentido profundo, passo a língua na sua superfície que agarra na minha mucosa, engulo-te toda palavra. assim sim te sinto toda, puro afeto, sentimento no meu estômago, imaginação fisiológica, que me faz cagar, sentir fome, e dormir quando tenho sono. antes de sair, entrar.

7.19.2012

chá da tarde

palavras sobre o chá quente
quente
       quente      
            quente
queimou minha língua
meu dente
meu dedo
e mais alguma coisa que eu imagino 
fria até doerem os ossos
do lado esquerdo, o meu joelho
direito

a palavra 
toda suavezinha no seu recanto
feliz 
   na linha
      amarela esfumaçada 

(toda engraçadinha
a palavra)

a palavra cai no chá e se esparrama 
               toda
               todinha
respinga na mesa 
               branquinha 
da toalha comprada 
a 30 reais mensais na loja da esquina 
(são 3 parcelas,
de 30 reais, 
com 3% de juros
no cartão de plástico alaranjado
a palavra 
          amarela
no cartão
          alaranjado
com a tarja preta do lado contrário)
- e o chá vermelho

a mesa fica branca pelo
                                          contato 
com a toalha 
            agora manchada 
            toda manchada
            manchada
            de pura palavra



Há dois anos atrás, algo estava pra acontecer daqui a um segundo. O homem, montado em sua bicicleta, gostava do sol sobre sua pele. A mulher, atrás dele, pensava que o mundo ganhava muito mais sentido por ela ter pernas e poder sentir o vento empurrar seus cabelos para trás enquanto pedalava. Uma curva à esquerda, outra à direita, seguir adiante. Assim, acontecendo no desacontecer, como desfiando fios que se movimentam como dizendo: "me puxe para perto do seu futuro". As palavras, no entanto, mantêm-se suspensas no ar, e o futuro tem a concretude de uma rocha macia.

Como é bom escutar o barulho do silêncio arranhado pelas correntes das bicicletas. Do outro lado - não sabia já sabendo - o silêncio ocupa espaço, compete com os vácuos do nosso pensamento. O sol já está por se pôr, há dois anos atrás, como sempre estará. Desde que amanheceu, eu tirei essa foto e guardei escondida no meu computador, reservada para quando despedidas fossem necessárias. Reservada para quantas despedidas fossem necessárias.

Nesse não-lugar do impensado, estou sempre em casa, um segundo depois do momento ápice do conforto. Parado, paradinho, esperando a hora de me mover. O vento existe somente na medida da minha imaginação. Na foto, fora do quadro, eu espero para sempre o momento de me mexer, de sair da frente. Enquanto isso, me esquento no sol daquele fim de tarde, na eterna imaginação do porvir, que me deixa acolhido todo no presente que só sabe se despedir.




7.04.2012

Este blog existe desde agosto de 2003. 2003! Quanto tempo não é isso. Ele vai completar nove anos, nesse tempo aprendeu a caminhar e a falar, imaginou muitas coisas, fez grandes amigos, viveu seus amores, e agora estava em repouso, pronunciado seus pensamentos muito raramente, descansando dos dias intensos da sua juventude. Em nove anos, toda uma vida inteira. 

A partir daqui, alguns caminhos possíveis. Mas, ao reencontra-lo (o blog), percebi que ele ainda quer seguir falando -- ou melhor, tentando falar -- dando vazão a essa gagueira que o animou por tanto tempo. 

Então, é isso. Às palavras voltamos! Talvez, com isso, as certezas que se instalaram possam ser desfeitas enquanto há tempo.


5.31.2012

I wanna be old, and have a birthday party full of colorful balloons and loved people around. The party will not be organized by me, though.


4.26.2012

memory and the important things

It was a Thursday, maybe. Or maybe it was a Wednesday.
It was a nice evening, and I had been at university the whole day, drowning in the huge amount of classes I was taking. Ot perhaps I had just been home, cooking, or wasting some time on the internet. No, I think I was studying, or drinking coffee and smoking a cigarette. Or maybe I was just looking outside the balcony, absorbed in the chilly air of the beginning of December. Or late November.

But that's not quite important.

We would meet at 6pm, by the bridge. Of course I was late, I was always late. Maybe 10 minutes late, but I felt so embarrassed that it could as well have been a whole hour. I didn't know you so well, as you didn't know me very well either. But we had a date -- which was not a "date" date, it was just two persons going out to listen to some potentially nice music in a city where we both felt a bit distant to our daily musical tastes. It was just everything alien. But that was also the important part. That was what made us be there together at that moment. That was exactly what made our tastes and our needs to go to a bar and listen to just any music so important to the extent that we would actually go there together, even though we didn't know each other.

And then, well, it was a little bit past 6pm. I got off the train station in a hurry, because I knew I was late and that you would be there, waiting. And we didn't know each other well, and I was always late, and, then, I thought I would say "sorry" and pretend I was not embarrassed for being late, because that would be very lame. I rushed and there were so many people packing those narrow sidewalks that the very short distance between the station and the spot where you would be waiting became huge.

But, again, that's also not so important.

You must remember well. There was the station, and then a big crossing, with traffic lights. There was a strange fluorescent-white-light-lit book store by the corner. Usually, lots of people would be there waiting to cross. Specially if it was past 6pm, when the youngsters are going out to have fun, get drunk, sing at the karaoke, or indulge in some bad "all you can eat" sort of restaurant. (I would also do that, not getting drunk or singing at the karaoke though).
So, it was that crossing.
There was a bridge, with a narrow sidewalk. There would a Starbucks right after the bridge. And there you would be waiting. Or maybe you would be waiting on the next crossing, before the entrance of the arcade. No, you were waiting by the bridge, in front of the Starbucks.

Still, that's of little relevance here.

The point is that, while I walked, or maybe while I crossed the bridge -- or the traffic lights --; while I approached you, still from far away, I saw you were standing there. You were wearing that grey dress, which, by now, you find too worn out and would probably not wear in such an occasion, were it to take place today. You were there, standing straight, looking ahead, as if drifting in your thoughts. You had your backpack on the floor, in between your legs, and you were leaning against the wall. Maybe you were not leaning against nothing, just standing in the middle of the sidewalk. I'm not so sure. But as I approached you, you slowly turned your head to my direction, waved discreetly that quick-paced wave you sometimes do, and smiled. You caused an intense friendly, loving, almost nestling, feeling in me. That was very strange for me, to feel that way while I was so worried about hurrying without running, while I pretended I was not too embarrassed, but at the same time feeling sorry I was late. That was a very off-rationality sort of thing taking over, undermining my all too rational planned reactions. That was very unexpected, and it made me confused for the one minute (or maybe less, or a bit more) that I took to actually get to you and say "hello, sorry I'm late!". That was pleasantly and fulfillingly good. And, at that moment, I started loving you. Even though I didn't realize, at that moment I foresaw - in a glimpse - that I was, in a way, seeing a very unforeseeable future, right in front of me. And that made me very happy, just the way I am now.



é tanta memória.

4.16.2012

É bom redescobrir o lado de dentro das coisas. Ele está cheio de letras, palavras e sons.
Tarde de segunda-feira. No ar molhado de chuva sob o céu cinzento - é fim de verão onde o verão nunca acaba - o sol amarela as coisas, que me cercam até me engolir.
O mundo, grande feito um planeta inteiro, transborda da minha memória enquanto deixo escapulir os minutos entre as letras do meu teclado.
Abro um guarda-chuva e me deixo banhar pelo sol que esquenta o meu quarto.

6.01.2011

the fog and the heavy humid air of a summer day in Hong Kong
or in Kyoto
soaking up my bones
till they melt

i walk down my street, dreaming tropical sceneries
far away from my footsteps

10.08.2010


O mundo é tão grande e tudo é tão distante. E as saudades penetram em qualquer póro que fica aberto, exposto ao ar. O tempo nos ensina de algum modo estranho, torto, a ocupar muitos espaços.

Vou deixando pra trás tantas coisas, umas atrás das outras. Transfiro meu corpo de um lado ao outro, achando que deixei algo que deve ser recuperado. Mas, às vezes, a evidência do fracasso é estarrecedora.

Saudades saudades saudades. Aquilo que permanece.

9.06.2010

Voltando ao Rio

A cidade muda de tamanho, expande seus espaços e respira mais profundo. Ela não pulsa (isso é uma mentira), mas descansa em plácida e absorta contemplação. Seu ruído noturno alcança clareza de melodia calma, que se mescla com os barulhos dos carros passando. Ela se elogia, tímida, convicta do seu lugar. Minha casa me dá uma alegria tranquila, felicidade de todo dia, dessa maneira mesmo, nunca se reconhecendo completa, olhando fixo nas brechas.
A cidade, casa, essa lacuna imensa e noturna, que se refestela da ausência e finge completude a cada pôr do sol; essa que me faz sentir pequeno e que me deixa grande, cheio de satisfação.

8.26.2010

Cheguei.

Aqui o sol é forte, os espaços são amplos, as pessoas ruidosas e tudo é bastante pronunciado. Encosta-se e derrama-se: os limites estão bem do lado de fora. Aqui tenho amigos, passado longo, afetos profundos e confortáveis como uma poltrona funda, café na varanda, bate-papo sem fim.

Cheguei em casa. Foram menos que dois anos, mais do que um ano, uma distância fenomenal e um tempo que pareceu longuíssimo. Ausência e presença intensas, que ganharam outros contornos a partir disso tudo. Agora, já não acredito mais nessa fixidez toda.

Percebi que, inevitavelmente, fui forçado a viver com saudade. Que presença vai sempre requerer a ausência. Sempre. Sempre. Sempre.

"Voltamos", mas não se sabe ainda muito bem para onde.

8.08.2010

Caminhando em passados futuros: como conceber aquilo que aos poucos se torna reminiscencia? Ao menos, permanece, evadindo aos poucos e tornando-se substancia.

Nunca mais vou. Mas, como isso eh o elementar, a ideia eh tornar presente o passado sempre que se possa. (Que, de fato, seja sempre)

Piso, entao, em eternos presentes. Ha que se exercitar, ao ponto de se esquecer.

7.20.2010

Desfolhando os dias, recalcando os minutos dentro de latas de cha, caixas de suco, tragadas de cigarro.

Hoje, como ontem, segue sempre num amanha tao comprido que se perdeu de vista desde que nasceu. Segue, segue, segue - e do que mais se trata? Mas ja isso nao lhe importa.

Espera, preenche e desfolha. Nem na pagina do livro e nem na letra do teclado. O ceticismo lhe corrompe a tranquilidade.

7.19.2010

Entre a inexatidao de ser etico e a impossibilidade de imaginar adiante. Certeza de logo estar em casa.
Resumo dos ultimos dias.

7.12.2010

Ah, como se tudo dependesse de mim. Ha que repetir, para nao se esquecer: "O mundo anda numa duracao tao exterior a mim quanto cada um que o habita". E se eu ando ou fico parado, que lhe importa? Sigo uma intuicao desse meu corpo que caminha conforme lhe dao espacos - ou muitas vezes, apenas as pequenas brechas, sugestoes de possibilidade.

Se tudo eh possibilidade de um corpo, prefiro que esteja esmorecido onde seja a sua casa.

7.01.2010

Des paysages que flottent
dans ma tête et ailleurs

浮かんで進んでる

Necesitaría un estornudo de buena voluntad
O quizás tres o cuatro

Même marchant
On s'arrète a chaque minute

景色を鑑賞最中
何も残ってないうちに

Não se termina jamais de escrever

6.25.2010

síndrome de farnese

colecionando souvenirs
sempre
depois, quem sabe
distribuindo para outros
assim se faz uma colagem

diz-se souvenir àquilo que se encontra pulverizado
em algum lugar inenarrável
frustração da incapacidade pura
(também se pode dizer tempo)
a beleza do fracasso de seguir em frente

6.21.2010

José Saramago morreu. Meu pai me contou.
Copa do mundo acontece, do outro lado do globo - aqui, as pessoas dormem, comem e trabalham.

Eu fico acordado toda a noite, esperando o tempo passar dentro da minha cabeça. Do lado de fora, ele consome rápido qualquer vestígio de acontecimento. A vida, de repente, parece caber embrulhada em um papel de bala ou uma pontinha de cigarro.
Meus pensamentos têm tomado o formato de um mapa mundi esquisito, que se estica e se encolhe na mesma velocidade da minha respiração. E, cada vez mais, penso que não preciso do mapa nem do mundo: vontade mesmo é de estar em casa sem ter nada o que pensar. Mas essa condição já não mais é válida, e a escolha já se esvaneceu com os quilômetros que o meu corpo percorreu. Resta-me esperar. Quisera eu não ter feito nada jamais: a angústia talvez fosse de outra estatura. Agora, ela é cheia de espaços recônditos, ensolarada por fora (e por dentro), mas com esses intervalos que me fazem escrever sem saber aonde ir. Melhor então seguir escrevendo. Minhas saudades já cruzaram a fronteira, e a cada vez elas ganham mais personalidade. Quase existem fora de mim. Não quero isso, nem aquilo outro. Não quero abraçar o mundo com a perna, quero apenas a perna como segurança e, quem sabe, às vezes, o mundo como possibilidade. O movimento em si me parece muito mesquinho: nada de encerrar coisa alguma.

De noite. A sensação da espera me acalenta mas também me corrói levemente a calma que me acompanhava até alguns dias atrás. Mas ela sempre retorna ao raiar do dia. Não que seja nada (não se trata de achar que os modelos, horóscopos e melodramas hollywoodianos façam qualquer sentido), mas simplesmente uma agudez do tempo que me deixa tão confuso quanto mais em movimento. É neste momento que as fantasias se embolam, e uma varanda ensolarada, uma planta num vaso, uma rede balançando e um céu azul com algumas nuvens perto do mar parece tão real quanto inalcançável - porque está em algum lugar do meu passado que eu imagino ter vivido. Imagino sorrisos dos amigos, balançar da cabeça da namorada, almoço com família e discussão de irmãos.

Agora já é de manhã, e é preciso descansar. A imaginação flutua sempre: já tomou o avião e já chegou em casa, mais de mil vezes. E isso é que me faz despertar.

6.11.2010

Eu tenho muitos amigos. Muitos. E eles me formaram e me permitem uma existência compartilhada, relaxada, prazerosa, justificada e completa. Diria: eles me permitem uma existência para além do existir. Desses muitos amigos, há um casal que conheço há uns 8 anos. Quase todo esse tempo eles foram um casal. Eles não estão entre os amigos mais próximos, por contingências dessa vida. Mas por eles eu tenho uma profunda admiração e, definitivamente, eles contribuem para o que eu tenho de otimismo em relação às coisas, de forma muito mais marcante do que eles devem imaginar. Eles são aquilo que talvez represente meu apreço pelos meus amigos, não sei por qual motivo. E eles vão ter um filho.

Essa notícia me pôs em pensamentos compridos, largos e esticados. De um dia para o outro, me empurrou para uma espessura do tempo que eu havia deixado de habitar há algum tempo. Colocou-me em movimento complexo e descontínuo. Deu-me saudades agudas. Entendi, em alguns segundos - ou, talvez, uma noite inteira pensando, todo o tempo ruminando esse entender - que sei por que esse casal de amigos me deixa tão satisfeito e feliz só de vê-los, por que me refletem o meu próprio apreço pela amizade. Pode ser mesmo só assim de longe, acompanhando os movimentos, gestos e sorrisos: porque eles são uma revelação boa e saudável do tempo; temporalidade essa que nos é tão inescapável quanto essencial, afinal, de fato, somos por ela, nela e a partir dela. Mas que, no entanto, podemos mexer, esticar, e montar formas distintas e fazê-la grudar ao que quer que seja. Podemos escolher narrar, ouvir, observar ou experimentar. Sendo que todas estas quatro maneiras de nos relacionar com o tempo são essenciais e quase obrigatórias. E, por algum motivo que ainda não entendi, são esses dois os que, até hoje, me fazem entender isso.

Sortuda vai ser essa criança!! Parabéns e beijos gordos!!!

6.04.2010

O sol queima a nuca, que se expõe ao ar por entre os fios do cabelo. Descendo a ladeira sobre a bicicleta, não pressiona os freios, deixando o ar quase cortar a pele de seu rosto. Ele sente o sol, alegra-se com o suor que aparece sutil nas suas costas. Quisera poder seguir reto, sem haver de parar no próximo sinal.

Sob a temperatura quente que vai se acumulando no ar, seu corpo se coloca num estado estranho de intermédio: sendo matéria incontestável, consegue se difundir em memórias confusas, mas sempre ternas. Percorre, ao mesmo tempo, espaços tão distintos quanto distantes. Meio mundo se põe em movimento no seu percurso sob o verão que anuncia sua chegada.

5.21.2010

As I was moving ahead
Enquanto seguia em frente
進んでたら
Mientras seguía


Se eu fosse Mekas, teria visto lampejos de beleza.
E vi.


Mas também parado.
しかし、不動でも。
But also still.
Pero también parado.

5.18.2010

Entre um suspiro e um respiro.

Quero reencontrar os amigos.

5.09.2010

viajar. escolher as saudades. a cada saída, chegada, a cada encontro e minuto, a cada passo, uma ausência que se constrói na presença mais sentida. viajei pra me perder em muita gente. a cada viagem, milhões de saudades possíveis.

5.03.2010

Para que no futuro, não se queixe demasiado. Andando pelas ruas semi-vazias, não se queixe de não haver feito o que queria. Melhor que agarre a sua bicicleta (ou um par de sapatos quaisquer), e que se ponha em movimento sincero. E que trabalhe a razão contida, renitente, mas amolecida, como que derretida pelo calor. Coloque-se em movimento calmo e perene, que converse com os amigos. Perceba a reminiscência, calado, sozinho. Já a conclusão está clara: que se saiba sempre sozinho - porém não desacompanhado. Faça imagens (escritas ou não, gravadas ou não) e as rememore quando preciso. E quando não preciso também. Beirando o limiar, chegando quase lá, jogando muita coisa fora. Que as saudades sempre irão te acompanhar - ah, isso não tem jeito. A vida é escrota mesmo, meu amigo! Mas você jamais vai escolher não estar.

4.21.2010



Passou as mãos pelos cabelos, tocou a testa. Sentiu a pele seca, quebradiça. Agarrou a xícara de café, entornou um pouco por sobre o dedo e despejou na sua boca. O líquido quente queimou a ponta da sua língua. Faltava açúcar. Acedeu um cigarro e inspirou calmamente a fumaça. Abriu o livro e, na segunda linha, entendiou-se. O cigarro, depositado entre os seus dedos, colocou-o sobre o cinzeiro. Esperava, sem muito objetivo. Sentia-se tão contido e retraído; era puro silêncio. Ao seu redor, desconhecidos comiam com pressa, liam jornal. Alguns conversavam em voz baixa, cotidianidades à toa. Estava como que flutuando sobre a massa disforme que nada lhe comunicava. Um gesto, um gesto. Deu mais um trago. Retorcia a cabeça, dava voltas com os pulsos, arranhava levemente o tecido do seu casaco. Perdido na sua mais perene ausência. Todo o drama está no gesto.

4.18.2010

Horas a fio
Horas horas horas
O tempo passa lúgubre, quieto, sucinto
O frio faz um zumbido estranho no ouvido
Sentado, desconcentrado até a alma
Enquanto vê as linhas enfileiradas
- tão organizadas -
na página do livro
o pensamento voa vazio
cantando melodias que só no silêncio pode escutar.
Ausência

Por muito tempo achei que ausência é falta
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
Ausência é um estar em mim.
E sinto-a tão pegada, aconchegada nos meus braços
Que rio e danço e invento exclamações alegres.
Porque a ausência, esta ausência assimilada,
Ninguém a rouba mais de mim.

(Drummond, pensando em Ana C.)

4.11.2010

No Natal de 2008:

"Ano que vem em Kyoto


Escrever o que chega, falar o porvir. Talvez assim, imaginou, seria possível imaginar aquilo que é o mais impensável. Recebeu, em plena véspera de Natal, em e-mail confirmando a viagem que pode durar (quantos?) anos. Pensou então: tentando escrever o impensável, tornaria mais amigável uma experiência tão distante. Por que havia escolhido ir a tão longe? "Ano que vem em Kyoto". Frase esquisita, como se as palavras não se encaixassem. Viajar, mas não como ir a São Paulo, planejar um doutorado em Paris, tentar uma temporada em Nova Iorque, ver a exposição em Berlim, andar de bicicleta em Amsterdã ou ver a velha novidade de Londres. Não como isso, não como lera no jornal, escutara na internet ou imaginara ao ler o romance (Paul Auster voltou a freqüentar recentemente suas idéias). Nem mesmo como fazer uma visita curiosa e "interessada" à Índia, ver os monumentos da China, o mochilão na África: degustar, ao meu tão edificado e "de bom gosto" olhar, o sabor do outro que me apraz (o outro que eu consumo em qualquer discurso "atualizado", esclarecido, que me deixa ainda mais refinado, "interessante", "gente viajada"). Distante de fato: distante como morar fora de si. Sem o gesto acumulado no corpo (e na retina), sem a textura da imagem que aproxima, a pequena atmosfera européia (colonizada?) que envolve o pensamento desde muito tempo... "Ah, como é charmosa Lisboa, andar pelo Bairro Alto e ouvir um fado... Como passeei pelos bares de Madri, curti a noite intensa enquanto trabalhava de garçom no pub irlandês da Gran Via" - o charme, a noite, a atmosfera, reprisada nas inúmeras falas, nas inúmeras imagens que se proliferam por aí. E o pensamento? Sou francês, alemão, trágico, tropical, racional sem dúvida, trazido pela grande crítica global que me faz antes de mais nada sempre num a-partir-de. "Mas é foucaultiano ou deleuziano? Ah, sim, entendo... escutava Pink Floyd ou The Clash?" Mas do que se trata: "ano que vem em Kyoto"? O impensável, talvez, também se tratasse disso, uma pura e honestíssima diferença, aquela que se degusta com olhar estupefato de uma infinidade de possibilidades de existir que se descortinam diante de seus olhos. Assim, sem muita razão, tentou capturar aquilo que nunca esteve lá.

[E, ao final, talvez, tudo se trate de pura diferença. Quem sabe não é partindo dessa pequena suspeita que tivesse escolhido por tão longe?]"

***

Depois de mais de um ano. Cá estou, em Kyoto. A diferença ainda se mantém como uma certeza, mas essa já se desatrelou da distância. A experiência, no entanto, me põe confuso. Mais do que viver aqui - o que já é muita coisa - a certeza de estar vivo, pisando sobre terra que explode de tantas e infindas diferenças é o que mais me move. Não isto aqui, mas tudo que é justamente o não-aqui (e, de certa forma, o não-aí). Espero muito, acalentarei com a minha presença, que, gradualmente, se esmoreça a colonização do pensamento.
Um pensamento, no idioma em que ele se conceba mais cômodo.

Sem paciências sem paciências
Espremo fundo, mas não me saem palavras
- estarei emudecendo, de tanto falar?
Qualquer coisa me revela a inércia
O tempo passa, mas se esconde convulso atrás da cortina
Eu esquivo, traduzo, confundo sintaxes, origens e sentidos
- Uma palavra calma, por favor!
Não se deita e adormece
Já encontra-se sem território

saudades e pura abstração

4.06.2010

A primavera chegou aqui no Japao. O sol, o sol, o sol. Andar sem roupas pesadas, expor o braco, o pescoco, encostar a mao nos objetos do lado de fora.
Fico feliz de que nao haja o frio do inverno no Brasil (tirando o Sul, mas vamolah, ne). Nao temos que nos esconder do lado de dentro, nem saculejar o corpo pra nao congelar.
Ja tinha me esquecido, mas o calor eh o que me coloca em movimento. Um pouco de luz de sol e otimismos futuros.
Um ano.

Como estão vocês?

Eu tenho saudades. Não acredito que há um ano estou longe.

A primavera chegou aqui no Japão.

Quando for verão aqui, aqui já vai estar longe de novo. E eu mal consigo esperar.

3.30.2010

Bem ali, no espaço em branco.
Exatamente naquele intervalo, onde o olhar não alcança com nitidez os contornos de nenhum corpo.
Como se, por um espirro silencioso, as coisas se movessem rápida e muito levemente. Flutuando como plumas.
Bem ali, no transparente, ali no longe, no não sei mais quando, encontro algo que já não espero mais, mas acalento a cada minuto.
A vida, pequena, ganha em altura, em volume, em densidade e porosidade. Só ali, onde deixei a respiração tranquila esperando adormecida.

3.23.2010

Sonhando com a minha casa.
Todos os dias respiro mais fundo enquanto durmo.

2.26.2010

Saudades.


(de tantas coisas...)


***

amigos família casa sol cachorro praia calçadão mesa bar coca cigarrinho conversa conforto andar calçada ensolarada cinema abraço português manhã quente pão na chapa bisnaga queijo-minas amigos família casa sol cachorro passeio no carro pela orla conversa entendimento fácil comida caseira passo lento olhar calmo lagoa urca icaraí mesa na calçada falar escutar português futuro passado irreverência descontraído laços antigos planos conjuntos amigos família casa sol cachorro água de côco mate gelado na praia chorinho "mais um pouquinho" atraso combinado amigos família casa sol cachorro praia calçadão...


Como vão vocês?


Saudades.

2.14.2010

"É preciso entender que cada um verá coisas que ninguém jamais poderá ver. E que nelas residem as suas razões"

(Bernardo Carvalho, in Nove Noites)


Pulavam o carnaval. Rio de Janeiro. Fazia um sol de rachar, aquele calor que faz derreter até os fios de cabelo. O suor lhes escorria por detrás das orelhas e seguia pelo pescoço. A música era a mesma de sempre, mas o estampido da multidão era tão eufórico que renovava cada nota repetida, toda vez que era tocada pela banda que caminhava pelas ruas, já submersas no caos alegre da multidão. Tudo era muito colorido e os sorrisos, se não maliciosos, cheios de sincera satisfação pelo presente puro celebrado naqueles dias. O Rio de Janeiro brilhava de humanidade. A cada passo que davam, sentiam a felicidade de estarem ali e de terem sempre ali estado. O lugar pra se existir, definitivamente.

***

Rumava a um caminho estranho. De um outro lado - da vida, do mundo, do mínimo sentido - encontrava-se numa encruzilhada boa e plena de um sutil (e agudo) sentimento de futuro. Estava ali e o futuro se desfolhava em finas camadas a cada segundo. A encruzilhada se lhe mostrava tão frutífera quanto sem a menor recompensa: era unicamente o fato de estar nela que lhe impulsionava para adiante. Queria estar e queria se mover. Não havia como se decidir. Pela primeira vez em toda a sua vida, o futuro era o que menos lhe pertencia - saiu do engodo, finalmente! Curtia o vento gelado enquanto recebia as visitas queridas, fugidas do lugar onde talvez mais quisesse estar. Apesar de olhar com estranheza essa escolha tão efêmera de alguém que se desloca tão longamente para prestar-lhe uma visita breve, era exatamente isso que lhe aguçava ainda mais a certeza da encruzilhada. Depois de muito tempo achando saber do que se tratava, agora compreendia com mais clareza a idéia do devir, menos na razão do que na experiência.

1.13.2010

Neve e sol.

O frio também é coisa linda de meu deus!

1.05.2010

***

De longe, abraços e beijos apertados e muitos saudosos.

Que aí, onde vive quase todo o meu afeto - algum resto eu carrego comigo, outro vai sendo cultivado por onde passo - continue ensolarado, meio escorregadio, molhado, cheio de espaços vazios e barulhos animadores. Que o estrondo macio continue redondo, cheio de lados, uma cama boa e quente preparada pra quando eu voltar. Um sorriso intermitente, mas muito sincero e cheio de satisfação efêmera - mais afeita ao chão, quem sabe.
Assim espero que 2010 seja como 2009 (que eu não vi passar), como foi 2008 e como será 2011.

Se tudo é tão bonito, aí será sempre mais. Já não tem mais jeito.

***

E que esse novo afeto que se me produziu, me mantenha desperto até quando for preciso.


***

De uma certa forma, acho que voltei a acreditar nos anos: simplesmente pelo fato de não haver sentido a sua mudança. É a teimosia do cético, ao revés e com muitas saudades.

12.14.2009

Noite fria

Gelada

Alguns minutos
Muitos
Entre um espaço e outro
dentro do mesmo quarto
Um ponto escuro
Cintila
o sinal de uma virada.

Horas inesperadas

12.08.2009




isso de querer ser
exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além

(Paulo Leminski)


Saudades.
Oito meses e dois dias com os pés aqui.

"tudo isso se tornou parte da minha vida; não poderia deixar tudo sem chorar, sem compreender que, por mau que parecesse, era parte de mim que ficava com eles todos, que o separar-me deles era metade e semelhança da morte" (Fernando Pessoa, Livro do Desassossego)

Anotado em 05 de abril de 2009, dentro do avião. 2009 já quase se foi.

Por mais que essa citação, depois de tanto tempo, possa parecer ambígua e sem um lugar, agora sinto vontade de estar debaixo do sol, com uma camiseta, bermuda, conversando com os amigos, tomando uma coca-cola, com um céu azul. Falando português. E me sentindo tão em casa, à maneira de um sentir absoluto, em que o mundo ao redor é grande o bastante.

12.01.2009

Ainda me impressiono como, aqui na ilha, o pensamento acadêmico acredita tanto na nomeação das coisas. Eles ainda não perceberam que podem se desvencilhar do sentido dado.

(capitalismo aqui é coisa séria)

11.26.2009

Pés gelados não conseguem sentir bem o chão que tocam.

10.25.2009

Nada pra escrever, mas vontade de falar.

Hoje, durante todo o dia, falei só por 14 minutos. Contados. Ao telefone e em espanhol. Ainda bem que existe a internet. Assim posso soltar uma palavras para o interlocutor imaginário. Absorto que estava em trabalhos e afazeres, não digo que cheguei a me dar conta do meu silêncio. Ouvi música, escrevi, li. As palavras nunca deixam de ecoar. Chegando à noite, no entanto, quis expeli-las. Falei sozinho, testei minha voz. De fato, outros ouvidos são necessários. Em português, de preferência. Senti o peso do pensamento. Ele tem o peso do meu corpo com o da comida que ficou na geladeira pra refeição de amanhã.
Não reclamo. Não produzo tragédias auto-piedosas (não mais). Acho bom perceber que, preso dentro das palavras não proferidas, meu pensamento se torna tão volumoso que se perde em si mesmo: perco o sentido. Isso me traz algum contentamento estranho, como se tivesse mais certeza do que sempre intuí. É necessário cultivar a boa comunicação, aquela tão rara quanto preciosa. Essa eu já possuo. Ainda que, por ora, meio distante fisicamente.

10.14.2009

Preciso secar as palavras.
Sempre tive essa impressão.

Mas nessa seca toda, cada gota mais gorda me alegra quase por uma página inteira.

Essa imagem foi roubada da internet. Não sei quem tirou. Tenho aqui no meu computador há uns meses já. Praia de Icaraí, numa tarde de um dia de semana qualquer.

É impressionante, mas olho pra ela e quase acredito que ela seja o que representa. No passar do tempo, aqui, tão distante do que ela retrata, ela, de fato, passou a quase ser aquilo que pretende representar. Minha memória se faz presente em imagens e sons. Assim ela se reaviva. E, muito mais, ela se faz presente nas minhas saudades, que oscilam em momentos, dias, semanas. Tendo a pensar que não sinto mais a falta física que sentia: já estou aqui e meu corpo aprendeu isso com os meses. Ele não grita mais: "não sou daqui". Tenho uma vida, hábitos, pensamentos. Meus sonhos já se mudaram, acompanham agora o corpo. O português me acompanha, quase exclusivamente no meu pensamento, que, durante o dia, se torna confuso com os idiomas, nasce sempre em português, mas no caminho toma a forma do inglês, do japonês, do espanhol, do francês. Cansa-se e, às vezes, quer apenas não ser. A língua se tornou tão notória que parece que precisa fugir de qualquer uma. Não ser mais pensamento. Mas, no entanto, se refestela quando reencontra o português, lendo o jornal, um romance ou falando na internet. Orgulha-se de existir e de ainda ser tão pregnante em mim.
Não sinto falta, portanto. Cheguei ao presente. Este presente que se faz existir sempre a partir (sim, é ponto primordial) das minhas saudades. É como se estivesse num paradoxo estranho: não acredito que necessariamente deva não estar aqui, ou estar aí, dentro da imagem. Mas a saudade já é necessária, concede alguma coisa que subjaz o tempo inteiro. A saudade já sou eu, de uma certa maneira. Aqui, necessito dela.

Hoje senti bastante saudade. E resolvi escrevê-la.

10.08.2009

Não porque me secaram as palavras. Nem porque me sequei delas. Mas porque às vezes elas já estavam tão bem encadeadas que se torna inútil repeti-las tantas vezes, tentando tomar um caminho diferente.

A minha vida parece uma montanha-russa meio tortuosa, mas cujas curvas radicais acalantam inúmeros espaços minúsculos (junções deles) que resultam em uma calmaria tão harmoniosa que já ofuscam o turbilhão. Não é verdade que cada curva é feita por momentos que podem se prolongar ao infinito? Lições que Borges nos deu.

Aqui, reflito essa curva imensa que é pura calmaria. Há pouco mais de um ano atrás, em 06 de julho de 2008, tudo parecia tão diferente do que é hoje, mas permaneço, sem dúvida, nessa mesma curva tortuosa:


"Espero aqui, sentado, balançando as pernas, o tempo se pronunciar. Ele nunca diz nada, mas deixa suas pistas delicadamente, utilizando-se de si mesmo para enganar-nos.

Malandro de outrora, no entanto, ele já não consegue me enganar tanto assim. Foco minha vista já cansada da espera e, juntando-me à sua eterna brincadeira de esconde-esconde, instalo-me no seu trabalho e, no esforço de imaginar a sensação do invisível, consigo degustar cada aceno que me dá. Conseguimos então, assim, selar a amizade que, ao mesmo tempo, provoca o escárnio e o imenso respeito que cultivo."


Sigo no meu exercício (o meu artifício mais bem trabalhado)...

10.04.2009

Em palavras mais simples:
conviver com a "intelectualidade" internacional me mostrou de forma brutal a urgência do pensamento brasileiro, latino-americano, que seja.

Não pelo fato de ser geográfico, mas pelo mais pungente fato de assim ser tão marcadamente percebido. Desfazer o geografismo a partir da sua adoção primeira. Por mais paradoxal que seja, mas algo como estratégias distintas ainda que num mesmo regime.

É como Deleuze percebeu, "não se sai de um dispositivo", mas é nele que está a sua própria superação.


(precisava escrever assim, de forma meio grosseira)
Chão

É estranho pensar isso, e mais estranho escrever ou dizer. Mas é como se estivesse alguma coisa por aí, a ser pensada, discutida, esmiuçada aí. Como se o pensamento tivesse aí a sua função, o seu fim. Não digo que seja utilitário o pensamento, mas ele põe algo a mover, retira a estabilidade, arranca as coisas do seu terreno estúpido da certeza. Pensamento como ação - não a "pró-ativa" atividade de fazer aparecer algo no âmbito do concreto, de fazer ir à frente em uma corrida tão mais abstrata quanto mais parece existente em números ou em dados. Mas uma ação que resulte em algumas inversões e que trate do óbvio com o espanto do novo - e sempre nesse caminho. Não exaltar o novo de forma vulgar e leviana, a novidade não é aparição, mas desvelamento.
Esse pensamento, estranhamente, me parece ter chão. Não me parece válido por qualquer motivo, nem por qualquer razão - a razão não o ilumina em qualquer seara, não o valida por qualquer joguete de lógica intrincada. Ele urge a partir de onde pode infiltrar-se, pungir e fazer pensar igual (ou distinto). Ele viaja a partir de um ponto: esse há de ser seguro e, de certa forma, percebido de antemão. Como se estivesse comprometido desde o seu (meu) nascimento. E por isso decidi tão fortemente pelo pensar, por ser desde um lugar, que não é assim, tão geográfico e tão calculável, mas uma situação, uma conjuntura, um devir específico que a mim me toca e que, por ser assim, tão de dentro compreendido por mim, é daí que devo saltar, e daí que devo pescar o óbvio e fazê-lo pensar. Nunca achei que fosse dizer isso, mas meu pensar é mais pensar quando estou no meu lugar.

8.26.2009

Sigo me assustando. Não está aí para o meu controle, essa coisa de ser tempo. De sermos ele e, dei-me conta, só ele. Ao tentar manipulá-lo, já fracasso. Preciso ser todo, e não ser nem um pouco aquilo que não é da sua ordem. Deixar-me no seu espaço, assim flácido, elástico, assim tão pouco sólido. De sólido já há tanto! Que tudo mais esteja para além do meu domínio. É um trabalho da memória, essa que se coloca para adiante e me deixa torpe ao já ser meu passado imaginado. Pergunto-lhe quem poderia ser? Impressiono-me sempre quando me vem tão alheio ao que poderia ter pensado. O tempo não se pensa. Fico num estado de pura euforia vazia. Quero preencher-lhe os buracos, mas com isso me ponho num trabalho estúpido, em vão. Necessito adentrá-lo com menos cuidado. Não tomar conta das palavras: não se trata de palavras. Trabalho árduo de não trabalhar, quando tudo me põe assim, num estado produtivo. Besta produtividade. Essa mascara um outro lado: o de não haver lados a serem mascarados. Vai-se sendo tempo toda vida.

8.22.2009

Para não me repetir demasiado, pus-me no deslocamento.
Tomei um avião e atravessei muitos mil quilômetros.
Mas, ah, que equívoco!
A viagem serve pra voltar.

Percebi que o pensamento (corpo) não necessita se deslocar no espaço a tantas léguas. Basta olhar quieto e seguir um certo movimento sutil. Não prescinde do espaço: só que não é tão literal e tão óbvio. É um espaço outro, menos afeito às turbinas dos aviões e aos trilhos dos metrôs. Mas colado a mil outras coisas, assim, em encantamento, muito distanciado do espanto fácil do novo.

8.10.2009

Vontade de vomitar uma imagem sem nada.

Já perdi o andar da carruagem, mas sigo catando a poeirinha que indica sua passagem. No rastro, o melhor - em processo de decantação.


Vontade de um mover de mãos dentro de uma tela. Saudade de cortar e colar. Falar, falar, falar.

8.09.2009

Há dias para se escrever. Não escrever o dia, descrevê-lo, elogiá-lo ou narrá-lo. A escrita funciona como uma extensão de um vazio, assumindo sempre que esse espaço não será ocupado. Não seria sequer um espaço, mas um impulso. Não se escreve para preencher um vazio. Isso é tarefa frustrada - ou, quem sabe, escrita frustrada. Eu, em palavras não-lidas, escrevo como para estender um estado, fazê-lo existir, ou existir nele com mais presença. Como uma percepção, lampejo que é quase material. Escrevo, então. Não são bem as palavras, muito menos as imagens que elas podem evocar. Deve haver em algum lado uma meia-fase, onde se consiga encontrar alguma coisa tão própria da palavra, além do seu som e aquém do seu significado. É disso que se trata, ao menos para mim, esse estado de escrita. Fico horas remoendo uns pensamentos difusos, alguns estados latentes, umas inclinações esparramadas: são essas as horas das palavras. E, apesar de tudo, já parto de um engano rotundo. Pois sim, estão aí símbolos enfileirados, prontos para serem decodificados em significados. O bom seria fazer dançar essas estabilidades.

Contudo, já tenho alguma resposta. A palavra é minha. Essa, em português. Estando rodeado de tantas outras, flutuo num sem-chão. Hoje senti o português brotar no meu pensamento, pulular na minha boca. Não queria japonês, nem espanhol, nem inglês. Para poder retirar a palavra da sua certeza com alguma graça, necessito antes sabê-la toda minha, dentro de um território seguro. Tenho relação certa com essas que me trazem afeto, o português que me moveu por anos e que faz alguma ponte da visão com a minha imaginação. Só me dei conta aqui. Leio Guimarães Rosa, Fernando Pessoa e Saramago, em pleno Japão, e eles me parecem quase metafísicos, de tanto que compreendi - creio - o pathos de uma língua.

E por isso hoje senti que devia escrever. Por ter percebido que, em português, escrevo muito mais do que para comunicar. Necessidade de escrever sem descrever.

No canto esquerdo inferior, uma data: 31/3/2009, 23h37. Detalhado até os minutos. Salteando pela memória, achei uma imagem assim, escura, noturna, gente relaxada conversando, bebendo. Todos absolutamente entretidos com suas vidas. É uma rua, há uma marquise e luz branca que ilumina uma faixa da fotografia. Há um senhor, pernas cruzadas, tronco levemente inclinado para a sua esquerda. Ele fala e pouco gesticula. Sugeriria que ouve mais do que pronuncia. Observa com atenção. É terça-feira e deu-se ao direito de ir tomar uma cerveja no bar da esquina.

Na imagem, uma esquina. Ocupada, gente conversando. Gente e esquina (repito algumas vezes o par). A memória não me falha na imagem. Sobreponho imagem e imaginação, e olho para frente, através da janela. A diferença é abrupta e me ponho absorto em pensamentos tão óbvios que me causam pena de mim mesmo. "Que ridículo!". Tenho a imagem pra me dar conta, pra não me esquecer. Do pátio imenso e largo que é, minha memória me coloca tão mais nesse presente que se arrasta com o calor úmido dos dias.

Para isso, a palavra não basta. Tampouco a imagem. Sigo tentando uma instalação segura no intervalo entre as duas coisas. Ai, que bom seria poder. Da varandinha, empurro os pensamentos pra longe, num método estranho da vontade de dizer o indizível. E, ademais, a quem?

Saudades desse devir imperceptível.

8.03.2009

A escada era de mármore e exalava um cheiro entre nauseante e muito agradável. O hall de entrada - uma pequena área, antes um vestíbulo - também tinha seu piso todo de mármore, que se estendia pelos três lances de escada. A pedra branca tinha umas pequenas rachaduras, e compunha um padrão xadrez com as placas de pedra preta que se intercalavam. Sempre que passava do portão da rua e aí entrava, o cheiro tão forte me lembrava algo próximo de um açougue para, no momento seguinte, transformar-se em um aroma de pedra refrescante, que me dava muito prazer. Talvez, acima de tudo, o prazer de estar de volta. Sempre era recebido nas minhas chegadas pelos degraus brancos. Não importava o calor da rua, nunca era desagradável voltar para casa.

7.18.2009

Um hábito estranho. Podem achar doente, que seja. Mas tem um pedaço desse mundo virtual - vasto, porém cheio de vícios, caminhos repetidos - que não me canso de visitar e revisitar. Ele nunca - nunca! - vai mudar. Nem uma letra a mais, nem uma vírgula a menos. Fica ali, perene, sólido, cheio de incertezas que nunca vão se resolver. É como se tivesse preso ali, naquela tela, naquelas cores escolhidas, fontes, números, dados de html. Um pedaço de tempo que estancou em uma fórmula, um espaço fechado a sete chaves, que conserva seu ar intacto ali dentro. E uma voz, tão viva, que me chega aos ouvidos quando por ali resolvo passar. Não digo que há frequência notável: a cada três meses, quando muito, me pego olhando pras suas frases encadeadas. Como se eu pudesse experimentar uma presença estranha, que já há muito é ausência. Não pensem nada sobre mim, não estou com nada, nem passando por nenhum problema. Gosto de ouvir seus pensamentos, às vezes límpidos, às vezes confusos. Só isso. A nostalgia não é tão determinante quanto o real interesse pelo presente daquele texto. É uma mágica da internet: fica-se sempre. Novas configurações de memória, diria o título de alguma tese de doutorado. Eu digo: alguma humanidade que salva a literatura, o texto, a palavra escrita, a porcaria que é a internet, em geral. Então fico lendo. Pouco a pouco, pra que me reste o que descobrir da próxima vez. Percebo que podia ter ouvido mais da sua própria boca, mas lembro que às vezes não é possível se entender as coisas enquanto estão acontecendo. É preciso algum tempo, decantamento. Então, nesses passeios, a ausência se esvai, e uma presença quase latejante está aí, pronta para ser ouvida. Quase ouço essa voz que não se ouve há tanto tempo.
Não posso sentir muita coisa. E não digo que pouco me importa tudo isso, a história, minha família e todas essas coisas que me empurraram para dentro dos meus ouvidos desde que nasci. Não sou dissimulado o suficiente. Talvez lhes importem mais a quem o diz. Mas, enfim, isso a mim não importa - quem o faz e quem não. Mas de fato, não sinto tanta coisa assim. Já era de se esperar. Desde que cheguei, percebi isso: aqui nada me fala. E não há importância no fato de que fale a língua, conheça os hábitos, e até saiba do seu pensamento. Interessantes, distintos, pitorescos e surpreendentes. Emocionantes e familiares são adjetivos muito forçados. A narrativa não vai tão longe, posso garantir. Quem inventou a balela de encontro de raízes estava certamente tão fascinado com a História de um Si transcendente que não pôde se lembrar que historietas são mais acalentadoras. Aquelas de ontem, do ano passado, de um minuto de um dia qualquer. E que o corpo é tão mais senhor da presença (e da ausência, por que não?) que ali estão memórias preciosas, que dali saem e para fora se escapam. Não me emociono, não vejo nenhum passado que seja meu em nenhum lado pra onde olhe por aqui. Não que isso seja algo ruim, mas tampouco me ponho a buscar um arroubo de profundidade metafísico-memorialista em algo que aí está, assim, que é do corriqueiro, da vida daqueles que aqui passam. E eu também aqui passo. Agora. E meu corpo não encontra acúmulo nenhum que o arrebate. Acúmulo, se há, é nele, e não por aí afora. E dele podem sair coisas novas e se reterem outras. Dele, sempre, porque, inevitavelmente é de mim que falo agora.

7.05.2009

3 meses.

Há exatos três meses, estava em algum avião, no caminho...

Em três meses, muitos anos. Muitas vidas diferentes. É impressionante como as mudanças são perceptíveis quando o tempo é contado e atentamos aos nossos humores com os sentidos bem apurados.

Pois sim, são três meses e muita coisa mudou. Já tenho meus passos que caminham sozinhos, pelas ruas que eles escolheram com o passar dos dias. Tenho assuntos e risadas espalhadas por alguns cantos da cidade, e alguns ouvidos nos quais as minhas palavras já cavaram seu caminho certo. Tenho imagens e olhos, alguns cheiros e barulhos, tenho um pouco da cidade já descascada pelas minhas passagens. Tenho passagens e paradas. Já fiz meus buracos e gastei alguns pedaços de piso das ruas e das calçadas. Tenho minhas horas, meu tempo. Já construí um tempo meu, único, e pouco afeito ao que me ensinaram quando cheguei. Tenho segundas, terças, quartas, quintas, sextas. Tenho sextas! Tenho sábados e domingos. Domigões, almoços, passeios e gente em casa. "No Japão, é assim, é assado, aqui se faz dessa forma e não da outra". Já criei minha maneira e posso manejar o meu país dentro dessa ilha. Tenho algo que aproxima de uma casa - passageira, no entanto, e isso será sempre, eu creio.

E, em três meses, também percebo o que de lá tem morada aqui. Percebo ruas de Icaraí que cismam em andar na minha memória, algumas mesas e cadeiras da Praça São Salvador, umas muretas da Urca, algumas mesas no Humaitá, o cheiro e o frescor de umas árvores em Pendotiba e o mar das praias - elas todas. E sinto ainda o suor de um sol úmido, levemente salgado. Percebo com clareza o que fica e, presente sempre, é ausência mais aguda, que vai e volta nas horas em que durmo ou me deixo sair daqui. As vozes, as risadas e os humores. Meu pensamento que flui, em português. O português que às vezes brota borbulhante, no meio de uma frase em japonês, ou em inglês, ou espanhol. A língua me dói tão fundo que às vezes me cego e me perco.

Enfim, 3 meses, e, em tão pouco tempo, tantas possibilidades de viagens. Ainda muitas outras por vir.



6.20.2009

Todos deviam saber português, pra poderem ter a possibilidade de ler Guimarães Rosa.

6.18.2009

Passam, os dias e as horas. Assim, os pensamentos. Aos poucos, vou chegando em Kyoto. Mesmo que de lá, do outro lado do oceano, creio que nunca tenha saído de verdade.

O tempo é tão ligeiro, amacia o espanto e vai fazendo as coisas acontecerem. Ainda sinto falta do tempo que não passava jamais, de quando não olhávamos pra ele. "Olha aqui, na minha cara", ele esperneava. Não sei por que, mas hoje escuto sua voz, sussurrando como uma brisa no meu ouvido. Abro os olhos e o dia ensolarado me traz alguma boa memória. Sinto falta daquele tempo, ignorado. Era uma mágica suprema, aconchegante e recheada de bons encontros. Agora, na memória, sou muitas saudades. Não tem muito jeito, nasci no meio de tanta coisa inexistente, imaginação tão cheia de reentrências, protuberâncias, escorregos e rebuscamentos; nasci já sentido saudade, eu creio. Coisa esquisita, diriam alguns. Pra mim, sempre que estou, percebo o quanto estive, estiveram, estivemos. O tempo de hoje me assombra, sempre. Desde ontem, quando acordei no meio daquela luz branca e quentinha, debaixo da coberta do meio-dia. Gosto de chá, cabo de guarda-chuva, torrada com manteiga e milho quentinho. Um tempo tão maior do que eu.

6.09.2009

Imaginação da cidade


Imagino uma cidade. Ela tem luzes e árvores que se esparramam pelas ruas. À noite ela cresce e engole todos os meus pensamentos. As suas bordas são como linhas borradas - porém nítidas aos olhos atentos - que não conseguem separar o fora do dentro. Tudo ali, naquele limiar, se mistura. Uma cidade feita de bons limiares. Percorro seus caminhos com um olhar embevecido e curioso. Olhar de criança. Ela se extrapola a si mesma. Nunca pára de se criar. Imagino que tenha muitas pessoas e tanto mais esquinas. As vozes são rápidas, altas e gargalhadas. Elas carregam algo de interessante. Não consigo entender o quê, mas na minha imaginação, elas estão lá, aderidas ao seu cenário. Os cheiros são agudos - nada de meio-termo. Eles se encontram na minha frente, e perfuram o asfalto, as árvores, e as quinas rachadas do meio-fio. Chego a imaginar seus vôos entretidos, rachando aquele cimento cinza pra percorrer a matéria da cidade. É uma cidade de espaços, amplos, com pontos luminosos aqui e acolá. De manhã, ela se espreguiça toda, e estica seus braços pra fora dos seus domínios. Ela se derrama toda pela sua vizinhança, como se afagasse de leve a superfície que lhe foi atribuída. Passa a mão nos cabelos e suspira leve e satisfeita. A cidade sente a moleza da manhã e ri de si.
Imagino ter imaginado inúmeras vezes essa cidade. Na memória, essa cidade se solidifica e se decompõe, a cada oportunidade de olhar para fora. Seus penduricalhos tomam forma. Ela data de 1984, e segue nascendo por aí. Mais ou menos de dois em dois anos, depois de muito espairecer, ela ganha novamente o mapa. Espalha seus tentáculos e reabre sua temporada. "Nasceu!". A cada nascimento, posso imaginar ouvir uma música tranquila ao fundo, enquanto ouço vozes familiares, risadas de crianças e sinto o cheiro salgado de um mar azul e muito extenso. E ela chora um choro cheio de vontade, com gritos prolongados de quem inspira o primeiro ar nesse mundo. Esperneando pelos cômodos. Choro com gosto de leito fresco. Imagino seu nascimento, imagino que nasce a toda hora oportuna. Imagino nascer, quantas vezes forem boas e na medida, assim como eu.
Dois meses e cinco dias fora de casa.

Dois meses e três dias em Kyoto.

6.05.2009

Nhenhando, num deslim. A marcha estradeira da palavra. Cismosa, entrando em si, na meio-sonhada ruminação. Meu amigo Guimarães Rosa, aqui, nesse longe que estou, esquentando um pouco a alma com palavras quase cantadas. É impressionante como tudo fica macio quando ele escreve.

"A felicidade é o cheio de um copo de se beber meio-por-meio".

Soropita fica feliz com Doralda, lá no Ão do meio do sertão. Basta saber olhar: de dentro de cada coisa, umas cem mil palavras, que, em vez de representar, apresentam um outro modo.

Em vez de economizar, às vezes derramar aos montes pode ser outra forma de economia, tão simples quanto. Não o excesso das voltas que nunca páram, mas o adentrar do olhar nas dobras que podem ser desfolhadas de cada coisa.

Um dia haicai e outro Rosa. Assim se vai.

5.31.2009

O sol esquenta às vezes. Noutras, ele é como uma sombra sem o escuro. Claridade para se ver: a pele ainda trinca e a perna treme.

A comida é boa, suficiente. E a conversa flui - às vezes passa rente aos ouvidos, mas isso já pode ser bastante para se esvaziar a mente. Inúmeras vezes fico parado, fingindo ouvir as frases, sem o menor interesse no conteúdo. Concentro-me nos gestos, e no mover das minhas mãos em diração ao prato.

***

É estranho como não consigo estar aqui o tempo inteiro. Assim, estando inteiro. Uma parte sempre escapa, escorrega pela frestinha que fica aberta nas horas mais inusitadas. Escapo assim, sem ruídos, mudo num encantamento esquisito que me prende aqui, deixando-me livre para não estar quando assim não me apraz. "Mas aqui não estou", sempre me vem essa intuição.

Lá, o oposto. Desde o acordar até o dormir, a única certeza que tinha - e terei sempre, suspeito - é de que lá estou a todo momento. Vôo livre e descuidado pelos mais espaços e tempos imaginários: porque nada me prende, mas solta-me para escolher lá estar o tempo todo. Aquela sensação me apraz, como se assim, estando inteiro, só assim, pudesse estar metade, um quarto, quantos fragmentos fossem, espalhados pelo ar, na certeza de alguma unidade que os une. Como nunca acreditei na liberdade, encontro a satisfação no pertencimento: um pouquinho de mim espalhado pelo vento. Lá, na casa, não me ocupo de mim jamais. Posso ser, desse jeito, puro esquecimento - sensação única e valiosa.

5.27.2009

Fora das expectativas habituais, o hábito ainda não lhe saiu do corpo. Ele anda pelas ruas, mas sente nos seus póros a ausência de algo que ali não se encontra.
Estranhamente, apesar de todos os clichês do novo, sentia que quanto mais se movia, mais estagnado se encontrava.
Quase compulsivamente, buscava encaixar seu corpo e seu hábito na nova forma e no novo ar que lhes eram impostos. Talvez estivesse por demais acostumado a algo que lhe seria muito peculiar. Aquela alegria toda não pode ser achada em qualquer canto. Mas seria então aquele o canto que lhe aprazia: ali deveria estar, não importassem as condições.

Não via a hora de se mover novamente...
Assim, o tempo passando...

passando.

5.10.2009

Domingo Nostálgico


Retirado de um distante texto de uma distante Juju, nos idos de 2007, nos confins de uma Alemanha quase Japão:


"Quero saber de amanhã, não quero saber de oceano. Quero Dezembro e Carnaval. Nunca achei que fosse querer isso."


Só temos soluções, sempre. E elas sempre vêm acompanhadas de tantas coisas: penduricalhos bons, feitos de boas, extensas, profundas, rasas e macias palavras, abraços e afetos. Corremos atrás o tempo todo dos problemas (eu sei que isso pode parecer clichê, mas é essa a impressão do momento).


*


As cidades em mim


A cidade aqui funciona como um mecanismo correto. As pessoas vestem ternos, trabalham de manhã até à noite. Embriagam-se e ficam felizes para pegar o trem e voltar no dia seguinte. As meninas e os meninos se vestem impecáveis. Andam com seus celulares à mão. Comunicam-se intensamente até o momento em que se encontram. Agradecem, desculpam-se, escondem-se embaixo dos seus cabelos complexos e empinados. Os carros andam na velocidade esperada, param no sinal, continuam, nunca estacionam (aonde vão todos eles quando não estão em movimento?). Os prédios - perfeitos como todo o resto - ao cair da noite, colocam suas roupas contemporâneas e deixam deslizar os letreiros, as imagens, as grandes placas de luzes - azuis, vermelhas, brancas, amarelas. As lojas vendem, as pessoas compram. Elas fumam nos lugares permitidos e desculpam-se quando se esbarram. Elas quase nunca se esbarram - mas são tantas! (Como conseguem?).

A grande máquina perfeita.

Enquanto isso, do outro lado, um sobressalto e outro do grande caos urbano: a máquina se lembra de que é máquina. Nos intervalos - longos e expansivos - as pessoas respiram com apuro, olham bem pras outras, e sentam na mesa pra bater um papo. Estão na máquina desnudada: tempo suficiente para se esquecerem e se enredarem.

A máquina é ótima, mas ela pode se desmantelar toda naquela mesa de bar. Assim é possível juntar novamente suas peças e contruir um novo mecanismo. Em mim, não aparo as arestas, nunca: deixo elas se colidirem e encontrarem seu encaixe. (Talvez por isso eu prefira o Rio).

5.08.2009

mergulho no mar
baixinho
tarde de domingo

*

meu haicai tem gosto de sol
espero as palavras chegarem
sujas de areia e brisa salgada

5.07.2009

Da janela, umas nuvens escuras.

São 4, 5, 6, 7, 8 horas. O dia vai passando, e lá estão as nuvens escuras.

Preciso de um som, um barulho ensurdecedor.

Mas tenho apenas essas nuvens escuras. O ar é gelado, mais uma vez, e a pele trinca com as lufadas de vento.

À meia-noite, seguro a caneca de chá. Já não vejo mais as nuvens. A cidade se iluminou - mas não ficou bela.

5.06.2009

"Comigo é sempre assim. A viagem é pra dentro."
Sobre o tempo


Um mês no Japão.

Na atividade do relógio, as memórias vão ficando cada vez mais consolidadas. O espírito está por aí, de carne e osso. Cada passagem finca um pouco mais fundo a memória. A imaginação da distinção entre corpo e espírito é colocada à prova todo o dia aqui: acho que existe, mas luto por que, de fato, não há. Fico na teimosia de não me deixar levar.

Diria: "estou aqui". Mas meu impulso primeiro é: "estou lá". Misturo a visão com a imaginação, e, por vezes, sinto o vento um pouco mais quente e o ar um pouco mais salgado. Hoje sonhei com Mauá ao som da voz dos amigos. O pensamento - e o espírito, e o corpo, por que não? - falam um português bonito e límpido. Quando mudo o idioma, encontro-me numa mímica estranha de mim mesmo. Porém, sempre me lembro: essa mímica ainda sou eu.

Contudo, não consigo deixar de olhar o relógio. O tempo virou meu companheiro mais íntimo: espreito-o a toda hora, e converso com ele quando estou em casa. Como se sentisse o passar dos dias no ar, nos pulmões (inspirar e expirar) e nos meus pés. Como se pudesse andar o tempo: empurrá-lo pra trás com meus passos. Aqui o tempo virou espaço. Mas, de alguma forma, fora de mim. O tempo, nesse um mês, saiu e tomou conta do que me cerca - mas não se encontra mais em mim. Então eu vejo o tempo, quase toco, mas ele não me toca.

Todo dia, ainda tenho um estranhamento: mas será que estou aqui? Parece algo ilusório, uma brincadeira estranha. Como se o real tivesse ficado me esperando no Rio... Deixei o meu tempo lá, deitado na minha cama, andando pelas ruas. Aqui ele passa na minha frente, ao meu lado, rebate. Eu o empurro: quero meu tempo, mas ele se encontra tão longe...



(Joaquim Távora, Icaraí)

Dormindo, descansando e tomando sol.

5.01.2009

Niterói

Para não desfacelar a face de uma cidade, aparar suas arestas. Recostar nos seus cantos, suas esquinas. Calcular os passos de vez em quando. Sair para andar, tracejar novos espaços. Desfazer, refazer, desconstruir os mapas. Pela mesma rua, em outra calçada. Cada rua tem mil calçadas. E cada calçada, outros mil caminhos.

Parar a cada minuto, virar as costas e reconsiderar as possibilidades. Fazer rotinas e desmantelá-las. Uma a cada cinco dias. Depois voltar, o tempo todo. Ouvir suas conversas e descascar as suas camadas.

"Vamos tomar um café?" Dois, três. Quantos cigarros forem necessários. Depois percorrer os seus vincos todos. Aqueles viciados e aqueles renovados. Adentrar a noite.

Sem surpresas, mas um frescor de brisa de fim de tarde.

Não devemos plastificar as experiências.


***

Em Kyoto, percebo Niterói.
Estranha essa sensação.
Coletei cinco imagens na internet, mas nenhuma é Niterói. Todas mentem ao dizer serem.