Há dias para se escrever. Não escrever o dia, descrevê-lo, elogiá-lo ou narrá-lo. A escrita funciona como uma extensão de um vazio, assumindo sempre que esse espaço não será ocupado. Não seria sequer um espaço, mas um impulso. Não se escreve para preencher um vazio. Isso é tarefa frustrada - ou, quem sabe, escrita frustrada. Eu, em palavras não-lidas, escrevo como para estender um estado, fazê-lo existir, ou existir nele com mais presença. Como uma percepção, lampejo que é quase material. Escrevo, então. Não são bem as palavras, muito menos as imagens que elas podem evocar. Deve haver em algum lado uma meia-fase, onde se consiga encontrar alguma coisa tão própria da palavra, além do seu som e aquém do seu significado. É disso que se trata, ao menos para mim, esse estado de escrita. Fico horas remoendo uns pensamentos difusos, alguns estados latentes, umas inclinações esparramadas: são essas as horas das palavras. E, apesar de tudo, já parto de um engano rotundo. Pois sim, estão aí símbolos enfileirados, prontos para serem decodificados em significados. O bom seria fazer dançar essas estabilidades.
Contudo, já tenho alguma resposta. A palavra é minha. Essa, em português. Estando rodeado de tantas outras, flutuo num sem-chão. Hoje senti o português brotar no meu pensamento, pulular na minha boca. Não queria japonês, nem espanhol, nem inglês. Para poder retirar a palavra da sua certeza com alguma graça, necessito antes sabê-la toda minha, dentro de um território seguro. Tenho relação certa com essas que me trazem afeto, o português que me moveu por anos e que faz alguma ponte da visão com a minha imaginação. Só me dei conta aqui. Leio Guimarães Rosa, Fernando Pessoa e Saramago, em pleno Japão, e eles me parecem quase metafísicos, de tanto que compreendi - creio - o pathos de uma língua.
E por isso hoje senti que devia escrever. Por ter percebido que, em português, escrevo muito mais do que para comunicar. Necessidade de escrever sem descrever.
8.09.2009
No canto esquerdo inferior, uma data: 31/3/2009, 23h37. Detalhado até os minutos. Salteando pela memória, achei uma imagem assim, escura, noturna, gente relaxada conversando, bebendo. Todos absolutamente entretidos com suas vidas. É uma rua, há uma marquise e luz branca que ilumina uma faixa da fotografia. Há um senhor, pernas cruzadas, tronco levemente inclinado para a sua esquerda. Ele fala e pouco gesticula. Sugeriria que ouve mais do que pronuncia. Observa com atenção. É terça-feira e deu-se ao direito de ir tomar uma cerveja no bar da esquina.
Na imagem, uma esquina. Ocupada, gente conversando. Gente e esquina (repito algumas vezes o par). A memória não me falha na imagem. Sobreponho imagem e imaginação, e olho para frente, através da janela. A diferença é abrupta e me ponho absorto em pensamentos tão óbvios que me causam pena de mim mesmo. "Que ridículo!". Tenho a imagem pra me dar conta, pra não me esquecer. Do pátio imenso e largo que é, minha memória me coloca tão mais nesse presente que se arrasta com o calor úmido dos dias.
Para isso, a palavra não basta. Tampouco a imagem. Sigo tentando uma instalação segura no intervalo entre as duas coisas. Ai, que bom seria poder. Da varandinha, empurro os pensamentos pra longe, num método estranho da vontade de dizer o indizível. E, ademais, a quem?
Saudades desse devir imperceptível.
8.03.2009
A escada era de mármore e exalava um cheiro entre nauseante e muito agradável. O hall de entrada - uma pequena área, antes um vestíbulo - também tinha seu piso todo de mármore, que se estendia pelos três lances de escada. A pedra branca tinha umas pequenas rachaduras, e compunha um padrão xadrez com as placas de pedra preta que se intercalavam. Sempre que passava do portão da rua e aí entrava, o cheiro tão forte me lembrava algo próximo de um açougue para, no momento seguinte, transformar-se em um aroma de pedra refrescante, que me dava muito prazer. Talvez, acima de tudo, o prazer de estar de volta. Sempre era recebido nas minhas chegadas pelos degraus brancos. Não importava o calor da rua, nunca era desagradável voltar para casa.
7.18.2009
Um hábito estranho. Podem achar doente, que seja. Mas tem um pedaço desse mundo virtual - vasto, porém cheio de vícios, caminhos repetidos - que não me canso de visitar e revisitar. Ele nunca - nunca! - vai mudar. Nem uma letra a mais, nem uma vírgula a menos. Fica ali, perene, sólido, cheio de incertezas que nunca vão se resolver. É como se tivesse preso ali, naquela tela, naquelas cores escolhidas, fontes, números, dados de html. Um pedaço de tempo que estancou em uma fórmula, um espaço fechado a sete chaves, que conserva seu ar intacto ali dentro. E uma voz, tão viva, que me chega aos ouvidos quando por ali resolvo passar. Não digo que há frequência notável: a cada três meses, quando muito, me pego olhando pras suas frases encadeadas. Como se eu pudesse experimentar uma presença estranha, que já há muito é ausência. Não pensem nada sobre mim, não estou com nada, nem passando por nenhum problema. Gosto de ouvir seus pensamentos, às vezes límpidos, às vezes confusos. Só isso. A nostalgia não é tão determinante quanto o real interesse pelo presente daquele texto. É uma mágica da internet: fica-se sempre. Novas configurações de memória, diria o título de alguma tese de doutorado. Eu digo: alguma humanidade que salva a literatura, o texto, a palavra escrita, a porcaria que é a internet, em geral. Então fico lendo. Pouco a pouco, pra que me reste o que descobrir da próxima vez. Percebo que podia ter ouvido mais da sua própria boca, mas lembro que às vezes não é possível se entender as coisas enquanto estão acontecendo. É preciso algum tempo, decantamento. Então, nesses passeios, a ausência se esvai, e uma presença quase latejante está aí, pronta para ser ouvida. Quase ouço essa voz que não se ouve há tanto tempo.
Não posso sentir muita coisa. E não digo que pouco me importa tudo isso, a história, minha família e todas essas coisas que me empurraram para dentro dos meus ouvidos desde que nasci. Não sou dissimulado o suficiente. Talvez lhes importem mais a quem o diz. Mas, enfim, isso a mim não importa - quem o faz e quem não. Mas de fato, não sinto tanta coisa assim. Já era de se esperar. Desde que cheguei, percebi isso: aqui nada me fala. E não há importância no fato de que fale a língua, conheça os hábitos, e até saiba do seu pensamento. Interessantes, distintos, pitorescos e surpreendentes. Emocionantes e familiares são adjetivos muito forçados. A narrativa não vai tão longe, posso garantir. Quem inventou a balela de encontro de raízes estava certamente tão fascinado com a História de um Si transcendente que não pôde se lembrar que historietas são mais acalentadoras. Aquelas de ontem, do ano passado, de um minuto de um dia qualquer. E que o corpo é tão mais senhor da presença (e da ausência, por que não?) que ali estão memórias preciosas, que dali saem e para fora se escapam. Não me emociono, não vejo nenhum passado que seja meu em nenhum lado pra onde olhe por aqui. Não que isso seja algo ruim, mas tampouco me ponho a buscar um arroubo de profundidade metafísico-memorialista em algo que aí está, assim, que é do corriqueiro, da vida daqueles que aqui passam. E eu também aqui passo. Agora. E meu corpo não encontra acúmulo nenhum que o arrebate. Acúmulo, se há, é nele, e não por aí afora. E dele podem sair coisas novas e se reterem outras. Dele, sempre, porque, inevitavelmente é de mim que falo agora.
7.05.2009
3 meses.
Há exatos três meses, estava em algum avião, no caminho...
Em três meses, muitos anos. Muitas vidas diferentes. É impressionante como as mudanças são perceptíveis quando o tempo é contado e atentamos aos nossos humores com os sentidos bem apurados.
Pois sim, são três meses e muita coisa mudou. Já tenho meus passos que caminham sozinhos, pelas ruas que eles escolheram com o passar dos dias. Tenho assuntos e risadas espalhadas por alguns cantos da cidade, e alguns ouvidos nos quais as minhas palavras já cavaram seu caminho certo. Tenho imagens e olhos, alguns cheiros e barulhos, tenho um pouco da cidade já descascada pelas minhas passagens. Tenho passagens e paradas. Já fiz meus buracos e gastei alguns pedaços de piso das ruas e das calçadas. Tenho minhas horas, meu tempo. Já construí um tempo meu, único, e pouco afeito ao que me ensinaram quando cheguei. Tenho segundas, terças, quartas, quintas, sextas. Tenho sextas! Tenho sábados e domingos. Domigões, almoços, passeios e gente em casa. "No Japão, é assim, é assado, aqui se faz dessa forma e não da outra". Já criei minha maneira e posso manejar o meu país dentro dessa ilha. Tenho algo que aproxima de uma casa - passageira, no entanto, e isso será sempre, eu creio.
E, em três meses, também percebo o que de lá tem morada aqui. Percebo ruas de Icaraí que cismam em andar na minha memória, algumas mesas e cadeiras da Praça São Salvador, umas muretas da Urca, algumas mesas no Humaitá, o cheiro e o frescor de umas árvores em Pendotiba e o mar das praias - elas todas. E sinto ainda o suor de um sol úmido, levemente salgado. Percebo com clareza o que fica e, presente sempre, é ausência mais aguda, que vai e volta nas horas em que durmo ou me deixo sair daqui. As vozes, as risadas e os humores. Meu pensamento que flui, em português. O português que às vezes brota borbulhante, no meio de uma frase em japonês, ou em inglês, ou espanhol. A língua me dói tão fundo que às vezes me cego e me perco.
Enfim, 3 meses, e, em tão pouco tempo, tantas possibilidades de viagens. Ainda muitas outras por vir.
Há exatos três meses, estava em algum avião, no caminho...
Em três meses, muitos anos. Muitas vidas diferentes. É impressionante como as mudanças são perceptíveis quando o tempo é contado e atentamos aos nossos humores com os sentidos bem apurados.
Pois sim, são três meses e muita coisa mudou. Já tenho meus passos que caminham sozinhos, pelas ruas que eles escolheram com o passar dos dias. Tenho assuntos e risadas espalhadas por alguns cantos da cidade, e alguns ouvidos nos quais as minhas palavras já cavaram seu caminho certo. Tenho imagens e olhos, alguns cheiros e barulhos, tenho um pouco da cidade já descascada pelas minhas passagens. Tenho passagens e paradas. Já fiz meus buracos e gastei alguns pedaços de piso das ruas e das calçadas. Tenho minhas horas, meu tempo. Já construí um tempo meu, único, e pouco afeito ao que me ensinaram quando cheguei. Tenho segundas, terças, quartas, quintas, sextas. Tenho sextas! Tenho sábados e domingos. Domigões, almoços, passeios e gente em casa. "No Japão, é assim, é assado, aqui se faz dessa forma e não da outra". Já criei minha maneira e posso manejar o meu país dentro dessa ilha. Tenho algo que aproxima de uma casa - passageira, no entanto, e isso será sempre, eu creio.
E, em três meses, também percebo o que de lá tem morada aqui. Percebo ruas de Icaraí que cismam em andar na minha memória, algumas mesas e cadeiras da Praça São Salvador, umas muretas da Urca, algumas mesas no Humaitá, o cheiro e o frescor de umas árvores em Pendotiba e o mar das praias - elas todas. E sinto ainda o suor de um sol úmido, levemente salgado. Percebo com clareza o que fica e, presente sempre, é ausência mais aguda, que vai e volta nas horas em que durmo ou me deixo sair daqui. As vozes, as risadas e os humores. Meu pensamento que flui, em português. O português que às vezes brota borbulhante, no meio de uma frase em japonês, ou em inglês, ou espanhol. A língua me dói tão fundo que às vezes me cego e me perco.
Enfim, 3 meses, e, em tão pouco tempo, tantas possibilidades de viagens. Ainda muitas outras por vir.
6.18.2009
Passam, os dias e as horas. Assim, os pensamentos. Aos poucos, vou chegando em Kyoto. Mesmo que de lá, do outro lado do oceano, creio que nunca tenha saído de verdade.
O tempo é tão ligeiro, amacia o espanto e vai fazendo as coisas acontecerem. Ainda sinto falta do tempo que não passava jamais, de quando não olhávamos pra ele. "Olha aqui, na minha cara", ele esperneava. Não sei por que, mas hoje escuto sua voz, sussurrando como uma brisa no meu ouvido. Abro os olhos e o dia ensolarado me traz alguma boa memória. Sinto falta daquele tempo, ignorado. Era uma mágica suprema, aconchegante e recheada de bons encontros. Agora, na memória, sou muitas saudades. Não tem muito jeito, nasci no meio de tanta coisa inexistente, imaginação tão cheia de reentrências, protuberâncias, escorregos e rebuscamentos; nasci já sentido saudade, eu creio. Coisa esquisita, diriam alguns. Pra mim, sempre que estou, percebo o quanto estive, estiveram, estivemos. O tempo de hoje me assombra, sempre. Desde ontem, quando acordei no meio daquela luz branca e quentinha, debaixo da coberta do meio-dia. Gosto de chá, cabo de guarda-chuva, torrada com manteiga e milho quentinho. Um tempo tão maior do que eu.
O tempo é tão ligeiro, amacia o espanto e vai fazendo as coisas acontecerem. Ainda sinto falta do tempo que não passava jamais, de quando não olhávamos pra ele. "Olha aqui, na minha cara", ele esperneava. Não sei por que, mas hoje escuto sua voz, sussurrando como uma brisa no meu ouvido. Abro os olhos e o dia ensolarado me traz alguma boa memória. Sinto falta daquele tempo, ignorado. Era uma mágica suprema, aconchegante e recheada de bons encontros. Agora, na memória, sou muitas saudades. Não tem muito jeito, nasci no meio de tanta coisa inexistente, imaginação tão cheia de reentrências, protuberâncias, escorregos e rebuscamentos; nasci já sentido saudade, eu creio. Coisa esquisita, diriam alguns. Pra mim, sempre que estou, percebo o quanto estive, estiveram, estivemos. O tempo de hoje me assombra, sempre. Desde ontem, quando acordei no meio daquela luz branca e quentinha, debaixo da coberta do meio-dia. Gosto de chá, cabo de guarda-chuva, torrada com manteiga e milho quentinho. Um tempo tão maior do que eu.
6.09.2009
Imaginação da cidade
Imagino uma cidade. Ela tem luzes e árvores que se esparramam pelas ruas. À noite ela cresce e engole todos os meus pensamentos. As suas bordas são como linhas borradas - porém nítidas aos olhos atentos - que não conseguem separar o fora do dentro. Tudo ali, naquele limiar, se mistura. Uma cidade feita de bons limiares. Percorro seus caminhos com um olhar embevecido e curioso. Olhar de criança. Ela se extrapola a si mesma. Nunca pára de se criar. Imagino que tenha muitas pessoas e tanto mais esquinas. As vozes são rápidas, altas e gargalhadas. Elas carregam algo de interessante. Não consigo entender o quê, mas na minha imaginação, elas estão lá, aderidas ao seu cenário. Os cheiros são agudos - nada de meio-termo. Eles se encontram na minha frente, e perfuram o asfalto, as árvores, e as quinas rachadas do meio-fio. Chego a imaginar seus vôos entretidos, rachando aquele cimento cinza pra percorrer a matéria da cidade. É uma cidade de espaços, amplos, com pontos luminosos aqui e acolá. De manhã, ela se espreguiça toda, e estica seus braços pra fora dos seus domínios. Ela se derrama toda pela sua vizinhança, como se afagasse de leve a superfície que lhe foi atribuída. Passa a mão nos cabelos e suspira leve e satisfeita. A cidade sente a moleza da manhã e ri de si.
Imagino ter imaginado inúmeras vezes essa cidade. Na memória, essa cidade se solidifica e se decompõe, a cada oportunidade de olhar para fora. Seus penduricalhos tomam forma. Ela data de 1984, e segue nascendo por aí. Mais ou menos de dois em dois anos, depois de muito espairecer, ela ganha novamente o mapa. Espalha seus tentáculos e reabre sua temporada. "Nasceu!". A cada nascimento, posso imaginar ouvir uma música tranquila ao fundo, enquanto ouço vozes familiares, risadas de crianças e sinto o cheiro salgado de um mar azul e muito extenso. E ela chora um choro cheio de vontade, com gritos prolongados de quem inspira o primeiro ar nesse mundo. Esperneando pelos cômodos. Choro com gosto de leito fresco. Imagino seu nascimento, imagino que nasce a toda hora oportuna. Imagino nascer, quantas vezes forem boas e na medida, assim como eu.
Imagino uma cidade. Ela tem luzes e árvores que se esparramam pelas ruas. À noite ela cresce e engole todos os meus pensamentos. As suas bordas são como linhas borradas - porém nítidas aos olhos atentos - que não conseguem separar o fora do dentro. Tudo ali, naquele limiar, se mistura. Uma cidade feita de bons limiares. Percorro seus caminhos com um olhar embevecido e curioso. Olhar de criança. Ela se extrapola a si mesma. Nunca pára de se criar. Imagino que tenha muitas pessoas e tanto mais esquinas. As vozes são rápidas, altas e gargalhadas. Elas carregam algo de interessante. Não consigo entender o quê, mas na minha imaginação, elas estão lá, aderidas ao seu cenário. Os cheiros são agudos - nada de meio-termo. Eles se encontram na minha frente, e perfuram o asfalto, as árvores, e as quinas rachadas do meio-fio. Chego a imaginar seus vôos entretidos, rachando aquele cimento cinza pra percorrer a matéria da cidade. É uma cidade de espaços, amplos, com pontos luminosos aqui e acolá. De manhã, ela se espreguiça toda, e estica seus braços pra fora dos seus domínios. Ela se derrama toda pela sua vizinhança, como se afagasse de leve a superfície que lhe foi atribuída. Passa a mão nos cabelos e suspira leve e satisfeita. A cidade sente a moleza da manhã e ri de si.
Imagino ter imaginado inúmeras vezes essa cidade. Na memória, essa cidade se solidifica e se decompõe, a cada oportunidade de olhar para fora. Seus penduricalhos tomam forma. Ela data de 1984, e segue nascendo por aí. Mais ou menos de dois em dois anos, depois de muito espairecer, ela ganha novamente o mapa. Espalha seus tentáculos e reabre sua temporada. "Nasceu!". A cada nascimento, posso imaginar ouvir uma música tranquila ao fundo, enquanto ouço vozes familiares, risadas de crianças e sinto o cheiro salgado de um mar azul e muito extenso. E ela chora um choro cheio de vontade, com gritos prolongados de quem inspira o primeiro ar nesse mundo. Esperneando pelos cômodos. Choro com gosto de leito fresco. Imagino seu nascimento, imagino que nasce a toda hora oportuna. Imagino nascer, quantas vezes forem boas e na medida, assim como eu.
6.05.2009
Nhenhando, num deslim. A marcha estradeira da palavra. Cismosa, entrando em si, na meio-sonhada ruminação. Meu amigo Guimarães Rosa, aqui, nesse longe que estou, esquentando um pouco a alma com palavras quase cantadas. É impressionante como tudo fica macio quando ele escreve.
"A felicidade é o cheio de um copo de se beber meio-por-meio".
Soropita fica feliz com Doralda, lá no Ão do meio do sertão. Basta saber olhar: de dentro de cada coisa, umas cem mil palavras, que, em vez de representar, apresentam um outro modo.
Em vez de economizar, às vezes derramar aos montes pode ser outra forma de economia, tão simples quanto. Não o excesso das voltas que nunca páram, mas o adentrar do olhar nas dobras que podem ser desfolhadas de cada coisa.
Um dia haicai e outro Rosa. Assim se vai.
"A felicidade é o cheio de um copo de se beber meio-por-meio".
Soropita fica feliz com Doralda, lá no Ão do meio do sertão. Basta saber olhar: de dentro de cada coisa, umas cem mil palavras, que, em vez de representar, apresentam um outro modo.
Em vez de economizar, às vezes derramar aos montes pode ser outra forma de economia, tão simples quanto. Não o excesso das voltas que nunca páram, mas o adentrar do olhar nas dobras que podem ser desfolhadas de cada coisa.
Um dia haicai e outro Rosa. Assim se vai.
5.31.2009
O sol esquenta às vezes. Noutras, ele é como uma sombra sem o escuro. Claridade para se ver: a pele ainda trinca e a perna treme.
A comida é boa, suficiente. E a conversa flui - às vezes passa rente aos ouvidos, mas isso já pode ser bastante para se esvaziar a mente. Inúmeras vezes fico parado, fingindo ouvir as frases, sem o menor interesse no conteúdo. Concentro-me nos gestos, e no mover das minhas mãos em diração ao prato.
***
É estranho como não consigo estar aqui o tempo inteiro. Assim, estando inteiro. Uma parte sempre escapa, escorrega pela frestinha que fica aberta nas horas mais inusitadas. Escapo assim, sem ruídos, mudo num encantamento esquisito que me prende aqui, deixando-me livre para não estar quando assim não me apraz. "Mas aqui não estou", sempre me vem essa intuição.
Lá, o oposto. Desde o acordar até o dormir, a única certeza que tinha - e terei sempre, suspeito - é de que lá estou a todo momento. Vôo livre e descuidado pelos mais espaços e tempos imaginários: porque nada me prende, mas solta-me para escolher lá estar o tempo todo. Aquela sensação me apraz, como se assim, estando inteiro, só assim, pudesse estar metade, um quarto, quantos fragmentos fossem, espalhados pelo ar, na certeza de alguma unidade que os une. Como nunca acreditei na liberdade, encontro a satisfação no pertencimento: um pouquinho de mim espalhado pelo vento. Lá, na casa, não me ocupo de mim jamais. Posso ser, desse jeito, puro esquecimento - sensação única e valiosa.
A comida é boa, suficiente. E a conversa flui - às vezes passa rente aos ouvidos, mas isso já pode ser bastante para se esvaziar a mente. Inúmeras vezes fico parado, fingindo ouvir as frases, sem o menor interesse no conteúdo. Concentro-me nos gestos, e no mover das minhas mãos em diração ao prato.
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É estranho como não consigo estar aqui o tempo inteiro. Assim, estando inteiro. Uma parte sempre escapa, escorrega pela frestinha que fica aberta nas horas mais inusitadas. Escapo assim, sem ruídos, mudo num encantamento esquisito que me prende aqui, deixando-me livre para não estar quando assim não me apraz. "Mas aqui não estou", sempre me vem essa intuição.
Lá, o oposto. Desde o acordar até o dormir, a única certeza que tinha - e terei sempre, suspeito - é de que lá estou a todo momento. Vôo livre e descuidado pelos mais espaços e tempos imaginários: porque nada me prende, mas solta-me para escolher lá estar o tempo todo. Aquela sensação me apraz, como se assim, estando inteiro, só assim, pudesse estar metade, um quarto, quantos fragmentos fossem, espalhados pelo ar, na certeza de alguma unidade que os une. Como nunca acreditei na liberdade, encontro a satisfação no pertencimento: um pouquinho de mim espalhado pelo vento. Lá, na casa, não me ocupo de mim jamais. Posso ser, desse jeito, puro esquecimento - sensação única e valiosa.
5.27.2009
Fora das expectativas habituais, o hábito ainda não lhe saiu do corpo. Ele anda pelas ruas, mas sente nos seus póros a ausência de algo que ali não se encontra.
Estranhamente, apesar de todos os clichês do novo, sentia que quanto mais se movia, mais estagnado se encontrava.
Quase compulsivamente, buscava encaixar seu corpo e seu hábito na nova forma e no novo ar que lhes eram impostos. Talvez estivesse por demais acostumado a algo que lhe seria muito peculiar. Aquela alegria toda não pode ser achada em qualquer canto. Mas seria então aquele o canto que lhe aprazia: ali deveria estar, não importassem as condições.
Não via a hora de se mover novamente...
Estranhamente, apesar de todos os clichês do novo, sentia que quanto mais se movia, mais estagnado se encontrava.
Quase compulsivamente, buscava encaixar seu corpo e seu hábito na nova forma e no novo ar que lhes eram impostos. Talvez estivesse por demais acostumado a algo que lhe seria muito peculiar. Aquela alegria toda não pode ser achada em qualquer canto. Mas seria então aquele o canto que lhe aprazia: ali deveria estar, não importassem as condições.
Não via a hora de se mover novamente...
5.10.2009
Domingo Nostálgico
Retirado de um distante texto de uma distante Juju, nos idos de 2007, nos confins de uma Alemanha quase Japão:
"Quero saber de amanhã, não quero saber de oceano. Quero Dezembro e Carnaval. Nunca achei que fosse querer isso."
Só temos soluções, sempre. E elas sempre vêm acompanhadas de tantas coisas: penduricalhos bons, feitos de boas, extensas, profundas, rasas e macias palavras, abraços e afetos. Corremos atrás o tempo todo dos problemas (eu sei que isso pode parecer clichê, mas é essa a impressão do momento).
*
As cidades em mim
A cidade aqui funciona como um mecanismo correto. As pessoas vestem ternos, trabalham de manhã até à noite. Embriagam-se e ficam felizes para pegar o trem e voltar no dia seguinte. As meninas e os meninos se vestem impecáveis. Andam com seus celulares à mão. Comunicam-se intensamente até o momento em que se encontram. Agradecem, desculpam-se, escondem-se embaixo dos seus cabelos complexos e empinados. Os carros andam na velocidade esperada, param no sinal, continuam, nunca estacionam (aonde vão todos eles quando não estão em movimento?). Os prédios - perfeitos como todo o resto - ao cair da noite, colocam suas roupas contemporâneas e deixam deslizar os letreiros, as imagens, as grandes placas de luzes - azuis, vermelhas, brancas, amarelas. As lojas vendem, as pessoas compram. Elas fumam nos lugares permitidos e desculpam-se quando se esbarram. Elas quase nunca se esbarram - mas são tantas! (Como conseguem?).
A grande máquina perfeita.
Enquanto isso, do outro lado, um sobressalto e outro do grande caos urbano: a máquina se lembra de que é máquina. Nos intervalos - longos e expansivos - as pessoas respiram com apuro, olham bem pras outras, e sentam na mesa pra bater um papo. Estão na máquina desnudada: tempo suficiente para se esquecerem e se enredarem.
A máquina é ótima, mas ela pode se desmantelar toda naquela mesa de bar. Assim é possível juntar novamente suas peças e contruir um novo mecanismo. Em mim, não aparo as arestas, nunca: deixo elas se colidirem e encontrarem seu encaixe. (Talvez por isso eu prefira o Rio).
Retirado de um distante texto de uma distante Juju, nos idos de 2007, nos confins de uma Alemanha quase Japão:
"Quero saber de amanhã, não quero saber de oceano. Quero Dezembro e Carnaval. Nunca achei que fosse querer isso."
Só temos soluções, sempre. E elas sempre vêm acompanhadas de tantas coisas: penduricalhos bons, feitos de boas, extensas, profundas, rasas e macias palavras, abraços e afetos. Corremos atrás o tempo todo dos problemas (eu sei que isso pode parecer clichê, mas é essa a impressão do momento).
*
As cidades em mim
A cidade aqui funciona como um mecanismo correto. As pessoas vestem ternos, trabalham de manhã até à noite. Embriagam-se e ficam felizes para pegar o trem e voltar no dia seguinte. As meninas e os meninos se vestem impecáveis. Andam com seus celulares à mão. Comunicam-se intensamente até o momento em que se encontram. Agradecem, desculpam-se, escondem-se embaixo dos seus cabelos complexos e empinados. Os carros andam na velocidade esperada, param no sinal, continuam, nunca estacionam (aonde vão todos eles quando não estão em movimento?). Os prédios - perfeitos como todo o resto - ao cair da noite, colocam suas roupas contemporâneas e deixam deslizar os letreiros, as imagens, as grandes placas de luzes - azuis, vermelhas, brancas, amarelas. As lojas vendem, as pessoas compram. Elas fumam nos lugares permitidos e desculpam-se quando se esbarram. Elas quase nunca se esbarram - mas são tantas! (Como conseguem?).
A grande máquina perfeita.
Enquanto isso, do outro lado, um sobressalto e outro do grande caos urbano: a máquina se lembra de que é máquina. Nos intervalos - longos e expansivos - as pessoas respiram com apuro, olham bem pras outras, e sentam na mesa pra bater um papo. Estão na máquina desnudada: tempo suficiente para se esquecerem e se enredarem.
A máquina é ótima, mas ela pode se desmantelar toda naquela mesa de bar. Assim é possível juntar novamente suas peças e contruir um novo mecanismo. Em mim, não aparo as arestas, nunca: deixo elas se colidirem e encontrarem seu encaixe. (Talvez por isso eu prefira o Rio).
5.08.2009
5.07.2009
Da janela, umas nuvens escuras.
São 4, 5, 6, 7, 8 horas. O dia vai passando, e lá estão as nuvens escuras.
Preciso de um som, um barulho ensurdecedor.
Mas tenho apenas essas nuvens escuras. O ar é gelado, mais uma vez, e a pele trinca com as lufadas de vento.
À meia-noite, seguro a caneca de chá. Já não vejo mais as nuvens. A cidade se iluminou - mas não ficou bela.
São 4, 5, 6, 7, 8 horas. O dia vai passando, e lá estão as nuvens escuras.
Preciso de um som, um barulho ensurdecedor.
Mas tenho apenas essas nuvens escuras. O ar é gelado, mais uma vez, e a pele trinca com as lufadas de vento.
À meia-noite, seguro a caneca de chá. Já não vejo mais as nuvens. A cidade se iluminou - mas não ficou bela.
5.06.2009
Sobre o tempo
Um mês no Japão.
Na atividade do relógio, as memórias vão ficando cada vez mais consolidadas. O espírito está por aí, de carne e osso. Cada passagem finca um pouco mais fundo a memória. A imaginação da distinção entre corpo e espírito é colocada à prova todo o dia aqui: acho que existe, mas luto por que, de fato, não há. Fico na teimosia de não me deixar levar.
Diria: "estou aqui". Mas meu impulso primeiro é: "estou lá". Misturo a visão com a imaginação, e, por vezes, sinto o vento um pouco mais quente e o ar um pouco mais salgado. Hoje sonhei com Mauá ao som da voz dos amigos. O pensamento - e o espírito, e o corpo, por que não? - falam um português bonito e límpido. Quando mudo o idioma, encontro-me numa mímica estranha de mim mesmo. Porém, sempre me lembro: essa mímica ainda sou eu.
Contudo, não consigo deixar de olhar o relógio. O tempo virou meu companheiro mais íntimo: espreito-o a toda hora, e converso com ele quando estou em casa. Como se sentisse o passar dos dias no ar, nos pulmões (inspirar e expirar) e nos meus pés. Como se pudesse andar o tempo: empurrá-lo pra trás com meus passos. Aqui o tempo virou espaço. Mas, de alguma forma, fora de mim. O tempo, nesse um mês, saiu e tomou conta do que me cerca - mas não se encontra mais em mim. Então eu vejo o tempo, quase toco, mas ele não me toca.
Todo dia, ainda tenho um estranhamento: mas será que estou aqui? Parece algo ilusório, uma brincadeira estranha. Como se o real tivesse ficado me esperando no Rio... Deixei o meu tempo lá, deitado na minha cama, andando pelas ruas. Aqui ele passa na minha frente, ao meu lado, rebate. Eu o empurro: quero meu tempo, mas ele se encontra tão longe...

(Joaquim Távora, Icaraí)
Dormindo, descansando e tomando sol.
Um mês no Japão.
Na atividade do relógio, as memórias vão ficando cada vez mais consolidadas. O espírito está por aí, de carne e osso. Cada passagem finca um pouco mais fundo a memória. A imaginação da distinção entre corpo e espírito é colocada à prova todo o dia aqui: acho que existe, mas luto por que, de fato, não há. Fico na teimosia de não me deixar levar.
Diria: "estou aqui". Mas meu impulso primeiro é: "estou lá". Misturo a visão com a imaginação, e, por vezes, sinto o vento um pouco mais quente e o ar um pouco mais salgado. Hoje sonhei com Mauá ao som da voz dos amigos. O pensamento - e o espírito, e o corpo, por que não? - falam um português bonito e límpido. Quando mudo o idioma, encontro-me numa mímica estranha de mim mesmo. Porém, sempre me lembro: essa mímica ainda sou eu.
Contudo, não consigo deixar de olhar o relógio. O tempo virou meu companheiro mais íntimo: espreito-o a toda hora, e converso com ele quando estou em casa. Como se sentisse o passar dos dias no ar, nos pulmões (inspirar e expirar) e nos meus pés. Como se pudesse andar o tempo: empurrá-lo pra trás com meus passos. Aqui o tempo virou espaço. Mas, de alguma forma, fora de mim. O tempo, nesse um mês, saiu e tomou conta do que me cerca - mas não se encontra mais em mim. Então eu vejo o tempo, quase toco, mas ele não me toca.
Todo dia, ainda tenho um estranhamento: mas será que estou aqui? Parece algo ilusório, uma brincadeira estranha. Como se o real tivesse ficado me esperando no Rio... Deixei o meu tempo lá, deitado na minha cama, andando pelas ruas. Aqui ele passa na minha frente, ao meu lado, rebate. Eu o empurro: quero meu tempo, mas ele se encontra tão longe...
(Joaquim Távora, Icaraí)
Dormindo, descansando e tomando sol.
5.01.2009
Niterói
Para não desfacelar a face de uma cidade, aparar suas arestas. Recostar nos seus cantos, suas esquinas. Calcular os passos de vez em quando. Sair para andar, tracejar novos espaços. Desfazer, refazer, desconstruir os mapas. Pela mesma rua, em outra calçada. Cada rua tem mil calçadas. E cada calçada, outros mil caminhos.
Parar a cada minuto, virar as costas e reconsiderar as possibilidades. Fazer rotinas e desmantelá-las. Uma a cada cinco dias. Depois voltar, o tempo todo. Ouvir suas conversas e descascar as suas camadas.
"Vamos tomar um café?" Dois, três. Quantos cigarros forem necessários. Depois percorrer os seus vincos todos. Aqueles viciados e aqueles renovados. Adentrar a noite.
Sem surpresas, mas um frescor de brisa de fim de tarde.
Não devemos plastificar as experiências.
***
Em Kyoto, percebo Niterói.
Estranha essa sensação.
Coletei cinco imagens na internet, mas nenhuma é Niterói. Todas mentem ao dizer serem.
Para não desfacelar a face de uma cidade, aparar suas arestas. Recostar nos seus cantos, suas esquinas. Calcular os passos de vez em quando. Sair para andar, tracejar novos espaços. Desfazer, refazer, desconstruir os mapas. Pela mesma rua, em outra calçada. Cada rua tem mil calçadas. E cada calçada, outros mil caminhos.
Parar a cada minuto, virar as costas e reconsiderar as possibilidades. Fazer rotinas e desmantelá-las. Uma a cada cinco dias. Depois voltar, o tempo todo. Ouvir suas conversas e descascar as suas camadas.
"Vamos tomar um café?" Dois, três. Quantos cigarros forem necessários. Depois percorrer os seus vincos todos. Aqueles viciados e aqueles renovados. Adentrar a noite.
Sem surpresas, mas um frescor de brisa de fim de tarde.
Não devemos plastificar as experiências.
***
Em Kyoto, percebo Niterói.
Estranha essa sensação.
Coletei cinco imagens na internet, mas nenhuma é Niterói. Todas mentem ao dizer serem.
