10.21.2008
O pedaço da imagem, um detalhe em silêncio.
A partir de um retalho, desfeito do seu resto, assim, sem muito mais.
Uns rostos pequenos, destroçados pela palavra, andando em círculos em um tempo estagnado.
Traçam o abismo da transitoriedade, perguntam a mim, "como?".
Esquecer para sempre virtualizar em gesto.
A partir de um retalho, desfeito do seu resto, assim, sem muito mais.
Uns rostos pequenos, destroçados pela palavra, andando em círculos em um tempo estagnado.
Traçam o abismo da transitoriedade, perguntam a mim, "como?".
Esquecer para sempre virtualizar em gesto.
10.02.2008
não mais falar disso ou daquilo. talvez não mais a palavra que se acerca de uma coisa. a palavra-sintoma ou a palavra-metade, incompletude.
olhar o dia azul que me instiga a escrever, não é para escrevê-lo (muito menos descrevê-lo). não para me referir ao azul do dia, tornando esse azul uma idéia vaga atrás das letras, tentando ser entrevisto por entre as frases. nem para tornar as palavras uma tentativa nula de copiar o azul tão azul do céu que me moveu a escrevê-las.
talvez para ser o próprio azul. não sê-lo na sua característica de céu azul, mas sê-lo na sua característica de palavra azul. assim, respirando as palavras [não digitando-as, nem escrevendo-as], ser palavra-azul, céu-palavra, e uma coisa outra que me foge, porque ainda tento aqui descrevê-la.
***
Fico assim, tentando apontar pra porta de saída de uma poesia relaxada e fugidia.
Porque assim se é sem ser. Sendo, dessa forma, tudo mais céu, necessariamente.
olhar o dia azul que me instiga a escrever, não é para escrevê-lo (muito menos descrevê-lo). não para me referir ao azul do dia, tornando esse azul uma idéia vaga atrás das letras, tentando ser entrevisto por entre as frases. nem para tornar as palavras uma tentativa nula de copiar o azul tão azul do céu que me moveu a escrevê-las.
talvez para ser o próprio azul. não sê-lo na sua característica de céu azul, mas sê-lo na sua característica de palavra azul. assim, respirando as palavras [não digitando-as, nem escrevendo-as], ser palavra-azul, céu-palavra, e uma coisa outra que me foge, porque ainda tento aqui descrevê-la.
***
Fico assim, tentando apontar pra porta de saída de uma poesia relaxada e fugidia.
Porque assim se é sem ser. Sendo, dessa forma, tudo mais céu, necessariamente.
9.15.2008
Vôo
não como os outros
Saudades lá de casa
espalhada pela(s) cidade(s)
[as duas]
Vôo sobre a Baía
escuto pelo telefone
a paisagem
*****
Na foto, escuto cada timbre de cada voz. As terminações de frases, entonações. Beira da praia, sol na cabeça. Uma imaginação torpe: como se sobre o mar, no caminho de areia, uma porção do mundo que inventaríamos estivesse apenas esperando a nossa inspiração. Hoje, um pouco de calmaria, agora tornada silêncio. Ainda torpes, algumas palavras, imprensadas entre sorrisos estonteantes, respirações pesadas, exuberâncias e ainda a inspiração - essa agora uma regra básica. No ar, como um corte no espaço, uma rachadura e muita profundidade - profundidade de vácuo, de pedra úmida e escorregadia, cheiro de mato e barulho de trem. Esta rachadura, ela também, imprensada. A alegria ocupando aos poucos todas as brechas: não sabemos dizer se é vazio de pensamentos ou um redemoinho de muitos sobrepostos uns aos outros. Olhamos ao lado, comemos, rimos e gritamos. Debaixo do chuveiro, sozinho, volto aos poucos ao tecido fino do cotidiano.
Habito a brecha. Se a vejo, talvez esteja ela em mim. A pedra úmida, lapidada com tanto cuidado, perdeu aos poucos o espaço para o espetáculo da alegria. Pois bem, continuamos aqui, não rimos, mas entrevemos as brechas, espalhadas pelos espaços, jogadas ao ar e pisadas pelos passos da dança alegre no meio da pista. Catamos, uma a uma: em algum momento, elas se refazem a dão um telefonema, ou mandam um e-mail.
não como os outros
Saudades lá de casa
espalhada pela(s) cidade(s)
[as duas]
Vôo sobre a Baía
escuto pelo telefone
a paisagem
*****
Na foto, escuto cada timbre de cada voz. As terminações de frases, entonações. Beira da praia, sol na cabeça. Uma imaginação torpe: como se sobre o mar, no caminho de areia, uma porção do mundo que inventaríamos estivesse apenas esperando a nossa inspiração. Hoje, um pouco de calmaria, agora tornada silêncio. Ainda torpes, algumas palavras, imprensadas entre sorrisos estonteantes, respirações pesadas, exuberâncias e ainda a inspiração - essa agora uma regra básica. No ar, como um corte no espaço, uma rachadura e muita profundidade - profundidade de vácuo, de pedra úmida e escorregadia, cheiro de mato e barulho de trem. Esta rachadura, ela também, imprensada. A alegria ocupando aos poucos todas as brechas: não sabemos dizer se é vazio de pensamentos ou um redemoinho de muitos sobrepostos uns aos outros. Olhamos ao lado, comemos, rimos e gritamos. Debaixo do chuveiro, sozinho, volto aos poucos ao tecido fino do cotidiano.
Habito a brecha. Se a vejo, talvez esteja ela em mim. A pedra úmida, lapidada com tanto cuidado, perdeu aos poucos o espaço para o espetáculo da alegria. Pois bem, continuamos aqui, não rimos, mas entrevemos as brechas, espalhadas pelos espaços, jogadas ao ar e pisadas pelos passos da dança alegre no meio da pista. Catamos, uma a uma: em algum momento, elas se refazem a dão um telefonema, ou mandam um e-mail.
8.26.2008
8.01.2008
Ficar e trabalhar em casa porporciona estímulos muito diversos: sono, curiosidade (ler coisas, internet e buscas inúteis sem fim), vontade de escrever e percepção aguçada das variações climáticas. Quase tudo isso de dentro do quarto. De vez em quando, um certo ímpeto a somente pensar: e ficar assim, pensando, sem muito objetivo. Então fico tentando pescar alguma coisa de invisível por detrás das coisas. Mas isso é o ápice da inutilidade. Quando chego a esse estágio, troco de roupa, coloco um chinelo (a variação climática dos últimos dias me permite o agradável hábito carioca do chinelo), e saio para dar uma volta.
Procuro um café perfeito: poucas pessoas, alguma luz do sol, alguma sombra, nada de movimentação consumista excessiva na minha frente, boas opções (sucos, cafés, capuccinos e refrigerantes já bastam), mesas amplas, cadeiras confortáveis, um cinzeiro prontamente entregue por um garçom solícito. Precisa também ser algo fora do habitual (só quem trabalha em casa talvez saiba como ir ao mesmo lugar pode se tornar quase uma sina), ao mesmo tempo nem tão distante do meu hábito assim (por exemplo, não posso ter um grande deslocamento: ainda se trata de um passeio rápido, frugal e descompromissado). Com todas essas considerações, definitivamente o passeio não consegue ser um relaxamento tão intenso quanto imagino.
Retorno pra casa depois de um café, um guaraná, dois cigarrinhos, e me deparo com o computador. Minha flanêurie virtual sempre precede a escrita. Invariavelmente, no entanto, retorno também às mesmas páginas, sem muita coragem de ousar. Fico frustrado, porque, incrivelmente, de um dia para o outro, nem tanta coisa mudou no mundo virtual (digo: páginas de fotos, vídeos e coisas literárias). Hoje, no entanto, retornei a um lugar que via com certa cautela há dois anos (intocado há todo esse tempo) e parei, espontaneamente, para ler as palavras e escutar suas vozes. Aquelas palavras e a sua grande estrutura de melancolia (das palavras escritas e de toda a conjuntura daquela escrita, tão caótica quanto límpida) foram, pela primeira vez, sinônimos de proximidade e um falar muito sincero de tão compulsivo. Estabeleci uma relação de escuta aberta lendo aqueles textos, como uma experiência temporal subversiva, consegui entender muita coisa e lamentar mais ainda outras.
Olhei pro sol de novo e cá estava eu a, mais uma vez, buscar o invisível por detrás das coisas. Sem inutilidade no entanto (essa palavra que existe por conta unicamente da culpa contida em cada um de nós), deleitei-me com o céu em tom pastel, o ar fresco, e aquelas palavras que conduzem para o abismo da literatura que não se pode repetir, nem se recuperar. Fiquei parado diante do que já ali estava, agora voltando a compreender que nem tudo precisa ser comunicável, às vezes, basta existir (ou ter existido) que já está valendo.
Procuro um café perfeito: poucas pessoas, alguma luz do sol, alguma sombra, nada de movimentação consumista excessiva na minha frente, boas opções (sucos, cafés, capuccinos e refrigerantes já bastam), mesas amplas, cadeiras confortáveis, um cinzeiro prontamente entregue por um garçom solícito. Precisa também ser algo fora do habitual (só quem trabalha em casa talvez saiba como ir ao mesmo lugar pode se tornar quase uma sina), ao mesmo tempo nem tão distante do meu hábito assim (por exemplo, não posso ter um grande deslocamento: ainda se trata de um passeio rápido, frugal e descompromissado). Com todas essas considerações, definitivamente o passeio não consegue ser um relaxamento tão intenso quanto imagino.
Retorno pra casa depois de um café, um guaraná, dois cigarrinhos, e me deparo com o computador. Minha flanêurie virtual sempre precede a escrita. Invariavelmente, no entanto, retorno também às mesmas páginas, sem muita coragem de ousar. Fico frustrado, porque, incrivelmente, de um dia para o outro, nem tanta coisa mudou no mundo virtual (digo: páginas de fotos, vídeos e coisas literárias). Hoje, no entanto, retornei a um lugar que via com certa cautela há dois anos (intocado há todo esse tempo) e parei, espontaneamente, para ler as palavras e escutar suas vozes. Aquelas palavras e a sua grande estrutura de melancolia (das palavras escritas e de toda a conjuntura daquela escrita, tão caótica quanto límpida) foram, pela primeira vez, sinônimos de proximidade e um falar muito sincero de tão compulsivo. Estabeleci uma relação de escuta aberta lendo aqueles textos, como uma experiência temporal subversiva, consegui entender muita coisa e lamentar mais ainda outras.
Olhei pro sol de novo e cá estava eu a, mais uma vez, buscar o invisível por detrás das coisas. Sem inutilidade no entanto (essa palavra que existe por conta unicamente da culpa contida em cada um de nós), deleitei-me com o céu em tom pastel, o ar fresco, e aquelas palavras que conduzem para o abismo da literatura que não se pode repetir, nem se recuperar. Fiquei parado diante do que já ali estava, agora voltando a compreender que nem tudo precisa ser comunicável, às vezes, basta existir (ou ter existido) que já está valendo.
7.29.2008
Tempo tempo
tanto tempo
lambendo as quinas das mesas
sorvendo as gotas nos copos
rasgando aos roupas esticadas no varal
tanto tempo
abraça meu corpo engole quase tudo
me perco
brincando de esquecer o seu domínio.
Deleitado, exibe o rosto retorcido
sorrisos estridentes mostrando aqueles dentes amarelos
corroídos
constrói seu edifício
inteiro
sobre minha ingenuidade acalentada com destreza.
Austero é ele que me impregna de tristeza
gabando-se da sua suprema existência:
"Sou poesia, intesidade e profunda beleza"
Esgotando noites a fio
desfilando meu próprio desespero
escancara meus espaços recônditos
escondidos
percebe o apagado
recoloca em mim o trágico que enterrei há muito tempo
debaixo do meu travesseiro.
Hoje engoliu meus pensamentos.
Digere pouco a pouco
enquanto suspira balançando as folhas das árvores
que vejo da minha janela.
tanto tempo
lambendo as quinas das mesas
sorvendo as gotas nos copos
rasgando aos roupas esticadas no varal
tanto tempo
abraça meu corpo engole quase tudo
me perco
brincando de esquecer o seu domínio.
Deleitado, exibe o rosto retorcido
sorrisos estridentes mostrando aqueles dentes amarelos
corroídos
constrói seu edifício
inteiro
sobre minha ingenuidade acalentada com destreza.
Austero é ele que me impregna de tristeza
gabando-se da sua suprema existência:
"Sou poesia, intesidade e profunda beleza"
Esgotando noites a fio
desfilando meu próprio desespero
escancara meus espaços recônditos
escondidos
percebe o apagado
recoloca em mim o trágico que enterrei há muito tempo
debaixo do meu travesseiro.
Hoje engoliu meus pensamentos.
Digere pouco a pouco
enquanto suspira balançando as folhas das árvores
que vejo da minha janela.
7.03.2008
"Como escrever senão sobre aquilo que não se sabe ou que se sabe mal? É necessariamente neste ponto que imaginamos ter algo a dizer. Só escrevemos na extremidade de nosso próprio saber, nesta ponta extrema que separa nosso saber e nossa ignorância e que transforma um no outro.
[...]
Suprir a ignorância é transferir a escrita para depois, ou melhor, torná-la impossível"
(DELEUZE, em Diferença e Repetição, num dos prólogos mais bonitos de se ler)
Deixo então a pergunta que me faz desesperar e acalmar, em tempos distintos e, muitas vezes, ao mesmo tempo:
Qual o tamanho do erro dos experts, talentosos e prodigiosos?
Escolher o lado da ignorância é mais prudente (e mais potente), mas talvez também mais solitário (e um interlocutor não deixa de ser o que possibilita o meu falar).
[...]
Suprir a ignorância é transferir a escrita para depois, ou melhor, torná-la impossível"
(DELEUZE, em Diferença e Repetição, num dos prólogos mais bonitos de se ler)
Deixo então a pergunta que me faz desesperar e acalmar, em tempos distintos e, muitas vezes, ao mesmo tempo:
Qual o tamanho do erro dos experts, talentosos e prodigiosos?
Escolher o lado da ignorância é mais prudente (e mais potente), mas talvez também mais solitário (e um interlocutor não deixa de ser o que possibilita o meu falar).
6.09.2008
Ainda regurgitando as ações do tempo, encontrei isso solto pela internet.
Bruno Fiuza escreveu há alguns anos atrás. Ainda que no melancólico tom juvenil, o texto veio ao encontro de uma recente questão que me tem açoitado a fraca (e desacreditada) consciência: "para quê fazer a coisa certa?"; que, logo, traz imbutida a percepção de que, enfim (o óbvio dos óbvios), não há o certo. Tomar como baliza a própria "coerência" para alcançar essa virtude (a das melhores escolhas) é tentar acreditar que não há a menor possibilidade de mudança. De tudo, ficam algumas perguntas:
(1) em que momento deixamos de perceber a nós mesmos?
(2) isso é algo que amplia (deixamos o tempo se instaurar e quebrar as auto-impostas normas do 'eu' unívoco: não há o que se descobrir), ou que apequena (descolo-me de minhas vontades, pois elas não são possíveis)?
(3) em estreita relação com a pergunta acima, Bruno, por que você parou de escrever? Lendo o seu blog, pude reafirmar a minha velha opinião de que você nunca devia parar de fazê-lo.

*****
Agora, o texto em si:
"Sábado, Janeiro 29, 2005
Carta aberta a André Keiji Kunigami
(para ler ouvindo a quarta faixa do OK Computer ou a última do The Bends)
Keiji,
descobri a máquina de fabricar cínicos. Procurávamos por isso há muito tempo, mas não o sabíamos ainda. Portanto, esta carta serve para comunicar uma dupla descoberta.
Vamos reconstruir o caminho percorrido: aos dezessete anos precisávamos passar no vestibular; não sabíamos por que, mas precisávamos. Hoje em dia é fácil responder: para conseguir um emprego, não porque queremos um emprego, mas porque queremos dinheiro. Mas dizer que o dinheiro move o mundo não é novidade nenhuma.
Conseguimos nossos primeiros empregos, e não precisamos de muito tempo para perceber que de pouco servia nosso aprendizado de faculdade. Nos sentíamos grandes merdas podendo dizer que passamos para a UFRJ, a UFF e a Uerj; até hoje não nos recuperamos do trauma.
Que trâmite estranho esse que nos obriga a frequentar um lugar que pouco ensina, mas que é o único passaporte para outro lugar onde, talvez, você consiga aprender alguma coisa. Mas mesmo esse "aprender alguma coisa" depende da boa vontade alheia. A gente se pergunta: "Caralho, eu li Kafka pra ficar fazendo coisas que até um macaco poderia fazer?". Mas essa é a pergunta errada. Na verdade, não deveria haver pergunta, apenas resposta. "Eu leio Kafka porque passo o dia fazendo coisas que até um macado poderia fazer."
Enquanto isso, as coisas vão sendo tocadas à nossa volta, por pessoas que pararam de se perguntar e se responder. O importante é cumprir o prazo.
Nem todos nasceram com genialidade, Keiji.
Podemos culpar a atriz irritante que repete o mesmo bordão no mesmo esquete humorístico(sic) dos sábados à noite na televisão? Afinal, ela está lá porque alguém quis, e ainda quer. É obrigação dela perceber a própria infelicidade e pedir as contas? Acho que a própria infelicidade a gente percebe mesmo sem querer, mas pedir as contas...
Ainda vamos aprender (e eu digo um aprender inevitável; um impulso em direção à sobrevivência) que estamos aqui pelo dinheiro.
Citando o próprio Spike Lee: "foda-se o que o Spike Lee diz". Saberemos que chegou o nosso dia quando experimentarmos pela última vez a sensação de que é errado fazer a coisa certa.
Faça a coisa errada, Keiji.
Abraço,
Bruno "
Bruno Fiuza escreveu há alguns anos atrás. Ainda que no melancólico tom juvenil, o texto veio ao encontro de uma recente questão que me tem açoitado a fraca (e desacreditada) consciência: "para quê fazer a coisa certa?"; que, logo, traz imbutida a percepção de que, enfim (o óbvio dos óbvios), não há o certo. Tomar como baliza a própria "coerência" para alcançar essa virtude (a das melhores escolhas) é tentar acreditar que não há a menor possibilidade de mudança. De tudo, ficam algumas perguntas:
(1) em que momento deixamos de perceber a nós mesmos?
(2) isso é algo que amplia (deixamos o tempo se instaurar e quebrar as auto-impostas normas do 'eu' unívoco: não há o que se descobrir), ou que apequena (descolo-me de minhas vontades, pois elas não são possíveis)?
(3) em estreita relação com a pergunta acima, Bruno, por que você parou de escrever? Lendo o seu blog, pude reafirmar a minha velha opinião de que você nunca devia parar de fazê-lo.

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Agora, o texto em si:
"Sábado, Janeiro 29, 2005
Carta aberta a André Keiji Kunigami
(para ler ouvindo a quarta faixa do OK Computer ou a última do The Bends)
Keiji,
descobri a máquina de fabricar cínicos. Procurávamos por isso há muito tempo, mas não o sabíamos ainda. Portanto, esta carta serve para comunicar uma dupla descoberta.
Vamos reconstruir o caminho percorrido: aos dezessete anos precisávamos passar no vestibular; não sabíamos por que, mas precisávamos. Hoje em dia é fácil responder: para conseguir um emprego, não porque queremos um emprego, mas porque queremos dinheiro. Mas dizer que o dinheiro move o mundo não é novidade nenhuma.
Conseguimos nossos primeiros empregos, e não precisamos de muito tempo para perceber que de pouco servia nosso aprendizado de faculdade. Nos sentíamos grandes merdas podendo dizer que passamos para a UFRJ, a UFF e a Uerj; até hoje não nos recuperamos do trauma.
Que trâmite estranho esse que nos obriga a frequentar um lugar que pouco ensina, mas que é o único passaporte para outro lugar onde, talvez, você consiga aprender alguma coisa. Mas mesmo esse "aprender alguma coisa" depende da boa vontade alheia. A gente se pergunta: "Caralho, eu li Kafka pra ficar fazendo coisas que até um macaco poderia fazer?". Mas essa é a pergunta errada. Na verdade, não deveria haver pergunta, apenas resposta. "Eu leio Kafka porque passo o dia fazendo coisas que até um macado poderia fazer."
Enquanto isso, as coisas vão sendo tocadas à nossa volta, por pessoas que pararam de se perguntar e se responder. O importante é cumprir o prazo.
Nem todos nasceram com genialidade, Keiji.
Podemos culpar a atriz irritante que repete o mesmo bordão no mesmo esquete humorístico(sic) dos sábados à noite na televisão? Afinal, ela está lá porque alguém quis, e ainda quer. É obrigação dela perceber a própria infelicidade e pedir as contas? Acho que a própria infelicidade a gente percebe mesmo sem querer, mas pedir as contas...
Ainda vamos aprender (e eu digo um aprender inevitável; um impulso em direção à sobrevivência) que estamos aqui pelo dinheiro.
Citando o próprio Spike Lee: "foda-se o que o Spike Lee diz". Saberemos que chegou o nosso dia quando experimentarmos pela última vez a sensação de que é errado fazer a coisa certa.
Faça a coisa errada, Keiji.
Abraço,
Bruno "
6.08.2008
Qual é o movimento oculto que se passa nas coisas? Entre ontem e hoje, tudo mudou. Só os meus olhos não perceberam.
Papo de botequim, cerveja na frente, 24 anos e (agora) já alguns dias... o movimento talvez seja tão premente que, já me colocando em outro eixo de olhar, não permite a sua percepção. Não há o movimento, mas sim um deslocamento inteiro para uma outra coisa. Sem que se deixe de ser nada, porque talvez realmente nunca tenhamos sido. Esquecer e tornar-se parte, talvez.
Claro, que não a diferença de ontem para hoje, mas numa potência infinitesimal. Nunca chegar sempre se indo.
Papo de botequim, cerveja na frente, 24 anos e (agora) já alguns dias... o movimento talvez seja tão premente que, já me colocando em outro eixo de olhar, não permite a sua percepção. Não há o movimento, mas sim um deslocamento inteiro para uma outra coisa. Sem que se deixe de ser nada, porque talvez realmente nunca tenhamos sido. Esquecer e tornar-se parte, talvez.
Claro, que não a diferença de ontem para hoje, mas numa potência infinitesimal. Nunca chegar sempre se indo.
Espero aqui, sentado, balançando as pernas, o tempo se pronunciar. Ele nunca diz nada, mas deixa suas pistas delicadamente, utilizando-se de si mesmo para enganar-nos.
Malandro de outrora, no entanto, ele já não consegue me enganar tanto assim. Foco minha vista já cansada da espera e, juntando-me à sua eterna brincadeira de esconde-esconde, instalo-me no seu trabalho e, no esforço de imaginar a sensação do invisível, consigo degustar cada aceno que me dá. Conseguimos então, assim, selar a amizade que, ao mesmo tempo, provoca o escárnio e o imenso respeito que cultivo.
Malandro de outrora, no entanto, ele já não consegue me enganar tanto assim. Foco minha vista já cansada da espera e, juntando-me à sua eterna brincadeira de esconde-esconde, instalo-me no seu trabalho e, no esforço de imaginar a sensação do invisível, consigo degustar cada aceno que me dá. Conseguimos então, assim, selar a amizade que, ao mesmo tempo, provoca o escárnio e o imenso respeito que cultivo.
5.27.2008
Perceber pouco a pouco a pequena fuligem que se deposita aqui, em cima do meu corpo. Sumir um tanto dentro dela, ir cavando o meu solo confortável, de onde olho e encontro as pessoas. Um casulo aberto e transparente, onde sopra vento e respiração de quem quiser adentrar. Ali, podendo observar os segundos, consegui parar o tempo, esquecer o ruído do relógio, habitando assim uma outra forma, um novo modo.
***
Ir a São Paulo, ao bairro da Liberdade, é sempre um tanto conflituoso. Encravado no meio daquela cidade enorme está aquele lugar que me coloca dentro da minha própria casa. Não essa em que eu moro, mas uma casa abarrotada de pessoas, cheiro de remédio e alga amassada. Meu avô comendo de palitinho fazendo muito barulho ao sorver o caldo, tocando o sino budista de manhã. Aroma de incenso queimando e barulho de idiomas misturados. Em São Paulo me deparo com uma casa que não é só minha, mas é pública, compartilhada. Não domino, existo apenas. No meio dos gritos e correria, a calma do olhar é sempre o que desfaz a má impressão.
***
Ir a São Paulo, ao bairro da Liberdade, é sempre um tanto conflituoso. Encravado no meio daquela cidade enorme está aquele lugar que me coloca dentro da minha própria casa. Não essa em que eu moro, mas uma casa abarrotada de pessoas, cheiro de remédio e alga amassada. Meu avô comendo de palitinho fazendo muito barulho ao sorver o caldo, tocando o sino budista de manhã. Aroma de incenso queimando e barulho de idiomas misturados. Em São Paulo me deparo com uma casa que não é só minha, mas é pública, compartilhada. Não domino, existo apenas. No meio dos gritos e correria, a calma do olhar é sempre o que desfaz a má impressão.
5.06.2008
Hoje a praia estava tão grande, grande como há onze anos atrás. Num espaço - coqueiros, céu azul escuro, ondas ao fundo e algumas pessoas caminhando, com pressa e com medo - uma linha (quebradiça) de acontecimentos fortuitos. Mas não os acontecimentos acontecidos, mas os existidos de alguma forma.
Por que os coqueiros impregnaram tão fortemente a imagem? Por conta do céu escuro que os escorava, num frescor de frente fria carioca, emulando alguns invernos mal-sucedidos, idas a restaurantes, livros em livrarias pequenas e abarrotadas, coca-cola com amigos, euforia de outrora. Dentro de uma inclinação à calmaria, impressionante como a mais calma das imagens pode ter como efeito o seu contrário. Ou talvez, a sua própria condição de existência.
***
Esquecer é, sem dúvida, das melhores formas de sempre se lembrar.
Não um retorno, mas uma sempre-ida que acaba transformando algo desde-sempre-igual em algo-a-todo-segundo-diferente.
Por que os coqueiros impregnaram tão fortemente a imagem? Por conta do céu escuro que os escorava, num frescor de frente fria carioca, emulando alguns invernos mal-sucedidos, idas a restaurantes, livros em livrarias pequenas e abarrotadas, coca-cola com amigos, euforia de outrora. Dentro de uma inclinação à calmaria, impressionante como a mais calma das imagens pode ter como efeito o seu contrário. Ou talvez, a sua própria condição de existência.
***
Esquecer é, sem dúvida, das melhores formas de sempre se lembrar.
Não um retorno, mas uma sempre-ida que acaba transformando algo desde-sempre-igual em algo-a-todo-segundo-diferente.