síndrome de farnese
colecionando souvenirs
sempre
depois, quem sabe
distribuindo para outros
assim se faz uma colagem
diz-se souvenir àquilo que se encontra pulverizado
em algum lugar inenarrável
frustração da incapacidade pura
(também se pode dizer tempo)
a beleza do fracasso de seguir em frente
6.25.2010
6.21.2010
José Saramago morreu. Meu pai me contou.
Copa do mundo acontece, do outro lado do globo - aqui, as pessoas dormem, comem e trabalham.
Eu fico acordado toda a noite, esperando o tempo passar dentro da minha cabeça. Do lado de fora, ele consome rápido qualquer vestígio de acontecimento. A vida, de repente, parece caber embrulhada em um papel de bala ou uma pontinha de cigarro.
Meus pensamentos têm tomado o formato de um mapa mundi esquisito, que se estica e se encolhe na mesma velocidade da minha respiração. E, cada vez mais, penso que não preciso do mapa nem do mundo: vontade mesmo é de estar em casa sem ter nada o que pensar. Mas essa condição já não mais é válida, e a escolha já se esvaneceu com os quilômetros que o meu corpo percorreu. Resta-me esperar. Quisera eu não ter feito nada jamais: a angústia talvez fosse de outra estatura. Agora, ela é cheia de espaços recônditos, ensolarada por fora (e por dentro), mas com esses intervalos que me fazem escrever sem saber aonde ir. Melhor então seguir escrevendo. Minhas saudades já cruzaram a fronteira, e a cada vez elas ganham mais personalidade. Quase existem fora de mim. Não quero isso, nem aquilo outro. Não quero abraçar o mundo com a perna, quero apenas a perna como segurança e, quem sabe, às vezes, o mundo como possibilidade. O movimento em si me parece muito mesquinho: nada de encerrar coisa alguma.
De noite. A sensação da espera me acalenta mas também me corrói levemente a calma que me acompanhava até alguns dias atrás. Mas ela sempre retorna ao raiar do dia. Não que seja nada (não se trata de achar que os modelos, horóscopos e melodramas hollywoodianos façam qualquer sentido), mas simplesmente uma agudez do tempo que me deixa tão confuso quanto mais em movimento. É neste momento que as fantasias se embolam, e uma varanda ensolarada, uma planta num vaso, uma rede balançando e um céu azul com algumas nuvens perto do mar parece tão real quanto inalcançável - porque está em algum lugar do meu passado que eu imagino ter vivido. Imagino sorrisos dos amigos, balançar da cabeça da namorada, almoço com família e discussão de irmãos.
Agora já é de manhã, e é preciso descansar. A imaginação flutua sempre: já tomou o avião e já chegou em casa, mais de mil vezes. E isso é que me faz despertar.
Copa do mundo acontece, do outro lado do globo - aqui, as pessoas dormem, comem e trabalham.
Eu fico acordado toda a noite, esperando o tempo passar dentro da minha cabeça. Do lado de fora, ele consome rápido qualquer vestígio de acontecimento. A vida, de repente, parece caber embrulhada em um papel de bala ou uma pontinha de cigarro.
Meus pensamentos têm tomado o formato de um mapa mundi esquisito, que se estica e se encolhe na mesma velocidade da minha respiração. E, cada vez mais, penso que não preciso do mapa nem do mundo: vontade mesmo é de estar em casa sem ter nada o que pensar. Mas essa condição já não mais é válida, e a escolha já se esvaneceu com os quilômetros que o meu corpo percorreu. Resta-me esperar. Quisera eu não ter feito nada jamais: a angústia talvez fosse de outra estatura. Agora, ela é cheia de espaços recônditos, ensolarada por fora (e por dentro), mas com esses intervalos que me fazem escrever sem saber aonde ir. Melhor então seguir escrevendo. Minhas saudades já cruzaram a fronteira, e a cada vez elas ganham mais personalidade. Quase existem fora de mim. Não quero isso, nem aquilo outro. Não quero abraçar o mundo com a perna, quero apenas a perna como segurança e, quem sabe, às vezes, o mundo como possibilidade. O movimento em si me parece muito mesquinho: nada de encerrar coisa alguma.
De noite. A sensação da espera me acalenta mas também me corrói levemente a calma que me acompanhava até alguns dias atrás. Mas ela sempre retorna ao raiar do dia. Não que seja nada (não se trata de achar que os modelos, horóscopos e melodramas hollywoodianos façam qualquer sentido), mas simplesmente uma agudez do tempo que me deixa tão confuso quanto mais em movimento. É neste momento que as fantasias se embolam, e uma varanda ensolarada, uma planta num vaso, uma rede balançando e um céu azul com algumas nuvens perto do mar parece tão real quanto inalcançável - porque está em algum lugar do meu passado que eu imagino ter vivido. Imagino sorrisos dos amigos, balançar da cabeça da namorada, almoço com família e discussão de irmãos.
Agora já é de manhã, e é preciso descansar. A imaginação flutua sempre: já tomou o avião e já chegou em casa, mais de mil vezes. E isso é que me faz despertar.
6.11.2010
Eu tenho muitos amigos. Muitos. E eles me formaram e me permitem uma existência compartilhada, relaxada, prazerosa, justificada e completa. Diria: eles me permitem uma existência para além do existir. Desses muitos amigos, há um casal que conheço há uns 8 anos. Quase todo esse tempo eles foram um casal. Eles não estão entre os amigos mais próximos, por contingências dessa vida. Mas por eles eu tenho uma profunda admiração e, definitivamente, eles contribuem para o que eu tenho de otimismo em relação às coisas, de forma muito mais marcante do que eles devem imaginar. Eles são aquilo que talvez represente meu apreço pelos meus amigos, não sei por qual motivo. E eles vão ter um filho.
Essa notícia me pôs em pensamentos compridos, largos e esticados. De um dia para o outro, me empurrou para uma espessura do tempo que eu havia deixado de habitar há algum tempo. Colocou-me em movimento complexo e descontínuo. Deu-me saudades agudas. Entendi, em alguns segundos - ou, talvez, uma noite inteira pensando, todo o tempo ruminando esse entender - que sei por que esse casal de amigos me deixa tão satisfeito e feliz só de vê-los, por que me refletem o meu próprio apreço pela amizade. Pode ser mesmo só assim de longe, acompanhando os movimentos, gestos e sorrisos: porque eles são uma revelação boa e saudável do tempo; temporalidade essa que nos é tão inescapável quanto essencial, afinal, de fato, somos por ela, nela e a partir dela. Mas que, no entanto, podemos mexer, esticar, e montar formas distintas e fazê-la grudar ao que quer que seja. Podemos escolher narrar, ouvir, observar ou experimentar. Sendo que todas estas quatro maneiras de nos relacionar com o tempo são essenciais e quase obrigatórias. E, por algum motivo que ainda não entendi, são esses dois os que, até hoje, me fazem entender isso.
Sortuda vai ser essa criança!! Parabéns e beijos gordos!!!
Essa notícia me pôs em pensamentos compridos, largos e esticados. De um dia para o outro, me empurrou para uma espessura do tempo que eu havia deixado de habitar há algum tempo. Colocou-me em movimento complexo e descontínuo. Deu-me saudades agudas. Entendi, em alguns segundos - ou, talvez, uma noite inteira pensando, todo o tempo ruminando esse entender - que sei por que esse casal de amigos me deixa tão satisfeito e feliz só de vê-los, por que me refletem o meu próprio apreço pela amizade. Pode ser mesmo só assim de longe, acompanhando os movimentos, gestos e sorrisos: porque eles são uma revelação boa e saudável do tempo; temporalidade essa que nos é tão inescapável quanto essencial, afinal, de fato, somos por ela, nela e a partir dela. Mas que, no entanto, podemos mexer, esticar, e montar formas distintas e fazê-la grudar ao que quer que seja. Podemos escolher narrar, ouvir, observar ou experimentar. Sendo que todas estas quatro maneiras de nos relacionar com o tempo são essenciais e quase obrigatórias. E, por algum motivo que ainda não entendi, são esses dois os que, até hoje, me fazem entender isso.
Sortuda vai ser essa criança!! Parabéns e beijos gordos!!!
6.04.2010
O sol queima a nuca, que se expõe ao ar por entre os fios do cabelo. Descendo a ladeira sobre a bicicleta, não pressiona os freios, deixando o ar quase cortar a pele de seu rosto. Ele sente o sol, alegra-se com o suor que aparece sutil nas suas costas. Quisera poder seguir reto, sem haver de parar no próximo sinal.
Sob a temperatura quente que vai se acumulando no ar, seu corpo se coloca num estado estranho de intermédio: sendo matéria incontestável, consegue se difundir em memórias confusas, mas sempre ternas. Percorre, ao mesmo tempo, espaços tão distintos quanto distantes. Meio mundo se põe em movimento no seu percurso sob o verão que anuncia sua chegada.
Sob a temperatura quente que vai se acumulando no ar, seu corpo se coloca num estado estranho de intermédio: sendo matéria incontestável, consegue se difundir em memórias confusas, mas sempre ternas. Percorre, ao mesmo tempo, espaços tão distintos quanto distantes. Meio mundo se põe em movimento no seu percurso sob o verão que anuncia sua chegada.
5.21.2010
5.18.2010
5.09.2010
5.03.2010
Para que no futuro, não se queixe demasiado. Andando pelas ruas semi-vazias, não se queixe de não haver feito o que queria. Melhor que agarre a sua bicicleta (ou um par de sapatos quaisquer), e que se ponha em movimento sincero. E que trabalhe a razão contida, renitente, mas amolecida, como que derretida pelo calor. Coloque-se em movimento calmo e perene, que converse com os amigos. Perceba a reminiscência, calado, sozinho. Já a conclusão está clara: que se saiba sempre sozinho - porém não desacompanhado. Faça imagens (escritas ou não, gravadas ou não) e as rememore quando preciso. E quando não preciso também. Beirando o limiar, chegando quase lá, jogando muita coisa fora. Que as saudades sempre irão te acompanhar - ah, isso não tem jeito. A vida é escrota mesmo, meu amigo! Mas você jamais vai escolher não estar.
4.21.2010

Passou as mãos pelos cabelos, tocou a testa. Sentiu a pele seca, quebradiça. Agarrou a xícara de café, entornou um pouco por sobre o dedo e despejou na sua boca. O líquido quente queimou a ponta da sua língua. Faltava açúcar. Acedeu um cigarro e inspirou calmamente a fumaça. Abriu o livro e, na segunda linha, entendiou-se. O cigarro, depositado entre os seus dedos, colocou-o sobre o cinzeiro. Esperava, sem muito objetivo. Sentia-se tão contido e retraído; era puro silêncio. Ao seu redor, desconhecidos comiam com pressa, liam jornal. Alguns conversavam em voz baixa, cotidianidades à toa. Estava como que flutuando sobre a massa disforme que nada lhe comunicava. Um gesto, um gesto. Deu mais um trago. Retorcia a cabeça, dava voltas com os pulsos, arranhava levemente o tecido do seu casaco. Perdido na sua mais perene ausência. Todo o drama está no gesto.
4.18.2010
Ausência
Por muito tempo achei que ausência é falta
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
Ausência é um estar em mim.
E sinto-a tão pegada, aconchegada nos meus braços
Que rio e danço e invento exclamações alegres.
Porque a ausência, esta ausência assimilada,
Ninguém a rouba mais de mim.
(Drummond, pensando em Ana C.)
Por muito tempo achei que ausência é falta
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
Ausência é um estar em mim.
E sinto-a tão pegada, aconchegada nos meus braços
Que rio e danço e invento exclamações alegres.
Porque a ausência, esta ausência assimilada,
Ninguém a rouba mais de mim.
(Drummond, pensando em Ana C.)
4.11.2010
No Natal de 2008:
"Ano que vem em Kyoto
Escrever o que chega, falar o porvir. Talvez assim, imaginou, seria possível imaginar aquilo que é o mais impensável. Recebeu, em plena véspera de Natal, em e-mail confirmando a viagem que pode durar (quantos?) anos. Pensou então: tentando escrever o impensável, tornaria mais amigável uma experiência tão distante. Por que havia escolhido ir a tão longe? "Ano que vem em Kyoto". Frase esquisita, como se as palavras não se encaixassem. Viajar, mas não como ir a São Paulo, planejar um doutorado em Paris, tentar uma temporada em Nova Iorque, ver a exposição em Berlim, andar de bicicleta em Amsterdã ou ver a velha novidade de Londres. Não como isso, não como lera no jornal, escutara na internet ou imaginara ao ler o romance (Paul Auster voltou a freqüentar recentemente suas idéias). Nem mesmo como fazer uma visita curiosa e "interessada" à Índia, ver os monumentos da China, o mochilão na África: degustar, ao meu tão edificado e "de bom gosto" olhar, o sabor do outro que me apraz (o outro que eu consumo em qualquer discurso "atualizado", esclarecido, que me deixa ainda mais refinado, "interessante", "gente viajada"). Distante de fato: distante como morar fora de si. Sem o gesto acumulado no corpo (e na retina), sem a textura da imagem que aproxima, a pequena atmosfera européia (colonizada?) que envolve o pensamento desde muito tempo... "Ah, como é charmosa Lisboa, andar pelo Bairro Alto e ouvir um fado... Como passeei pelos bares de Madri, curti a noite intensa enquanto trabalhava de garçom no pub irlandês da Gran Via" - o charme, a noite, a atmosfera, reprisada nas inúmeras falas, nas inúmeras imagens que se proliferam por aí. E o pensamento? Sou francês, alemão, trágico, tropical, racional sem dúvida, trazido pela grande crítica global que me faz antes de mais nada sempre num a-partir-de. "Mas é foucaultiano ou deleuziano? Ah, sim, entendo... escutava Pink Floyd ou The Clash?" Mas do que se trata: "ano que vem em Kyoto"? O impensável, talvez, também se tratasse disso, uma pura e honestíssima diferença, aquela que se degusta com olhar estupefato de uma infinidade de possibilidades de existir que se descortinam diante de seus olhos. Assim, sem muita razão, tentou capturar aquilo que nunca esteve lá.
[E, ao final, talvez, tudo se trate de pura diferença. Quem sabe não é partindo dessa pequena suspeita que tivesse escolhido por tão longe?]"
***
Depois de mais de um ano. Cá estou, em Kyoto. A diferença ainda se mantém como uma certeza, mas essa já se desatrelou da distância. A experiência, no entanto, me põe confuso. Mais do que viver aqui - o que já é muita coisa - a certeza de estar vivo, pisando sobre terra que explode de tantas e infindas diferenças é o que mais me move. Não isto aqui, mas tudo que é justamente o não-aqui (e, de certa forma, o não-aí). Espero muito, acalentarei com a minha presença, que, gradualmente, se esmoreça a colonização do pensamento.
"Ano que vem em Kyoto
Escrever o que chega, falar o porvir. Talvez assim, imaginou, seria possível imaginar aquilo que é o mais impensável. Recebeu, em plena véspera de Natal, em e-mail confirmando a viagem que pode durar (quantos?) anos. Pensou então: tentando escrever o impensável, tornaria mais amigável uma experiência tão distante. Por que havia escolhido ir a tão longe? "Ano que vem em Kyoto". Frase esquisita, como se as palavras não se encaixassem. Viajar, mas não como ir a São Paulo, planejar um doutorado em Paris, tentar uma temporada em Nova Iorque, ver a exposição em Berlim, andar de bicicleta em Amsterdã ou ver a velha novidade de Londres. Não como isso, não como lera no jornal, escutara na internet ou imaginara ao ler o romance (Paul Auster voltou a freqüentar recentemente suas idéias). Nem mesmo como fazer uma visita curiosa e "interessada" à Índia, ver os monumentos da China, o mochilão na África: degustar, ao meu tão edificado e "de bom gosto" olhar, o sabor do outro que me apraz (o outro que eu consumo em qualquer discurso "atualizado", esclarecido, que me deixa ainda mais refinado, "interessante", "gente viajada"). Distante de fato: distante como morar fora de si. Sem o gesto acumulado no corpo (e na retina), sem a textura da imagem que aproxima, a pequena atmosfera européia (colonizada?) que envolve o pensamento desde muito tempo... "Ah, como é charmosa Lisboa, andar pelo Bairro Alto e ouvir um fado... Como passeei pelos bares de Madri, curti a noite intensa enquanto trabalhava de garçom no pub irlandês da Gran Via" - o charme, a noite, a atmosfera, reprisada nas inúmeras falas, nas inúmeras imagens que se proliferam por aí. E o pensamento? Sou francês, alemão, trágico, tropical, racional sem dúvida, trazido pela grande crítica global que me faz antes de mais nada sempre num a-partir-de. "Mas é foucaultiano ou deleuziano? Ah, sim, entendo... escutava Pink Floyd ou The Clash?" Mas do que se trata: "ano que vem em Kyoto"? O impensável, talvez, também se tratasse disso, uma pura e honestíssima diferença, aquela que se degusta com olhar estupefato de uma infinidade de possibilidades de existir que se descortinam diante de seus olhos. Assim, sem muita razão, tentou capturar aquilo que nunca esteve lá.
[E, ao final, talvez, tudo se trate de pura diferença. Quem sabe não é partindo dessa pequena suspeita que tivesse escolhido por tão longe?]"
***
Depois de mais de um ano. Cá estou, em Kyoto. A diferença ainda se mantém como uma certeza, mas essa já se desatrelou da distância. A experiência, no entanto, me põe confuso. Mais do que viver aqui - o que já é muita coisa - a certeza de estar vivo, pisando sobre terra que explode de tantas e infindas diferenças é o que mais me move. Não isto aqui, mas tudo que é justamente o não-aqui (e, de certa forma, o não-aí). Espero muito, acalentarei com a minha presença, que, gradualmente, se esmoreça a colonização do pensamento.
Um pensamento, no idioma em que ele se conceba mais cômodo.
Sem paciências sem paciências
Espremo fundo, mas não me saem palavras
- estarei emudecendo, de tanto falar?
Qualquer coisa me revela a inércia
O tempo passa, mas se esconde convulso atrás da cortina
Eu esquivo, traduzo, confundo sintaxes, origens e sentidos
- Uma palavra calma, por favor!
Não se deita e adormece
Já encontra-se sem território
saudades e pura abstração
Sem paciências sem paciências
Espremo fundo, mas não me saem palavras
- estarei emudecendo, de tanto falar?
Qualquer coisa me revela a inércia
O tempo passa, mas se esconde convulso atrás da cortina
Eu esquivo, traduzo, confundo sintaxes, origens e sentidos
- Uma palavra calma, por favor!
Não se deita e adormece
Já encontra-se sem território
saudades e pura abstração
4.06.2010
A primavera chegou aqui no Japao. O sol, o sol, o sol. Andar sem roupas pesadas, expor o braco, o pescoco, encostar a mao nos objetos do lado de fora.
Fico feliz de que nao haja o frio do inverno no Brasil (tirando o Sul, mas vamolah, ne). Nao temos que nos esconder do lado de dentro, nem saculejar o corpo pra nao congelar.
Ja tinha me esquecido, mas o calor eh o que me coloca em movimento. Um pouco de luz de sol e otimismos futuros.
Fico feliz de que nao haja o frio do inverno no Brasil (tirando o Sul, mas vamolah, ne). Nao temos que nos esconder do lado de dentro, nem saculejar o corpo pra nao congelar.
Ja tinha me esquecido, mas o calor eh o que me coloca em movimento. Um pouco de luz de sol e otimismos futuros.
3.30.2010
Bem ali, no espaço em branco.
Exatamente naquele intervalo, onde o olhar não alcança com nitidez os contornos de nenhum corpo.
Como se, por um espirro silencioso, as coisas se movessem rápida e muito levemente. Flutuando como plumas.
Bem ali, no transparente, ali no longe, no não sei mais quando, encontro algo que já não espero mais, mas acalento a cada minuto.
A vida, pequena, ganha em altura, em volume, em densidade e porosidade. Só ali, onde deixei a respiração tranquila esperando adormecida.
Exatamente naquele intervalo, onde o olhar não alcança com nitidez os contornos de nenhum corpo.
Como se, por um espirro silencioso, as coisas se movessem rápida e muito levemente. Flutuando como plumas.
Bem ali, no transparente, ali no longe, no não sei mais quando, encontro algo que já não espero mais, mas acalento a cada minuto.
A vida, pequena, ganha em altura, em volume, em densidade e porosidade. Só ali, onde deixei a respiração tranquila esperando adormecida.
2.26.2010
Saudades.
(de tantas coisas...)
***
amigos família casa sol cachorro praia calçadão mesa bar coca cigarrinho conversa conforto andar calçada ensolarada cinema abraço português manhã quente pão na chapa bisnaga queijo-minas amigos família casa sol cachorro passeio no carro pela orla conversa entendimento fácil comida caseira passo lento olhar calmo lagoa urca icaraí mesa na calçada falar escutar português futuro passado irreverência descontraído laços antigos planos conjuntos amigos família casa sol cachorro água de côco mate gelado na praia chorinho "mais um pouquinho" atraso combinado amigos família casa sol cachorro praia calçadão...
Como vão vocês?
Saudades.
(de tantas coisas...)
***
amigos família casa sol cachorro praia calçadão mesa bar coca cigarrinho conversa conforto andar calçada ensolarada cinema abraço português manhã quente pão na chapa bisnaga queijo-minas amigos família casa sol cachorro passeio no carro pela orla conversa entendimento fácil comida caseira passo lento olhar calmo lagoa urca icaraí mesa na calçada falar escutar português futuro passado irreverência descontraído laços antigos planos conjuntos amigos família casa sol cachorro água de côco mate gelado na praia chorinho "mais um pouquinho" atraso combinado amigos família casa sol cachorro praia calçadão...
Como vão vocês?
Saudades.
2.14.2010
"É preciso entender que cada um verá coisas que ninguém jamais poderá ver. E que nelas residem as suas razões"
(Bernardo Carvalho, in Nove Noites)
Pulavam o carnaval. Rio de Janeiro. Fazia um sol de rachar, aquele calor que faz derreter até os fios de cabelo. O suor lhes escorria por detrás das orelhas e seguia pelo pescoço. A música era a mesma de sempre, mas o estampido da multidão era tão eufórico que renovava cada nota repetida, toda vez que era tocada pela banda que caminhava pelas ruas, já submersas no caos alegre da multidão. Tudo era muito colorido e os sorrisos, se não maliciosos, cheios de sincera satisfação pelo presente puro celebrado naqueles dias. O Rio de Janeiro brilhava de humanidade. A cada passo que davam, sentiam a felicidade de estarem ali e de terem sempre ali estado. O lugar pra se existir, definitivamente.
***
Rumava a um caminho estranho. De um outro lado - da vida, do mundo, do mínimo sentido - encontrava-se numa encruzilhada boa e plena de um sutil (e agudo) sentimento de futuro. Estava ali e o futuro se desfolhava em finas camadas a cada segundo. A encruzilhada se lhe mostrava tão frutífera quanto sem a menor recompensa: era unicamente o fato de estar nela que lhe impulsionava para adiante. Queria estar e queria se mover. Não havia como se decidir. Pela primeira vez em toda a sua vida, o futuro era o que menos lhe pertencia - saiu do engodo, finalmente! Curtia o vento gelado enquanto recebia as visitas queridas, fugidas do lugar onde talvez mais quisesse estar. Apesar de olhar com estranheza essa escolha tão efêmera de alguém que se desloca tão longamente para prestar-lhe uma visita breve, era exatamente isso que lhe aguçava ainda mais a certeza da encruzilhada. Depois de muito tempo achando saber do que se tratava, agora compreendia com mais clareza a idéia do devir, menos na razão do que na experiência.
(Bernardo Carvalho, in Nove Noites)
Pulavam o carnaval. Rio de Janeiro. Fazia um sol de rachar, aquele calor que faz derreter até os fios de cabelo. O suor lhes escorria por detrás das orelhas e seguia pelo pescoço. A música era a mesma de sempre, mas o estampido da multidão era tão eufórico que renovava cada nota repetida, toda vez que era tocada pela banda que caminhava pelas ruas, já submersas no caos alegre da multidão. Tudo era muito colorido e os sorrisos, se não maliciosos, cheios de sincera satisfação pelo presente puro celebrado naqueles dias. O Rio de Janeiro brilhava de humanidade. A cada passo que davam, sentiam a felicidade de estarem ali e de terem sempre ali estado. O lugar pra se existir, definitivamente.
***
Rumava a um caminho estranho. De um outro lado - da vida, do mundo, do mínimo sentido - encontrava-se numa encruzilhada boa e plena de um sutil (e agudo) sentimento de futuro. Estava ali e o futuro se desfolhava em finas camadas a cada segundo. A encruzilhada se lhe mostrava tão frutífera quanto sem a menor recompensa: era unicamente o fato de estar nela que lhe impulsionava para adiante. Queria estar e queria se mover. Não havia como se decidir. Pela primeira vez em toda a sua vida, o futuro era o que menos lhe pertencia - saiu do engodo, finalmente! Curtia o vento gelado enquanto recebia as visitas queridas, fugidas do lugar onde talvez mais quisesse estar. Apesar de olhar com estranheza essa escolha tão efêmera de alguém que se desloca tão longamente para prestar-lhe uma visita breve, era exatamente isso que lhe aguçava ainda mais a certeza da encruzilhada. Depois de muito tempo achando saber do que se tratava, agora compreendia com mais clareza a idéia do devir, menos na razão do que na experiência.