- Acontece que existe uma alegria imanente ao desejo, como se ele se preenchesse de si mesmo e de suas contemplações, fato que não implica falta alguma, impossibilidade alguma, que não se equipara e que também não se mede pelo prazer, posto que é esta alegria que distribuirá as intensidades de prazer e impedirá que sejam penetradas de angústia, de vergonha, de culpa.
Ponderou D., concebendo o ponto de partida para toda a superfície que se preze. Tentamos escavar tão fundo, que o máximo que conseguimos é chegar ao nosso outro lado, o lado de trás. Não há interior misterioso, sim aquele que preenche. Corpo mesmo.
10.21.2007
10.09.2007
10.08.2007
como se não soubesse exatamente como
aquiescer
entre ir e vir entre não-estar aqui
lá, o tempo inteiro
olhos fechados para dentro
sentar e escrever, então. sutilmente, nos intervalos. nesses espaços inexistentes, criar as possibilidades de imprimir - pensamentos ou seus prés e pós - estados de espírito e de corpo. colocar-me à disposição de mim, tempo calmo e leve sorver dos segundos.
como uma curta existência, translúcida. estar-aí estando. não como reatar os sentidos, mas curar-se por saber-se no vazio o mundo inteiro que se demove de mim.
aquiescer
entre ir e vir entre não-estar aqui
lá, o tempo inteiro
olhos fechados para dentro
sentar e escrever, então. sutilmente, nos intervalos. nesses espaços inexistentes, criar as possibilidades de imprimir - pensamentos ou seus prés e pós - estados de espírito e de corpo. colocar-me à disposição de mim, tempo calmo e leve sorver dos segundos.
como uma curta existência, translúcida. estar-aí estando. não como reatar os sentidos, mas curar-se por saber-se no vazio o mundo inteiro que se demove de mim.
9.30.2007
A pele é o próprio tempo. Contém os resquícios de ontens eternos, respira o eu-mesmo ao redor das ilusões de auto-construção.
Ontem, ele percebeu. Apercebeu-se. Percebeu-se a si mesmo. Era um retrato desbotado, preto e branco e tintas coloridas, gestos vagos e muito incalculados, sorrisos ingênuos e sons perdidos dentro dos caminhos que tecia o ar quente. Eram décadas de vida, traduções impossíveis e alguma coisa de inefável. Era isso, ali, dentro do ônibus, carregando na pele impressões impalpáveis, materializando os minutos em cada respiro involuntário.
Ontem, ele percebeu. Apercebeu-se. Percebeu-se a si mesmo. Era um retrato desbotado, preto e branco e tintas coloridas, gestos vagos e muito incalculados, sorrisos ingênuos e sons perdidos dentro dos caminhos que tecia o ar quente. Eram décadas de vida, traduções impossíveis e alguma coisa de inefável. Era isso, ali, dentro do ônibus, carregando na pele impressões impalpáveis, materializando os minutos em cada respiro involuntário.
9.14.2007
Solzão enorme esquentando o asfalto e torrando as sensações.
Os póros dilatados, mostrando a língua. Todos os pensamentos voltados para o mar.
Ser humano, em materialidade e viscosidade. Óculos grandes e vulgaridade anos 70 à la pornochanchada. Meio menina andando achando-se chique, pernas balançando. Mas no fundo, é Sônia Braga de topless em Ipanema, hippie de botequim, palavrão com elegância e gestos incontidos. Aquela cor de película velha, desbotada pela luz do céu que explode as pupilas e azula as montanhas.
Trópico é pra isso mesmo: suor e goles d'água.
9.08.2007
nunca vou deixar de acordar tarde e dormir cedo,
vivendo eternamente as últimas chances
*
*
não escrevo poesia, porque poesia é cafona. nem filosofia, porque isso é chato. também não é sobre mim, da moda. nem sobre política, porque engajamento já era. não é arte, não é prosa e não é música esta merda. não é porra nenhuma. não é bonito nem feio. não tem essa categoria. não é tocante, não é revelador. não é subjetivo nem objetivo. não tem epifania, nem genialidade, não tem inteligência. não, não tem. não tem talento, nem humor, nem sacadas, nem profundidade, nem superficialidade. não tem experiência, não tem jovialidade, nem frescor, nem originalidade. não tem informalidade, nem coloquialidade, nem leveza, nem precisão. não é novo, nem velho. vai pra porra quem espera qualquer coisa. por isso que o mundo vai mal e as pessoas vão tristes.
vivendo eternamente as últimas chances
*
*
não escrevo poesia, porque poesia é cafona. nem filosofia, porque isso é chato. também não é sobre mim, da moda. nem sobre política, porque engajamento já era. não é arte, não é prosa e não é música esta merda. não é porra nenhuma. não é bonito nem feio. não tem essa categoria. não é tocante, não é revelador. não é subjetivo nem objetivo. não tem epifania, nem genialidade, não tem inteligência. não, não tem. não tem talento, nem humor, nem sacadas, nem profundidade, nem superficialidade. não tem experiência, não tem jovialidade, nem frescor, nem originalidade. não tem informalidade, nem coloquialidade, nem leveza, nem precisão. não é novo, nem velho. vai pra porra quem espera qualquer coisa. por isso que o mundo vai mal e as pessoas vão tristes.
9.02.2007
8.28.2007
história com h minúsculo. Dentro dos olhos, na frente dos rostos, por baixo da pele. De criança, pequeno, correr pela casa, escutar o avô falar em outra língua. Sentir cheiro de incenso, Ayrton Senna domingo de manhã, janela e bicicleta com rodinha. Mãe, pai, irmão, comer peixe cru e ver os dias passarem. Andar pela calçada, olhar os pés, tênis novo e desenho na televisão. Praia no verão, colônia de férias, medo da chuva e esperar a família na janela. Cheiro de alga e vapor de arroz quente no rosto.
Entre aqui e lá.
Na história, o mesmo lugar, sempre aqui dentro. Pensamento perene e sensação de um sempre chegar.
Entre aqui e lá.
Na história, o mesmo lugar, sempre aqui dentro. Pensamento perene e sensação de um sempre chegar.
8.20.2007
8.19.2007
Buscando o contato direto
já impossível
com o mundo
[para quê as palavras?]
Recosto-me sobre a cadeira
Desde que tive olhos suficientes
resguardo com cuidado todos os céus
azul-escuro-laranja-verde-preto profundo
e os vejo atemporais
a todo o momento que olho para cima.
Assim mantenho a calma e respiro para fora.
já impossível
com o mundo
[para quê as palavras?]
Recosto-me sobre a cadeira
Desde que tive olhos suficientes
resguardo com cuidado todos os céus
azul-escuro-laranja-verde-preto profundo
e os vejo atemporais
a todo o momento que olho para cima.
Assim mantenho a calma e respiro para fora.