5.08.2009

mergulho no mar
baixinho
tarde de domingo

*

meu haicai tem gosto de sol
espero as palavras chegarem
sujas de areia e brisa salgada

5.07.2009

Da janela, umas nuvens escuras.

São 4, 5, 6, 7, 8 horas. O dia vai passando, e lá estão as nuvens escuras.

Preciso de um som, um barulho ensurdecedor.

Mas tenho apenas essas nuvens escuras. O ar é gelado, mais uma vez, e a pele trinca com as lufadas de vento.

À meia-noite, seguro a caneca de chá. Já não vejo mais as nuvens. A cidade se iluminou - mas não ficou bela.

5.06.2009

"Comigo é sempre assim. A viagem é pra dentro."
Sobre o tempo


Um mês no Japão.

Na atividade do relógio, as memórias vão ficando cada vez mais consolidadas. O espírito está por aí, de carne e osso. Cada passagem finca um pouco mais fundo a memória. A imaginação da distinção entre corpo e espírito é colocada à prova todo o dia aqui: acho que existe, mas luto por que, de fato, não há. Fico na teimosia de não me deixar levar.

Diria: "estou aqui". Mas meu impulso primeiro é: "estou lá". Misturo a visão com a imaginação, e, por vezes, sinto o vento um pouco mais quente e o ar um pouco mais salgado. Hoje sonhei com Mauá ao som da voz dos amigos. O pensamento - e o espírito, e o corpo, por que não? - falam um português bonito e límpido. Quando mudo o idioma, encontro-me numa mímica estranha de mim mesmo. Porém, sempre me lembro: essa mímica ainda sou eu.

Contudo, não consigo deixar de olhar o relógio. O tempo virou meu companheiro mais íntimo: espreito-o a toda hora, e converso com ele quando estou em casa. Como se sentisse o passar dos dias no ar, nos pulmões (inspirar e expirar) e nos meus pés. Como se pudesse andar o tempo: empurrá-lo pra trás com meus passos. Aqui o tempo virou espaço. Mas, de alguma forma, fora de mim. O tempo, nesse um mês, saiu e tomou conta do que me cerca - mas não se encontra mais em mim. Então eu vejo o tempo, quase toco, mas ele não me toca.

Todo dia, ainda tenho um estranhamento: mas será que estou aqui? Parece algo ilusório, uma brincadeira estranha. Como se o real tivesse ficado me esperando no Rio... Deixei o meu tempo lá, deitado na minha cama, andando pelas ruas. Aqui ele passa na minha frente, ao meu lado, rebate. Eu o empurro: quero meu tempo, mas ele se encontra tão longe...



(Joaquim Távora, Icaraí)

Dormindo, descansando e tomando sol.

5.01.2009

Niterói

Para não desfacelar a face de uma cidade, aparar suas arestas. Recostar nos seus cantos, suas esquinas. Calcular os passos de vez em quando. Sair para andar, tracejar novos espaços. Desfazer, refazer, desconstruir os mapas. Pela mesma rua, em outra calçada. Cada rua tem mil calçadas. E cada calçada, outros mil caminhos.

Parar a cada minuto, virar as costas e reconsiderar as possibilidades. Fazer rotinas e desmantelá-las. Uma a cada cinco dias. Depois voltar, o tempo todo. Ouvir suas conversas e descascar as suas camadas.

"Vamos tomar um café?" Dois, três. Quantos cigarros forem necessários. Depois percorrer os seus vincos todos. Aqueles viciados e aqueles renovados. Adentrar a noite.

Sem surpresas, mas um frescor de brisa de fim de tarde.

Não devemos plastificar as experiências.


***

Em Kyoto, percebo Niterói.
Estranha essa sensação.
Coletei cinco imagens na internet, mas nenhuma é Niterói. Todas mentem ao dizer serem.

4.28.2009


Enquanto ainda sobrevôo o oceano, o vento sopra forte pra todos os lados.

4.26.2009

Da varanda, vejo a cidade se resfriar toda, recolhendo-se como um papel molhado ao secar sob o sol. Mas não há sol. Nem um vestígio. Uns sons avulsos de carros. Um choro de um corvo. Gritaria de crianças. Como se estivessem o tempo inteiro a cortar o todo que ainda não toco. O ar é limpo e o céu é branco e cinza até onde se vê. Venta muito.

Entre um e outro corte, escuto alguns ecos fortes. Sem pensar, chego a sentir o sol batendo sobre a pele. Algumas vozes macias chegam aos ouvidos. Assim, sem pensar, consigo fazer a volta e olhar pra dentro daquela luminosidade. Amarela e azul, amarela e azul. Sinto outros cheiros e minha mão chega a se desdobrar em centenas de dedos, refestelados sobre a superfície macia da cama matinal.

De um a outro, num soluço, volto a estar de pé. Varanda seca e céu molhado. O papel já se encolhe quase ao tamanho de uma poeira.

4.23.2009

Fernando Pessoa faz a minha companhia perfeita.

No meio de tanta coisa, é bom ouvir uma boa voz em português, mesmo que seja saindo de umas folhas de papel.

Na sua forma Bernardo Soares, o português consegue exprimir quase todas as minhas sensações com meia palavra.

Tenho saudades do português.

4.15.2009

Sobrevoando o oceano.


Vancouver: 5:24 pm
Tóquio: 9:24 am
Joaquim Távora: 9:24 pm


Pra cada chegada, talvez mais de mil partidas.
Para cada viagem, criam-se algumas pequenas centenas de mortes.
Morre-se um pouco em cada canto.

4.12.2009

"Tudo isso se tornou parte da minha vida; não poderia deixar tudo sem chorar, sem compreender que, por mau que me parecesse, era parte de mim ficar com eles todos, que o separar-me deles era metade e semelhança da morte" (Fernando Pessoa)

Na Rua Joaquim Távora, assim como na Rua dos Douradores.

*

Assim, olhando pro relógio, percebeu que estamos metade fora e metade dentro do tempo. Sempre dessa forma: inteiro é impossível, dir-lhe-ia qualquer um de bom senso.

"Como se inscrever numa nova situação?"

O novo acalanta o velho de uma forma quase cruel. Não numa dialética, mas sincronicidade impressionante.

Estando aqui, caminhava os passos de lá: na beira da estação de trem, mergulhou o pé na água do mar salgado e verde que remexia com as ondas da Baía de Guanabara.

3.28.2009

Não como morrer,

mas talvez aquele estado de latência do coma induzido:

há lá uma vida, apenas distante do que nos é visível.

3.24.2009

Lamento perto do fim


Mas é tão bom...


Mas era tão bom...

.
.
.


[segurando a metafísica, sempre]

3.15.2009

Estrebuchar
Chafurdar

às vezes as palavras prescindem do seu significado.


Hoje de manhã, acordei tão bem disposto, que estrebuchei um pão com queijo minas delicioso, enquanto a luz do sol chafurdava nos meus pensamentos.

O estrebucho ficou preso ali na porta da sala. Não chafurda demais, senão ele pode acabar soltando e quebrando o vidro da mesa.

3.10.2009

Atividade de esvaziar sem estagnar

Diante da cidade
por sobre. sob. entre. dentro. fora.
de todos os afetos
Antes de ver e depois de ouvir
(sem falar)
Diante da multidão de ausências
madrugada
e as horas que passam
passam e páram e acenam com a luz amarela de poste
As pessoas tão assim
entretidas em si
Diante da miríade incomensurável
de camadas secas e molhadas
dos espaços que trepam
uns sobre os outros
Caminhos possíveis
eu, o outro
Diante.
Mergulhou
num fôlego do tamanho da sua memória
tentou escrever a saudade e a presença e a ausência

Mas não se trata de escrever. Nunca. Nem de ver. Muito menos isso! Nem ouvir, nem representar.

Esteve um pouco. Recostou e existiu por quatro tempos de um silêncio que espalhou pela superfície.
Dos olhos. Do asfalto das ruas. Do cinza do azulejo. Do azul metálico do carro a 100km/h. Das vozes queridas.

Assim é a cidade. Assim terá que ser.

3.02.2009

Atividade de um cheirador


Quanto de espaço sobra depois de aspirar com as narinas todas as ruas da cidade?

Como o drogado cheira sua carreirinha, ele passou a se dedicar, dia-a-dia, a puxar para os pulmões as ruas e quarteirões de que sentiria mais falta.

As esquinas ficariam, quem sabe, pra última semana. Essas seriam demasiado pesadas pra um sorver corriqueiro.

Mas, afinal, quanto de espaço sobraria?

2.26.2009

Carnaval






Cidade e pessoa
fundidos na imagem.
Carnaval e cinema
fundidos na possibilidade.
Quarta cinzenta


Primerias despedidas.

Carnaval: como não sei quando acontece de novo (pra mim), achei que devia deixar registrado que o carnaval no Rio é sempre muito bom... cativa assim que começa...

Sempre reclamo uma semana antes, e sinto falta uma depois.

Todos do mundo deveriam passar por uma experiência aproximada. E uma cidade devia sempre poder ser outra, nem que seja por alguns dias, como acontece aqui.

Como uma intervenção coletiva, sem utilitarismo e ideologia: a mais pura reocupação estética dos espaços.

2.11.2009

Pensamento:

Talvez pintar, filmar, montar, recortar

Outras vezes, escrever
Falar, olhar.

Sem pensamento
[Antes do pensamento]
O pensar

Entre duas paradas
Entre duas consciências:
pensar sem o pensamento.

O verbo não precisa redundar em coisa alguma.

2.04.2009

Sobre melancolia e escrita


Mais uma vez, roubando ímpeto de outros lugares.

Pois disse ele - ou deixou implícito - que para se escrever é necessária a melancolia. De onde vem a melancolia?, perguntaria-lhe. Do espaço, do tempo, ou de uma transcendência? Do mesmo lugar de onde vem a escrita?

Enquanto trabalho na tese, percebo que podemos montar a melancolia. Assim, talvez, questionasse-lhe: "ela não pode vir de um palco?". A performance da escrita é a mesma performance da melancolia. Assim como a da alegria, talvez. Performance, que, obviamente, não é menos nem mais imanente que qualquer outra coisa - porque não é menos nem mais verdadeira.

E, quem sabe, não esteja aí a grande chave da escrita. Pode-se performar o real, o falso e todos os pathos de uma só vez.

Num quarto de hotel, em Itajubinha do Norte, certa vez, estive escrevendo sobre o inverno de Paris de 1946, pouco após o fim dos bombardeios. Disse como andavam felizes as moças, com seus chapéus alongados e seus lenços cobrindo o nariz quando passavam pelo mal-cheiro do esgoto ainda a ser refeito. Na grande alegria que me tomava naquele verão na pequena cidade litorânea baiana, consegui ser melancólico como um ex-combatente de guerra sentado num café, olhando o capitalismo emergente na Tóquio de 1967.

A minha melancolia, no entanto, me propôs uma viagem de verão à beira do mar de Honolulu, quando estava sozinho sobre a terra evacuada do campo de refugiados em Kosovo, lá pelos idos da década de 1990. Não como um remédio ao presente - nem como uma fuga - talvez como possibilidade de escrita mesmo. Presente da linguagem. Assim, enquanto catava os restos da minha casa, consegui descrever com precisão o frescor do coco que sorvia a pequenos goles sentado na beira da piscina no Copacabana Palace.

Posso também estar melancólico e efusivo, ao mesmo tempo. Talvez essa seja a maior felicidade. Nesses dias, escrevo um haicai para subtrair-me do mundo. Esse aqui, escrevi por volta do século XVII, imaginando ser Matsuô Bashô:

ossos desgastados
em minha mente
um corpo perfurado pelo vento


Não uma descrição do mundo, nem a mim mesmo - já sabemos que esse é um privilégio que nem a fotografia alcançou. Talvez a escrita seja essa possibilidade de exterioridade. (tudo culpa da minha tese...)





Link
Entre ser e não-ser: verão carioca.

Um copo d'água, um mergulho e um líquido qualquer. Mas, de fato, em estado de latência: escrever, escrever, escrever, até acabar.


[um dia acaba]