5.18.2010

Entre um suspiro e um respiro.

Quero reencontrar os amigos.

5.09.2010

viajar. escolher as saudades. a cada saída, chegada, a cada encontro e minuto, a cada passo, uma ausência que se constrói na presença mais sentida. viajei pra me perder em muita gente. a cada viagem, milhões de saudades possíveis.

5.03.2010

Para que no futuro, não se queixe demasiado. Andando pelas ruas semi-vazias, não se queixe de não haver feito o que queria. Melhor que agarre a sua bicicleta (ou um par de sapatos quaisquer), e que se ponha em movimento sincero. E que trabalhe a razão contida, renitente, mas amolecida, como que derretida pelo calor. Coloque-se em movimento calmo e perene, que converse com os amigos. Perceba a reminiscência, calado, sozinho. Já a conclusão está clara: que se saiba sempre sozinho - porém não desacompanhado. Faça imagens (escritas ou não, gravadas ou não) e as rememore quando preciso. E quando não preciso também. Beirando o limiar, chegando quase lá, jogando muita coisa fora. Que as saudades sempre irão te acompanhar - ah, isso não tem jeito. A vida é escrota mesmo, meu amigo! Mas você jamais vai escolher não estar.

4.21.2010



Passou as mãos pelos cabelos, tocou a testa. Sentiu a pele seca, quebradiça. Agarrou a xícara de café, entornou um pouco por sobre o dedo e despejou na sua boca. O líquido quente queimou a ponta da sua língua. Faltava açúcar. Acedeu um cigarro e inspirou calmamente a fumaça. Abriu o livro e, na segunda linha, entendiou-se. O cigarro, depositado entre os seus dedos, colocou-o sobre o cinzeiro. Esperava, sem muito objetivo. Sentia-se tão contido e retraído; era puro silêncio. Ao seu redor, desconhecidos comiam com pressa, liam jornal. Alguns conversavam em voz baixa, cotidianidades à toa. Estava como que flutuando sobre a massa disforme que nada lhe comunicava. Um gesto, um gesto. Deu mais um trago. Retorcia a cabeça, dava voltas com os pulsos, arranhava levemente o tecido do seu casaco. Perdido na sua mais perene ausência. Todo o drama está no gesto.

4.18.2010

Horas a fio
Horas horas horas
O tempo passa lúgubre, quieto, sucinto
O frio faz um zumbido estranho no ouvido
Sentado, desconcentrado até a alma
Enquanto vê as linhas enfileiradas
- tão organizadas -
na página do livro
o pensamento voa vazio
cantando melodias que só no silêncio pode escutar.
Ausência

Por muito tempo achei que ausência é falta
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
Ausência é um estar em mim.
E sinto-a tão pegada, aconchegada nos meus braços
Que rio e danço e invento exclamações alegres.
Porque a ausência, esta ausência assimilada,
Ninguém a rouba mais de mim.

(Drummond, pensando em Ana C.)

4.11.2010

No Natal de 2008:

"Ano que vem em Kyoto


Escrever o que chega, falar o porvir. Talvez assim, imaginou, seria possível imaginar aquilo que é o mais impensável. Recebeu, em plena véspera de Natal, em e-mail confirmando a viagem que pode durar (quantos?) anos. Pensou então: tentando escrever o impensável, tornaria mais amigável uma experiência tão distante. Por que havia escolhido ir a tão longe? "Ano que vem em Kyoto". Frase esquisita, como se as palavras não se encaixassem. Viajar, mas não como ir a São Paulo, planejar um doutorado em Paris, tentar uma temporada em Nova Iorque, ver a exposição em Berlim, andar de bicicleta em Amsterdã ou ver a velha novidade de Londres. Não como isso, não como lera no jornal, escutara na internet ou imaginara ao ler o romance (Paul Auster voltou a freqüentar recentemente suas idéias). Nem mesmo como fazer uma visita curiosa e "interessada" à Índia, ver os monumentos da China, o mochilão na África: degustar, ao meu tão edificado e "de bom gosto" olhar, o sabor do outro que me apraz (o outro que eu consumo em qualquer discurso "atualizado", esclarecido, que me deixa ainda mais refinado, "interessante", "gente viajada"). Distante de fato: distante como morar fora de si. Sem o gesto acumulado no corpo (e na retina), sem a textura da imagem que aproxima, a pequena atmosfera européia (colonizada?) que envolve o pensamento desde muito tempo... "Ah, como é charmosa Lisboa, andar pelo Bairro Alto e ouvir um fado... Como passeei pelos bares de Madri, curti a noite intensa enquanto trabalhava de garçom no pub irlandês da Gran Via" - o charme, a noite, a atmosfera, reprisada nas inúmeras falas, nas inúmeras imagens que se proliferam por aí. E o pensamento? Sou francês, alemão, trágico, tropical, racional sem dúvida, trazido pela grande crítica global que me faz antes de mais nada sempre num a-partir-de. "Mas é foucaultiano ou deleuziano? Ah, sim, entendo... escutava Pink Floyd ou The Clash?" Mas do que se trata: "ano que vem em Kyoto"? O impensável, talvez, também se tratasse disso, uma pura e honestíssima diferença, aquela que se degusta com olhar estupefato de uma infinidade de possibilidades de existir que se descortinam diante de seus olhos. Assim, sem muita razão, tentou capturar aquilo que nunca esteve lá.

[E, ao final, talvez, tudo se trate de pura diferença. Quem sabe não é partindo dessa pequena suspeita que tivesse escolhido por tão longe?]"

***

Depois de mais de um ano. Cá estou, em Kyoto. A diferença ainda se mantém como uma certeza, mas essa já se desatrelou da distância. A experiência, no entanto, me põe confuso. Mais do que viver aqui - o que já é muita coisa - a certeza de estar vivo, pisando sobre terra que explode de tantas e infindas diferenças é o que mais me move. Não isto aqui, mas tudo que é justamente o não-aqui (e, de certa forma, o não-aí). Espero muito, acalentarei com a minha presença, que, gradualmente, se esmoreça a colonização do pensamento.
Um pensamento, no idioma em que ele se conceba mais cômodo.

Sem paciências sem paciências
Espremo fundo, mas não me saem palavras
- estarei emudecendo, de tanto falar?
Qualquer coisa me revela a inércia
O tempo passa, mas se esconde convulso atrás da cortina
Eu esquivo, traduzo, confundo sintaxes, origens e sentidos
- Uma palavra calma, por favor!
Não se deita e adormece
Já encontra-se sem território

saudades e pura abstração

4.06.2010

A primavera chegou aqui no Japao. O sol, o sol, o sol. Andar sem roupas pesadas, expor o braco, o pescoco, encostar a mao nos objetos do lado de fora.
Fico feliz de que nao haja o frio do inverno no Brasil (tirando o Sul, mas vamolah, ne). Nao temos que nos esconder do lado de dentro, nem saculejar o corpo pra nao congelar.
Ja tinha me esquecido, mas o calor eh o que me coloca em movimento. Um pouco de luz de sol e otimismos futuros.
Um ano.

Como estão vocês?

Eu tenho saudades. Não acredito que há um ano estou longe.

A primavera chegou aqui no Japão.

Quando for verão aqui, aqui já vai estar longe de novo. E eu mal consigo esperar.

3.30.2010

Bem ali, no espaço em branco.
Exatamente naquele intervalo, onde o olhar não alcança com nitidez os contornos de nenhum corpo.
Como se, por um espirro silencioso, as coisas se movessem rápida e muito levemente. Flutuando como plumas.
Bem ali, no transparente, ali no longe, no não sei mais quando, encontro algo que já não espero mais, mas acalento a cada minuto.
A vida, pequena, ganha em altura, em volume, em densidade e porosidade. Só ali, onde deixei a respiração tranquila esperando adormecida.

3.23.2010

Sonhando com a minha casa.
Todos os dias respiro mais fundo enquanto durmo.

2.26.2010

Saudades.


(de tantas coisas...)


***

amigos família casa sol cachorro praia calçadão mesa bar coca cigarrinho conversa conforto andar calçada ensolarada cinema abraço português manhã quente pão na chapa bisnaga queijo-minas amigos família casa sol cachorro passeio no carro pela orla conversa entendimento fácil comida caseira passo lento olhar calmo lagoa urca icaraí mesa na calçada falar escutar português futuro passado irreverência descontraído laços antigos planos conjuntos amigos família casa sol cachorro água de côco mate gelado na praia chorinho "mais um pouquinho" atraso combinado amigos família casa sol cachorro praia calçadão...


Como vão vocês?


Saudades.

2.14.2010

"É preciso entender que cada um verá coisas que ninguém jamais poderá ver. E que nelas residem as suas razões"

(Bernardo Carvalho, in Nove Noites)


Pulavam o carnaval. Rio de Janeiro. Fazia um sol de rachar, aquele calor que faz derreter até os fios de cabelo. O suor lhes escorria por detrás das orelhas e seguia pelo pescoço. A música era a mesma de sempre, mas o estampido da multidão era tão eufórico que renovava cada nota repetida, toda vez que era tocada pela banda que caminhava pelas ruas, já submersas no caos alegre da multidão. Tudo era muito colorido e os sorrisos, se não maliciosos, cheios de sincera satisfação pelo presente puro celebrado naqueles dias. O Rio de Janeiro brilhava de humanidade. A cada passo que davam, sentiam a felicidade de estarem ali e de terem sempre ali estado. O lugar pra se existir, definitivamente.

***

Rumava a um caminho estranho. De um outro lado - da vida, do mundo, do mínimo sentido - encontrava-se numa encruzilhada boa e plena de um sutil (e agudo) sentimento de futuro. Estava ali e o futuro se desfolhava em finas camadas a cada segundo. A encruzilhada se lhe mostrava tão frutífera quanto sem a menor recompensa: era unicamente o fato de estar nela que lhe impulsionava para adiante. Queria estar e queria se mover. Não havia como se decidir. Pela primeira vez em toda a sua vida, o futuro era o que menos lhe pertencia - saiu do engodo, finalmente! Curtia o vento gelado enquanto recebia as visitas queridas, fugidas do lugar onde talvez mais quisesse estar. Apesar de olhar com estranheza essa escolha tão efêmera de alguém que se desloca tão longamente para prestar-lhe uma visita breve, era exatamente isso que lhe aguçava ainda mais a certeza da encruzilhada. Depois de muito tempo achando saber do que se tratava, agora compreendia com mais clareza a idéia do devir, menos na razão do que na experiência.

1.13.2010

Neve e sol.

O frio também é coisa linda de meu deus!

1.05.2010

***

De longe, abraços e beijos apertados e muitos saudosos.

Que aí, onde vive quase todo o meu afeto - algum resto eu carrego comigo, outro vai sendo cultivado por onde passo - continue ensolarado, meio escorregadio, molhado, cheio de espaços vazios e barulhos animadores. Que o estrondo macio continue redondo, cheio de lados, uma cama boa e quente preparada pra quando eu voltar. Um sorriso intermitente, mas muito sincero e cheio de satisfação efêmera - mais afeita ao chão, quem sabe.
Assim espero que 2010 seja como 2009 (que eu não vi passar), como foi 2008 e como será 2011.

Se tudo é tão bonito, aí será sempre mais. Já não tem mais jeito.

***

E que esse novo afeto que se me produziu, me mantenha desperto até quando for preciso.


***

De uma certa forma, acho que voltei a acreditar nos anos: simplesmente pelo fato de não haver sentido a sua mudança. É a teimosia do cético, ao revés e com muitas saudades.

12.14.2009

Noite fria

Gelada

Alguns minutos
Muitos
Entre um espaço e outro
dentro do mesmo quarto
Um ponto escuro
Cintila
o sinal de uma virada.

Horas inesperadas

12.08.2009




isso de querer ser
exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além

(Paulo Leminski)


Saudades.
Oito meses e dois dias com os pés aqui.

"tudo isso se tornou parte da minha vida; não poderia deixar tudo sem chorar, sem compreender que, por mau que parecesse, era parte de mim que ficava com eles todos, que o separar-me deles era metade e semelhança da morte" (Fernando Pessoa, Livro do Desassossego)

Anotado em 05 de abril de 2009, dentro do avião. 2009 já quase se foi.

Por mais que essa citação, depois de tanto tempo, possa parecer ambígua e sem um lugar, agora sinto vontade de estar debaixo do sol, com uma camiseta, bermuda, conversando com os amigos, tomando uma coca-cola, com um céu azul. Falando português. E me sentindo tão em casa, à maneira de um sentir absoluto, em que o mundo ao redor é grande o bastante.

12.01.2009

Ainda me impressiono como, aqui na ilha, o pensamento acadêmico acredita tanto na nomeação das coisas. Eles ainda não perceberam que podem se desvencilhar do sentido dado.

(capitalismo aqui é coisa séria)