Não como morrer,
mas talvez aquele estado de latência do coma induzido:
há lá uma vida, apenas distante do que nos é visível.
3.28.2009
3.15.2009
Estrebuchar
Chafurdar
às vezes as palavras prescindem do seu significado.
Hoje de manhã, acordei tão bem disposto, que estrebuchei um pão com queijo minas delicioso, enquanto a luz do sol chafurdava nos meus pensamentos.
O estrebucho ficou preso ali na porta da sala. Não chafurda demais, senão ele pode acabar soltando e quebrando o vidro da mesa.
Chafurdar
às vezes as palavras prescindem do seu significado.
Hoje de manhã, acordei tão bem disposto, que estrebuchei um pão com queijo minas delicioso, enquanto a luz do sol chafurdava nos meus pensamentos.
O estrebucho ficou preso ali na porta da sala. Não chafurda demais, senão ele pode acabar soltando e quebrando o vidro da mesa.
3.10.2009
Atividade de esvaziar sem estagnar
Diante da cidade
por sobre. sob. entre. dentro. fora.
de todos os afetos
Antes de ver e depois de ouvir
(sem falar)
Diante da multidão de ausências
madrugada
e as horas que passam
passam e páram e acenam com a luz amarela de poste
As pessoas tão assim
entretidas em si
Diante da miríade incomensurável
de camadas secas e molhadas
dos espaços que trepam
uns sobre os outros
Caminhos possíveis
eu, o outro
Diante.
Mergulhou
num fôlego do tamanho da sua memória
tentou escrever a saudade e a presença e a ausência
Mas não se trata de escrever. Nunca. Nem de ver. Muito menos isso! Nem ouvir, nem representar.
Esteve um pouco. Recostou e existiu por quatro tempos de um silêncio que espalhou pela superfície.
Dos olhos. Do asfalto das ruas. Do cinza do azulejo. Do azul metálico do carro a 100km/h. Das vozes queridas.
Assim é a cidade. Assim terá que ser.
Diante da cidade
por sobre. sob. entre. dentro. fora.
de todos os afetos
Antes de ver e depois de ouvir
(sem falar)
Diante da multidão de ausências
madrugada
e as horas que passam
passam e páram e acenam com a luz amarela de poste
As pessoas tão assim
entretidas em si
Diante da miríade incomensurável
de camadas secas e molhadas
dos espaços que trepam
uns sobre os outros
Caminhos possíveis
eu, o outro
Diante.
Mergulhou
num fôlego do tamanho da sua memória
tentou escrever a saudade e a presença e a ausência
Mas não se trata de escrever. Nunca. Nem de ver. Muito menos isso! Nem ouvir, nem representar.
Esteve um pouco. Recostou e existiu por quatro tempos de um silêncio que espalhou pela superfície.
Dos olhos. Do asfalto das ruas. Do cinza do azulejo. Do azul metálico do carro a 100km/h. Das vozes queridas.
Assim é a cidade. Assim terá que ser.
3.02.2009
Atividade de um cheirador
Quanto de espaço sobra depois de aspirar com as narinas todas as ruas da cidade?
Como o drogado cheira sua carreirinha, ele passou a se dedicar, dia-a-dia, a puxar para os pulmões as ruas e quarteirões de que sentiria mais falta.
As esquinas ficariam, quem sabe, pra última semana. Essas seriam demasiado pesadas pra um sorver corriqueiro.
Mas, afinal, quanto de espaço sobraria?
Quanto de espaço sobra depois de aspirar com as narinas todas as ruas da cidade?
Como o drogado cheira sua carreirinha, ele passou a se dedicar, dia-a-dia, a puxar para os pulmões as ruas e quarteirões de que sentiria mais falta.
As esquinas ficariam, quem sabe, pra última semana. Essas seriam demasiado pesadas pra um sorver corriqueiro.
Mas, afinal, quanto de espaço sobraria?
2.26.2009
Quarta cinzenta
Primerias despedidas.
Carnaval: como não sei quando acontece de novo (pra mim), achei que devia deixar registrado que o carnaval no Rio é sempre muito bom... cativa assim que começa...
Sempre reclamo uma semana antes, e sinto falta uma depois.
Todos do mundo deveriam passar por uma experiência aproximada. E uma cidade devia sempre poder ser outra, nem que seja por alguns dias, como acontece aqui.
Como uma intervenção coletiva, sem utilitarismo e ideologia: a mais pura reocupação estética dos espaços.
Primerias despedidas.
Carnaval: como não sei quando acontece de novo (pra mim), achei que devia deixar registrado que o carnaval no Rio é sempre muito bom... cativa assim que começa...
Sempre reclamo uma semana antes, e sinto falta uma depois.
Todos do mundo deveriam passar por uma experiência aproximada. E uma cidade devia sempre poder ser outra, nem que seja por alguns dias, como acontece aqui.
Como uma intervenção coletiva, sem utilitarismo e ideologia: a mais pura reocupação estética dos espaços.
2.11.2009
2.04.2009
Sobre melancolia e escrita
Mais uma vez, roubando ímpeto de outros lugares.
Pois disse ele - ou deixou implícito - que para se escrever é necessária a melancolia. De onde vem a melancolia?, perguntaria-lhe. Do espaço, do tempo, ou de uma transcendência? Do mesmo lugar de onde vem a escrita?
Enquanto trabalho na tese, percebo que podemos montar a melancolia. Assim, talvez, questionasse-lhe: "ela não pode vir de um palco?". A performance da escrita é a mesma performance da melancolia. Assim como a da alegria, talvez. Performance, que, obviamente, não é menos nem mais imanente que qualquer outra coisa - porque não é menos nem mais verdadeira.
E, quem sabe, não esteja aí a grande chave da escrita. Pode-se performar o real, o falso e todos os pathos de uma só vez.
Num quarto de hotel, em Itajubinha do Norte, certa vez, estive escrevendo sobre o inverno de Paris de 1946, pouco após o fim dos bombardeios. Disse como andavam felizes as moças, com seus chapéus alongados e seus lenços cobrindo o nariz quando passavam pelo mal-cheiro do esgoto ainda a ser refeito. Na grande alegria que me tomava naquele verão na pequena cidade litorânea baiana, consegui ser melancólico como um ex-combatente de guerra sentado num café, olhando o capitalismo emergente na Tóquio de 1967.
A minha melancolia, no entanto, me propôs uma viagem de verão à beira do mar de Honolulu, quando estava sozinho sobre a terra evacuada do campo de refugiados em Kosovo, lá pelos idos da década de 1990. Não como um remédio ao presente - nem como uma fuga - talvez como possibilidade de escrita mesmo. Presente da linguagem. Assim, enquanto catava os restos da minha casa, consegui descrever com precisão o frescor do coco que sorvia a pequenos goles sentado na beira da piscina no Copacabana Palace.
Posso também estar melancólico e efusivo, ao mesmo tempo. Talvez essa seja a maior felicidade. Nesses dias, escrevo um haicai para subtrair-me do mundo. Esse aqui, escrevi por volta do século XVII, imaginando ser Matsuô Bashô:
ossos desgastados
em minha mente
um corpo perfurado pelo vento
Não uma descrição do mundo, nem a mim mesmo - já sabemos que esse é um privilégio que nem a fotografia alcançou. Talvez a escrita seja essa possibilidade de exterioridade. (tudo culpa da minha tese...)
Mais uma vez, roubando ímpeto de outros lugares.
Pois disse ele - ou deixou implícito - que para se escrever é necessária a melancolia. De onde vem a melancolia?, perguntaria-lhe. Do espaço, do tempo, ou de uma transcendência? Do mesmo lugar de onde vem a escrita?
Enquanto trabalho na tese, percebo que podemos montar a melancolia. Assim, talvez, questionasse-lhe: "ela não pode vir de um palco?". A performance da escrita é a mesma performance da melancolia. Assim como a da alegria, talvez. Performance, que, obviamente, não é menos nem mais imanente que qualquer outra coisa - porque não é menos nem mais verdadeira.
E, quem sabe, não esteja aí a grande chave da escrita. Pode-se performar o real, o falso e todos os pathos de uma só vez.
Num quarto de hotel, em Itajubinha do Norte, certa vez, estive escrevendo sobre o inverno de Paris de 1946, pouco após o fim dos bombardeios. Disse como andavam felizes as moças, com seus chapéus alongados e seus lenços cobrindo o nariz quando passavam pelo mal-cheiro do esgoto ainda a ser refeito. Na grande alegria que me tomava naquele verão na pequena cidade litorânea baiana, consegui ser melancólico como um ex-combatente de guerra sentado num café, olhando o capitalismo emergente na Tóquio de 1967.
A minha melancolia, no entanto, me propôs uma viagem de verão à beira do mar de Honolulu, quando estava sozinho sobre a terra evacuada do campo de refugiados em Kosovo, lá pelos idos da década de 1990. Não como um remédio ao presente - nem como uma fuga - talvez como possibilidade de escrita mesmo. Presente da linguagem. Assim, enquanto catava os restos da minha casa, consegui descrever com precisão o frescor do coco que sorvia a pequenos goles sentado na beira da piscina no Copacabana Palace.
Posso também estar melancólico e efusivo, ao mesmo tempo. Talvez essa seja a maior felicidade. Nesses dias, escrevo um haicai para subtrair-me do mundo. Esse aqui, escrevi por volta do século XVII, imaginando ser Matsuô Bashô:
ossos desgastados
em minha mente
um corpo perfurado pelo vento
Não uma descrição do mundo, nem a mim mesmo - já sabemos que esse é um privilégio que nem a fotografia alcançou. Talvez a escrita seja essa possibilidade de exterioridade. (tudo culpa da minha tese...)
1.25.2009
Viu o sol batendo na pedra.
Toda a manhã, das 6h46 até meio-dia (porque depois já é tarde, aprendera). Viu, todo esse tempo, cada segundo, o sol batendo na pedra.
Ele não batia, pra falar a verdade. Antes, ele parecia se recostar sobre ela, esticar bem os braços e soltar um bocejo daqueles "ai!, que preguiça que eu tenho", como se dissesse. No seu amarelo desbotado, parecia apenas contornar as cores que já estavam lá. Amigavam-se e ternamente trocavam confissões sutis e delicadas, a pedra e o sol. Não batia, de fato.
Então, todo esse tempo, estava o sol a acariciar a pedra. Ele viu, não tirou os olhos nenhum segundo - "os olhos que a terra há de comer", diziam alguns. O sol também chegava na terra. Mas antes da terra tinha o mato, tinha as folhas secas, as formigas paradas, as formigas andando, as formigas carregando as folhas secas e as formigas descansando na sombra da pedra. A terra, essa não merecia tanto assim sua atenção - "só porque era o destino dos meus olhos?"
Em todo esse tempo, pensou muito. Ou melhor, não sabia precisar o quanto havia pensado. Talvez tivesse só olhado - e, depois, pensado. Entre pensar e olhar: qual a distância? Sem dúvidas, havia olhado incansavelmente, chegando até a ver a pedra lhe fazer um aceno, como se tomasse suco de laranja à beira da piscina. Viu até os gominhos de laranja, se movimentando ao calor daquele sol que acariciava a pedra e movimentava o suco. Viu também suor que pingava da testa da formiga que carregava a folha seca - "formiga tem testa?", pensou. Pensou pouco, realmente. Porque também não conseguia tirar os olhos das horas em que a folha seca pulava ligeiramente, voltando a pousar sobre as costas da formiga. Não, esse momento era imperdível!
Meio-dia, não era mais manhã. Olhou tanto, que se perdeu. Não nos pensamentos, mas nas horas - na parte do tempo que não é pensamento, por isso a gente se perde. Dormiu e acordou às 3 horas da tarde, a pedra já dormia calma e profundamente, e o sol já a havia traído com a copa da árvore que se regorzijava toda, enquanto dobrava a esquina da rua seguinte.
Toda a manhã, das 6h46 até meio-dia (porque depois já é tarde, aprendera). Viu, todo esse tempo, cada segundo, o sol batendo na pedra.
Ele não batia, pra falar a verdade. Antes, ele parecia se recostar sobre ela, esticar bem os braços e soltar um bocejo daqueles "ai!, que preguiça que eu tenho", como se dissesse. No seu amarelo desbotado, parecia apenas contornar as cores que já estavam lá. Amigavam-se e ternamente trocavam confissões sutis e delicadas, a pedra e o sol. Não batia, de fato.
Então, todo esse tempo, estava o sol a acariciar a pedra. Ele viu, não tirou os olhos nenhum segundo - "os olhos que a terra há de comer", diziam alguns. O sol também chegava na terra. Mas antes da terra tinha o mato, tinha as folhas secas, as formigas paradas, as formigas andando, as formigas carregando as folhas secas e as formigas descansando na sombra da pedra. A terra, essa não merecia tanto assim sua atenção - "só porque era o destino dos meus olhos?"
Em todo esse tempo, pensou muito. Ou melhor, não sabia precisar o quanto havia pensado. Talvez tivesse só olhado - e, depois, pensado. Entre pensar e olhar: qual a distância? Sem dúvidas, havia olhado incansavelmente, chegando até a ver a pedra lhe fazer um aceno, como se tomasse suco de laranja à beira da piscina. Viu até os gominhos de laranja, se movimentando ao calor daquele sol que acariciava a pedra e movimentava o suco. Viu também suor que pingava da testa da formiga que carregava a folha seca - "formiga tem testa?", pensou. Pensou pouco, realmente. Porque também não conseguia tirar os olhos das horas em que a folha seca pulava ligeiramente, voltando a pousar sobre as costas da formiga. Não, esse momento era imperdível!
Meio-dia, não era mais manhã. Olhou tanto, que se perdeu. Não nos pensamentos, mas nas horas - na parte do tempo que não é pensamento, por isso a gente se perde. Dormiu e acordou às 3 horas da tarde, a pedra já dormia calma e profundamente, e o sol já a havia traído com a copa da árvore que se regorzijava toda, enquanto dobrava a esquina da rua seguinte.
1.08.2009
Ao acaso de uma beringela, acontecidos pouco admiráveis
"Qual é o tamanho de um acontecimento?", perguntaria-lhe.
Tamanho de uma linha? Ou de um romance inteiro? A fotografia no jornal, a imagem comentada pelo noticiário da tv? O tamanho do acontecimento é um momento, tempo cronológico? Um dia? Uma noite? Uma madrugada? Tamanho de uma mesa de bar, de uma pista de dança? A extensão de uma música? Uma trepada? Um beijo fantástico?
Acontecimento é extensão? É pautado pela intenção? Pela intenção de não ser acontecimento?
Que espécie de acontecido deixa uma vida mais admirável?
Talvez, menos extensão e definitivamente fora de qualquer referencial de intenção - a "não-intenção" vive apenas pela existência prévia da intenção. Aquilo que não se pega, e que não se comunica. Assim, eu diria, adiantando-me a minha própria pergunta: incomunicável.
Também imbuscável: não se traça uma reta para se chegar a um acontecimento, nem um caminho, nem um projeto. Da ordem do que acontece, dentro do horizonte do sensível (aquilo que se sente sem se pegar, ou muito menos narrar), valorizar o acontecimento - cercá-lo de valores e significá-lo - é já matá-lo. Não se acontece por se querer que aconteça. Acontecimento é contingente e casual. Nunca, porém, causal. Andamos na rua todos os dias, e acontecemos em cada coisa e cada coisa acontece ao nosso olhar - e nosso corpo - no momento mesmo em que não os buscamos.
E não há nada de admirável nisso. (Há algo, em alguma parte?)
"Qual é o tamanho de um acontecimento?", perguntaria-lhe.
Tamanho de uma linha? Ou de um romance inteiro? A fotografia no jornal, a imagem comentada pelo noticiário da tv? O tamanho do acontecimento é um momento, tempo cronológico? Um dia? Uma noite? Uma madrugada? Tamanho de uma mesa de bar, de uma pista de dança? A extensão de uma música? Uma trepada? Um beijo fantástico?
Acontecimento é extensão? É pautado pela intenção? Pela intenção de não ser acontecimento?
Que espécie de acontecido deixa uma vida mais admirável?
Talvez, menos extensão e definitivamente fora de qualquer referencial de intenção - a "não-intenção" vive apenas pela existência prévia da intenção. Aquilo que não se pega, e que não se comunica. Assim, eu diria, adiantando-me a minha própria pergunta: incomunicável.
Também imbuscável: não se traça uma reta para se chegar a um acontecimento, nem um caminho, nem um projeto. Da ordem do que acontece, dentro do horizonte do sensível (aquilo que se sente sem se pegar, ou muito menos narrar), valorizar o acontecimento - cercá-lo de valores e significá-lo - é já matá-lo. Não se acontece por se querer que aconteça. Acontecimento é contingente e casual. Nunca, porém, causal. Andamos na rua todos os dias, e acontecemos em cada coisa e cada coisa acontece ao nosso olhar - e nosso corpo - no momento mesmo em que não os buscamos.
E não há nada de admirável nisso. (Há algo, em alguma parte?)
1.02.2009
O dono do ano
Então eles disseram que mudou o ano. Mais uma vez.
Já ele achou graça: é inescapável. Não que se permita ignorar totalmente o passar dos dias - os números que vão junto com a bateria do relógio - não, isso é impossível. Como os outros, ele tem prazos, datas e conta no banco, que enche e esvazia exatamente no compasso do calendário. Mas também não conseguiria viver acreditando na virada de algo para outra coisa diferente. Não que não vislumbrasse a mudança, mas, de fato, não aquela advinda com a passagem de um dia ao outro. Como se o momento da redenção pudesse surgir sempre, a cada 365 dias. "Já estou velho demais pra me levar por essas coisas...", diria, no tom mais espontâneo.
"Feliz ano novo", diriam-lhe (desejariam-lhe?), todas as vezes que se despedissem. Não, talvez não. "Um ótimo não-ano pra você", porventura quisesse ouvir algo assim. Não conseguia nunca formular uma frase pra preencher a demanda das felicitações desse período. Aí, lembrava-se: "não se trata de frases. Nunca".
Reservava-se sempre o direito do alívio com o fim dos festejos. Bom, 02 de janeiro já pode ser como 02 de dezembro e novembro. Voltava ao seu passar do tempo. O seu. E, tinha quase certeza, o de todos. Tempo bom, que passa e que digere as coisas mais materiais possíveis. Tempo, não números (o homem foi suficientemente ambicioso pra transformar em língua aquilo que é pura experiência).
Comeu um chocolate, tomou um vinho e acendeu um cigarro. Assim, sem mais nem menos, já era madrugada e ele foi se dando conta de que o ano é seu e de mais ninguém.
Então eles disseram que mudou o ano. Mais uma vez.
Já ele achou graça: é inescapável. Não que se permita ignorar totalmente o passar dos dias - os números que vão junto com a bateria do relógio - não, isso é impossível. Como os outros, ele tem prazos, datas e conta no banco, que enche e esvazia exatamente no compasso do calendário. Mas também não conseguiria viver acreditando na virada de algo para outra coisa diferente. Não que não vislumbrasse a mudança, mas, de fato, não aquela advinda com a passagem de um dia ao outro. Como se o momento da redenção pudesse surgir sempre, a cada 365 dias. "Já estou velho demais pra me levar por essas coisas...", diria, no tom mais espontâneo.
"Feliz ano novo", diriam-lhe (desejariam-lhe?), todas as vezes que se despedissem. Não, talvez não. "Um ótimo não-ano pra você", porventura quisesse ouvir algo assim. Não conseguia nunca formular uma frase pra preencher a demanda das felicitações desse período. Aí, lembrava-se: "não se trata de frases. Nunca".
Reservava-se sempre o direito do alívio com o fim dos festejos. Bom, 02 de janeiro já pode ser como 02 de dezembro e novembro. Voltava ao seu passar do tempo. O seu. E, tinha quase certeza, o de todos. Tempo bom, que passa e que digere as coisas mais materiais possíveis. Tempo, não números (o homem foi suficientemente ambicioso pra transformar em língua aquilo que é pura experiência).
Comeu um chocolate, tomou um vinho e acendeu um cigarro. Assim, sem mais nem menos, já era madrugada e ele foi se dando conta de que o ano é seu e de mais ninguém.
12.25.2008
Ano que vem em Kyoto
Escrever o que chega, falar o porvir. Talvez assim, imaginou, seria possível imaginar aquilo que é o mais impensável. Recebeu, em plena véspera de Natal, em e-mail confirmando a viagem que pode durar (quantos?) anos. Pensou então: tentando escrever o impensável, tornaria mais amigável uma experiência tão distante. Por que havia escolhido ir a tão longe? "Ano que vem em Kyoto". Frase esquisita, como se as palavras não se encaixassem. Viajar, mas não como ir a São Paulo, planejar um doutorado em Paris, tentar uma temporada em Nova Iorque, ver a exposição em Berlim, andar de bicicleta em Amsterdã ou ver a velha novidade de Londres. Não como isso, não como lera no jornal, escutara na internet ou imaginara ao ler o romance (Paul Auster voltou a freqüentar recentemente suas idéias). Nem mesmo como fazer uma visita curiosa e "interessada" à Índia, ver os monumentos da China, o mochilão na África: degustar, ao meu tão edificado e "de bom gosto" olhar, o sabor do outro que me apraz (o outro que eu consumo em qualquer discurso "atualizado", esclarecido, que me deixa ainda mais refinado, "interessante", "gente viajada"). Distante de fato: distante como morar fora de si. Sem o gesto acumulado no corpo (e na retina), sem a textura da imagem que aproxima, a pequena atmosfera européia (colonizada?) que envolve o pensamento desde muito tempo... "Ah, como é charmosa Lisboa, andar pelo Bairro Alto e ouvir um fado... Como passeei pelos bares de Madri, curti a noite intensa enquanto trabalhava de garçom no pub irlandês da Gran Via" - o charme, a noite, a atmosfera, reprisada nas inúmeras falas, nas inúmeras imagens que se proliferam por aí. E o pensamento? Sou francês, alemão, trágico, tropical, racional sem dúvida, trazido pela grande crítica global que me faz antes de mais nada sempre num a-partir-de. "Mas é foucaultiano ou deleuziano? Ah, sim, entendo... escutava Pink Floyd ou The Clash?" Mas do que se trata: "ano que vem em Kyoto"? O impensável, talvez, também se tratasse disso, uma pura e honestíssima diferença, aquela que se degusta com olhar estupefato de uma infinidade de possibilidades de existir que se descortinam diante de seus olhos. Assim, sem muita razão, tentou capturar aquilo que nunca esteve lá.
[E, ao final, talvez, tudo se trate de pura diferença. Quem sabe não é partindo dessa pequena suspeita que tivesse escolhido por tão longe?]
Escrever o que chega, falar o porvir. Talvez assim, imaginou, seria possível imaginar aquilo que é o mais impensável. Recebeu, em plena véspera de Natal, em e-mail confirmando a viagem que pode durar (quantos?) anos. Pensou então: tentando escrever o impensável, tornaria mais amigável uma experiência tão distante. Por que havia escolhido ir a tão longe? "Ano que vem em Kyoto". Frase esquisita, como se as palavras não se encaixassem. Viajar, mas não como ir a São Paulo, planejar um doutorado em Paris, tentar uma temporada em Nova Iorque, ver a exposição em Berlim, andar de bicicleta em Amsterdã ou ver a velha novidade de Londres. Não como isso, não como lera no jornal, escutara na internet ou imaginara ao ler o romance (Paul Auster voltou a freqüentar recentemente suas idéias). Nem mesmo como fazer uma visita curiosa e "interessada" à Índia, ver os monumentos da China, o mochilão na África: degustar, ao meu tão edificado e "de bom gosto" olhar, o sabor do outro que me apraz (o outro que eu consumo em qualquer discurso "atualizado", esclarecido, que me deixa ainda mais refinado, "interessante", "gente viajada"). Distante de fato: distante como morar fora de si. Sem o gesto acumulado no corpo (e na retina), sem a textura da imagem que aproxima, a pequena atmosfera européia (colonizada?) que envolve o pensamento desde muito tempo... "Ah, como é charmosa Lisboa, andar pelo Bairro Alto e ouvir um fado... Como passeei pelos bares de Madri, curti a noite intensa enquanto trabalhava de garçom no pub irlandês da Gran Via" - o charme, a noite, a atmosfera, reprisada nas inúmeras falas, nas inúmeras imagens que se proliferam por aí. E o pensamento? Sou francês, alemão, trágico, tropical, racional sem dúvida, trazido pela grande crítica global que me faz antes de mais nada sempre num a-partir-de. "Mas é foucaultiano ou deleuziano? Ah, sim, entendo... escutava Pink Floyd ou The Clash?" Mas do que se trata: "ano que vem em Kyoto"? O impensável, talvez, também se tratasse disso, uma pura e honestíssima diferença, aquela que se degusta com olhar estupefato de uma infinidade de possibilidades de existir que se descortinam diante de seus olhos. Assim, sem muita razão, tentou capturar aquilo que nunca esteve lá.
[E, ao final, talvez, tudo se trate de pura diferença. Quem sabe não é partindo dessa pequena suspeita que tivesse escolhido por tão longe?]
12.22.2008
12.18.2008
Às vezes se está para a escrita, às vezes não se está. Ver um pouco e sentir um ventinho bom de outono tardio. Como já há muito sabido, palavras não esgotam nada, além de uma página e alguns pensamentos (será que pensar é suficiente pra algo?).
Mesmo assim, surrupiando qualquer possibilidade de dialética, persisto aqui pelas palavras naquilo que nelas não está. Talvez isso seja mais palavra do que qualquer outra coisa.
*
(será que é uma obsessão: escrever a escrita, o tempo inteiro?...)
Mesmo assim, surrupiando qualquer possibilidade de dialética, persisto aqui pelas palavras naquilo que nelas não está. Talvez isso seja mais palavra do que qualquer outra coisa.
*
(será que é uma obsessão: escrever a escrita, o tempo inteiro?...)
12.15.2008
12.04.2008
12.03.2008
Estar aqui e lá, impossibilidade.
Em mim e em todo o resto: ser quase tudo, fazendo o pouco que me cabe. Assim, como se pudesse controlar o passando de cada tempo, como se os dias fossem meus quartos.
Pensando que pensar é tudo de que se trata
- quase tudo -
esquece-se de que há sempre aquela brecha que sobra, entre coisa e coisa, entre eu e o resto todo. Aquele resquício de coisa nenhuma, imanência ou pura complacência do mundo. Não complacência por ser complacente, mas por não ser e ponto. O mundo sendo aquilo que tudo que não é - porque não é falável, nem avistável.
Talvez seja isso. Passar das horas, degustar as palavras e invisibilidades instantâneas - porque efêmeras. Fotografia, cinema, poesia e amizade. Assim, sem mais porque sempre menos. Sempre quase lá.
Em mim e em todo o resto: ser quase tudo, fazendo o pouco que me cabe. Assim, como se pudesse controlar o passando de cada tempo, como se os dias fossem meus quartos.
Pensando que pensar é tudo de que se trata
- quase tudo -
esquece-se de que há sempre aquela brecha que sobra, entre coisa e coisa, entre eu e o resto todo. Aquele resquício de coisa nenhuma, imanência ou pura complacência do mundo. Não complacência por ser complacente, mas por não ser e ponto. O mundo sendo aquilo que tudo que não é - porque não é falável, nem avistável.
Talvez seja isso. Passar das horas, degustar as palavras e invisibilidades instantâneas - porque efêmeras. Fotografia, cinema, poesia e amizade. Assim, sem mais porque sempre menos. Sempre quase lá.
12.01.2008
Palmas!
Atentando aos movimentos dos dias, às temporalidades dos espaços, e às mil bifurcações possíveis, eis que volta a escrever um amigo.
À maneira de respirar - não de organizar os pensamentos, mas torná-los algo palpável, tranformá-los em coisa, nem que sejam sons, ruídos, rabiscos - escrever pode ser necessário. Assim, sem a necessidade de embelezar, mas sim para deixar denso, transformar numa intensidade: não dizer o que há para ser dito, escrever como se fosse um momento antes de dizer, alguns diriam pensamento em estado puro, ou pode ser, quem sabe, linguagem sem a necessidade do mundo como referente (forçosamente, a lógica tem que ser interrompida).
"O prazer do texto não é necessariamente do tipo triunfante, heróico, musculoso. Não tem necessidade de se arquear. Meu prazer pode muito bem assumir a forma de uma deriva. A deriva advém toda vez que eu não respeito o todo, à força de parecer arrastado aqui e ali ao sabor das ilusões, seduções e intimidações da linguagem, qual uma rolha sobre as ondas, permaneço imóvel, girando em torna da fruição intratável que me liga ao texto (ao mundo)" (Barthes, R. "O Prazer do Texto")
Sendo assim, desrespeitoso, não no esforço hercúleo do sentido, do conclusivo e do opinativo. Os textos bons (também esses textos amigos) são assim - tanto como texto quanto como mundo - fruição intratável.
Texto sem sujeito, mas texto-mundo, que pode passar longe da referência de um "ponto de vista".
Atentando aos movimentos dos dias, às temporalidades dos espaços, e às mil bifurcações possíveis, eis que volta a escrever um amigo.
À maneira de respirar - não de organizar os pensamentos, mas torná-los algo palpável, tranformá-los em coisa, nem que sejam sons, ruídos, rabiscos - escrever pode ser necessário. Assim, sem a necessidade de embelezar, mas sim para deixar denso, transformar numa intensidade: não dizer o que há para ser dito, escrever como se fosse um momento antes de dizer, alguns diriam pensamento em estado puro, ou pode ser, quem sabe, linguagem sem a necessidade do mundo como referente (forçosamente, a lógica tem que ser interrompida).
"O prazer do texto não é necessariamente do tipo triunfante, heróico, musculoso. Não tem necessidade de se arquear. Meu prazer pode muito bem assumir a forma de uma deriva. A deriva advém toda vez que eu não respeito o todo, à força de parecer arrastado aqui e ali ao sabor das ilusões, seduções e intimidações da linguagem, qual uma rolha sobre as ondas, permaneço imóvel, girando em torna da fruição intratável que me liga ao texto (ao mundo)" (Barthes, R. "O Prazer do Texto")
Sendo assim, desrespeitoso, não no esforço hercúleo do sentido, do conclusivo e do opinativo. Os textos bons (também esses textos amigos) são assim - tanto como texto quanto como mundo - fruição intratável.
Texto sem sujeito, mas texto-mundo, que pode passar longe da referência de um "ponto de vista".






