O transparente do céu frio de uma noite de inverno. Talvez o quase-transparente do céu de uma noite de verão.
As noites permanecem na visão, desde as primeiras que vi.
E, desde então, meu mundo acorda de noite todas as coisas que ele dorme de dia.
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夜冬夏日
7.30.2007
7.28.2007
Dias internos com inclinação externa.
Passando pela porta da construção civil, ele conseguiu sentir as festas todas passando por dentro de sua cabeça.
E o barulho do mar batendo no revoar dos passarinhos, às 18h de uma tarde fria, era todo o verão dos anos anteriores.
Perguntou, por menos de um segundo, ao que tentou olhar o céu e ver a beleza das coisas: "a opacidade é propriedade do ser humano, ou o tempo coloca uma camada de poeira por sobre a visão?" Como uma catarata maldita, que deixa tudo desbotado.
Enfim, o referencial já está pronto desde quando? Voar ainda não foi liberado pra nós.
Continuou andando. Pensou no café de daqui a pouco e as letras no livro. O cigarro na mão o lembrava de estar vivo. E as pessoas dentro da sua cabeça: essas são as mais queridas.
Passando pela porta da construção civil, ele conseguiu sentir as festas todas passando por dentro de sua cabeça.
E o barulho do mar batendo no revoar dos passarinhos, às 18h de uma tarde fria, era todo o verão dos anos anteriores.
Perguntou, por menos de um segundo, ao que tentou olhar o céu e ver a beleza das coisas: "a opacidade é propriedade do ser humano, ou o tempo coloca uma camada de poeira por sobre a visão?" Como uma catarata maldita, que deixa tudo desbotado.
Enfim, o referencial já está pronto desde quando? Voar ainda não foi liberado pra nós.
Continuou andando. Pensou no café de daqui a pouco e as letras no livro. O cigarro na mão o lembrava de estar vivo. E as pessoas dentro da sua cabeça: essas são as mais queridas.
7.04.2007
6.22.2007
6.10.2007
6.01.2007
Sobre um segundo, uma fração de segundo
(rememorações e respiros)
Para toda a sobriedade do mundo, existem frestas entreabertas e pouco iluminadas, que conduzem a uma outra forma de ser. Talvez não outra, mas a mesma, só que com póros conscientes - que respiram o ar puro debaixo da massa cinzenta dos pensamentos circundantes. E através dessas brechas entramos em contato com algo distinto, como um segredo que carregamos: um mundo inteiro tingido com outras cores.
Pois ela era assim. Aparentava. E era o que diziam. Pode-se dizer que, com um pouco de sensibilidade, dava a perceber uma potência bem discreta de ângulo adotado para as coisas. Ângulo obtuso, mas aderido, entusiasmado. Como palavras brotadas do pensamento que se esparramavam pelo ambiente. Extravagâncias de existir.
Esse segredo que carregava (e compartilhava) era impressionante. Escancarava com toda a voracidade as frestas. Borboleteava leve sobre os significados (dava-lhes uma rasteira e os retorcia até a beleza libertadora) e imprimia eu no que era todo mundo. Isso também me falaram. E isso eu também percebi. Como se abrisse as próprias coisas nelas mesmas.
Aí está a chave: as coisas nelas mesmas. A questão não é de razão, mas de olhar. Escoando sobre a superfície das coisas, o furo revela a própria casca. Porque não há hierarquias no que é sempre ser: o outro e eu. O segredo, todos carregam - alguns sabem, outros ainda não. O mundo é sempre tingido com os tons do nosso próprio encanto particular.
Mas tanta voracidade e poesia abriu espaços imensos para todos os tempos e todas as formas. Só não abriu o tempo sobre si mesmo. E nem para si mesma. O tempo é paciente. Derrama lágrimas, mas também acalenta passados no presente - e presentes no futuro: pois tudo é uma coisa só.
Como se interrompida no meio do soluço de maravilhamento, não teve o tempo ralentado de dar o passo para inverter: o todo mundo no eu (o deslocamento do ângulo).
No final das contas, sim, o fez. Todo mundo no nós. E ela em todo mundo. Poesia dura, mas que deixa ensejos de respiração mais compassada.
(rememorações e respiros)
Para toda a sobriedade do mundo, existem frestas entreabertas e pouco iluminadas, que conduzem a uma outra forma de ser. Talvez não outra, mas a mesma, só que com póros conscientes - que respiram o ar puro debaixo da massa cinzenta dos pensamentos circundantes. E através dessas brechas entramos em contato com algo distinto, como um segredo que carregamos: um mundo inteiro tingido com outras cores.
Pois ela era assim. Aparentava. E era o que diziam. Pode-se dizer que, com um pouco de sensibilidade, dava a perceber uma potência bem discreta de ângulo adotado para as coisas. Ângulo obtuso, mas aderido, entusiasmado. Como palavras brotadas do pensamento que se esparramavam pelo ambiente. Extravagâncias de existir.
Esse segredo que carregava (e compartilhava) era impressionante. Escancarava com toda a voracidade as frestas. Borboleteava leve sobre os significados (dava-lhes uma rasteira e os retorcia até a beleza libertadora) e imprimia eu no que era todo mundo. Isso também me falaram. E isso eu também percebi. Como se abrisse as próprias coisas nelas mesmas.
Aí está a chave: as coisas nelas mesmas. A questão não é de razão, mas de olhar. Escoando sobre a superfície das coisas, o furo revela a própria casca. Porque não há hierarquias no que é sempre ser: o outro e eu. O segredo, todos carregam - alguns sabem, outros ainda não. O mundo é sempre tingido com os tons do nosso próprio encanto particular.
Mas tanta voracidade e poesia abriu espaços imensos para todos os tempos e todas as formas. Só não abriu o tempo sobre si mesmo. E nem para si mesma. O tempo é paciente. Derrama lágrimas, mas também acalenta passados no presente - e presentes no futuro: pois tudo é uma coisa só.
Como se interrompida no meio do soluço de maravilhamento, não teve o tempo ralentado de dar o passo para inverter: o todo mundo no eu (o deslocamento do ângulo).
No final das contas, sim, o fez. Todo mundo no nós. E ela em todo mundo. Poesia dura, mas que deixa ensejos de respiração mais compassada.
5.26.2007
Devassidão
Acordou de bom humor hoje.
Tomou café-com-leite e, debaixo do sol com roupa de banho
[alegria de dentes brancos e amarelos evaporando de todos os rostos da cidade]
assumiu:
era uma cadeira de madeira
daquelas velhas com as quinas desgastadas.
Tanto tempo demorou
mas pôde ser o que sempre sonhou.
Ai, que alívio!
Acordou de bom humor hoje.
Tomou café-com-leite e, debaixo do sol com roupa de banho
[alegria de dentes brancos e amarelos evaporando de todos os rostos da cidade]
assumiu:
era uma cadeira de madeira
daquelas velhas com as quinas desgastadas.
Tanto tempo demorou
mas pôde ser o que sempre sonhou.
Ai, que alívio!
5.25.2007
5.24.2007
Machucado
Essa semana a porta das idéias ficou fechada. Roxa, inchada, dolorida. O contato com o mundo infeccionou a cabeça e a poesia circunscreveu-se aos sonhos.
Como um grito latente e sussurrante (sim, porque o inesperado é de tudo contradição), espero até a próxima semana a porta voltar a se abrir. Por ora, fico inflamando as idéias dentro de copos d´água com comprimidos, esperando os ventos soprarem. [quem sabe se o sol sair?]
Nem leitura, nem feitura. Escritura imaginária que não pára nunca, ainda assim. Só concentração na voz interna, porque assim cura-se mais rápido.
Essa semana a porta das idéias ficou fechada. Roxa, inchada, dolorida. O contato com o mundo infeccionou a cabeça e a poesia circunscreveu-se aos sonhos.
Como um grito latente e sussurrante (sim, porque o inesperado é de tudo contradição), espero até a próxima semana a porta voltar a se abrir. Por ora, fico inflamando as idéias dentro de copos d´água com comprimidos, esperando os ventos soprarem. [quem sabe se o sol sair?]
Nem leitura, nem feitura. Escritura imaginária que não pára nunca, ainda assim. Só concentração na voz interna, porque assim cura-se mais rápido.
5.16.2007
Retomando
eu sentando ali naquela mesa
sentindo um pouco de dó das coisas
eu andando pela rua esperando o ônibus debaixo do sol
colocando os óculos novos que comprei no natal
eu tomando cerveja, fumando maconha
ziguezagueando pensamentos confusos conjuntos
eu com amigos querendo morder o mundo
achando que o mundo era eu com amigos
eu balaçando no parque domingo de tarde
comendo chiclete com olhar no presente
eu na viagem familiar
ouvindo o rock e esperando a vida chegar
como se o tempo todo
eu estivesse sendo aquilo e isto
agora e depois
como se eu não fosse eu
agora descubro que estava sempre ali como estou aqui
como uma peça de argila, apara as arestas
mas é argila pra sempre
argila boa com cheiro de casa e chá na mesa
eu sentando ali naquela mesa
sentindo um pouco de dó das coisas
eu andando pela rua esperando o ônibus debaixo do sol
colocando os óculos novos que comprei no natal
eu tomando cerveja, fumando maconha
ziguezagueando pensamentos confusos conjuntos
eu com amigos querendo morder o mundo
achando que o mundo era eu com amigos
eu balaçando no parque domingo de tarde
comendo chiclete com olhar no presente
eu na viagem familiar
ouvindo o rock e esperando a vida chegar
como se o tempo todo
eu estivesse sendo aquilo e isto
agora e depois
como se eu não fosse eu
agora descubro que estava sempre ali como estou aqui
como uma peça de argila, apara as arestas
mas é argila pra sempre
argila boa com cheiro de casa e chá na mesa
como o rosto no filme
ou os passos do ator em cima da tela branca
movi minhas palavras pra fora
mas se a imagem fica
o pensamento passa o tempo todo
voando como um mosquito que incomoda a certeza da paz
.
.
.
p p
a e
l n
a s
v a
r d
a a
.
.
.
[uma linha que mistura o fluxo]
em português e não japonês nem francês:
quero organizar o mundo
ou os passos do ator em cima da tela branca
movi minhas palavras pra fora
mas se a imagem fica
o pensamento passa o tempo todo
voando como um mosquito que incomoda a certeza da paz
.
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.
p p
a e
l n
a s
v a
r d
a a
.
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[uma linha que mistura o fluxo]
em português e não japonês nem francês:
quero organizar o mundo
5.14.2007
Rotina toda
A respiração tomou fôlego aos poucos. E cada inspiração era uma noite e as expirações dias ensolarados. Eu ficava ali. Consumindo noites e soltando dias incontáveis. As chuvas vinham eventualmente, molhar os meus pulmões, que aos poucos enxugavam as gotas, transformando-as em pequenas palavras, molhadas de meu passado: eu as soprava com toda força, empurrando os minutos e os segundos num esforço para o futuro que me esgotava. A cortina do tempo se esfacelava invisível e translúcida na minha frente, aos poucos, à mercê dos borbotões de passado que corriam das minhas narinas e da minha garganta.
estupefatoantesdeontemquebreipoesiaemmetaprosacorridemim
[brecha para inspirar]
omundotodoperdeuosentidosenteisozinhoemcimadomurodurodotictactictac
[inspira o mundo todo agora]
ecomicommeusamigosbiscoitosdeamoraesonhoslongínquos...
Assim nasce pra mim todos os dias em cada dia. Assim a vida anda sem delongas demasiadas e dorme de bruços quando preciso descansar, recostando a cabeça sobre a relva dos meus anseios.
A respiração tomou fôlego aos poucos. E cada inspiração era uma noite e as expirações dias ensolarados. Eu ficava ali. Consumindo noites e soltando dias incontáveis. As chuvas vinham eventualmente, molhar os meus pulmões, que aos poucos enxugavam as gotas, transformando-as em pequenas palavras, molhadas de meu passado: eu as soprava com toda força, empurrando os minutos e os segundos num esforço para o futuro que me esgotava. A cortina do tempo se esfacelava invisível e translúcida na minha frente, aos poucos, à mercê dos borbotões de passado que corriam das minhas narinas e da minha garganta.
estupefatoantesdeontemquebreipoesiaemmetaprosacorridemim
[brecha para inspirar]
omundotodoperdeuosentidosenteisozinhoemcimadomurodurodotictactictac
[inspira o mundo todo agora]
ecomicommeusamigosbiscoitosdeamoraesonhoslongínquos...
Assim nasce pra mim todos os dias em cada dia. Assim a vida anda sem delongas demasiadas e dorme de bruços quando preciso descansar, recostando a cabeça sobre a relva dos meus anseios.
5.10.2007
chuva à noite
abre os póros da cidade
que transpira seus cheiros mais sinceros
.
.
.
É por isso que a chuva - pensamos - tem cheiro de chuva. Sempre o mesmo odor que se debruça nas narinas. Por que ela entreabre os mais sutis vãos da cidade - asfaltos, cimento, pedras portuguesas - e liberta os cheiros entranhados na carne urbana. Mistura e apresenta. Como no mato, ela tem cheiro de mato profundo, o mato mais mato. Na cidade, a cidade mais cidade.
E é também por isso que chuva é bom. Porque ela cheira a minha vida. Lá no fundo do irredutível, do que é - é pra mim. Pontua lembranças, abrindo o pote da memória inesperadamente.
Perfume de desde sempre. E de ao meu infinito.
abre os póros da cidade
que transpira seus cheiros mais sinceros
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É por isso que a chuva - pensamos - tem cheiro de chuva. Sempre o mesmo odor que se debruça nas narinas. Por que ela entreabre os mais sutis vãos da cidade - asfaltos, cimento, pedras portuguesas - e liberta os cheiros entranhados na carne urbana. Mistura e apresenta. Como no mato, ela tem cheiro de mato profundo, o mato mais mato. Na cidade, a cidade mais cidade.
E é também por isso que chuva é bom. Porque ela cheira a minha vida. Lá no fundo do irredutível, do que é - é pra mim. Pontua lembranças, abrindo o pote da memória inesperadamente.
Perfume de desde sempre. E de ao meu infinito.

