como se nas frestas minúsculas dos acontecimentos
não houvesse o suspiro agudo da memória
fumei o cigarro, sorvendo o chocolate
ensudercendo com os barulhos vindo da varanda
4.14.2008
3.23.2008
Do meu quarto, a tela branca tornou-se o tempo. Turvo turvo.
Assim, hoje, andei por todas as possibilidades que já se apresentaram, nos últimos cinco anos em que aqui existi em palavras, imagens e frases. Cinco anos! Faz muito tempo. São tudo o que fui, o que acreditei ser, o que poderia ter sido e que vislumbrei pra mim naquele instante. Inúmeros caminhos que se descortinavam na minha frente: meu espelho que eu recortava como brincando de colagem com os colegas no jardim de infância. Cinco anos de imaginação pura, em prol de algum futuro que, hoje, percebo: ilumina-se à luz que entra da minha janela, e, com os mesmos olhos, percebo mais a calma do que fluxo.
Tento evitar a narrativa, fico com as sensações. É impressionante como somos levados pela possibilidade de uma história. Resisto, mas ainda me move - de forma quase inacreditável - a poética possível em tudo que já foi pensado e sentido. A ingenuidade de quatro anos atrás ainda reside, apagada e reprimida, mas com um desejo intenso de ação.
A potência do passado é tão sutil, aloja-se nos menores espaços, e toma o fôlego todo. Uma memória que não tem tamanho, traz-me meu corpo e meu ar de todos os tempos vividos. Chego a projetar-me um passado futuro e, com essa ínfima fresta de pensamento, sentir.
Assim, hoje, andei por todas as possibilidades que já se apresentaram, nos últimos cinco anos em que aqui existi em palavras, imagens e frases. Cinco anos! Faz muito tempo. São tudo o que fui, o que acreditei ser, o que poderia ter sido e que vislumbrei pra mim naquele instante. Inúmeros caminhos que se descortinavam na minha frente: meu espelho que eu recortava como brincando de colagem com os colegas no jardim de infância. Cinco anos de imaginação pura, em prol de algum futuro que, hoje, percebo: ilumina-se à luz que entra da minha janela, e, com os mesmos olhos, percebo mais a calma do que fluxo.
Tento evitar a narrativa, fico com as sensações. É impressionante como somos levados pela possibilidade de uma história. Resisto, mas ainda me move - de forma quase inacreditável - a poética possível em tudo que já foi pensado e sentido. A ingenuidade de quatro anos atrás ainda reside, apagada e reprimida, mas com um desejo intenso de ação.
A potência do passado é tão sutil, aloja-se nos menores espaços, e toma o fôlego todo. Uma memória que não tem tamanho, traz-me meu corpo e meu ar de todos os tempos vividos. Chego a projetar-me um passado futuro e, com essa ínfima fresta de pensamento, sentir.
3.07.2008
Sob a superfície incauta
Pensando em coisas tão indistintas quanto variadas, andando por entre os riscos do sol agradável que fazia então, ele parou e percebeu a conversa em que estava inserido. Não mais do que dois ou três segundos demorou para saber de cor todas as tonalidades de sua pele e o jeito em que moviam os músculos do rosto dela, enquanto falava animadamente. Em uma relação não muito clara, ao ver sua boca se mover e os olhos abrirem e fecharem, sentia a brisa da noite anterior, cujo céu aparecia translúcido depois da chuva tirar-lhe os resquícios de poluição. Como uma noite daquelas, noites com tom de silêncio involuntário, ela sorria, enquanto descortinava, na sua frente, todas as suas fraquezas. Tanto as dele quanto as dela.
Pensando em coisas tão indistintas quanto variadas, andando por entre os riscos do sol agradável que fazia então, ele parou e percebeu a conversa em que estava inserido. Não mais do que dois ou três segundos demorou para saber de cor todas as tonalidades de sua pele e o jeito em que moviam os músculos do rosto dela, enquanto falava animadamente. Em uma relação não muito clara, ao ver sua boca se mover e os olhos abrirem e fecharem, sentia a brisa da noite anterior, cujo céu aparecia translúcido depois da chuva tirar-lhe os resquícios de poluição. Como uma noite daquelas, noites com tom de silêncio involuntário, ela sorria, enquanto descortinava, na sua frente, todas as suas fraquezas. Tanto as dele quanto as dela.
2.23.2008
Quando acordou, abriu os olhos perto da janela. O sol branco deixava tudo meio uma coisa só. Escutava algum barulho de trânsito, enquanto queria ouvir passarinhos.
Ouvia passarinhos.
Rondava todas as manhãs por um poço tão profundo de memória que se perdia a cada início de dia. Não sonhava quase nunca - pelo menos não se recordava de nenhum sonho. Mas aqueles minutos do abrir os olhos eram sempre a comprovacão de alguma coisa que ainda estava pra descobrir. Como se de um momento para o outro, a vida pudesse passar a existir. Assim, de repente. E, da mesma forma, como se pudesse parar e respirar um pouco.
Assim que acordava estava fora do tempo, e lá a vida parecia ganhar a forma. Naqueles minutos, estava em si o tempo inteiro, e aquele intervalo (quase inexistente) parecia definir tudo que estava fora dali.
Um intervalo branco, fresco, com textura de suco gelado e boca seca. Assim se explicavam os dias inteiros.
Ouvia passarinhos.
Rondava todas as manhãs por um poço tão profundo de memória que se perdia a cada início de dia. Não sonhava quase nunca - pelo menos não se recordava de nenhum sonho. Mas aqueles minutos do abrir os olhos eram sempre a comprovacão de alguma coisa que ainda estava pra descobrir. Como se de um momento para o outro, a vida pudesse passar a existir. Assim, de repente. E, da mesma forma, como se pudesse parar e respirar um pouco.
Assim que acordava estava fora do tempo, e lá a vida parecia ganhar a forma. Naqueles minutos, estava em si o tempo inteiro, e aquele intervalo (quase inexistente) parecia definir tudo que estava fora dali.
Um intervalo branco, fresco, com textura de suco gelado e boca seca. Assim se explicavam os dias inteiros.
2.22.2008
1.21.2008
Entre um piscar e outro, ficou olhando para o foco de luz que se escondia e se revelava intermitentemente atrás das gotas de chuva que escorriam pelo vidro. O fim de tarde nublado deixava-o sempre imerso na vista da janela. Não lhe ocorria no pensamento mais do que aquilo que se apresentava na sua frente. Como se estivesse aprisionado pelo normal, espreitava as pequenas mudanças que nunca paravam de acontecer. Acontecendo o tempo inteiro, como se o acontecer era uma coisa só: deixava de acontecer. Assim, consigo, totalmente sozinho, imaginava que a comunicação era a última coisa a que se devia prestar atenção. Totalmente sozinho, a intensidade de tudo era quase concreta, matéria em que se podia tocar com os próprios dedos.
1.02.2008
O novo e o velho
(feliz 2008!)
Abrindo as folhas do caderno novo
Ele decidiu escrever palavras inéditas
O ineditismo era, no entanto, a mancha amarelada
no canto de todas as páginas de todos os cadernos
Fechou o caderno
Resolveu escrever as coisas nas coisas
Um pouco de espaço em branco
e intervalos silenciosos
preencher era pura repetição
(feliz 2008!)
Abrindo as folhas do caderno novo
Ele decidiu escrever palavras inéditas
O ineditismo era, no entanto, a mancha amarelada
no canto de todas as páginas de todos os cadernos
Fechou o caderno
Resolveu escrever as coisas nas coisas
Um pouco de espaço em branco
e intervalos silenciosos
preencher era pura repetição
12.29.2007
A Clara me passou uma maldição.
Frase da página 161
1 - procurar um livro próximo;
2 - abri-lo na página 161;
3 - procurar a quinta frase completa;
4 - postá-la no seu blog;
5 - não escolher a melhor frase nem o melhor livro;
6 - repassar a outros cinco blogs.
A minha frase:
"Mas ele não podia mais descrer da realidade do amor visto que o Próprio Deus havia amado sua alma individual com amor divino desde toda a eternidade"
(Retrato do Artista Quando Jovem, de James Joyce)
p.s.: Primeiro peguei o livro "Bartleby e companhia", de Enrique Vila-Matas, mas na página 161 só tinha frases longuíssimas, não chegando à quinta. Logo depois peguei esse. Confesso que não gostei da frase, achei muito austera, mas coloquei aqui pra respeitar o espírito da brincadeira. Também confesso que escolhi abrir algum romance por querer algo mais relaxado do que os muitos livros de teoria, filosofia etc. que me rodeiam neste momento. Me fudi, não é nem graciosamente aleatória nem uma descontração a frase que veio. Outra condição foi um livro que não me exigisse levantar da cadeira, apenas esticar o braço.
5 blogs: Marcel, Júlia, Carol, Dally e Tati.
Frase da página 161
1 - procurar um livro próximo;
2 - abri-lo na página 161;
3 - procurar a quinta frase completa;
4 - postá-la no seu blog;
5 - não escolher a melhor frase nem o melhor livro;
6 - repassar a outros cinco blogs.
A minha frase:
"Mas ele não podia mais descrer da realidade do amor visto que o Próprio Deus havia amado sua alma individual com amor divino desde toda a eternidade"
(Retrato do Artista Quando Jovem, de James Joyce)
p.s.: Primeiro peguei o livro "Bartleby e companhia", de Enrique Vila-Matas, mas na página 161 só tinha frases longuíssimas, não chegando à quinta. Logo depois peguei esse. Confesso que não gostei da frase, achei muito austera, mas coloquei aqui pra respeitar o espírito da brincadeira. Também confesso que escolhi abrir algum romance por querer algo mais relaxado do que os muitos livros de teoria, filosofia etc. que me rodeiam neste momento. Me fudi, não é nem graciosamente aleatória nem uma descontração a frase que veio. Outra condição foi um livro que não me exigisse levantar da cadeira, apenas esticar o braço.
5 blogs: Marcel, Júlia, Carol, Dally e Tati.
12.28.2007
Uma linha de força,
uma fuga
obsolescência de si mesmo.
Na foto, a imagem passada resgata a sensação do presente intenso. Enquanto sorrio e converso com o parente do outro lado da mesa, em algum dia perdido na última década, parece que me acumulo em mim mesmo até chegar ao depositório transbordante que apresenta-se hoje como 'eu'. Assim até morrer. A saturação infinita: passado esvaziado, ingênuo, com o muito-espaço-ainda-por-vir, como se as experiências já tivessem seu lugar ali reservado. Hoje, tessitura engordurada da vida e dos gestos. Muita significação. O fim, no entanto, é inexorável, mas também incalculável. E os espaços, só forma de organização.
Saio da imagem e volto-me a hoje e, incrivelmente, ao virar-me para o inapreensível, esqueço-me e pareço comigo desde que nasci. Na fotografia, um depositório, mas aqui, um sempre-sendo desde os tempos mais remotos. Presente sem futuro. O presente intenso trazido pela imagem é um já-passado, um presente em comparação, uma composição de mim para mim. Sem moldura, no entanto, posso extrapolar essas pequenas definições.
uma fuga
obsolescência de si mesmo.
Na foto, a imagem passada resgata a sensação do presente intenso. Enquanto sorrio e converso com o parente do outro lado da mesa, em algum dia perdido na última década, parece que me acumulo em mim mesmo até chegar ao depositório transbordante que apresenta-se hoje como 'eu'. Assim até morrer. A saturação infinita: passado esvaziado, ingênuo, com o muito-espaço-ainda-por-vir, como se as experiências já tivessem seu lugar ali reservado. Hoje, tessitura engordurada da vida e dos gestos. Muita significação. O fim, no entanto, é inexorável, mas também incalculável. E os espaços, só forma de organização.
Saio da imagem e volto-me a hoje e, incrivelmente, ao virar-me para o inapreensível, esqueço-me e pareço comigo desde que nasci. Na fotografia, um depositório, mas aqui, um sempre-sendo desde os tempos mais remotos. Presente sem futuro. O presente intenso trazido pela imagem é um já-passado, um presente em comparação, uma composição de mim para mim. Sem moldura, no entanto, posso extrapolar essas pequenas definições.
12.18.2007
12.07.2007
Meio enviesado, assim, meio de lado. Andando a passos largos, contido no pensamento, cortado em quatro, cinco, quantos forem os obstáculos.
Corri debaixo da chuva, cabeça molhada e pele toda ensopada. Corri extremamente parado. Correu a chuva na pele, na lente dos óculos, molhou o cigarro. Apagado, complexado, conversei poucos diálogos.
No percurso longo, demorado, vivi a espera do próximo segundo, extenuado com o entorno, calculado, previsto, obliterado em coisas sempre já vistas.
A pista e o corpo, nela refletido, contendo espasmos, impulsos dos dias mais quentes, mais atrás do presente. Detrás do sempre, o sobressalto do mais-agora. Assim, mais pra dentro, como no quarto claro que espera o sono atrasado. Assim, meio enviesado, meio de lado.
Corri debaixo da chuva, cabeça molhada e pele toda ensopada. Corri extremamente parado. Correu a chuva na pele, na lente dos óculos, molhou o cigarro. Apagado, complexado, conversei poucos diálogos.
No percurso longo, demorado, vivi a espera do próximo segundo, extenuado com o entorno, calculado, previsto, obliterado em coisas sempre já vistas.
A pista e o corpo, nela refletido, contendo espasmos, impulsos dos dias mais quentes, mais atrás do presente. Detrás do sempre, o sobressalto do mais-agora. Assim, mais pra dentro, como no quarto claro que espera o sono atrasado. Assim, meio enviesado, meio de lado.
11.19.2007
Pedaço
.
.
Andou um pouco equilibrando-se no meio-fio.
Soprou o vento. Quente feito bafo vindo do forno. Era verão, e os pingos se formavam debaixo do tecido da camisa nova, saindo dos pequenos póros das costas. O rosto vermelho, irritado com o calor e a barba recém-feita. Na camisa, desenhos se formavam conforme andava: as gotas penetravam na malha e o azul ficava quase preto.
Acompanhava com os olhos o ralentado movimento eterno das nuvens. Sempre indo, parecia que estavam em um único e grandioso objetivo, mas interminável. Não se importava com as formas, mas sim com o processo. O ir, mais do que o ficar, sempre. Mas era um ir ficando: isso que atraía inevitavelmente seu olhar.
O céu era muito azul. Azul azul azul, pensava, enquanto as nuvens se encaminhavam para onde elas estavam sempre indo. Um carro passou, muito veloz, e jogou-lhe uma lufada de vento no lado esquerdo do corpo. Tombou e caiu no meio da calçada. Entre uma árvore, um banquinho dos de praça e uma pequena poça de água da chuva do dia anterior, ele ficou no chão, sentindo um pouco a ausência absoluta. Uma nuvem que passa ficando o tempo inteiro.
.
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Andou um pouco equilibrando-se no meio-fio.
Soprou o vento. Quente feito bafo vindo do forno. Era verão, e os pingos se formavam debaixo do tecido da camisa nova, saindo dos pequenos póros das costas. O rosto vermelho, irritado com o calor e a barba recém-feita. Na camisa, desenhos se formavam conforme andava: as gotas penetravam na malha e o azul ficava quase preto.
Acompanhava com os olhos o ralentado movimento eterno das nuvens. Sempre indo, parecia que estavam em um único e grandioso objetivo, mas interminável. Não se importava com as formas, mas sim com o processo. O ir, mais do que o ficar, sempre. Mas era um ir ficando: isso que atraía inevitavelmente seu olhar.
O céu era muito azul. Azul azul azul, pensava, enquanto as nuvens se encaminhavam para onde elas estavam sempre indo. Um carro passou, muito veloz, e jogou-lhe uma lufada de vento no lado esquerdo do corpo. Tombou e caiu no meio da calçada. Entre uma árvore, um banquinho dos de praça e uma pequena poça de água da chuva do dia anterior, ele ficou no chão, sentindo um pouco a ausência absoluta. Uma nuvem que passa ficando o tempo inteiro.
11.15.2007
sobre o asfalto
cheiro de chuva
pingando
atrás das peles
no verão chuva fria
meus amigos de então
contando histórias
e arremessando afeto e sorrisos
aquelas vozes, num coro
minha casa e travesseiro
o futuro que brilhava
fez-se a ponte e quebrou-se a fundação
como se, das palavras
o casco puro nas mil mãos
aspereza pela espera
cheiro de chuva
pingando
atrás das peles
no verão chuva fria
meus amigos de então
contando histórias
e arremessando afeto e sorrisos
aquelas vozes, num coro
minha casa e travesseiro
o futuro que brilhava
fez-se a ponte e quebrou-se a fundação
como se, das palavras
o casco puro nas mil mãos
aspereza pela espera
Sentado no banco da praça nublada, reconsiderou sete vezes e meia os seus pressupostos. Acreditou na descrença por 3 minutos e 49 segundos, e o mundo se lhe apareceu mudado. As coisas saindo do seu lugar, entrou numa confusão de nomeclaturas que jamais imaginou poder existir. Não se situava mais em si, no seu lugar e na sua vontade. Não conseguiu separar, dividir, organizar. Turvo como algo que não podia nomear.
Andava pra frente e desconfiava das direções. Passo a passo, reconfigurou suas mais estáveis noções.
Conversava com seu amigo. Ele conversava e escutava e dizia. O controle total é sempre já o descontrole.
Andava pra frente e desconfiava das direções. Passo a passo, reconfigurou suas mais estáveis noções.
Conversava com seu amigo. Ele conversava e escutava e dizia. O controle total é sempre já o descontrole.