"Escrever é tentar saber o que escreveríamos se escrevêssemos." (Marguerite Duras)
Será que de fato existe um ponto em que a linguagem não é mais suficiente? Nenhuma possível linguagem, de nenhum possível sistema. Esse ponto seria o encontro de fato com a essência das coisas (?).
Como descrever a luz amarela sobre um pedaço do muro que se vê através da janela do ônibus? Já tendo descrito, percebo que não consigo descrever. Porque descrever é reduzir. Expressar é reduzir, de certa forma. Aquele pedaço de muro, sob aquele pedaço de luz, definitivamente não me impele a escrever por ser um pedaço de muro sob um pedaço de luz. Mas por quê então? Por algo que, de fato, ultrapassa a expressão da linguagem. Porque, de alguma forma muito misteriosa, aquele pedaço de existência concreta, em algum momento, falou sobre mim, falou comigo. Porque é possível enxergar poesia (vivência e experiência), em qualquer elemento que nos afete. E essa expressão a mim externa e quase aleatória (não uma epifania, mas um suspiro de poesia cotidiana e simples) é uma certa forma de contato com um além-lógico. A essência, para nós, encontra-se em nós mesmos, e, - aí a vantagem incrível de observar e abrir a percepção -, também no mundo, nas coisas. E então, de fato, não há linguagem que dê conta. Mas mesmo assim, tentamos "saber o que escreveríamos".
12.14.2006
10.30.2006
" Muitos
muitos dias há num dia só
porque as coisas mesmas
os compõem
com sua carne (ou ferro
que nome tenha essa
matéria-tempo
suja ou
não)
os compõem
nos silêncios aparentes ou grossos
como colchas de flanela
ou água vertiginosamente imóvel"
(Poema Sujo, Ferreira Gullar)
Voltando ao ínicio. Dando um nozinho, porque todo nó fecha, mas também pressupõe o novo (porque o movimento é inexorável, a não ser que se queira interrompê-lo, mas aqui a idéia é o extremo oposto). O nó é a possibilidade da novidade. Dia bonito e as cores sem filtro. Se as coisas sorriem, é desse jeito, bonito assim.
muitos dias há num dia só
porque as coisas mesmas
os compõem
com sua carne (ou ferro
que nome tenha essa
matéria-tempo
suja ou
não)
os compõem
nos silêncios aparentes ou grossos
como colchas de flanela
ou água vertiginosamente imóvel"
(Poema Sujo, Ferreira Gullar)
Voltando ao ínicio. Dando um nozinho, porque todo nó fecha, mas também pressupõe o novo (porque o movimento é inexorável, a não ser que se queira interrompê-lo, mas aqui a idéia é o extremo oposto). O nó é a possibilidade da novidade. Dia bonito e as cores sem filtro. Se as coisas sorriem, é desse jeito, bonito assim.
10.05.2006
A(s) hora(s) inteira(s)
O tato no céu
peixe escuro que ronda a mente de noite
Na noite de todos os dias inteiros
o pensamente perde o foco
perambula por todas as coisas que existem
e não
e chega em lugar algum.
Se no tempo que pára (paira?) por cinco
- ou seis -
horas
espera tudo por ser olhado vago
a memória me deixa acordado.
E - ainda bem - vive-se continuidade.
E não cortado nem metade.
O tato no céu
peixe escuro que ronda a mente de noite
Na noite de todos os dias inteiros
o pensamente perde o foco
perambula por todas as coisas que existem
e não
e chega em lugar algum.
Se no tempo que pára (paira?) por cinco
- ou seis -
horas
espera tudo por ser olhado vago
a memória me deixa acordado.
E - ainda bem - vive-se continuidade.
E não cortado nem metade.
Indescritível
Existe uma parte das coisas que não são descritíveis.
Há o que se vê, o que se decodifica, o que se compõe, racionaliza-se, que se manifesta materialmente. E o resto. O resto é o sentido. E quando colocado assim, tenta-se descrever. E a descrição é absolutamente insuficiente. Não é o sentido do signo. Não aquilo que preenche nossa expectativa. Aquilo para o que não se pode ter expectativa, porque não se prevê, não se mensura. Que não está nas coisas, mas em uma brecha quase inexistente entre o que sai e o que chega. A brecha que está de uma forma diferente, individualmente distinta em cada sujeito. Que não pode ser, senão para cada um. Porque cada um se constituiu de forma inteiramente diferente. E a partir daí, o mundo passa a ser uma construção única, empírica e infinamente solitária. O sentido do mundo que é existir. E existir, que é uma experiência estritamente sua e minha e dele e dela. E nunca nossa. Apenas no sentido que existimos. E aí as coisas são bonitas. Demais.
Existe uma parte das coisas que não são descritíveis.
Há o que se vê, o que se decodifica, o que se compõe, racionaliza-se, que se manifesta materialmente. E o resto. O resto é o sentido. E quando colocado assim, tenta-se descrever. E a descrição é absolutamente insuficiente. Não é o sentido do signo. Não aquilo que preenche nossa expectativa. Aquilo para o que não se pode ter expectativa, porque não se prevê, não se mensura. Que não está nas coisas, mas em uma brecha quase inexistente entre o que sai e o que chega. A brecha que está de uma forma diferente, individualmente distinta em cada sujeito. Que não pode ser, senão para cada um. Porque cada um se constituiu de forma inteiramente diferente. E a partir daí, o mundo passa a ser uma construção única, empírica e infinamente solitária. O sentido do mundo que é existir. E existir, que é uma experiência estritamente sua e minha e dele e dela. E nunca nossa. Apenas no sentido que existimos. E aí as coisas são bonitas. Demais.
8.14.2006
Voltar a escrever é quase como voltar a ver. Ver que o mundo não tem eixos definidos. E que quando mais uma suposta ordem se impõe às nossas impressões, mais ela está prestes a cair. E que o costume é quase igual ao vício. E que juíz0s de valores, quase sempre, representam fraquezas trajadas de prepotências. E que somos tão ruins e tão bons como quaisquer outros - o que quer que seja ser ruim ou seu bom.
Voltar a ver é bom! Depois disso é bom ir à praia.
Voltar a ver é bom! Depois disso é bom ir à praia.
2.28.2006
"O essencial eh a contigencia. O que quero dizer eh que, por definicao, a existencia nao eh a necessidade. Exisitir eh simplesmente estar aqui; os entes aparecem, deixam que os encontremos, mas nunca podemos deduzi-los. Creio que ha pessoas que compreenderam isso. So que tentaram superar essa contingencia inventando um ser necessario e causa de si proprio. Ora, nenhum ser necessario pode explicar a existencia: a contingencia nao eh uma ilusao, uma aparencia que se pode dissipar; eh o absoluto, por conseguinte, a gratuidade perfeita. Tudo eh gratuito: esse jardim, essa cidade e eu proprio." (Sartre, A Nausea)
Pois entao. Londres eh muito foda mesmo. Mas ta dentro do resto das coisas. Eh um lugar realmente surpreendente. Mas, `a medida que o tempo passa - e que fique claro que isso nao eh critica nem nada negativo, porque ainda estou gostando e me surpreendendo muito com as coisas - fica claro que coisas sao coisas, e embaixo das milhoes de camadas que se sobrepoem a cada uma delas, elas sao coisas. Cadeira, parque, rua, meio-fio, pessoas, roupas, computador, loja, vendedor, pessoas, pessoas, pessoas. As pessoas, essas podem ser muito surpreendentes ate voce conversar com elas. Porque elas sao pessoas e ser humano eh uma especie realmente universal. Todas na mesma funcao de sempre, em qualquer lugar do mundo.
Pois entao. Londres eh muito foda mesmo. Mas ta dentro do resto das coisas. Eh um lugar realmente surpreendente. Mas, `a medida que o tempo passa - e que fique claro que isso nao eh critica nem nada negativo, porque ainda estou gostando e me surpreendendo muito com as coisas - fica claro que coisas sao coisas, e embaixo das milhoes de camadas que se sobrepoem a cada uma delas, elas sao coisas. Cadeira, parque, rua, meio-fio, pessoas, roupas, computador, loja, vendedor, pessoas, pessoas, pessoas. As pessoas, essas podem ser muito surpreendentes ate voce conversar com elas. Porque elas sao pessoas e ser humano eh uma especie realmente universal. Todas na mesma funcao de sempre, em qualquer lugar do mundo.
2.08.2006
Despir-se
Sem pensar antes e depois. Simplesmente a pura sincronicidade das sensações. Os dois olhares, que se transformam em três e viram um. Emocionar-se sinceramente com um movimento e um som, uma palavra, uma cor e um rabisco qualquer. Às vezes esquecer padrões, referências e o auto-policiamento da inteligência-mor dos livros e dos autores e dos críticos e dos estudiosos e dos filósofos e dos intelectuais e dos acadêmicos e dos e dos e dos. Uma luz igual a de todos os dias, que não possui profundidade nem nada, apenas luz, amarela sobre os objetos, como todas, mas que ficou bonita no registro mental. A combinação perfeita de notas, perfeita por não ser teorizável, não se transformar em ensaio, não se relacionar com o sócio, nem com o político, nem com nada mais. A seqüência de imagens que não diz muita coisa, mas preenche um certo espaço quase esquecido em algum lugar de alguém. O silêncio mais ensurdecedor, vazio e sem significado, mas completo. Completo porque você quis, porque assim lhe pareceu, porque assim se tornou depois que lhe chegou. Perfeito pra mim, pra você e pra alguns. Pra outros não. Porque não é. Aprofundamentos da alma sem passar pelo racional. Uma boa música, segundos de observação, andar de bicicleta com o vento batendo no rosto, ver o sol encostando no asfalto e sentir que as coisas são. Como viver o presente sem notas de rodapé e sem referências bibliográficas no final do dia.
Sem pensar antes e depois. Simplesmente a pura sincronicidade das sensações. Os dois olhares, que se transformam em três e viram um. Emocionar-se sinceramente com um movimento e um som, uma palavra, uma cor e um rabisco qualquer. Às vezes esquecer padrões, referências e o auto-policiamento da inteligência-mor dos livros e dos autores e dos críticos e dos estudiosos e dos filósofos e dos intelectuais e dos acadêmicos e dos e dos e dos. Uma luz igual a de todos os dias, que não possui profundidade nem nada, apenas luz, amarela sobre os objetos, como todas, mas que ficou bonita no registro mental. A combinação perfeita de notas, perfeita por não ser teorizável, não se transformar em ensaio, não se relacionar com o sócio, nem com o político, nem com nada mais. A seqüência de imagens que não diz muita coisa, mas preenche um certo espaço quase esquecido em algum lugar de alguém. O silêncio mais ensurdecedor, vazio e sem significado, mas completo. Completo porque você quis, porque assim lhe pareceu, porque assim se tornou depois que lhe chegou. Perfeito pra mim, pra você e pra alguns. Pra outros não. Porque não é. Aprofundamentos da alma sem passar pelo racional. Uma boa música, segundos de observação, andar de bicicleta com o vento batendo no rosto, ver o sol encostando no asfalto e sentir que as coisas são. Como viver o presente sem notas de rodapé e sem referências bibliográficas no final do dia.
2.01.2006
Bombom de todo dia
Parei o dia
tirei a foto
perdi todo o resto
pensando em não esquecer
Esqueci o gosto
e o não-gosto
não gostar é suficiente para se formar a personalidade?
A enternidade me abafou como um saco plástico
Fiz um furo
Talvez a luz do dia me baste
para tudo o que eu preciso.
Preciso ficar são
só
de vez em quando
e no que sobra
pensar em nada nunca deixa de ser bom.
Bom se fosse a vida minha que eu levo.
E não o passado do mundo todo que carrego
encaixotado nas minhas memórias.
.
Parei o dia
tirei a foto
perdi todo o resto
pensando em não esquecer
Esqueci o gosto
e o não-gosto
não gostar é suficiente para se formar a personalidade?
A enternidade me abafou como um saco plástico
Fiz um furo
Talvez a luz do dia me baste
para tudo o que eu preciso.
Preciso ficar são
só
de vez em quando
e no que sobra
pensar em nada nunca deixa de ser bom.
Bom se fosse a vida minha que eu levo.
E não o passado do mundo todo que carrego
encaixotado nas minhas memórias.
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1.31.2006
...
Almoçou e parou. Zerando tudo, quanto de vida teria de verdade? As experiências acumuladas existiam ou foram vividas através de coisas que lhe eram externas? Promessas rasas e profundas de uma solidez que se dissipava no ar. Quando era jovem, pensou um dia que o mundo estava à sua frente. Naquele momento, depois daquele almoço, sentindo aquele suor lhe escorrendo da testa e irritando suavemente os olhos quando se precipitavam da pálpebra, percebeu que não. Nem tanto. O mundo não existia. Criou-se na sua cabeça, que formava imagens deslumbrantes - ou assustadoramente sombrias - do eterno próximo acontecimento. Pensou que, um dia após o outro, de todos os anos em que existiu até então, tudo não passou de uma grande balela. Sua existência era tão grandiosa quanto a de qualquer outra pessoa que estava viva naquele momento. O mundo deixou de existir. Sentiu um alívio. Suspirou leve e quase não conseguiu pensar mais, de tão cruamente que tudo passou a se oferecer para ele. Como uma mulher que acredita na maquiagem e se insinua para os homens que a olham, o mundo era essa mulher, mas agora desgastada com o tempo e o dia-a-dia modorrento, não precisava mais se enfeitar para enganar o olhar. Ele se encantou com o desencantador. Um momentozinho de alegria, daqueles que fazem algumas horas tornarem-se fascinantes. Agora sim.
Almoçou e parou. Zerando tudo, quanto de vida teria de verdade? As experiências acumuladas existiam ou foram vividas através de coisas que lhe eram externas? Promessas rasas e profundas de uma solidez que se dissipava no ar. Quando era jovem, pensou um dia que o mundo estava à sua frente. Naquele momento, depois daquele almoço, sentindo aquele suor lhe escorrendo da testa e irritando suavemente os olhos quando se precipitavam da pálpebra, percebeu que não. Nem tanto. O mundo não existia. Criou-se na sua cabeça, que formava imagens deslumbrantes - ou assustadoramente sombrias - do eterno próximo acontecimento. Pensou que, um dia após o outro, de todos os anos em que existiu até então, tudo não passou de uma grande balela. Sua existência era tão grandiosa quanto a de qualquer outra pessoa que estava viva naquele momento. O mundo deixou de existir. Sentiu um alívio. Suspirou leve e quase não conseguiu pensar mais, de tão cruamente que tudo passou a se oferecer para ele. Como uma mulher que acredita na maquiagem e se insinua para os homens que a olham, o mundo era essa mulher, mas agora desgastada com o tempo e o dia-a-dia modorrento, não precisava mais se enfeitar para enganar o olhar. Ele se encantou com o desencantador. Um momentozinho de alegria, daqueles que fazem algumas horas tornarem-se fascinantes. Agora sim.
11.26.2005
Cliché
Pensamento saturado.
Não me orgulho de muita coisa. Talvez da última vez que consegui me orgulhar de algo. E só. Falta pouco para porra nenhuma. Ótimas previsões. Sempre.
Vermífugo escondido dentro de mim - o verme que parasita -, o apreço pelos outras nunca foi tão grande. Afinal de contas, para quê mesmo é isso tudo?
Pensamento saturado.
Não me orgulho de muita coisa. Talvez da última vez que consegui me orgulhar de algo. E só. Falta pouco para porra nenhuma. Ótimas previsões. Sempre.
Vermífugo escondido dentro de mim - o verme que parasita -, o apreço pelos outras nunca foi tão grande. Afinal de contas, para quê mesmo é isso tudo?
4h, 5h. Um pouco menos do que a noite toda. Tempo matado esvaziando a cabeça. Conversas sobre postes, e todo resto guardado junto com o consenso já bem debatido. Esquecer um pouco mais e, animais em quarentena, apreciar os detalhes repetidos e desgastados na cabeça. Astutas e presunçosas reviravoltas que não acontecem, mas são exageradamente anunciadas, os minutos parecem que são uma reprodução de um original que nunca foi, de fato, produzido. Um pouco de círculos, um noite como qualquer outra, e fecho os olhos com a certeza de pouca coisa. Amanhã é sempre um pouco parecido, e as coisas são ótimas e muito bonitas, e não precisam ser impressionantes.
10.05.2005
Organizando o dia-a-dia
Você sente e você sonha. Paisinho subdesenvolvido de merda. Devia virar um advogadozinho qualquer e ganhar muito dinheiro. Preciso voltar a pensar sobre o que me faz feliz. Afinal, vai tomar no cu todo mundo! Com essa pressão toda eu não consigo nem respirar. Pensa mais um pouco, agora de leve. Respira o ar da rua e olha um pouco pro céu. O dia tá bonito, e as pessoas são banais. Por que eu não posso ser também? Ah, vai pra porra com esse papo de qualquer coisa. Um dia, eu quis, achei que seria bom. Achei que seria possível. Um dia, o mundo esteve todo, redondinho, azulzinho, aos meus pés. Agora, se fode! Racha a cara até sangrar tudo!... Daqui a pouco, vou ficar ali, sentado no sofá, esperando o programa acabar pra ir dormir e esperar não morrer antes de acordar. Será? Espero que sim, sinal de inteligência. Pensar só dá fome. E eu tô cansado de ter fome. Pra puta que o pariu com o sentido da vida. Eu quero é morrer logo pra acabar com isso. Felicidade não existe nem em bula de remédio. Uma merda em cima da outra. É isso que sobra. Já que cagaram tudo em cima de mim, deixa eu cagar um pouco em cima dos outros. Agora, deixa eu ficar em paz, que um dia acaba. E até lá, não sei.
Você sente e você sonha. Paisinho subdesenvolvido de merda. Devia virar um advogadozinho qualquer e ganhar muito dinheiro. Preciso voltar a pensar sobre o que me faz feliz. Afinal, vai tomar no cu todo mundo! Com essa pressão toda eu não consigo nem respirar. Pensa mais um pouco, agora de leve. Respira o ar da rua e olha um pouco pro céu. O dia tá bonito, e as pessoas são banais. Por que eu não posso ser também? Ah, vai pra porra com esse papo de qualquer coisa. Um dia, eu quis, achei que seria bom. Achei que seria possível. Um dia, o mundo esteve todo, redondinho, azulzinho, aos meus pés. Agora, se fode! Racha a cara até sangrar tudo!... Daqui a pouco, vou ficar ali, sentado no sofá, esperando o programa acabar pra ir dormir e esperar não morrer antes de acordar. Será? Espero que sim, sinal de inteligência. Pensar só dá fome. E eu tô cansado de ter fome. Pra puta que o pariu com o sentido da vida. Eu quero é morrer logo pra acabar com isso. Felicidade não existe nem em bula de remédio. Uma merda em cima da outra. É isso que sobra. Já que cagaram tudo em cima de mim, deixa eu cagar um pouco em cima dos outros. Agora, deixa eu ficar em paz, que um dia acaba. E até lá, não sei.
À vida feliz
A conversa acabou ali. Não tinha jeito. Ela saiu correndo e se escondeu em um canto, embaixo da prateleira que ficava no fim do corredor. Eu, fingindo não me importar nem um pouco, prendi a respiração e desci a escada até a rua. A noite estava fria e limpa. Pensei que podia morrer, um pouco antes dos pensamentos me fugirem todos da cabeça, que ficou vazia. Ser idiota, às vezes, é um privilégio pouco valorizado.
Acordei no dia seguinte, no meu quarto. Quarto pequeno e bagunçado. Prefiro andar na rua a ficar aqui. Andei por umas três horas. Repeti várias vezes o mesmo caminho. Andar sem ver, repassar em ruas mais de uma vez, é uma prática boa para organizar os pensamentos. A vida, muitas vezes, não está em você. Quase sempre. Naquele momento, menos ainda. O vazio podia, quem sabe, ser preenchido com as imagens repetidas. Carro. Azul, preto, branco, vermelho. Nunca amarelo. Cachorro, gato, velhos conversando (como eles conseguem?). Bêbado, criança, mulher fumando na porta da loja, garoto correndo, dois amigos conversando. E repete tudo. Mais uma vez. Sem parar. Espero o dia acabar pra sentir o gosto de que as coisas não se renovam.
À noite, de novo. Chego no meu quarto. O mesmo de quando saí. Preciso me livrar dos pequenos aprisionamentos. Nessas horas começo a sentir falta das palavras simples que podem sair da sua boca. Mas, de que adianta? Ontem você se encolheu e eu saí como um cachorro assustado. Amanhã, a rua vai ser repetida, e eu não vou querer olhar. Em algum momento, as coisas terminam. E para onde? A poesia, infelizmente, eu joguei no lixo. Ficou abandonada aquela noite, embaixo da prateleira no fim do corredor. A noite fria e linda pode virar dia e eu não vou nem notar. Porque não precisa. Ela fica bem e acontece mesmo sem mim. Será que eu estou pronto para não ficar?
Dormi.
...
Nunca esperaria te rever naquele lugar. Depois de meses, já tinha engolido tudo que eu poderia, um dia, querer sentir. Entrando no bar, às 11 da manhã, daquele dia tão normal que dava vontade de vomitar. Segurei a respiração e me policiei. Mas, no final, não. Você passou, me cumprimentou e eu só senti a brisa do seu corpo me tocar de leve. E nada mais.
A conversa acabou ali. Não tinha jeito. Ela saiu correndo e se escondeu em um canto, embaixo da prateleira que ficava no fim do corredor. Eu, fingindo não me importar nem um pouco, prendi a respiração e desci a escada até a rua. A noite estava fria e limpa. Pensei que podia morrer, um pouco antes dos pensamentos me fugirem todos da cabeça, que ficou vazia. Ser idiota, às vezes, é um privilégio pouco valorizado.
Acordei no dia seguinte, no meu quarto. Quarto pequeno e bagunçado. Prefiro andar na rua a ficar aqui. Andei por umas três horas. Repeti várias vezes o mesmo caminho. Andar sem ver, repassar em ruas mais de uma vez, é uma prática boa para organizar os pensamentos. A vida, muitas vezes, não está em você. Quase sempre. Naquele momento, menos ainda. O vazio podia, quem sabe, ser preenchido com as imagens repetidas. Carro. Azul, preto, branco, vermelho. Nunca amarelo. Cachorro, gato, velhos conversando (como eles conseguem?). Bêbado, criança, mulher fumando na porta da loja, garoto correndo, dois amigos conversando. E repete tudo. Mais uma vez. Sem parar. Espero o dia acabar pra sentir o gosto de que as coisas não se renovam.
À noite, de novo. Chego no meu quarto. O mesmo de quando saí. Preciso me livrar dos pequenos aprisionamentos. Nessas horas começo a sentir falta das palavras simples que podem sair da sua boca. Mas, de que adianta? Ontem você se encolheu e eu saí como um cachorro assustado. Amanhã, a rua vai ser repetida, e eu não vou querer olhar. Em algum momento, as coisas terminam. E para onde? A poesia, infelizmente, eu joguei no lixo. Ficou abandonada aquela noite, embaixo da prateleira no fim do corredor. A noite fria e linda pode virar dia e eu não vou nem notar. Porque não precisa. Ela fica bem e acontece mesmo sem mim. Será que eu estou pronto para não ficar?
Dormi.
...
Nunca esperaria te rever naquele lugar. Depois de meses, já tinha engolido tudo que eu poderia, um dia, querer sentir. Entrando no bar, às 11 da manhã, daquele dia tão normal que dava vontade de vomitar. Segurei a respiração e me policiei. Mas, no final, não. Você passou, me cumprimentou e eu só senti a brisa do seu corpo me tocar de leve. E nada mais.
7.02.2005
A mesma falta de horizonte
Andou três vezes o mesmo caminho. Padaria, bar, canteiro com o cachorro dormindo e praça onde os velhos sentiam o tempo sentados em um banco. Chegava sempre à falta de conclusões. Desenhava o mapa de suas caminhadas para ver se conseguia se reconhecer no que não estava nele. A cidade poderia ser muito mais reveladora do que sua própria falta de pensamentos. Talvez.
Penava quando caía a noite. A constatação da sua solidão era inexorável então. Não a solidão dolorosa, mas aquela na qual estamos mergulhados desde o momento em que nascemos. O mundo não era, senão para ele. As conversas de todos os dias pareciam ser sempre as mesmas e tinha quase certeza que a alegria de viver - se ela existia - estava no fato de que as pessoas conseguiam atravessar os dias mergulhadas até a cabeça na sua própria construção. Ele não. Precisava encontrar o sentido nas coisas fora dele, já que o interior já havia se mostrado tão asséptico como o lençol de uma cama de hospital.
Sua ocupação era a da resistência. Sabia que, na verdade, era uma busca sem resultados. Conseguia distinguir claramente a sua vontade do que lhe era apresentado. Ao mesmo tempo, a beleza da falta de sentido o instigava de uma maneira quase carnal. Poderia passar os seus dias degustando a objetividade vazia que absorvia. Amava as pessoas, amava o fato de que as pessoas são irredutivelmente sozinhas. E conseguia, ao final de uma jornada muito cansativa, finalmente, reconhecer-se igual. Árvore, mesa, cadeira. Livro, caderno, seu melhor amigo. Meio-fio, carro estacionado, mendigo na esquina e sua mulher. Seu cachorro e ele. Todos com a mesma falta de finalidade, cada um perplexo de sua própria maneira.
A felicidade, talvez, tivesse lhe chegado da maneira mais brutal. E sangrava ao mesmo tempo que aprazia. Paz.
Começava, então a se preparar. Tudo de novo...
Andou três vezes o mesmo caminho. Padaria, bar, canteiro com o cachorro dormindo e praça onde os velhos sentiam o tempo sentados em um banco. Chegava sempre à falta de conclusões. Desenhava o mapa de suas caminhadas para ver se conseguia se reconhecer no que não estava nele. A cidade poderia ser muito mais reveladora do que sua própria falta de pensamentos. Talvez.
Penava quando caía a noite. A constatação da sua solidão era inexorável então. Não a solidão dolorosa, mas aquela na qual estamos mergulhados desde o momento em que nascemos. O mundo não era, senão para ele. As conversas de todos os dias pareciam ser sempre as mesmas e tinha quase certeza que a alegria de viver - se ela existia - estava no fato de que as pessoas conseguiam atravessar os dias mergulhadas até a cabeça na sua própria construção. Ele não. Precisava encontrar o sentido nas coisas fora dele, já que o interior já havia se mostrado tão asséptico como o lençol de uma cama de hospital.
Sua ocupação era a da resistência. Sabia que, na verdade, era uma busca sem resultados. Conseguia distinguir claramente a sua vontade do que lhe era apresentado. Ao mesmo tempo, a beleza da falta de sentido o instigava de uma maneira quase carnal. Poderia passar os seus dias degustando a objetividade vazia que absorvia. Amava as pessoas, amava o fato de que as pessoas são irredutivelmente sozinhas. E conseguia, ao final de uma jornada muito cansativa, finalmente, reconhecer-se igual. Árvore, mesa, cadeira. Livro, caderno, seu melhor amigo. Meio-fio, carro estacionado, mendigo na esquina e sua mulher. Seu cachorro e ele. Todos com a mesma falta de finalidade, cada um perplexo de sua própria maneira.
A felicidade, talvez, tivesse lhe chegado da maneira mais brutal. E sangrava ao mesmo tempo que aprazia. Paz.
Começava, então a se preparar. Tudo de novo...
6.13.2005
5.28.2005
Happy me!
depois de anos
passo as noites acordados
esperando a grande explosão que pode me salvar
perco o sono escutando palavras
pipocarem no meu ouvido
gritando um pouco sob o escuro do quarto
suando a testa escostada sobre o travesseiro.
Enquanto conto a próxima última respiração
vejo os americanos fabricando as horas
acendendo e apagando os tubos da televisão
perco de vista
a paisagem bonita que degustei no mês passado
rimando merda
com o meu nome
morro por antecipação.
depois de anos
passo as noites acordados
esperando a grande explosão que pode me salvar
perco o sono escutando palavras
pipocarem no meu ouvido
gritando um pouco sob o escuro do quarto
suando a testa escostada sobre o travesseiro.
Enquanto conto a próxima última respiração
vejo os americanos fabricando as horas
acendendo e apagando os tubos da televisão
perco de vista
a paisagem bonita que degustei no mês passado
rimando merda
com o meu nome
morro por antecipação.
4.27.2005
Fechado
Perdido no ar
consigo diferenciar cada sopro
deitado sobre o meu ouvido
perceber as minúsculas
sílabas esquecidas
fazendo o foco sobre o detalhe
do sorriso mofado que preenche os póros
e os espaços entre os dentes
drogar na esquina da consciência tudo que me sufoca
e - andando de um canto a outro -
delimitar as fronteiras da viagem e retalhar
pedaço por pedaço
imagens amareladas
sobradas
da última refeição de anos.
Soprando a poeira da sombra que não foi
passeio em círculos rodeando o mesmo buraco
que ficou incrustrado no pedaço de carne
apodrecido na cozinha
do último apartamento.
Sofro o tormento calado
escondido atrás do cigarro
e de palavras inteligentes.
Desgastando
contente.
Perdido no ar
consigo diferenciar cada sopro
deitado sobre o meu ouvido
perceber as minúsculas
sílabas esquecidas
fazendo o foco sobre o detalhe
do sorriso mofado que preenche os póros
e os espaços entre os dentes
drogar na esquina da consciência tudo que me sufoca
e - andando de um canto a outro -
delimitar as fronteiras da viagem e retalhar
pedaço por pedaço
imagens amareladas
sobradas
da última refeição de anos.
Soprando a poeira da sombra que não foi
passeio em círculos rodeando o mesmo buraco
que ficou incrustrado no pedaço de carne
apodrecido na cozinha
do último apartamento.
Sofro o tormento calado
escondido atrás do cigarro
e de palavras inteligentes.
Desgastando
contente.
3.11.2005
Ponto final .
Irremediavelmente
procuro andar sob a luz escura do meu quarto
encontrar jesus crucificado na lata de Coca-cola
e fumar o cigarro amarrotado pelo tempo
molhado dentro do meu bolso.
Culpar-me por nascer febril
ardorosamente culpado
por simplesmente
atordoado e sutil
ter nascido
no dia em que a desordem
instalou-se nos meus pensamentos.
Correndo contra correntezas estranhas
retomo cacos de vidro quebrados há anos
colando-os em cada buraco
desoxigenado
dos músculos e respirações.
[- Segue o rumo disfarça o tormento
faz-se feliz e satisfeito
contido dentro do tempo
pouco
a pouco
corroendo].
Irremediavelmente
procuro andar sob a luz escura do meu quarto
encontrar jesus crucificado na lata de Coca-cola
e fumar o cigarro amarrotado pelo tempo
molhado dentro do meu bolso.
Culpar-me por nascer febril
ardorosamente culpado
por simplesmente
atordoado e sutil
ter nascido
no dia em que a desordem
instalou-se nos meus pensamentos.
Correndo contra correntezas estranhas
retomo cacos de vidro quebrados há anos
colando-os em cada buraco
desoxigenado
dos músculos e respirações.
[- Segue o rumo disfarça o tormento
faz-se feliz e satisfeito
contido dentro do tempo
pouco
a pouco
corroendo].