8.05.2015

things unsaid

let's just please be together
we'll be fine

really

um pouco do seu cheiro ficou dentro do meu nariz na ponta dos meus cabelos
agarrado em algum lugar debaixo das unhas
naquele ponto em que os óculos se recostam sobre o verso
da minha orelha
um resquício de som da tua voz do
teu choro

naquela risada atravessada
na mesa do bar com os amigos cerveja cigarro 
um pouco da tua tristeza
tua felicidade
tua alegria não assimilada
um pouco

e numa outra realidade
paralela
diz a física quântica
caminhos que se bifurcam
um abraço apertado um beijo molhado uma manhã de sol nus na cama
o amor como eu imaginei









quando você me encontrar não fale comigo não olhe pra mim eu posso chorar


saudades
saudades
saudades

saudades do nosso futuro. saudades do nosso futuro. saudades do nosso futuro.

7.13.2015

uma canção me consola

- eu vou.
acordar cedo. umas 9h tá bom, dá pra sentir a manhã. acordar, tomar um café, bem quente, vai me acordar bem e ainda vai dar aquele gosto bom, de casa, solzinho entrando pela janela com um cafezinho na mão, nada melhor. tomar banho, um jato d'água na temperatura certa, aquele cheiro de sabão, sensação de limpeza; prestar atenção pra não deixar água muito quente, chuveiro escroto nunca responde exatamente ao que eu quero, muito sensível, um pouquinho pra esquerda e a água já queima a pele. mas chuveiro bom, parece chuva de verão batendo no corpo, dá pra relaxar bem. concentrando quase dá pra sentir o sol batendo bem nas cosas. de repente uma punheta, de repente não, depende do humor. a vida, cheia de possibilidades, dá pra esquecer na boa, curtir um começo de dia assim, na paz. hoje eu me apaixono por mais 4 perfis do facebook, e a vida assim se enche de potencialidade. entre meu espírito, meu corpo, e o deslocamento dele, todo dia uma frestinha, pequenininha, alguns minutinhos, a única possibilidade pra se viver. ficar ligado, sempre, a passar por ela, entre o café, o alarme, e o chuveiro. ali, nesse espacinho, sente-se o futuro penduradinho se exibindo.

7.11.2015

Tempo

aquele sorriso na fotografia
o gesto mesmo
simples
de tomar a câmera enquadrar atirar
naquele pequeno gesto tão bonito
indiferente
inútil
a história toda se condensa em forma de
afeto
imaginações de amor

quanto mais longe do passado mais entranhado nele

4.23.2015

no dia da origem
fragmentos de mensagens escritas
apagadas
esfumaçadas assim, no ar, no pixel da tela
nem coisa nem não-coisa
na ponta do lápis roçando no papel que desliza
rasga agarra apaga
naquele dia
eu te sonhei
com sangue cheiro e pequenos movimentos
minúsculos
inacabados
naquele dia infinito
a origem nunca acaba

1.25.2015

Um dia, de manhã.

Assim, sozinho. Todo dia de manhã, um pouco.

Aquele gosto, quente, quentinho. Um dia, dois dias, três dias.

Um dia, de manhã.
Um domingo, passarinhos cantando.

Um dia, aquele dia inesquecível. Um dia, sozinho.

Sozinho sozinho sozinho.


--- Escrever é persistência, meu filho. 25% de suor, o resto é tudo mentira.

5.17.2014

Crônica do amor puro

"Eu disse que te amo"
Ela disse
"te amo"
Ela disse
"te amo"
Eu disse
"Eu disse que te amo também"

Então, saímos para comprar café e um raio de sol esquentou as nossas testas

4.02.2014

toalha de mesa

a toalha que cobria a mesa da sala era rendada. tinha padrões geométricos, às vezes triângulos, às vezes quadrados, outras círculos. no meio de cada figura, uma flor se mostrava, pétalas abertas, como se a víssemos assim de cima, como num voo, quando as flores olham em direção ao sol. um jardim de flores sobre campos geométricos. eram simples, como margaridas. a toalha, comprada num dia de calor, sol forte e céu limpo, sem nuvens, havia custado muito pouco. quer dizer, eu nunca soube o preço, mas não podia ter sido mais do que dez reais. todos os sábados e domingos, havia uma feira no parque que ficava perto de casa, onde os artesãos da cidade expunham seus trabalhos. os artesãos eram, em geral, donas de casa aposentadas que usavam suas horas para fazer toda sorte de coisas: cestas de palha, suéteres de tricô, toalhas bordadas, brinquedos de madeira, bolsas de crochê. havia aquelas que vendiam seus bolos e salgadinhos, além dos eventuais artistas que pintavam paisagens e retratos das redondezas: sempre as mesmas. essa gente se sentava durante os finais de semana, debaixo da sombra das árvores, ao lado de suas barracas, e passava o dia tomando a brisa e se atualizando dos acontecimentos da semana na vida das barracas vizinhas. meus pais, todos os sábados, iam de manhã às compras, supermercado, farmácia, quitanda, padaria. era o ritual: todo sábado, os suprimentos para a nova semana. eu acordava e a casa vazia era um sinal da movimentação que acontecia do lado de fora, imaginava as andanças pelas calçadas, as conversas, as pequenas previsões do futuro: segunda teremos lasanha, suco de melancia para a criançada na terça, bolo de cenoura pra gente comer na quarta-feira, bacalhau pras visitas na sexta, hoje o almoço vai ser macarronada. essas adivinhações de um futuro tão próximo me davam energia pra começar o dia. esperança de que o tempo seguia. nesse sábado, meus pais resolveram dar uma volta na feirinha, com o nosso cachorro. "hoje vamos só ao supermercado, estamos cansados". naquela profusão de rendas, penduricalhos, comidas e crianças correndo, minha mãe viu essa toalha de mesa, feita com uns fios brancos tão finos que sua trama quase desaparecia. resolveu comprar pra cobrir a mesa naquele dia: meus tios e primos iam visitar, era meu aniversário. a toalha faria uma aparição sucinta: cobriria a mesa por uma meia hora, enquanto as visitas chegavam, antes da comida ser posta sobre uma outra toalha menos delicada. chegaram em casa, e minha mãe me mostrou a toalha: "olha só que bonita, comprei pro seu aniversário". alva, quase transparente, frágil e delicada, a toalha não parecia me representar. mas acatei a escolha, sem muita opção. no primeiro ano, a toalha era usada apenas em ocasiões especiais: aniversários, natais, jantares com visitas. ao longo dos anos, no entanto, as ocasiões se tornaram esparsas, e a toalha virou artefato do dia-a-dia. ficava dias seguidos sobre a mesa, ganhou umas manchas de café, e uma outra personalidade. enquanto o vazio da casa passou cada vez menos a carregar aquela promessa de futuro, a toalha garantia seu espaço no presente das nossas vidas, como se nos lembrasse ao mesmo tempo que o futuro existia, mas que ele tinha mudado de aparência. certo dia, minha mãe comprou uma parecida, só que feita de plástico. imitava as rendas, só que era apenas um maciço de um mesmo material, com micro furos emulando o trabalho rebuscado de fios rendados. "mais fácil de limpar". achei estranho, e quando repousava meu cotovelo sobre a mesa aquela toalha grudava no meu braço e eu tinha que usar a outra mão para retorná-la ao seu lugar. a toalha original, lavada, retornou ao armário, na esperança de que novos futuros fossem brotar da trama de seus fios, guardando aquele sábado quente, as conversas dos artesãos, e toda a nossa vida pra um outro momento glorioso. hoje, aguardo sempre ansiosamente o reencontro com a toalha, suas manchas, e todas as vidas em potencial que repousam lá, nosso eterno futuro, aquele tempo infinito.

3.12.2014


do amor
meu fantasma favorito
guardo as lembranças mais difusas
água correndo por entre poças congeladas
pedaços de sol batendo na pele enrijecida
noites acordados, sentindo a água enriquecer a pele, a boca, aquecendo o ar frio
tardes de sonho, caminhadas pela montanha, voos em direção ao céu
um segundo de azul por entre as nuvens
barulho da colher na tigela de vidro
risadas silenciosas
ruídos corporais
conversas infinitas que nunca aconteceram
ar ar ar
do meu amor eu guardo o tempo
mesclado, misturado
que me toma o corpo
no meu amor eu sou só tempo
irrestrito
mundo inteiro
fantasma porque não é concreto
é difuso
não é molécula nem pensamento
é passado, presente, futuro

2.23.2014


perdi minha palavras no meio do meu dia
perdi nas páginas cheias de palavras
inúteis
obscenas
imorais
palavras-merda
palavras-sujas
palavras escrotas que não merecem ser ditas
escritas
enunciadas
assim, perdi pra sempre
aquela palavra dourada
bonitinha
cheia de graça
redonda e encantada
perdi aquela palavra no meio de tantas palavras
minha vida não dá livro não dá poesia não dá
porra nenhuma
um artigo acadêmico
talvez
escroto
escuro
escuso
cinza com as bordas corroídas
com prêmios e o caralho
a quatro
mas porra nenhuma
porra nenhuma
porra nenhuma
de literatura
de coisa assim
grande
coisa assim
importante
coisa assim
que faz alguém se matar
alguém chorar
alguém escrever
coisa nenhuma essa merda de vida mesquinha
sai pra dançar
enche a cara
e pensa
“como sou grande”
vai pra casa e senta e se sente
satisfeita
linda, bonita, esbelta, elegante
“intelectual”
essa vida balança a cabeça e pensa que é grande
essa vida balança a cabeça e pensa que é vida
cheia de palavras polidas, limpas, vazias de porra de verdade
me afogou
- ai que saudade de respirar.

12.04.2013

a tristeza é só minha.

11.19.2013

minha vida, tão pequena, encolhendo a cada dia.

11.10.2013

morte pelas mãos

todo dia, eu como um pouco do meu dedo. umas mordidas nervosas, milímetros ínfimos a cada vez, ao redor das unhas, que vão se aproximando das bordas que separam essa parte do meu corpo do ar que o envolve. eu engulo a mim mesmo, pouco a pouco, e o que era dedo vira merda, e eu me excreto assim, todo dia de noite, ou de manhã depois do café. eu diminuo pelas pontas. é um pouco uma estratégia de sobrevivência, dizem obliteração: eu chamo deglutição. não que eu queira me destruir, mas é como deixar um pouco pra trás, incluir um pouquinho de morte nas pontas das minhas mãos, que encostam em tudo que me faz viver, tudo que me mantém encravado no futuro. fazendo desaparecer, aos poucos, o meu corpo pelas extremidades, eu faço uma homenagem ao passado, que fica escancarado debaixo do meu nariz: aqui você não é mais o que era. agora eu olho, e essas digitais arruinadas, essa carne corroída, e eu acho bonito. é quase como as infinitas saudades que eu sinto, minhas mortes, inúmeras, empilhadas dentro de mim, fazendo um buraco naquilo que eu vejo quando me concentro. meu luto diário, essa tristeza que eu sinto, desse tempo perdido.

10.09.2013

afeto tropical

minha querida
princesa
bonequinha linda
essa carinha tão inocente
esses olhos de jabuticaba
essa pele escura
"preto-quase-azul, sabe?
preto de verdade é boa gente
não é safado que nem mulato"
o século dezenove nos deixou marcados
pela inteligência
pela tecnologia
pela razão encantada
pela liberdade de expressão
pelo naturalismo, realismo, romantismo, existencialismo (mas esse foi só depois)
pela primazia do homem
e sua 
grandiosa
               higiene
impetuosa
               higiene
maravilhosa
               higiene
lavar-se todinho
esfregar pra tirar essa sujeira
das ruas de terra batida
chinelo velho
lama depois da chuva
ficar todo bem
                branquinho
medicina moral
limpando os cantinhos dessa consciência 
poeira pra baixo da minha coluna reta e o
sorriso 
                amarelo
mas que lindinha, muito esperta, saudável, forte
eu te pago o ônibus
quer um salgadinho
limpa direito porque hoje tem visita
"mas ela tá com a gente desde criancinha
é quase da família"
senta na mesa, veja só
come sempre    
                com a gente
fica caladinha porque sabe o seu lugar
                como gente
ensinei a ler e a escrever e a falar e a se portar
                como gente
limpa direitinho porque amanhã é feriado
pode dormir aqui
pra não se cansar
quase uma relíquia do nosso lar







10.08.2013

aquele dia

no dia que eu morrer, vai fazer um sol lindo, e vai ser perto do mar, e o ar vai ter cheiro de mato balançando ao vento e de muita saudade, e vão estar todos lá, e a terra vai estremecer em um terremoto de afeto, e eu vou chorar, chorar, chorar. no dia que eu morrer, todos vão estar velhos, e as crianças vão ser adultas, e outras crianças vão ter nascido, e outras ainda, e elas vão saber de tudo que a gente nunca soube. no dia que eu morrer, eu vou sentir que meu amor não tem fim, e eu vou espalhar esse amor pela terra molhada, arenosa, do cemitério que fica à beira-mar, e meu amor vai molhar as solas dos sapatos das pessoas que eu tanto amei. no dia que eu morrer, as pessoas vão chorar apenas um pouquinho, vão olhar pro céu, e pensar que foi bom estar comigo, que se lembram daquele dia e do outro, e vão pensar que eu fui feliz. no dia que morrer, a felicidade vai ser uma ideia estranha, deslocada, difícil de ser alcançada, quase inexplicável, uma certa mentirinha inocente, ou um objeto cintilante que acende quando se está longe mas se apaga quando se aproxima. uma "lava lamp". no dia que eu morrer, as pessoas vão falar e conversar um pouco, e cantar canções dentro de suas cabeças, tentar fingir que estão solenes. no dia que eu morrer, o mundo vai ser do tamanho dos anos da minha vida. no dia que eu morrer, as pessoas vão tomar café, comer bolo, voltar pra casa, se preocupar em dormir cedo pra trabalhar no dia seguinte, escovar o dente, pensar na janta, pensar na sua frustração sexual, no baixo salário, nos desejos recalcados, na incerteza do futuro. no dia que eu morrer, a vida vai ser mais bela, porque nada vai acontecer.

10.03.2013

amor

sento à mesa, olho a tela, o papel
"analysis has brought a very important change of perspective on love by placing it at the center of ethical experience"
antes ou depois, não importa. levanto, tomo água, como, preciso de um cigarro preciso de um cigarro preciso de cigarro
- faz tempo que não me drogo -
onde foi parar minha juventude?
vontade de masturbar - mas de novo? ah, a juventude sobrevive aí
o amor sobrevive nos órgãos genitais.
e numas palavras caducas que eu repito na minha cabeça noite e dia
noite e dia
palavras de amor
e de saudades.
meu quarto é grande, as paredes são altas, o ar é frio
a cabeça
enorme
vazia
repete
preciso não dormir
preciso não dormir
preciso não dormir
preciso não dormir
preciso dormir 
sento à mesa e percebo que minha vida
bonitinha
arrumadinha
tudo-no-seu-lugar
é uma merda
placing it at the center of ethical experience
at the center


8.17.2013

a noite de Nova York

na noite de Nova York as luzes se acendem antes da noite cair
a cidade não aceita a escuridão

imagina! no escuro? assim arrisca-se
não se consumir

meu estômago produz ácidos estranhos, misto
de fome com
azia
na noite de Nova York
enquanto nas ruas todo mundo
festeja a melancolia
urbana
contemporânea

ai, essa gente burguesa preenchendo existências bonitas com mesquinhezas corriqueiras
como eu
como você
[mais bonitas sendo corriqueiras que mesquinhezas]

na noite de Nova York, esse livro aberto
nenhuma morte, nenhum grito
a humanidade deu certo
a humanidade deu certo
a humanidade deu certo
a humanidade deu certo

5.10.2013

"I marvel at the sky because it exists" (Wittgenstein)