5.26.2007

Devassidão


Acordou de bom humor hoje.

Tomou café-com-leite e, debaixo do sol com roupa de banho

[alegria de dentes brancos e amarelos evaporando de todos os rostos da cidade]

assumiu:

era uma cadeira de madeira

daquelas velhas com as quinas desgastadas.

Tanto tempo demorou

mas pôde ser o que sempre sonhou.

Ai, que alívio!

5.25.2007

Palavras felizes. Ai ai

Quanto pensamento não passa pela cabeça!

Elas foram tomar um ar
Pegaram um avião pra Califórnia
Disseram que por lá conseguem respirar.

Daqui a pouco voltam mais felizes do que felicidade de criança.
Trazendo presentes de pai que volta de viagem de trabalho.

5.24.2007

Machucado

Essa semana a porta das idéias ficou fechada. Roxa, inchada, dolorida. O contato com o mundo infeccionou a cabeça e a poesia circunscreveu-se aos sonhos.

Como um grito latente e sussurrante (sim, porque o inesperado é de tudo contradição), espero até a próxima semana a porta voltar a se abrir. Por ora, fico inflamando as idéias dentro de copos d´água com comprimidos, esperando os ventos soprarem. [quem sabe se o sol sair?]

Nem leitura, nem feitura. Escritura imaginária que não pára nunca, ainda assim. Só concentração na voz interna, porque assim cura-se mais rápido.

5.16.2007

:::

desprosei
re-abri as brechas
para secar os recantos sob o sol do outono

:::
Retomando


eu sentando ali naquela mesa
sentindo um pouco de dó das coisas

eu andando pela rua esperando o ônibus debaixo do sol
colocando os óculos novos que comprei no natal

eu tomando cerveja, fumando maconha
ziguezagueando pensamentos confusos conjuntos

eu com amigos querendo morder o mundo
achando que o mundo era eu com amigos

eu balaçando no parque domingo de tarde
comendo chiclete com olhar no presente

eu na viagem familiar
ouvindo o rock e esperando a vida chegar

como se o tempo todo
eu estivesse sendo aquilo e isto
agora e depois


como se eu não fosse eu


agora descubro que estava sempre ali como estou aqui
como uma peça de argila, apara as arestas
mas é argila pra sempre

argila boa com cheiro de casa e chá na mesa
como o rosto no filme
ou os passos do ator em cima da tela branca
movi minhas palavras pra fora

mas se a imagem fica
o pensamento passa o tempo todo
voando como um mosquito que incomoda a certeza da paz
.
.
.
p p
a e
l n
a s
v a
r d
a a
.
.
.
[uma linha que mistura o fluxo]

em português e não japonês nem francês:
quero organizar o mundo

5.14.2007

Rotina toda


A respiração tomou fôlego aos poucos. E cada inspiração era uma noite e as expirações dias ensolarados. Eu ficava ali. Consumindo noites e soltando dias incontáveis. As chuvas vinham eventualmente, molhar os meus pulmões, que aos poucos enxugavam as gotas, transformando-as em pequenas palavras, molhadas de meu passado: eu as soprava com toda força, empurrando os minutos e os segundos num esforço para o futuro que me esgotava. A cortina do tempo se esfacelava invisível e translúcida na minha frente, aos poucos, à mercê dos borbotões de passado que corriam das minhas narinas e da minha garganta.

estupefatoantesdeontemquebreipoesiaemmetaprosacorridemim
[brecha para inspirar]
omundotodoperdeuosentidosenteisozinhoemcimadomurodurodotictactictac
[inspira o mundo todo agora]
ecomicommeusamigosbiscoitosdeamoraesonhoslongínquos...


Assim nasce pra mim todos os dias em cada dia. Assim a vida anda sem delongas demasiadas e dorme de bruços quando preciso descansar, recostando a cabeça sobre a relva dos meus anseios.

5.10.2007

chuva à noite
abre os póros da cidade
que transpira seus cheiros mais sinceros

.
.
.

É por isso que a chuva - pensamos - tem cheiro de chuva. Sempre o mesmo odor que se debruça nas narinas. Por que ela entreabre os mais sutis vãos da cidade - asfaltos, cimento, pedras portuguesas - e liberta os cheiros entranhados na carne urbana. Mistura e apresenta. Como no mato, ela tem cheiro de mato profundo, o mato mais mato. Na cidade, a cidade mais cidade.

E é também por isso que chuva é bom. Porque ela cheira a minha vida. Lá no fundo do irredutível, do que é - é pra mim. Pontua lembranças, abrindo o pote da memória inesperadamente.

Perfume de desde sempre. E de ao meu infinito.
Ela entrou no elevador. Senhora (recém-senhora), que luta por manter-se intacta como quer sua auto-imagem, vai à academia todos os dias e mantém-se atualizada dentro do seu iPod. Voltava do trabalho. Trabalhava pela sua auto-imagem também - queria ter uma carreira e arranjou um escritório onde pudesse usar todo o seu senso de praticidade. Como queria, como gostaria. O mundo pra ela conseguia ser inteligível ao ponto de caber todo dentro das suas próprias definições - que, por sua vez, encaixavam-se perfeitamente nas suas vontades. Marido, filha, casa bonita, trabalho e super-independência. Sempre flanando pelos lugares, seus passos tão impressionantemente decididos - mas leves - que deixam tudo à sua volta envolto por um ranço de antes-de-ontem. Ela vive o hoje e é feliz.

Pois ela entrou no elevador. Carregava as três ou quatro sacolas de compras. Seus braços seguros com músculos endurecidos não deixavam-nos dependurar-se. Suspendia os sacos sobre o ar. Olhava pra baixo e falava sozinha. Entrei. "Boa Tarde". Ela balbuciou algo parecido de resposta. Quando olhou rapidamente para mim - talvez numa pequena parte de um segundo -, ela se ressentiu. Havia demonstrado. Perdida dentro de si mesma, parecia que via o chão do elevador pela primeira vez. Sentia o cheiro do pão dentro da sacola. E era o pão. Que ia comer e digerir. E deixar de existir. Perdia-se e achava-se ali, prostrada lânguida ereta na minha frente. Em um intervalo de um minutos (ou alguns andares). Perdendo e achando tudo.

Saiu remoída por dentro, sentido a dor do dedo dentro do sapato. Sentiu o sapato e o dedo. E sentiu o couro cru e o cheiro da pintura das paredes. Não olhou mais. Deixou um rastro de certezas quebradas sobre o chão e foi entrar no seu novo apartamento.

Voltou pra casa. Encontrou o hoje.

5.07.2007

Quebrando: quero falar vírgulas, porques, contudos e aindas. Falar. E continuar. continuar.

.
As palavras parecem conter sentidos escondidos. Escrevi e o texto já não é meu (o que, de fato, ele nunca foi).

Queria escrever sobre o dia, o que aconteceu ontem, hoje, a grande anedota de tudo. Mas estou ainda quebrando esquemas. E sigo. Não avisto tanto interesse na superfície das coisas (daquelas que são minhas), mas consigo perceber todo o encanto na leveza de tudo. Contradição. Falta de bom senso e primeira pessoa.

Em vez disso, lembro dos velhinhos no boteco da esquina, pé-sujo e velho, enterrado na camada do tempo, buraco na parece que a percepção pula para não se aborrecer num dia bonito de sol como hoje. Lembro deles. Felizes, às 3 horas da madrugada de um sábado frio e meio abandonado (daqueles que você é tão você que quase incomoda). Eles estavam lá dentro, rodopiando (eram uns 4 ou 5), na frente de uma juke box saída de um road-movie americando no meio do Texas. Tocava Creedance, clássico do rock-n-roll mais rock-n-roll no espírito, e eles estavam de olhos fechados, braços rijos, sorrisos nos rostos (claro, muito álcool na cabeça, mas isso é só sinal de sinceridade), dançando a passos espasmáticos, meio quadrados, meio redondos, perdidos no mundo e achados em si mesmos. Estavam em uma alegria de velhos bêbados dançando não-sei-que-lá, felizes à toa. Por alguma razão, essa imagem não me sai da cabeça. Ela foi um piscar na minha retina; eu andava, passei, olhei, sorri, sem nunca parar. Continuei e o bar ficou para trás. Acho que imprimiu. Porque a vida pode ser tão pra fora que me surpreendeu.
Preparando


Infelizmente, o meu humor participa de uma teia diferente. Não se enquadra nas aberturas, nas arejadas narinas dos pensamentos, mas naquilo que não se vê. Nem sequer se visualiza. Acho que mostra, um pouco no fundo - e não digo que profundidade é sinônimo de qualidade, porque não é -, a sua presença meio fantasma como que enganchada por trás, lá atrás, das palavras. Não sei se é sutileza ou pura covardia. Mas enfim, c´est comme ça.

.

Resolvi hoje escrever assim: prosa, corrido, sem "enter" entre um pensamento e outro, e numa primeira pessoa gritante. De dia, claro, sol abrindo todos os póros da cidade lá fora, respirando as coisas. Não à noite, mergulhado na memória. Interrompendo um fluxo esquisito que estabeleco durante o meu dia - o fluxo do fazer e não-fazer -, em que sempre relego à noite o eu-pensando-e-escrevendo, estou aqui, tentando achar que estando aqui, não necessariamente estou deixando de estar lá.

Enfim, momento um pouco meta, porque meta-tudo é tomar consciência das suas limitações. Preciso ligar os pensamentos e deixar o rio correr. E enxergar o mundo sem enquadrá-lo. Chegando quase lá. Neste momento, estou quebrando esquemas. Esquemas lá de longe, de outrora, quando eu precisava criar esquemas. E não são tão importantes assim. Nem criar, nem quebrar. O que acontece entre essas coisas, isso sim, é importante -não importante no sentido de indispensável, mas instigante. Mudar é bom e estabilidade é uma ilusão tão grande quanto o futuro da nação.

5.06.2007

[rock-n-roll]

Balançou as pernas e correu parado
Euforia de todo o futuro entranhada na garganta

golinho de cerveja e eco na cabeça

Amanheceu no dia inteiro
dormido atrás dos olhos que esqueceu
perdidos no salão ao longo da noite

5.05.2007

_


Comi pedaços de poesia
pra soltar espasmos do invisível
na cara dos bêbados do boteco da esquina


[Como borbotões de pensamento
Cuspi sonho e um pouco de cada dia]


_
Fundiu céu e noite
num soluço de alegria

Firme como uma borboleta
contou os pesares
um por um

E pulou infantil sobre o mundo

Gosto de si na boca
e satisfação à toa

4.29.2007

.
.
.


O ponto final é uma precipitação sobre um abismo.

.
.
.
Depois de tudo esqueço o que um dia me recordou a minha própria imagem.

Andei sobre os fatos do dia com a coragem de quem não vê passar o tempo afundado na cama. Coragem de sentir passar. Soprei as palavras que queria ouvir na hora boa e comi toda alegria do mundo. A digestão levou os grãos mais pesados. Ficou aquela sensação de fotografia em preto e branco, luz na janela e céu azul.

O ar fresco me permitiu ser eu-sem-peso. Eu e tudo que traz a minha carapaça móvel. Falei chá verde, arroz e muita areia quente de verão. E constatei grãos porosos que deixam a água passar. Retém os destroços e cristalizam os sentidos.

O sentido de tudo que não entendo é aquilo que me comove.
pelo menos em mim a festa quebra futuros possíveis

.

ando asséptico pelos espaços

sujando de mim um pouco de tudo que brota

na superfície dos olhos e no fundo da memória

.

não se vê

construo meu abrigo aqui

e carrego por todos os cantos

.
.

o mundo que existe

sopra vazio e cheio

na caminhada de volta

que toma o meu tempo inteiro

4.23.2007

agarrei os segundos e soltei
sobre o só visível

cheguei no não-eu bonito daquilo que me não está fora

Água concetrada de pensamentos
(rio e não lagoa)
excretados no último momento do dia

agora

4.20.2007

acariciando a folha com amanhã e depois
captei os ontens e um pouco de hoje
e soprei sobre as frestas de mim mesmo

.
.
.

A dificuldade e facilidade de criar sentido
é o próprio espaço em branco

[escorreguei e imprimi]

4.19.2007

(sumi-ê ronronado)

Molhei minha cabeça de verbo e tinta preta
e esfreguei na noite escura
da música dos meus olhos

4.18.2007

Branco em vez de preto. Negativo e positivo. Tudo junto.
Nem lua nem sol. Só luz.
[queria secar]


janela sobre a cama e um latido de cachorro


[reduzir e avistar]


céu azul e sensação aberta


[sentir e desverbalizar]


cheiro de tudo e ontem quase sempre


[suprimir a página]


lembrança e olho fechado


[esvaziar]


meu mundo
1, 2, 1, 2

respiração e gole d´água

persigo o foco dentro
olho e no final
não busco nada

1, 2, 1, 2

os sentidos incrustrados nas coisas
corpo mole e mastigado
o tempo surge
e desaparece com o pensamento

fio solto das minhas frases
solto
e não digo coisas aparentes

revolver e começar e esvaziar e esvaziar

busca no intervalo
entre mim e mim mesmo
que lá está
(aquilo)
do que está e não está

4.16.2007

lá-ra-lá

Ouvi a música guitarra com suor
as batidas efêmeras sumiam no ar
o corpo pulava encantado com o presente

pá pá pá pá - wow!

A juventude é bela
e não existe
Emociona

Cigarro e coca-cola
e muita alegria destilada pelo ar

4.14.2007

Abri o olho e o verde passou

Soprei respiro nota a nota (a música falava pela paisagem)

Os pensamentos molhados de suor
- e molho de soja bem preto da cor do meu cabelo -

Cobrei de mim as partes do mundo
todas em uma lista miúda e ilegível

Até que escorregado entre os instantes
Dormi de volta e recostei sobre mim mesmo.

3.29.2007

Querer ser grande e ser pequeno
queimando sob o sol
esperei adormecer por inteiro ali
todos os músculos
e lembrei de cada detalhe da foto
em preto e branco
que pincei da memória do mundo que não foi meu.

Aguardo o próximo suspiro baixo ao meu ouvido
pra poder cair de novo e quebrar os ossos contra o chão.

Assim sinto-me
Todo vivo.


(lembança boa e poesia curta:
o navio que ancora e traz promessas de frescor e palavras cruas)

3.28.2007

Extrapolando Bergson
(ou conversando com o tempo)

"Não há percepção que não esteja impregnada de lembranças."




"Para evocar o passado em forma de imagem, é preciso poder abstrair-se da ação presente, é preciso saber dar valor ao inútil, é preciso querer sonhar.
Talvez apenas o homem seja capaz de um esforço desse tipo."



3.27.2007

Sem ver, perceber o mundo. Perceber e deixar correr.

.
.
.
.

Olhei sem fim.
Enxarcou a camisa de lembranças e pedalou até cair dentro do mar. Enquanto afundava ao peso do seu corpo, dissipava - um a um - cada pedaço de memória incrustrado por entre os fios da trama. Algodão, tinta e um pouco de si e dos outros. A casa antiga, cheiro de madeira, primeiro beijo no escuro da festa, aviãozinho de papel e música fresca no domingo de manhã.
O sal ocupava lentamente as suas frestas que ficavam abertas. Sentia-se bem enquanto adormecia.

Esvaziou e flutuou leve em direção ao fundo. Um sorriso e muito gosto de agora.

3.14.2007

Ventou tudo

E eu fiquei.




(Ventou eu

E tudo ficou)
Não existe

o ponto exato entre

mim e todas as pessoas.

.
.
.
.

Como uma galáxia inteira

engoli seco o dia.
.
.
.
.

Ainda digerindo a distância

entre mim

e o que eu quero,

converso ao telefone com a minha consciência.


Estarei lá, como todos os dias. É só não falar.
Soprei as palavras sobre o papel
o pincel repuxou as dobras da consciência
esticou cada ruga
todas clareadas sob o dia azul.

Peguei os sons e espremi em passos
em gosto de gengibre e peixe cru
um pouco de sal
e longas tragadas
de coca-cola e Marlboro light.

As letras saíram felizes
intactas como o céu das noites de verão.

3.11.2007

Acordar e sentir o dia entrar pela narina.

Pegar o tempo e comprimir em manhã - com o cheiro de noite que vai se esvaindo conforme as horas passam.

E, entre um gole e outro de sonolência, dormir minutos, horas, abrindo um buraco fundo e brando nesse espaço. Semi-existir, vagar flutuando pelos quartos, sala e cozinha.

Prolongar a manhã até quebrá-la com a aspereza do meio-dia.

Aí relembrar da vida sensata e fria, estirada sob o sol forte que racha-lhe a face delicadamente construída no ar da pós-madrugada. (estraçalhar a poesia fina)

Entre o lilás e o amarelo saturado, morrer de novo até escurecer a vista e clarificar os pensamentos. Soltar o ar preso, viciado dentro do pulmão desde o primeiro sonho.

3.08.2007

Ensolarar

e depois escurecer.

.
.

Peguei dois dias na mão.
O do meu pensamento, esmaguei contra o travesseiro.
O de fora da janela, fumei até queimar o lábio.

Fumaça branca e amarela. Azul que dói.
Hoje o sol secou o vento que soprava.

E assim respirei seco e ensolarado.
Voando sobre as árvores, filtrando os olhares na areia branca que não se mexia.

Não pensei em nada. Corpo solto, olhar e as coisas.

2.28.2007

L´autre. Moi même.

Falar outra língua é como tatear no mundo de novo.
Achar-se novamente dentro do conhecido visível.
Pensar outro.

Hokano kangaekata ni hairukoto. Haitta.
Entre um aqui e um .

Parei e observei.
< >

Hoje, no calor do Rio de Janeiro, escorreguei pela fresta do dia.
Entre os passos de cada um. Os olhares, verbos. Meneadas de cabeça.
Deslizei por entre os verbos não-ditos. Existi nas baforadas do cigarro.

As freqüências de todas as vozes que se confundiram nos meus ouvidos. Cada pigmento das ruas. As ruas.

Enquanto empurrava o chão atrás de mim, debaixo da borracha do meu tênis, sumi na paisagem e tudo me atravessou.

Esvaziei-me. E enchi de mundo as pequenas partes escuras do meu sono, que embalava enquanto andava pela sombra da calçada.

< >

2.24.2007

Parou e olhou para mim. Disse que não podia. Que não queria. Sua respiração era hesitante.

Pensei que o lugar de tudo que se deseja não devesse ser dentro. Fora. Longe de tudo. Assim vive-se mais tranqüilo. O caminho que leva às coisas não feriria tanto.

A caminhada (passos calmos?), no entanto, é cada vez mais obscura. Em algum lugar no meio dos órgãos, entre o pulmão, estômago, fígado. Entranhado no meio da carne, escorregando no sangue. Ali está o caminho.

E a possibilidade de se encontrar é tão remota. Mais vale andar. Mas vale.

Surgido no pôr-do-sol laranja. Entre os cheiros da chuva no asfalto quente. Está você. E eu. E os nosso órgãos, que retomam os passos internos e nos enganam.

(mas) A beleza está não na apreciação do espelho. Sim no esquecimento dele. Total auto-ludibriação.


(voltando pra casa, novamente. O tempo todo)
Catando segundos passados


um a um


reconstruo a respiração calma debaixo das cobertas
dentro do mais aconchegante recanto

desenho as linhas imaginárias que abrangem o reino que habito



a longa volta pra casa parece durar para sempre.

2.19.2007

Com flor do cabelo ela pula.

Se você jurar
Eu posso me regenerar.

Fuma um pouco e se molha de cerveja.

Molha de satisfação todos os movimentos e sorrisos.
Só sorrisos.

Porque tristeza é demodé em fevereiro no Rio de Janeiro.
O tempo no varal.
Secando, pra depois ser tingido.

O vento soprou. Sobraram os pingos no chão.


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Sobretudocarnavalizadocarioca.

Deito um pouco.
Estico as pernas bem forte. Até cléc-clécarem todos os meus dedos.
Brisa que sopra dentro, e arranha de tão gostosa.

Fecho os olhos.

Imagino o sol queimar.

2.16.2007

aujourd´hui
kurakunattanowa
naze desuka?

2.15.2007

Clarões metafísicos.

Deleuze falou dos encontros, que movem o universo.

A possibilidade de pintar mais espaços vazios sem enchê-los nasce de formas cada vez mais imprevistas. Da mesa de bar com um cigarro no meio e duas pessoas nas pontas. Conversa, silêncio e música. E muito entendimento.

Quase inexistente. Sussurrando. Os traços que preenchem.



Sob a parede da quietude. O ar-condicionado e o cheiro de mofo me fazem lembrar antigos pesares e penso: pensar, sim.

A cidade fragmenta-se dentro de salas, janelas, carpetes. Ainda assim, é necessário o inteiro dos pedaços. Abrir o leque de cores e cheiros. Respiro fundo e dou um pulo dentro de mim. Resumindo sinapses cerebrais, suspiros, vozes e sentimentos (dos rasos até os mais profundos) ao eterno encontro comigo mesmo, acabo chegando ao longo atalho do prazer pela fresta de cada pensamento. Sinto o sopro. Atalho lento e calmo. Como uma pintura sem nada, traço que escreve no imaginário. Aquele que fica atrás de cada olhar.

As coisas, em si, são lagos e reverberações.

Como grandes grandes pedaços de papel que ventam tintas translúcidas com palavras cheias. O clarão de cada um. Precisamente incalculado. Maleável e permeável, ainda assim.


2.10.2007


Os espaços vazios são sempre bons pra organizar os pensamentos.
Dentro da caixa.

O sol entrou pelo buraco
e saiu do outro lado.

O escuro perfurou a luz e eu dormi sossegado.



Dormi acordado.

2.08.2007

Psiu!

Psiu!

Chamaram pra ver o mundo.
O mundo.
E não o espelho da minha memória.
joguei o verbo no ar


ele andou por quantos lugares
transmutou-se em quantas pessoas


virou cimento pra poesia de alguém
(alguém?)

e voltou pra mim.


Vazio.

2.06.2007

Sob a ação do tempo.

O tempo todo.

Sem parar.

2.05.2007

As impressões de poucas coisas
sobre o barulho de copos de vidros.

Percebi o quanto de mim existe no mundo. E penso estar contente. Andar pelas mesmas ruas não me oprime mais. Esparramo os pensamentos como em amplas poltronas confortáveis (ou redes) e deixo o corpo mover-se no automático. Viro as esquinas como viro as páginas do livro que releio pela milésima vez, e que só agora me apresenta seus signos completos. Penso andar na rua. Mas acho que a rua anda em mim.

Depois, uma coca-cola e um cigarro. Respiração e olhar. E volto pra casa como que esvaziado. Esperando pelas páginas físicas do próximo livro.

2.04.2007

Pego toda a felicidade do mundo e desboto
.
.
pixel a pixel.
.
Agora sim:
.
.
Em mim.
.
Euforia digital desmantelada.
Como andar em cima de ovos.

Prefiro parar pra respirar.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Palavras como corpos semânticos, por favor.

1.30.2007

Enquanto gira spin spin
o nosso crazy world

O velho abana as penas dos pombos
Enquanto balança as pernas
pra frente
pra trás
pra frente
pra trás
O horizonte inclinou-se pra direita e mudou de cor.
Toc bateu no rosto com força
Pediu um pano pra enxugar o sangue
enxugou com todo o amor do mundo
enternecido escorrido
do eterno rio que flutuava sobre sua testa.
Ah e como eu gostaria!
Pensei não fosse possível
quebrei a caixa de discos antigos
pra morrer de amor de novo.
E um dia amaria
semitom e poesia
pura.

12.14.2006

"Escrever é tentar saber o que escreveríamos se escrevêssemos." (Marguerite Duras)

Será que de fato existe um ponto em que a linguagem não é mais suficiente? Nenhuma possível linguagem, de nenhum possível sistema. Esse ponto seria o encontro de fato com a essência das coisas (?).

Como descrever a luz amarela sobre um pedaço do muro que se vê através da janela do ônibus? Já tendo descrito, percebo que não consigo descrever. Porque descrever é reduzir. Expressar é reduzir, de certa forma. Aquele pedaço de muro, sob aquele pedaço de luz, definitivamente não me impele a escrever por ser um pedaço de muro sob um pedaço de luz. Mas por quê então? Por algo que, de fato, ultrapassa a expressão da linguagem. Porque, de alguma forma muito misteriosa, aquele pedaço de existência concreta, em algum momento, falou sobre mim, falou comigo. Porque é possível enxergar poesia (vivência e experiência), em qualquer elemento que nos afete. E essa expressão a mim externa e quase aleatória (não uma epifania, mas um suspiro de poesia cotidiana e simples) é uma certa forma de contato com um além-lógico. A essência, para nós, encontra-se em nós mesmos, e, - aí a vantagem incrível de observar e abrir a percepção -, também no mundo, nas coisas. E então, de fato, não há linguagem que dê conta. Mas mesmo assim, tentamos "saber o que escreveríamos".

10.30.2006

" Muitos
muitos dias há num dia só
porque as coisas mesmas
os compõem
com sua carne (ou ferro
que nome tenha essa
matéria-tempo
suja ou
não)
os compõem
nos silêncios aparentes ou grossos
como colchas de flanela
ou água vertiginosamente imóvel"

(Poema Sujo, Ferreira Gullar)

Voltando ao ínicio. Dando um nozinho, porque todo nó fecha, mas também pressupõe o novo (porque o movimento é inexorável, a não ser que se queira interrompê-lo, mas aqui a idéia é o extremo oposto). O nó é a possibilidade da novidade. Dia bonito e as cores sem filtro. Se as coisas sorriem, é desse jeito, bonito assim.

10.05.2006

A(s) hora(s) inteira(s)

O tato no céu
peixe escuro que ronda a mente de noite
Na noite de todos os dias inteiros
o pensamente perde o foco
perambula por todas as coisas que existem
e não
e chega em lugar algum.
Se no tempo que pára (paira?) por cinco
- ou seis -
horas
espera tudo por ser olhado vago
a memória me deixa acordado.
E - ainda bem - vive-se continuidade.
E não cortado nem metade.
Indescritível

Existe uma parte das coisas que não são descritíveis.
Há o que se vê, o que se decodifica, o que se compõe, racionaliza-se, que se manifesta materialmente. E o resto. O resto é o sentido. E quando colocado assim, tenta-se descrever. E a descrição é absolutamente insuficiente. Não é o sentido do signo. Não aquilo que preenche nossa expectativa. Aquilo para o que não se pode ter expectativa, porque não se prevê, não se mensura. Que não está nas coisas, mas em uma brecha quase inexistente entre o que sai e o que chega. A brecha que está de uma forma diferente, individualmente distinta em cada sujeito. Que não pode ser, senão para cada um. Porque cada um se constituiu de forma inteiramente diferente. E a partir daí, o mundo passa a ser uma construção única, empírica e infinamente solitária. O sentido do mundo que é existir. E existir, que é uma experiência estritamente sua e minha e dele e dela. E nunca nossa. Apenas no sentido que existimos. E aí as coisas são bonitas. Demais.

8.14.2006

Voltar a escrever é quase como voltar a ver. Ver que o mundo não tem eixos definidos. E que quando mais uma suposta ordem se impõe às nossas impressões, mais ela está prestes a cair. E que o costume é quase igual ao vício. E que juíz0s de valores, quase sempre, representam fraquezas trajadas de prepotências. E que somos tão ruins e tão bons como quaisquer outros - o que quer que seja ser ruim ou seu bom.

Voltar a ver é bom! Depois disso é bom ir à praia.

5.16.2006

De volta a normalidade, em alguns dias... quase inacreditavel. Muito bom!

2.28.2006

"O essencial eh a contigencia. O que quero dizer eh que, por definicao, a existencia nao eh a necessidade. Exisitir eh simplesmente estar aqui; os entes aparecem, deixam que os encontremos, mas nunca podemos deduzi-los. Creio que ha pessoas que compreenderam isso. So que tentaram superar essa contingencia inventando um ser necessario e causa de si proprio. Ora, nenhum ser necessario pode explicar a existencia: a contingencia nao eh uma ilusao, uma aparencia que se pode dissipar; eh o absoluto, por conseguinte, a gratuidade perfeita. Tudo eh gratuito: esse jardim, essa cidade e eu proprio." (Sartre, A Nausea)

Pois entao. Londres eh muito foda mesmo. Mas ta dentro do resto das coisas. Eh um lugar realmente surpreendente. Mas, `a medida que o tempo passa - e que fique claro que isso nao eh critica nem nada negativo, porque ainda estou gostando e me surpreendendo muito com as coisas - fica claro que coisas sao coisas, e embaixo das milhoes de camadas que se sobrepoem a cada uma delas, elas sao coisas. Cadeira, parque, rua, meio-fio, pessoas, roupas, computador, loja, vendedor, pessoas, pessoas, pessoas. As pessoas, essas podem ser muito surpreendentes ate voce conversar com elas. Porque elas sao pessoas e ser humano eh uma especie realmente universal. Todas na mesma funcao de sempre, em qualquer lugar do mundo.

2.08.2006

Despir-se

Sem pensar antes e depois. Simplesmente a pura sincronicidade das sensações. Os dois olhares, que se transformam em três e viram um. Emocionar-se sinceramente com um movimento e um som, uma palavra, uma cor e um rabisco qualquer. Às vezes esquecer padrões, referências e o auto-policiamento da inteligência-mor dos livros e dos autores e dos críticos e dos estudiosos e dos filósofos e dos intelectuais e dos acadêmicos e dos e dos e dos. Uma luz igual a de todos os dias, que não possui profundidade nem nada, apenas luz, amarela sobre os objetos, como todas, mas que ficou bonita no registro mental. A combinação perfeita de notas, perfeita por não ser teorizável, não se transformar em ensaio, não se relacionar com o sócio, nem com o político, nem com nada mais. A seqüência de imagens que não diz muita coisa, mas preenche um certo espaço quase esquecido em algum lugar de alguém. O silêncio mais ensurdecedor, vazio e sem significado, mas completo. Completo porque você quis, porque assim lhe pareceu, porque assim se tornou depois que lhe chegou. Perfeito pra mim, pra você e pra alguns. Pra outros não. Porque não é. Aprofundamentos da alma sem passar pelo racional. Uma boa música, segundos de observação, andar de bicicleta com o vento batendo no rosto, ver o sol encostando no asfalto e sentir que as coisas são. Como viver o presente sem notas de rodapé e sem referências bibliográficas no final do dia.

2.01.2006

Bombom de todo dia

Parei o dia
tirei a foto
perdi todo o resto
pensando em não esquecer

Esqueci o gosto
e o não-gosto
não gostar é suficiente para se formar a personalidade?

A enternidade me abafou como um saco plástico
Fiz um furo
Talvez a luz do dia me baste
para tudo o que eu preciso.

Preciso ficar são

de vez em quando
e no que sobra
pensar em nada nunca deixa de ser bom.

Bom se fosse a vida minha que eu levo.
E não o passado do mundo todo que carrego
encaixotado nas minhas memórias.

.

1.31.2006

...

Almoçou e parou. Zerando tudo, quanto de vida teria de verdade? As experiências acumuladas existiam ou foram vividas através de coisas que lhe eram externas? Promessas rasas e profundas de uma solidez que se dissipava no ar. Quando era jovem, pensou um dia que o mundo estava à sua frente. Naquele momento, depois daquele almoço, sentindo aquele suor lhe escorrendo da testa e irritando suavemente os olhos quando se precipitavam da pálpebra, percebeu que não. Nem tanto. O mundo não existia. Criou-se na sua cabeça, que formava imagens deslumbrantes - ou assustadoramente sombrias - do eterno próximo acontecimento. Pensou que, um dia após o outro, de todos os anos em que existiu até então, tudo não passou de uma grande balela. Sua existência era tão grandiosa quanto a de qualquer outra pessoa que estava viva naquele momento. O mundo deixou de existir. Sentiu um alívio. Suspirou leve e quase não conseguiu pensar mais, de tão cruamente que tudo passou a se oferecer para ele. Como uma mulher que acredita na maquiagem e se insinua para os homens que a olham, o mundo era essa mulher, mas agora desgastada com o tempo e o dia-a-dia modorrento, não precisava mais se enfeitar para enganar o olhar. Ele se encantou com o desencantador. Um momentozinho de alegria, daqueles que fazem algumas horas tornarem-se fascinantes. Agora sim.

11.27.2005

Cliché 2

Penso.

Logo penso que existo como penso.
Penso que existo. Sem fim.

11.26.2005

Cliché

Pensamento saturado.
Não me orgulho de muita coisa. Talvez da última vez que consegui me orgulhar de algo. E só. Falta pouco para porra nenhuma. Ótimas previsões. Sempre.
Vermífugo escondido dentro de mim - o verme que parasita -, o apreço pelos outras nunca foi tão grande. Afinal de contas, para quê mesmo é isso tudo?
4h, 5h. Um pouco menos do que a noite toda. Tempo matado esvaziando a cabeça. Conversas sobre postes, e todo resto guardado junto com o consenso já bem debatido. Esquecer um pouco mais e, animais em quarentena, apreciar os detalhes repetidos e desgastados na cabeça. Astutas e presunçosas reviravoltas que não acontecem, mas são exageradamente anunciadas, os minutos parecem que são uma reprodução de um original que nunca foi, de fato, produzido. Um pouco de círculos, um noite como qualquer outra, e fecho os olhos com a certeza de pouca coisa. Amanhã é sempre um pouco parecido, e as coisas são ótimas e muito bonitas, e não precisam ser impressionantes.

10.05.2005

Organizando o dia-a-dia

Você sente e você sonha. Paisinho subdesenvolvido de merda. Devia virar um advogadozinho qualquer e ganhar muito dinheiro. Preciso voltar a pensar sobre o que me faz feliz. Afinal, vai tomar no cu todo mundo! Com essa pressão toda eu não consigo nem respirar. Pensa mais um pouco, agora de leve. Respira o ar da rua e olha um pouco pro céu. O dia tá bonito, e as pessoas são banais. Por que eu não posso ser também? Ah, vai pra porra com esse papo de qualquer coisa. Um dia, eu quis, achei que seria bom. Achei que seria possível. Um dia, o mundo esteve todo, redondinho, azulzinho, aos meus pés. Agora, se fode! Racha a cara até sangrar tudo!... Daqui a pouco, vou ficar ali, sentado no sofá, esperando o programa acabar pra ir dormir e esperar não morrer antes de acordar. Será? Espero que sim, sinal de inteligência. Pensar só dá fome. E eu tô cansado de ter fome. Pra puta que o pariu com o sentido da vida. Eu quero é morrer logo pra acabar com isso. Felicidade não existe nem em bula de remédio. Uma merda em cima da outra. É isso que sobra. Já que cagaram tudo em cima de mim, deixa eu cagar um pouco em cima dos outros. Agora, deixa eu ficar em paz, que um dia acaba. E até lá, não sei.
À vida feliz


A conversa acabou ali. Não tinha jeito. Ela saiu correndo e se escondeu em um canto, embaixo da prateleira que ficava no fim do corredor. Eu, fingindo não me importar nem um pouco, prendi a respiração e desci a escada até a rua. A noite estava fria e limpa. Pensei que podia morrer, um pouco antes dos pensamentos me fugirem todos da cabeça, que ficou vazia. Ser idiota, às vezes, é um privilégio pouco valorizado.

Acordei no dia seguinte, no meu quarto. Quarto pequeno e bagunçado. Prefiro andar na rua a ficar aqui. Andei por umas três horas. Repeti várias vezes o mesmo caminho. Andar sem ver, repassar em ruas mais de uma vez, é uma prática boa para organizar os pensamentos. A vida, muitas vezes, não está em você. Quase sempre. Naquele momento, menos ainda. O vazio podia, quem sabe, ser preenchido com as imagens repetidas. Carro. Azul, preto, branco, vermelho. Nunca amarelo. Cachorro, gato, velhos conversando (como eles conseguem?). Bêbado, criança, mulher fumando na porta da loja, garoto correndo, dois amigos conversando. E repete tudo. Mais uma vez. Sem parar. Espero o dia acabar pra sentir o gosto de que as coisas não se renovam.

À noite, de novo. Chego no meu quarto. O mesmo de quando saí. Preciso me livrar dos pequenos aprisionamentos. Nessas horas começo a sentir falta das palavras simples que podem sair da sua boca. Mas, de que adianta? Ontem você se encolheu e eu saí como um cachorro assustado. Amanhã, a rua vai ser repetida, e eu não vou querer olhar. Em algum momento, as coisas terminam. E para onde? A poesia, infelizmente, eu joguei no lixo. Ficou abandonada aquela noite, embaixo da prateleira no fim do corredor. A noite fria e linda pode virar dia e eu não vou nem notar. Porque não precisa. Ela fica bem e acontece mesmo sem mim. Será que eu estou pronto para não ficar?

Dormi.


...


Nunca esperaria te rever naquele lugar. Depois de meses, já tinha engolido tudo que eu poderia, um dia, querer sentir. Entrando no bar, às 11 da manhã, daquele dia tão normal que dava vontade de vomitar. Segurei a respiração e me policiei. Mas, no final, não. Você passou, me cumprimentou e eu só senti a brisa do seu corpo me tocar de leve. E nada mais.

7.02.2005

A mesma falta de horizonte


Andou três vezes o mesmo caminho. Padaria, bar, canteiro com o cachorro dormindo e praça onde os velhos sentiam o tempo sentados em um banco. Chegava sempre à falta de conclusões. Desenhava o mapa de suas caminhadas para ver se conseguia se reconhecer no que não estava nele. A cidade poderia ser muito mais reveladora do que sua própria falta de pensamentos. Talvez.

Penava quando caía a noite. A constatação da sua solidão era inexorável então. Não a solidão dolorosa, mas aquela na qual estamos mergulhados desde o momento em que nascemos. O mundo não era, senão para ele. As conversas de todos os dias pareciam ser sempre as mesmas e tinha quase certeza que a alegria de viver - se ela existia - estava no fato de que as pessoas conseguiam atravessar os dias mergulhadas até a cabeça na sua própria construção. Ele não. Precisava encontrar o sentido nas coisas fora dele, já que o interior já havia se mostrado tão asséptico como o lençol de uma cama de hospital.

Sua ocupação era a da resistência. Sabia que, na verdade, era uma busca sem resultados. Conseguia distinguir claramente a sua vontade do que lhe era apresentado. Ao mesmo tempo, a beleza da falta de sentido o instigava de uma maneira quase carnal. Poderia passar os seus dias degustando a objetividade vazia que absorvia. Amava as pessoas, amava o fato de que as pessoas são irredutivelmente sozinhas. E conseguia, ao final de uma jornada muito cansativa, finalmente, reconhecer-se igual. Árvore, mesa, cadeira. Livro, caderno, seu melhor amigo. Meio-fio, carro estacionado, mendigo na esquina e sua mulher. Seu cachorro e ele. Todos com a mesma falta de finalidade, cada um perplexo de sua própria maneira.

A felicidade, talvez, tivesse lhe chegado da maneira mais brutal. E sangrava ao mesmo tempo que aprazia. Paz.

Começava, então a se preparar. Tudo de novo...

6.13.2005

Sobre as coisas respiram e depois pensam
(um convite para qualquer hora)


Explodo a cada respiro
e transpiro a cada póro
que muda de lugar
ou que fica.

Vamos nos explodir.

5.28.2005

Happy me!

depois de anos
passo as noites acordados
esperando a grande explosão que pode me salvar
perco o sono escutando palavras
pipocarem no meu ouvido
gritando um pouco sob o escuro do quarto
suando a testa escostada sobre o travesseiro.
Enquanto conto a próxima última respiração
vejo os americanos fabricando as horas
acendendo e apagando os tubos da televisão
perco de vista
a paisagem bonita que degustei no mês passado
rimando merda
com o meu nome
morro por antecipação.

4.27.2005

Fechado

Perdido no ar
consigo diferenciar cada sopro
deitado sobre o meu ouvido
perceber as minúsculas
sílabas esquecidas
fazendo o foco sobre o detalhe
do sorriso mofado que preenche os póros
e os espaços entre os dentes
drogar na esquina da consciência tudo que me sufoca
e - andando de um canto a outro -
delimitar as fronteiras da viagem e retalhar
pedaço por pedaço
imagens amareladas
sobradas
da última refeição de anos.
Soprando a poeira da sombra que não foi
passeio em círculos rodeando o mesmo buraco
que ficou incrustrado no pedaço de carne
apodrecido na cozinha
do último apartamento.
Sofro o tormento calado
escondido atrás do cigarro
e de palavras inteligentes.
Desgastando
contente.

3.11.2005

Ponto final .

Irremediavelmente
procuro andar sob a luz escura do meu quarto
encontrar jesus crucificado na lata de Coca-cola
e fumar o cigarro amarrotado pelo tempo
molhado dentro do meu bolso.
Culpar-me por nascer febril
ardorosamente culpado
por simplesmente
atordoado e sutil
ter nascido
no dia em que a desordem
instalou-se nos meus pensamentos.
Correndo contra correntezas estranhas
retomo cacos de vidro quebrados há anos
colando-os em cada buraco
desoxigenado
dos músculos e respirações.
[- Segue o rumo disfarça o tormento
faz-se feliz e satisfeito
contido dentro do tempo
pouco
a pouco
corroendo].

2.21.2005

Sobre as coisas

Você está predestinado a isso. E ponto. Você estudou, você fez faculdade, você fez o estágio, ganhou o seu salário, conseguiu o emprego, saiu de casa, fez o que devia ser feito. Você aprendeu que ia ganhar o mundo preso em uma sala. Conheceria tudo tornando-se menor e mais limitado. Você sentiu isso. E as coisas são assim. Turvo como é. Acostumando-se a não pensar, a chegar e dormir, a obrigar-se a se divertir, a esquecer os questionamentos, dormir e acordar com horas marcadas, a conversar apressado, a comer e aproveitar para relaxar, a beber (ou fumar) para esquecer tudo que acontece quando não está bebendo (ou fumando), a perder o sono por causa do dia seguinte, a sentir o domingo amargo porque logo vem a segunda-feira. A repetir e repetir e repetir. Dia é dia e noite é noite. A vida é vida. E ponto. As coisas acabam. Cedo. Cada um faça o que quiser da morte diária que experimentamos.

E, de repente, percebe que pode viver e saber que pode morrer daqui a cinco minutos. Então foda-se todo o resto. Matéria é algo efêmero e ser humano é matéria. Um pouco mais metafísico, um pouco menos concreto, mas efêmero da mesma forma. Degustando a morte a cada respiração. E, por isso, vivendo de maneira mais honesta. Assim é mais saudável.

2.16.2005

tempo morto

peso o tempo
morto sobre a cabeça
esqueço o pouco
pensamento cortado
que varreu a carne viva
da lembrança
faço mira e escondo o tiro
dentro da tristeza
perco o rumo
na pequena esfera
translúcida que me redoma
a morte que me separa
ainda assim
de mim
o sol arrastado me atormenta
ainda assim
assim

2.01.2005

zum zum
(conversa de lugar)

Andando de lá pra cá
a vida está pra acabar
e eu acabo caindo
em mim
caindo
sem fim
dentro do sono que me corrompe.
Os nervos à flor da pele
não deixam cantarolar
pequenos restos de palavras
mofadas
guardadas
para talvez um dia
secar no armário
poesias deturpadas
que poderiam ser ar
mar
trazendo pra mim o frio e o sol.
[Anda
percebe o que me cerca]
Para continuar a queda
e fechar raciocínios
aquietar insônias
rachar a redoma mágica
e poder voar
cantar em silêncio
todas as notas brancas e amarelas
empoeiradas de algum canto
quebrar e sair assim
à escuridão somatizada
e realizada em cada grão
presente enfim.

1.27.2005

Hoje talvez

Sobre tudo que me comove
poesia torta que se encolhe com a chuva
brota do céu ensolarado
do janeiro destes outros tempos

Areia de praia dourada
fecho em pouco tempo
pensamentos inconclusos
afogados na água azul das minhas idéias
profundas celestes
apreendo pouco do agora
jogando ao futuro quase tudo que me enforca

Perco suor mas nunca respiração.

1.15.2005

Consciência

A janela suspirava atonitamente, chamando-o a pousar-se sobre ela e apreciar a melancolia mundana que se escorria por debaixo do seu nariz. O velho que andava na calçada, equilibrando-se na beirada do meio-fio, parecia suspeitar do desenho estranho e belo que compunha junto com os carros, o asfalto, o cinza e o barulho. Olhava rápidos olhares na direção das pessoas, como se buscasse confirmação da sua beleza efêmera. Poesia eterna que está presa em cada segundo.

Pôs-se a olhar a vista. Esperava que algo extraordinário o arrebatasse a qualquer canto do seu pensamento, onde estivesse longe de tudo aquilo que o perturbava. Mas a realidade estava mais na perturbação do que no suco que o esperava na geladeira. Muito mais. A tristeza é sempre muito mais concreta do que a felicidade. E a poesia vinha como um pote de sangue entornado pra dentro de sua cabeça. Não conseguia respirar. Sentia uma incômoda liberdade, que preenchia seus póros a ponto de espremer lágrimas para fora do seu olho. Perdia-se em meio a tantas coisas que lhe surgiam a um só momento. O mundo podia ser tão disponível, que lhe causava vertigens. A beleza triste de uma palavra engasgada pela noção absoluta da impossibilidade. Engasgada de tanta vontade.


(final em homenagem à Shady Lane)

1.13.2005

"I wanna ra(n)ge life..."

Dando passos sobre um chão invisível. O vento que vinha debaixo poderia fazê-lo voar para tão alto que perderia de vista as coisas reais.

Um alívio tão grande que sentia: poder se perder seria, de fato, a opção mais sensata naquele momento. Sentir um pouco do escuro e do claro talvez lhe desse precisamente o que necessitava.

Ar fresco. Luz pura. Um pouco de gelo no copo e alguns cigarros apagados. Percepção colorida de um mundo sem cores. Mas, ainda assim, com algum brilho. Pronto para um novo passeio.

1.11.2005

Encantamento

Ao pé da porta
pés descalços sobre o cimento quente
Esfria pensamentos com pequenos
sorrisos desmanchados
Perde o foco
sob a luz fria
na noite que sufoca
os meus respiros apressados

Corpo que afrouxa laços.

12.27.2004

Parafraseando a tristeza


Um carro. Cinco assentos. Um ocupado.

Céu escuro. Noite azul e tão seca quanto a garganta. As luzes dos postes marcam a vista, traçando uma linha contínua que guia o caminho sobre as águas. Os segundos vão ficando para trás, empurrados pelos pneus. O asfalto parece combinar com os pensamentos.

O nada de sempre. Vazio que não se preenche. "A esperança de uma arma apontada para a sua cabeça".

12.24.2004

Novo

Como não escrever sobre esse ano que termina, se ele está terminando?

Alguns poucos pontos minados passaram debaixo dos meus pés, mas eles deixaram estilhaços tão pesados que espero conseguir dissolvê-los no sol do verão que está para chegar. O vazio de um copo d'água sem água - a sede torna-se quase insuportável. Uma parte com sede incessante, a outra tentando saciá-la com pedaços de ar. Fins de semana, conversas internas, músicas, livros e filmes. Ares cheirosos e frescos, mas nunca água.

Como um interminável barulho de buzina, no meio do trânsito. Asfalto quente, respiração ofegante, suor sobre os olhos. As imagens bonitas distorcidas à monstruosidade pelo calor desumano que frita nossas mentes. As palavras que você escuta separadas do seu contexto. Tudo um grande ruído. E ponto.

Ano que vem existe para isso. Pensar que pode chegar a algum lugar. Um copo d' água, ar fresco e respiração. Alívio. Ou morte certa.

12.05.2004

Sweet (sweet...) dreams are made of this

-Será?

Era quase nada. Pôs na boca e achou que poderia continuar como antes. A música era estranha, o ambiente amigável - escuro e estranhamente familiar. Espaços amplos e vazios. Relaxou.

-E aí? Já?

Nada. Parecia que estava cada vez mais desenvolto dentro dos seus próprios limites físicos do corpo. Apenas isso. Conseguia sentar-se e tomar uma cerveja tão levemente quanto conseguia ficar de pé e fumar um cigarro.

Andou de um quarto ao outro, procurando algo que o prendesse. As luzes eram de cores diferentes, e a casa se transformava em um enorme mosaico de quartos coloridos: verdes, azuis, roxos, amarelos. Não havia móveis, e as bexigas flutuavam no ar de maneira incadescentemente frágil. Banheiro, quarto, quadrado, quarto, retângulo, escada, verde, azul, flurescente, roxo, preto.

Bum. Percebeu a música. Começou a rir. A realidade pode ser realmente divertida quando nos encontramos distanciados dela. Distaciados e, ao mesmo tempo, completamente imersos. Mergulhados.

O ar o puxava de um ambiente ao outro, os gritos eram euforicamente felizes. Felicidade. Artigo tão escasso que deve ser degustado com todas as células de todas papilas gustativas. Pegou um pedaço de gelo e passou pelo seu rosto. O gelo podia derreter em poucos minutos, em contato com a sua pele. O rosto, o braço, o pescoço. O gelo. Isso sim era sentir o que há de concreto na realidade.

Quando achou que ia parar, deram-lhe mais gelo, a música voltou e o sol começava a nascer. Ainda duraria algumas horas. O sol esquenta e o gelo derrete. Vida simples, cíclica e muito satisfatória.

11.21.2004

E aí, melhorou?

11.20.2004

Blog de cara nova. Alguém notou?

11.19.2004

Ar preso


Abriu a porta e viu que estava preso dentro das suas próprias impressões. Havia há pouco conhecido uma menina que lhe havia absorvido por completo. Ela escrevia palavras perfeitamente encadeadas e falava como quem suspira por alguma constatação muito importante e secreta que acabou de fazer. Ela se concentrava nela e parecia se movimentar através de pequenas explosões ao redor de si mesma. Tinha a leveza na mesma proporção da tristeza, que lhe davam o ar único.

Viu-se no quarto. Televisão, porta, janela e ventilador. Ligou o som, pôs alguma música para poder não-pensar. Mas, será que existe? Resolveu contentar-se com migalhas. Restos de poesia que ela deixava pelos caminhos, a cada passo que imprimia no chão de madeira. Poderia guardar as poeiras que lhe caíam, mas nunca deixar-se perceber. Conseguia tranformar-se em cadeira para não ser notado. Aos poucos, definhava na sua própria consciência. Gostaria de explodir, mas seus pedaços desmoronavam para dentro do seu estômago.

Deitou-se na cama. Olhou para o céu, que aparecia por entre os intervalos da perciana que cobria a janela, meio danificada com os anos. Prendeu a respiração e contou até 60. Um minuto! E ainda podia respirar. Teria que voltar no dia seguinte, e isto não estava nos seus planos. Confrontar-se com algo que, supunha, nunca conseguiria concretizar era angustiante. Tristeza inchada como uma bola de neve. Nem o sol que fazia do lado de fora conseguiria derreter. Preso dentro das suas reduzidas possibilidades, achou que sim. O encanto pode ser tanto um vício como uma asfixia. Preferiu escolher. Abriu a janela e sentiu o ar passar de leve pelo seu nariz. Talvez, quem sabe, agora conseguisse.

11.15.2004

Hospital

Alinhando pensamentos inconclusos
Perfuro a imagem
Mato a sede com os anseios frustrados
Lado a lado
Enfileirados
Calo e acendo o cigarro
Fumo apagado e contento-me
Com a pouca mensagem que me lêem
-se me lêem-
Comprimo as angústias em algumas poucas
palavras apressadas
Retorno ao meu limite
Retirando traço a traço
os espaços apertados
desenho o fim com ingenuidade
e euforia de uma criança que nasce
e morre após a primeira baforada
do ar gelado
condicionado
do hospital

Exercício de sobrevivência

O que é importante agora?, ele se perguntou. Talvez não viver fosse bastante importante. Mas já havia passado dessa fase. A adolescência pode vir e ir de uma maneira estranhamente rápida. Nunca conseguiu entender lamentos vazios, palavras escuras saídas de mentes extremamente brilhantes. Pensava que escuridão tinha que ser honesta, muito mais do que exercício de estilo. Sentia-se um pouco perdido no meio de tantas referências que se esvaziavam conforme consolidava seu próprio buraco. Cada vez mais fundo. Suas convicções não possuíam parâmetro, infelizmente. Será que é possível?

Foda-se a irritação!, pensou. Havia perdido alguns anos e cigarros levando seriamente em consideração suas vontades que, no entanto, se submetiam aos seus medos mais repugnantemente humanos. Reconhecer-se igual é uma atitude muito desconcertante. Qual seria a finalidade de gritar, se podia agüentar a dor calado. Resolveu se concentrar. Degustar a sensação de estar completamente sozinho poderia ser uma atividade interessante, tentaria dar mais atenção a isso. Convites, interjeições e pequenos diálogos não o enganariam dessa vez. Viver poderia ser suportável, se passasse a observar sua existência definhando a cada minuto que passava. Resignou-se e explodiu alegremente e mais satisfeito do que nunca.


9.17.2004

Virtus Dormitiva



Sexta-feira, à noite, em casa, curtindo uma leve doença... pelo menos, dessa vez, não é amidalite.

Vários programas para fazer sem sair da minha cama (escrever no blog já está sendo algum esforço): ler, ouvir música, ver filmes. Escrever também dá. Mas o mais legal é pensar - dessa vez até está sendo tranqüilo. Ah, e dormir, obviamente. Por sinal, o que eu fiz na maior parte do dia, por conta de um remédio muito bom.

O que será que as pessoas estão fazendo agora?

- - - - - - -

Um pensamento ótimo:

"Os fisiólogos deveriam refletir, antes de estabelecer o impulso de autoconservação como impulso cardinal de um ser orgânico." (Nietzsche, em Além do Bem e do Mal).

Eu sempre pensei isso. Já perguntaram a todos os fumantes se eles realmente querem ter uma vida longa? Vontades não são tão óbvias assim.



9.13.2004

Top 2 - blogs

Firula, você pode ser chato (e fashion, tá bom...). Mas eu gosto muito de ler o seu blog.
Sempre junto com o da Carol (que, contudo, não é chata, mas também tem um ótimo blog).

(Ahhh péla-saco!!)

p.s.: por causa de vocês dois eu ainda escrevo, parcamente, neste blog.


(...) até que se chegue.



Falta tanto...
Perimetral. Voltando a alguns anos atrás, enquanto eu ia pra Botafogo. A chuva, num domingo em que você não sente a angústia de não-viver, é sempre muito boa pra achar que você pode estar tão bem quanto esteve há alguns anos atrás. Anos atrás, indo pra algum lugar.
As coisas poderiam ser tão melhores quanto eu tão menos observador. Conforme os dias passam, os meses e assim por diante, a rua fica cada vez mais rua, o carro cada vez mais carro, e as coisas cada vez mais as coisas. As pessoas talvez também. Voltam para a existência real delas. Sem metafísica e sem expectativa. Os livros talvez ainda guardem algo mais. E alguns cds - até os cds e os vinis e as músicas...
Quando as cores eram mais saturadas, a vida era mais interessante. E o preto e branco contrastado um charme quase inexplicável. Ano passado certamente foi bem melhor do que esse ano. A vida tende a um declive que parece interminável. Como as pessoas conseguem viver até os 60? Resistência sem limites talvez não seja o meu talento. - e o talento ainda era algo que realmente existia -...
Pois então, nesses momentos, é importante ater-se àquilo que se sente vontade. As poucas coisas que merecem esse posto ainda podem ser interessantes. Provincianamente e ignoravelmente interessantes, mas ainda assim ocupam parte do seu dia. E assim se vai.
O passado sempre é um bom lugar ao qual recorrer. E, nos dias de chuva, domingo, em que não se ocupa a mente com quase nada, ele vem certamente. Pelo menos para quem o resto não oferece muita coisa.

Mente vazia: mente sã.

Renovar é um processo que, infelizmente, descarta todo o resto do mundo.

8.31.2004

Por favor, uma pausa para o café.
Voltemos a ser normais.
Chega de fingir tantas coisas que se esquece o que se realmente é.
Porra.
Inteligência é, cada vez mais, um conceito relativo.

Novamente, aqui. Pousei mais uma vez neste blog.

A conclusão das últimas semanas: a vida, infelizmente, se tudo é feito "como deve ser feito", talvez não valha tanto a pena. Se "viver bem" é trabalhar no que você gosta, mas trabalhar tanto que isto se torna a sua vida, definitivamente não vejo muitos atrativos. Mas, ao mesmo tempo, quem tem coragem de chutar o balde e mandar tudo à merda?! Por enquanto, eu não tenho...

Preciso de tempo para pensar... pensar em nada, pensar em porra nenhuma, olhar pro teto e andar na praia... respirar com calma!! Merda!!!!!!

A seriedade e a responsabilidade são conceitos feitos par tornar as pessoas previsíveis e controláveis. Presas dentro de uma rotina fudida. E, quando felicidade para mim passar a se resumir a um aumento de salário, podem me enterrar, porque eu já vou estar morto...

...

8.09.2004

Quantos leitores?
Então...

você percebe que apodreceu.
E que se perdeu no meio de tantas bifurcações.
Foda-se o que pensava, agora parece que o empurra o nojo que pode ter
de si mesmo.

E todo mundo
pensa esperar assim
por um dia chegar
a viver feliz.

Felicidade é droga
que nunca atinge a overdose.

Amo a vida
e a morte mais ainda.