2.26.2010

Saudades.


(de tantas coisas...)


***

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Como vão vocês?


Saudades.

2.14.2010

"É preciso entender que cada um verá coisas que ninguém jamais poderá ver. E que nelas residem as suas razões"

(Bernardo Carvalho, in Nove Noites)


Pulavam o carnaval. Rio de Janeiro. Fazia um sol de rachar, aquele calor que faz derreter até os fios de cabelo. O suor lhes escorria por detrás das orelhas e seguia pelo pescoço. A música era a mesma de sempre, mas o estampido da multidão era tão eufórico que renovava cada nota repetida, toda vez que era tocada pela banda que caminhava pelas ruas, já submersas no caos alegre da multidão. Tudo era muito colorido e os sorrisos, se não maliciosos, cheios de sincera satisfação pelo presente puro celebrado naqueles dias. O Rio de Janeiro brilhava de humanidade. A cada passo que davam, sentiam a felicidade de estarem ali e de terem sempre ali estado. O lugar pra se existir, definitivamente.

***

Rumava a um caminho estranho. De um outro lado - da vida, do mundo, do mínimo sentido - encontrava-se numa encruzilhada boa e plena de um sutil (e agudo) sentimento de futuro. Estava ali e o futuro se desfolhava em finas camadas a cada segundo. A encruzilhada se lhe mostrava tão frutífera quanto sem a menor recompensa: era unicamente o fato de estar nela que lhe impulsionava para adiante. Queria estar e queria se mover. Não havia como se decidir. Pela primeira vez em toda a sua vida, o futuro era o que menos lhe pertencia - saiu do engodo, finalmente! Curtia o vento gelado enquanto recebia as visitas queridas, fugidas do lugar onde talvez mais quisesse estar. Apesar de olhar com estranheza essa escolha tão efêmera de alguém que se desloca tão longamente para prestar-lhe uma visita breve, era exatamente isso que lhe aguçava ainda mais a certeza da encruzilhada. Depois de muito tempo achando saber do que se tratava, agora compreendia com mais clareza a idéia do devir, menos na razão do que na experiência.

1.13.2010

Neve e sol.

O frio também é coisa linda de meu deus!

1.05.2010

***

De longe, abraços e beijos apertados e muitos saudosos.

Que aí, onde vive quase todo o meu afeto - algum resto eu carrego comigo, outro vai sendo cultivado por onde passo - continue ensolarado, meio escorregadio, molhado, cheio de espaços vazios e barulhos animadores. Que o estrondo macio continue redondo, cheio de lados, uma cama boa e quente preparada pra quando eu voltar. Um sorriso intermitente, mas muito sincero e cheio de satisfação efêmera - mais afeita ao chão, quem sabe.
Assim espero que 2010 seja como 2009 (que eu não vi passar), como foi 2008 e como será 2011.

Se tudo é tão bonito, aí será sempre mais. Já não tem mais jeito.

***

E que esse novo afeto que se me produziu, me mantenha desperto até quando for preciso.


***

De uma certa forma, acho que voltei a acreditar nos anos: simplesmente pelo fato de não haver sentido a sua mudança. É a teimosia do cético, ao revés e com muitas saudades.

12.14.2009

Noite fria

Gelada

Alguns minutos
Muitos
Entre um espaço e outro
dentro do mesmo quarto
Um ponto escuro
Cintila
o sinal de uma virada.

Horas inesperadas

12.08.2009




isso de querer ser
exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além

(Paulo Leminski)


Saudades.
Oito meses e dois dias com os pés aqui.

"tudo isso se tornou parte da minha vida; não poderia deixar tudo sem chorar, sem compreender que, por mau que parecesse, era parte de mim que ficava com eles todos, que o separar-me deles era metade e semelhança da morte" (Fernando Pessoa, Livro do Desassossego)

Anotado em 05 de abril de 2009, dentro do avião. 2009 já quase se foi.

Por mais que essa citação, depois de tanto tempo, possa parecer ambígua e sem um lugar, agora sinto vontade de estar debaixo do sol, com uma camiseta, bermuda, conversando com os amigos, tomando uma coca-cola, com um céu azul. Falando português. E me sentindo tão em casa, à maneira de um sentir absoluto, em que o mundo ao redor é grande o bastante.

12.01.2009

Ainda me impressiono como, aqui na ilha, o pensamento acadêmico acredita tanto na nomeação das coisas. Eles ainda não perceberam que podem se desvencilhar do sentido dado.

(capitalismo aqui é coisa séria)

11.26.2009

Pés gelados não conseguem sentir bem o chão que tocam.

10.25.2009

Nada pra escrever, mas vontade de falar.

Hoje, durante todo o dia, falei só por 14 minutos. Contados. Ao telefone e em espanhol. Ainda bem que existe a internet. Assim posso soltar uma palavras para o interlocutor imaginário. Absorto que estava em trabalhos e afazeres, não digo que cheguei a me dar conta do meu silêncio. Ouvi música, escrevi, li. As palavras nunca deixam de ecoar. Chegando à noite, no entanto, quis expeli-las. Falei sozinho, testei minha voz. De fato, outros ouvidos são necessários. Em português, de preferência. Senti o peso do pensamento. Ele tem o peso do meu corpo com o da comida que ficou na geladeira pra refeição de amanhã.
Não reclamo. Não produzo tragédias auto-piedosas (não mais). Acho bom perceber que, preso dentro das palavras não proferidas, meu pensamento se torna tão volumoso que se perde em si mesmo: perco o sentido. Isso me traz algum contentamento estranho, como se tivesse mais certeza do que sempre intuí. É necessário cultivar a boa comunicação, aquela tão rara quanto preciosa. Essa eu já possuo. Ainda que, por ora, meio distante fisicamente.

10.14.2009

Preciso secar as palavras.
Sempre tive essa impressão.

Mas nessa seca toda, cada gota mais gorda me alegra quase por uma página inteira.

Essa imagem foi roubada da internet. Não sei quem tirou. Tenho aqui no meu computador há uns meses já. Praia de Icaraí, numa tarde de um dia de semana qualquer.

É impressionante, mas olho pra ela e quase acredito que ela seja o que representa. No passar do tempo, aqui, tão distante do que ela retrata, ela, de fato, passou a quase ser aquilo que pretende representar. Minha memória se faz presente em imagens e sons. Assim ela se reaviva. E, muito mais, ela se faz presente nas minhas saudades, que oscilam em momentos, dias, semanas. Tendo a pensar que não sinto mais a falta física que sentia: já estou aqui e meu corpo aprendeu isso com os meses. Ele não grita mais: "não sou daqui". Tenho uma vida, hábitos, pensamentos. Meus sonhos já se mudaram, acompanham agora o corpo. O português me acompanha, quase exclusivamente no meu pensamento, que, durante o dia, se torna confuso com os idiomas, nasce sempre em português, mas no caminho toma a forma do inglês, do japonês, do espanhol, do francês. Cansa-se e, às vezes, quer apenas não ser. A língua se tornou tão notória que parece que precisa fugir de qualquer uma. Não ser mais pensamento. Mas, no entanto, se refestela quando reencontra o português, lendo o jornal, um romance ou falando na internet. Orgulha-se de existir e de ainda ser tão pregnante em mim.
Não sinto falta, portanto. Cheguei ao presente. Este presente que se faz existir sempre a partir (sim, é ponto primordial) das minhas saudades. É como se estivesse num paradoxo estranho: não acredito que necessariamente deva não estar aqui, ou estar aí, dentro da imagem. Mas a saudade já é necessária, concede alguma coisa que subjaz o tempo inteiro. A saudade já sou eu, de uma certa maneira. Aqui, necessito dela.

Hoje senti bastante saudade. E resolvi escrevê-la.

10.08.2009

Não porque me secaram as palavras. Nem porque me sequei delas. Mas porque às vezes elas já estavam tão bem encadeadas que se torna inútil repeti-las tantas vezes, tentando tomar um caminho diferente.

A minha vida parece uma montanha-russa meio tortuosa, mas cujas curvas radicais acalantam inúmeros espaços minúsculos (junções deles) que resultam em uma calmaria tão harmoniosa que já ofuscam o turbilhão. Não é verdade que cada curva é feita por momentos que podem se prolongar ao infinito? Lições que Borges nos deu.

Aqui, reflito essa curva imensa que é pura calmaria. Há pouco mais de um ano atrás, em 06 de julho de 2008, tudo parecia tão diferente do que é hoje, mas permaneço, sem dúvida, nessa mesma curva tortuosa:


"Espero aqui, sentado, balançando as pernas, o tempo se pronunciar. Ele nunca diz nada, mas deixa suas pistas delicadamente, utilizando-se de si mesmo para enganar-nos.

Malandro de outrora, no entanto, ele já não consegue me enganar tanto assim. Foco minha vista já cansada da espera e, juntando-me à sua eterna brincadeira de esconde-esconde, instalo-me no seu trabalho e, no esforço de imaginar a sensação do invisível, consigo degustar cada aceno que me dá. Conseguimos então, assim, selar a amizade que, ao mesmo tempo, provoca o escárnio e o imenso respeito que cultivo."


Sigo no meu exercício (o meu artifício mais bem trabalhado)...

10.04.2009

Em palavras mais simples:
conviver com a "intelectualidade" internacional me mostrou de forma brutal a urgência do pensamento brasileiro, latino-americano, que seja.

Não pelo fato de ser geográfico, mas pelo mais pungente fato de assim ser tão marcadamente percebido. Desfazer o geografismo a partir da sua adoção primeira. Por mais paradoxal que seja, mas algo como estratégias distintas ainda que num mesmo regime.

É como Deleuze percebeu, "não se sai de um dispositivo", mas é nele que está a sua própria superação.


(precisava escrever assim, de forma meio grosseira)
Chão

É estranho pensar isso, e mais estranho escrever ou dizer. Mas é como se estivesse alguma coisa por aí, a ser pensada, discutida, esmiuçada aí. Como se o pensamento tivesse aí a sua função, o seu fim. Não digo que seja utilitário o pensamento, mas ele põe algo a mover, retira a estabilidade, arranca as coisas do seu terreno estúpido da certeza. Pensamento como ação - não a "pró-ativa" atividade de fazer aparecer algo no âmbito do concreto, de fazer ir à frente em uma corrida tão mais abstrata quanto mais parece existente em números ou em dados. Mas uma ação que resulte em algumas inversões e que trate do óbvio com o espanto do novo - e sempre nesse caminho. Não exaltar o novo de forma vulgar e leviana, a novidade não é aparição, mas desvelamento.
Esse pensamento, estranhamente, me parece ter chão. Não me parece válido por qualquer motivo, nem por qualquer razão - a razão não o ilumina em qualquer seara, não o valida por qualquer joguete de lógica intrincada. Ele urge a partir de onde pode infiltrar-se, pungir e fazer pensar igual (ou distinto). Ele viaja a partir de um ponto: esse há de ser seguro e, de certa forma, percebido de antemão. Como se estivesse comprometido desde o seu (meu) nascimento. E por isso decidi tão fortemente pelo pensar, por ser desde um lugar, que não é assim, tão geográfico e tão calculável, mas uma situação, uma conjuntura, um devir específico que a mim me toca e que, por ser assim, tão de dentro compreendido por mim, é daí que devo saltar, e daí que devo pescar o óbvio e fazê-lo pensar. Nunca achei que fosse dizer isso, mas meu pensar é mais pensar quando estou no meu lugar.

8.26.2009

Sigo me assustando. Não está aí para o meu controle, essa coisa de ser tempo. De sermos ele e, dei-me conta, só ele. Ao tentar manipulá-lo, já fracasso. Preciso ser todo, e não ser nem um pouco aquilo que não é da sua ordem. Deixar-me no seu espaço, assim flácido, elástico, assim tão pouco sólido. De sólido já há tanto! Que tudo mais esteja para além do meu domínio. É um trabalho da memória, essa que se coloca para adiante e me deixa torpe ao já ser meu passado imaginado. Pergunto-lhe quem poderia ser? Impressiono-me sempre quando me vem tão alheio ao que poderia ter pensado. O tempo não se pensa. Fico num estado de pura euforia vazia. Quero preencher-lhe os buracos, mas com isso me ponho num trabalho estúpido, em vão. Necessito adentrá-lo com menos cuidado. Não tomar conta das palavras: não se trata de palavras. Trabalho árduo de não trabalhar, quando tudo me põe assim, num estado produtivo. Besta produtividade. Essa mascara um outro lado: o de não haver lados a serem mascarados. Vai-se sendo tempo toda vida.

8.22.2009

Para não me repetir demasiado, pus-me no deslocamento.
Tomei um avião e atravessei muitos mil quilômetros.
Mas, ah, que equívoco!
A viagem serve pra voltar.

Percebi que o pensamento (corpo) não necessita se deslocar no espaço a tantas léguas. Basta olhar quieto e seguir um certo movimento sutil. Não prescinde do espaço: só que não é tão literal e tão óbvio. É um espaço outro, menos afeito às turbinas dos aviões e aos trilhos dos metrôs. Mas colado a mil outras coisas, assim, em encantamento, muito distanciado do espanto fácil do novo.

8.10.2009

Vontade de vomitar uma imagem sem nada.

Já perdi o andar da carruagem, mas sigo catando a poeirinha que indica sua passagem. No rastro, o melhor - em processo de decantação.


Vontade de um mover de mãos dentro de uma tela. Saudade de cortar e colar. Falar, falar, falar.

8.09.2009

Há dias para se escrever. Não escrever o dia, descrevê-lo, elogiá-lo ou narrá-lo. A escrita funciona como uma extensão de um vazio, assumindo sempre que esse espaço não será ocupado. Não seria sequer um espaço, mas um impulso. Não se escreve para preencher um vazio. Isso é tarefa frustrada - ou, quem sabe, escrita frustrada. Eu, em palavras não-lidas, escrevo como para estender um estado, fazê-lo existir, ou existir nele com mais presença. Como uma percepção, lampejo que é quase material. Escrevo, então. Não são bem as palavras, muito menos as imagens que elas podem evocar. Deve haver em algum lado uma meia-fase, onde se consiga encontrar alguma coisa tão própria da palavra, além do seu som e aquém do seu significado. É disso que se trata, ao menos para mim, esse estado de escrita. Fico horas remoendo uns pensamentos difusos, alguns estados latentes, umas inclinações esparramadas: são essas as horas das palavras. E, apesar de tudo, já parto de um engano rotundo. Pois sim, estão aí símbolos enfileirados, prontos para serem decodificados em significados. O bom seria fazer dançar essas estabilidades.

Contudo, já tenho alguma resposta. A palavra é minha. Essa, em português. Estando rodeado de tantas outras, flutuo num sem-chão. Hoje senti o português brotar no meu pensamento, pulular na minha boca. Não queria japonês, nem espanhol, nem inglês. Para poder retirar a palavra da sua certeza com alguma graça, necessito antes sabê-la toda minha, dentro de um território seguro. Tenho relação certa com essas que me trazem afeto, o português que me moveu por anos e que faz alguma ponte da visão com a minha imaginação. Só me dei conta aqui. Leio Guimarães Rosa, Fernando Pessoa e Saramago, em pleno Japão, e eles me parecem quase metafísicos, de tanto que compreendi - creio - o pathos de uma língua.

E por isso hoje senti que devia escrever. Por ter percebido que, em português, escrevo muito mais do que para comunicar. Necessidade de escrever sem descrever.

No canto esquerdo inferior, uma data: 31/3/2009, 23h37. Detalhado até os minutos. Salteando pela memória, achei uma imagem assim, escura, noturna, gente relaxada conversando, bebendo. Todos absolutamente entretidos com suas vidas. É uma rua, há uma marquise e luz branca que ilumina uma faixa da fotografia. Há um senhor, pernas cruzadas, tronco levemente inclinado para a sua esquerda. Ele fala e pouco gesticula. Sugeriria que ouve mais do que pronuncia. Observa com atenção. É terça-feira e deu-se ao direito de ir tomar uma cerveja no bar da esquina.

Na imagem, uma esquina. Ocupada, gente conversando. Gente e esquina (repito algumas vezes o par). A memória não me falha na imagem. Sobreponho imagem e imaginação, e olho para frente, através da janela. A diferença é abrupta e me ponho absorto em pensamentos tão óbvios que me causam pena de mim mesmo. "Que ridículo!". Tenho a imagem pra me dar conta, pra não me esquecer. Do pátio imenso e largo que é, minha memória me coloca tão mais nesse presente que se arrasta com o calor úmido dos dias.

Para isso, a palavra não basta. Tampouco a imagem. Sigo tentando uma instalação segura no intervalo entre as duas coisas. Ai, que bom seria poder. Da varandinha, empurro os pensamentos pra longe, num método estranho da vontade de dizer o indizível. E, ademais, a quem?

Saudades desse devir imperceptível.